Morashá
A festa de Sucot: celebração da unidade judaica Foto Ilustrativa

A festa de Sucot: celebração da unidade judaica

'E tomareis para vós, no primeiro dia, o fruto da árvore formosa- etrog, palmas de palmeira, ramos de murta e de salgueiro das ribeiras, e vos alegrareis diante do Eterno, vosso D'us, durante sete dias'(Levítico, 23:40).

Edição 46 - Setembro de 2004


Um dos mandamentos primordiais da festa de Sucá é o referente às Quatro Espécies. Cada uma destas espécies é um componente individual, mas essencial, para o cumprimento de uma única lei da Torá. Diz o Talmud que a falta de qualquer um dos quatro anula o valor do mandamento, impedindo-o de ser cumprido. Há um outro mandamento, nesta festa, de tão extrema importância, que lhe empresta seu próprio nome - é a obrigação de se habitar em cabanas ou moradias temporárias que devem ser construídas como manda a Torá.

Chama-se a estas, em hebraico, Sucá , no plural, Sucá. Comemos e bebemos, estudamos e nos alegramos e, alguns, chegam mesmo a dormir na Sucá durante sete dias.

Há todo um tratado no Talmud concernente ao cumprimento dos dois mandamentos acima: as Quatro Espécies - Arbaat ha-Minim - e a Sucá. Nosso objetivo, neste artigo, não é discutir tais leis e seus desdobramentos; isto transcenderia seu escopo. Tencionamos analisar alguns de seus significados mais profundos, da forma como são descritos pelos Midrashim e ensinamentos de nossos Sábios.

Revela-nos, o Midrash, que as Quatro Espécies representam quatro tipos de judeus. O belo etrog (cidra), tem sabor e aroma; simboliza o judeu que estuda a Torá e pratica uma infinidade de boas ações. A tâmara, fruto do lulav, tem sabor mas não tem aroma, representando, pois, os judeus que se dedicam quase que exclusivamente ao estudo da Torá e que não têm muito tempo nem recursos para praticar atos de caridade e bondade. O hadáss (murta) possui aroma, não sabor; representa os judeus que dedicam toda a sua vida a ajudar os outros, mas desconhecem a Sabedoria e as Leis Divinas. E, por último, o aravá (salgueiro) é destituído de ambos, aroma e sabor. Personifica os judeus que nem se dedicam muito ao estudo da Torá nem tampouco praticam muitos atos de bondade. Assim se manifesta D'us acerca das Quatro Espécies, no Midrash: "Que todas as quatro se unam, como um único feixe e elemento, completando-se e expiando umas pelas outras".

Um grande sábio de nossa geração aconselha-nos a atentar para as palavras do Midrash. Esta obra mística sobre a Torá não diz que, apesar de D'us amar todos os judeus, todos são iguais, independentemente de seu conhecimento sobre a Lei ou das boas ações que praticam. Vai bem mais longe; diz que "um expia pelo outro". A interpretação é que cada uma das Quatro Espécies - assim como cada um dos judeus - tem algo que lhe é exclusivo, que lhe é especial, que não é encontrado em nenhum dos demais. Expiar significa tentar reparar, aperfeiçoar e compensar pelo que falta no outro. E, com efeito, a Torá confirma esta explicação do Midrash, pois a falta de uma sequer das Quatro Espécies impede que se cumpra o mandamento.

Cada um dos Arbaat ha-Minim incorpora uma característica singular ou um modo de conduta específica que todo judeu, nas várias horas de seu dia ou em diferentes momentos de sua vida, deve perseguir. O etrog nos ensina que uma vida ideal é aquela que combina o estudo da Torá com a prática de atos de justiça social que possam aperfeiçoar o mundo em que vivemos. Conhecedores de Sua Vontade, estaremos a caminho da realização de ações sábias e benéficas. Por outro lado, a prática de caridade, a doação de recursos materiais, tempo e espírito, haverão de promover o estudo, a bondade, a justiça e a Santidade no mundo.

