Morashá
ENTREVISTA: DR. CLÁUDIO LOTTENBERG Foto Ilustrativa

ENTREVISTA: DR. CLÁUDIO LOTTENBERG

Considerada um dos principais marcos da comunidade e um dos maiores centros do Brasil na Área de Saúde, a Sociedadde Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein conquistou o respeito não apenas pelo trabalho realizado, mas por ser norteada pela permanente busca da excelência e pela supremacia da humanização do ato médico.

Edição 38 - Setembro de 2002


Mais conhecida apenas como Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), a Sociedade vem desenvolvendo vários projetos na área de atendimento médico, pesquisa e assistência social, colocando a instituição à frente de inovações na área de saúde, como por exemplo, o trabalho com dependentes de drogas e álcool. O oftalmologista Cláudio Lottenberg preside atualmente a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein e concedeu esta primeira entrevista à Morashá, sobre o dia a dia do hospital e seus novos desafios. Na próxima edição, Morashá entrevistará o Dr. José Pinus, presidente do Conselho Consultivo do HIAE.

Morashá: Dr. Cláudio Lottenberg, imaginamos que muitos gostariam de lhe fazer esta pergunta: o que leva um jovem médico a se entregar, de corpo e alma, a um compromisso da envergadura da presidência de uma instituição como o Hospital Israelita Albert Einstein? 

Cláudio Lottenberg: Aprendi com meu saudoso pai, falecido em 1991, um ser solidário e envolvido em trabalhos comunitários, que a vida não pode ser vivida simplesmente quando o bem-estar restringe-se ao conforto individual e ao da própria família. Somos parte de um todo e devemos viver sem distinguir entre o que é de responsabilidade pública e o que é de responsabilidade privada. Portanto, é natural o meu sentimento de atuar em atividades que não se restrinjam diretamente ao meu bem-estar, mesmo porque, como parte deste todo, ganho com o seu fortalecimento.

Como médico, a única diferença foi agregar uma sólida formação acadêmica, sem jamais esquecer meu forte vínculo de solidariedade humana canalizado através de minha atividade médica e das instituições em que atuo. Fui funcionário do Hospital Israelita Albert Einstein, passei a integrar o seu Conselho, a convite dos saudosos Jozef Fehér e Max Eberhardt, e, quando da primeira gestão de meu antecessor, Reynaldo André Brandt, passei a integrar a Diretoria. Em função de dedicação, de preparo adquirido dentro da cultura médica e de gestão, perpetuando valores que herdei de minha família, como caráter e compromisso, e com a confiabilidade de nossos colaboradores e de nossa comunidade, recebi a incumbência de dirigir um hospital do porte do Hospital Israelita Albert Einstein. 

Morashá: Quais os projetos prioritários que pretende realizar em seu mandato?

CL: A Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein é formada por três áreas principais: o Hospital, o Instituto de Ensino e Pesquisa e as Ações Sociais. A administração do Hospital está profissionalizada sobre as vertentes de qualidade, tecnologia de ponta e valorização de recursos humanos, procurando estabelecer um relacionamento amistoso com clientes, médicos, fornecedores e fontes pagadoras. Isto o torna cada vez mais dinâmico frente às necessidades desses públicos. Portanto, a visão do Hospital é absolutamente profissional; todo o rigor técnico é aplicado para fortalecê-lo e mantê-lo líder de mercado. Paralelamente, valorizamos aquilo que nos diferencia desde nossa fundação – um forte sentimento de humanização. Temos que considerar que o crescimento do Hospital está correlacionado ao mercado da saúde. E, hoje, a saúde é estudada internacionalmente através de ferramentas que a vêem não somente como um direito social, mas também como bem financiável, correlacionado ao PIB, à renda per capita, ao surgimento de indústrias importantes, que influenciam todo esse encaminhamento, além de contar com a participação de grandes seguradoras. Isto tudo altera os mecanismos de sobrevivência. Não são poucos os casos de instituições norte-americanas, semelhantes à nossa, que não se aperceberam disto e que foram obrigadas a encerrar suas atividades. 