Mas nem sempre podemos viver segundo os ideais simbolizados pela bela cidra, o etrog. O lulav nos ensina que há vezes em que é preciso dedicar-nos exclusivamente ao estudo. Para saber agir de acordo com a Vontade Divina, faz-se mister primeiro aprender a Sua Torá. E mais: há certos momentos na vida em que essa dedicação ao estudo do judaísmo não pode ocupar importância secundária; são momentos em que precisamos retirar-nos por completo de nosso dia-a-dia, ainda que por poucas horas semanais, esquecendo-nos de tudo o mais. Sempre haverá tempo de retornar a nossos afazeres diários - só que, já então, com o preparo e a inspiração para efetivamente darmos nossa contribuição a esse mundo conturbado.

O hadáss transmite a lição de que há momentos em que mesmo um sábio em Torá precisa deixar de lado os livros e ajudar aqueles que o cercam. O domínio profundo das Leis Divinas é um bem precioso; no entanto, a construção de um mundo melhor é, em geral, uma missão Divina bem mais urgente. Precisamos, muitas vezes, abrir mão de nosso enriquecimento e satisfação espiritual para correr em auxílio de outrem, ou, como disseram os Sábios, fazer deste mundo verdadeiramente a Morada de Seu Criador. Cabe-nos, a cada um de nós, ter a sabedoria para discernir entre a hora de se comportar como um lulav e a hora de se comportar como um hadáss. Por um lado, o lulav está a nos lembrar que o judaísmo defende a idéia de que "o caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções". Isto quer dizer que mesmo a benevolência e a generosidade podem ser erroneamente aplicadas e danosas se estiverem em desacordo com a Vontade Divina. Por outro lado, o hadáss faz ecoar a afirmação talmúdica de que aquele que domina a Torá, mas não pratica boas ações, na verdade não possui a Torá. Se o estudo e as ações não puderem estar irmanados, há que se usar de muita prudência e sagacidade para saber se o momento pede estudo ou ação. E o aravá ? O que nos ensina? Humildade - que é o segredo da santidade e da proximidade ao Eterno. Faz-nos recordar que por mais que sejamos, sempre há quem nos supere. Alerta-nos contra a complacência, pois não importa a infinidade de boas ações que tenhamos praticado, sempre há quem as tenha feito em número maior. E, contudo, o mundo ainda se vê inundado em dor e injustiça. Mas, sobretudo, o aravá nos faz sempre recordar que, comparados a D'us, Infinito em sua Grandeza, nada somos, nada possuímos, nada conhecemos.

O mandamento das Quatro Espécies simboliza a unidade judaica, situação em que os judeus, em paz e harmonia entre si, cumprem a missão que lhes foi destinada por D'us. Quando etrog, lulav, hadáss e aravá estão enfeixados juntos, complementam-se uns aos outros. No entanto, continuam distintos em forma, feitio, tamanho, aroma e sabor - pois, afinal, são precisamente essas diferenças que os fazem "expiar" uns pelos outros, suprindo aquilo de que carece o outro. Contudo, a obrigatoriedade de se habitar na Sucá, o outro grande mandamento desta festividade, é o que melhor expressa o mais alto nível de unidade judaica durante Sucá.

O que nos ensinam as Leis referentes à Sucá

As Leis do Judaísmo, que emanam da Vontade e Sabedoria Divinas, são minuciosas e exatas. Ao analisar os objetos sagrados e o correto desempenho dos mandamentos Divinos, o Código da Lei Judaica especifica medidas e limites para o tempo, o espaço e a matéria. Há leis inarredáveis que esmiúçam, em riqueza de pormenores, o início e o término do Shabat, quanto de matzá se deve comer no Seder de Pessach, quais as dimensões mínimas para que batentes de portas requeiram o uso de mezuzot e, por aí vai. De modo similar, o Talmud é muito preciso quanto às especificações e medidas que qualificam - ou desqualificam - uma Sucá: altura mínima e máxima, número de paredes e número máximo de frestas permitidas em suas paredes ou teto. Este é conhecido como Schach e tem que ser feito de material que brota da terra. No entanto, há uma única exceção: não há limites quanto ao comprimento ou largura da Sucá! Sua altura não fica a nosso critério, mas suas dimensões, sim! Podemos construí-la do tamanho que quisermos, enorme, até mesmo das dimensões de um país - ou maior - sem deixar de ser uma Sucá casher. Há uma leve indicação, na Torá, de que D'us estimula a construção de uma cabana que possa congregar o maior número possível de judeus.

No Levítico (23:42), lê-se: "Em cabanas - Sucá - habitareis por sete dias; todos os filhos de Israel deverão habitar em cabanas". No versículo, a palavra Sucá é pronunciada no plural, apesar da ausência da letra "vav"; está de fato escrito Sucat. Pode-se interpretá-lo como a dizer que "todos os filhos de Israel deverão habitar na Sucá". E o Talmud explica: a Torá está a nos indicar que o povo judeu todo pode e deve habitar em uma única e mesma Sucá.

Sucá, da forma como é explicitado em seus dois mandamentos primordiais, é a festa da unidade judaica. Todas as nossas festas são chamadas de "ocasiões de júbilo", em hebraico, moadim le-simchá. Mas quando o Talmud apenas menciona Chag, festividade ou dia santificado, sem identificar qual deles, está-se referindo a Sucá. E este é o único dia santificado que, em nossas orações, é denominado "zman simchatenu" - "época de nossa alegria".

O júbilo verdadeiro para o povo judeu somente ocorre se houver união e amor. As Quatro Espécies e a Sucá nos fazem recordar que somos todos filhos de um só povo, independentemente de nossas diferenças, sejam estas religiosas, tradicionais, culturais, sociais ou econômicas. O Talmud nos ensina que todos os judeus são espiritualmente entrelaçados; a Cabalá nos compara a órgãos formadores de um só corpo. E é por essa razão que cada um de nós é responsável pelo bem-estar - material e espiritual - de cada um dos judeus, sem exceção.

A Torá nos ordena: "E rejubilarás em tua festividade - tu, teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva". A Sucá, especialmente por ser um símbolo da união judaica, deve estar aberta a todos. Maimônides assim escreveu: "Aquele que come e bebe deve também alimentar o estrangeiro, o órfão, a viúva, bem como todos os outros míseros desafortunados. Aquele que se tranca atrás de seus portões e se regala e bebe com a mulher e os filhos, sem, no entanto, alimentar os pobres e os amargurados - não está desfrutando a alegria de uma boa ação, mas a alegria de seu estômago".

Este espírito de amor e união que se deve perseguir tem o sagrado propósito de unir os judeus. É, também, caminho da Santidade e da bênção para o mundo inteiro. A unicidade do povo judeu - único Povo sobre a Terra a legar à humanidade a realidade de Um D'us Único - é especialmente necessária pelo fato de refletir a Unicidade do Criador. O Talmud e a Cabalá ensinam que nos unimos a D'us quando o imitamos adequadamente. O Eterno, D'us de Israel, é conhecido sobretudo por Sua Unicidade e Unidade, como proclamamos ao recitar o Shemá: "Escuta, ó Israel, o Eterno é teu D'us, o Eterno é Um".

Quando nós, judeus, nos unimos, assim como juntas estão as Quatro Espécies, e nos sentamos sob o teto abençoado da Sucá, somos merecedores de que D'us habite em nosso meio. Nas palavras do Zohar: "Quando um homem senta-se sob a sombra da fé da Sucá, a Shechiná - Presença Divina - estende suas asas sobre ele, das Alturas do Firmamento". E esta é, pois, uma das principais razões para a festa de Sucá ser considerada "zman simchatenu". Pois, como nas palavras do Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Baal HaTanya, "Sucá é chamado de "época de nossa alegria" - a alegria Divina com Israel e a alegria de Israel com D'us. Ambas se fundem em uma harmoniosa celebração dos Céus e da Terra".

Bibliografia

· Jacobson, Simon, 60 Days - A Spiritual Guide to the High Holidays

· Tauber, Yanki, It Takes all kinds, chabad.org

· Tauber, Yanki, The Big Sukkah, chabad.org

· Unity in Three Dimensions - chabad.org (based on the teachings of the Lubavitcher Rebbe)