Em relação ao Instituto de Ensino, temos a necessidade de dar-lhe a mesma visibilidade. A matéria-prima para o nosso Instituto de Ensino e Pesquisa é o conhecimento gerado no próprio Hospital. Alguns de nossos setores têm, atualmente, expertise absolutamente diferenciada, como é o caso da Unidade de Terapia Intensiva, do Programa de Transplantes, da Oncologia, da área de Neurologia. Estes setores têm uma base de conhecimento sólido, representando nichos estratégicos de atendimento, dentro do Hospital, e também áreas para ensino e pesquisa que se estabelecem com a massa crítica que estamos estimulando. Fora isso, em nosso Hospital, através de programas de qualidade e creden-ciamentos de órgãos internacionais, adquirimos importante conhecimento de gestão diferenciada. Evidentemente, podemos utilizá-lo não só para aprimorar nossos processos de gestão interna, mas para criar uma verdadeira escola de gestão. Esta poderá beneficiar todo o nosso meio, considerando que a solução do problema de saúde depende de uma boa alocação de recursos humanos e materiais. Portanto, toda essa capacidade de geração de informação, através de nosso Instituto de Ensino e Pesquisa, conduz à formatação de uma verdadeira universidade corporativa, que inclui os existentes cursos de Técnicos de Enfermagem, os da Faculdade de Enfermagem, os de Pós-Graduação e os demais cursos profissionalizantes a serem criados. 

O terceiro braço é a área de Assistência Social. Nossa Sociedade Beneficente, apoiada no valor da tsedaká, foi criada para praticar também a justiça social. Temos assistido o empobrecimento da população brasileira e, particularmente da comunidade judaica, acelerado pela globalização. O problema não é a baixa renda da população, mas, sobretudo, as discrepâncias em sua concentração. Essas diferenças têm repercussões importantes na violência que se observa nas cidades. Aquilo que pudermos fazer em Saúde, no sentido de minimizar tais discrepâncias, trazendo este bem à população carente, fazendo dos excluídos seres incluídos na sociedade, esta Sociedade Beneficente HIAE irá fazer. Estamos trabalhando em áreas que o governo coloca como sendo prioritárias, como por exemplo a formação de agentes de saúde com treinamento na área de gestão. Os transplantes, o Hospital Albert Einstein os realiza através do Sistema Único de Saúde e isto privilegia em grande parte a população carente e nos diferencia na alta complexidade. Quanto à comunidade judaica, temos planos de poder viabilizar todo um processo de atendimento que crie condições de tratá-los melhor, no ambiente do próprio Hospital, e, sobretudo, de aprimorar a sua qualidade de vida, através da prevenção e reabilitação. Entendo que o compromisso do médico é tratar não apenas a doença, mas ter a consciência de que por trás desse estado existe um ser humano que, temporariamente, precisa de interferência médica.

Morashá: Como está o Brasil quanto à pesquisa científica? 

CL: O Brasil está aumentando significativamente sua presença no cenário mundial. Entre 1994 e 1999 os investimentos em pesquisa e desenvolvimento aumentaram 34%. Somente nos gastos com pesquisa de novos tratamentos, estima-se um investimento de mais de US$ 130 milhões. No mundo, este montante é de US$ 60 bilhões. Na pesquisa clínica, saltamos de 169 estudos, em 1997, para 958 no ano 2000. Este número deve, pelo menos, quadruplicar em 2002. O Brasil tem legislação específica nesta área e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa registra mais de 300 entidades autorizadas a fazer estudos clínicos em nosso meio. Na área de pesquisa biomédica, nossas universidades e centros de pesquisa têm auxiliado muito nas descobertas em várias áreas do conhecimento. Só para exemplificar, citamos as contribuições na área genômica com o seqüenciamento de pragas agrícolas, como o caso da Xylela, integralmente estudado na USP; e o projeto Genoma Clínico, com várias universidades e centros de pesquisa participantes, sob a tutela da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Tudo isso sem falar nos grandes ex-poentes em pesquisa que temos no Brasil e na pesquisa aliada ao desenvolvimento de produtos. Hoje os institutos brasileiros são capazes de produzir testes laboratoriais, vacinas e medicamentos. É o caso da Fundação Manguinhos e do Instituto Butantã. Por tudo isso, estou extremamente otimista com o cenário no qual o Brasil está-se inserindo e nós, do Einstein, esperamos poder contribuir fortemente neste sentido.

Morashá: Sabemos que o HIAE mantém diversas parcerias. Quais são?

CL: Nossa Sociedade mantém parcerias em todas as suas áreas. No âmbito da assistência social, mantemos uma estreita relação com a Unibes, o Lar Golda Meir e o Lar das Crianças, sempre respeitando nossa vocação, isto é, saúde. Dentro do conceito da família carente e de forma equilibrada para não inviabilizar o atendimento do número cada vez maior de excluídos em nossa comunidade, respondemos com atendimento integral à saúde a cerca de mil judeus. Isto inclui consultas, exames, internações, fisioterapia e, mais recentemente, programas de medicina preventiva na área de câncer ginecológico, de mama e de próstata, diabetes, hipertensão, além das campanhas de vacinação. Destinamos a esses pacientes tudo o que há de melhor, não visando apenas o tratamento da doença, mas, sobretudo, valorizando a qualidade de vida deles. Atuamos com nosso apoio junto às entidades representativas da comunidade, isto é, Federação Israelita do Estado de São Paulo e Confederação Israe-lita do Brasil. Este apoio se reflete em programas específicos destas instituições – nossas parceiras irrestritas. Ainda nesta área podemos lembrar as parcerias que mantemos com órgãos governamentais, participando do Programa de Saúde da Família, tanto na sua execução como na formação e capacitação de seus gestores, o que significa estarmos beneficiando, juntamente com Secretaria da Saúde do Município de São Paulo, cerca de dois milhões de habitantes. Além disto, ressaltamos nosso já mencionado programa de Transplantes, realizados pelo SUS, em conjunto com o Ministério da Saúde e a Secretaria de Estado da Saúde. Este apoio traduz a participação da comunidade judaica nas políticas e demandas públicas de Saúde, na sociedade maior, trazendo excelência em atendimento médico também a populações carentes. 

O Programa Einstein na comunidade de Paraisópolis é, em grande parte, viável graças a parcerias com empresas, concretizadas principalmente em seu Centro de Promoção a Saúde. Na área de Ensino e Pesquisa, as parcerias são inúmeras com instituições acadêmicas do Brasil, como UNIFESP e PUC, e internacionais, como o Instituto Pasteur, MD Andersen, Universidade de Tel-Aviv, embora o nosso desejo aqui seja ampliar e dar-lhe uma dimensão ainda maior. Entendo que realizar pesquisa de alto padrão exige, hoje, sinergias com a sociedade. Os interesses são muitos e envolver vocações é fundamental para encurtar os tempos necessários para obtenção de resultados palpáveis. No plano do Hospital, evidentemente isto já ganhou uma consistência de mercado maduro e, portanto, falar-se em parcerias significa buscar, em grande parte das vezes, vantagens de caráter comercial e de aprimoramento de gestão. Mas, até aqui, mesmo com nossos concorrentes, tem sido possível realizar parcerias como a de uma central de compras conjunta que minimiza custos, fruto de um trabalho desenvolvido pela Associação Nacional dos Hospitais Privados, no qual, desde o princípio, houve importante atuação de nosso Hospital. Portanto, dentro de uma visão peculiar para cada segmento, contemplando necessidades de nossos públicos e de nossa imagem, sempre é possível e necessário buscar novos parceiros. 

Morashá: Os bons hospitais estão localizados nos grandes centros. É possível levar bom atendimento médico-hospitalar, do nível do Einstein, para as cidades mais distantes, por exemplo, clínicas-satélite com profissionais do gabarito do HIAE?

CL: Existe uma necessidade fundamental de entendermos a medicina como algo associado ao conceito de agregar valor. É fato que temos excelência de qualidade e isto é percebido pela população. Entretanto, esta excelência nasce da vontade de ser exercida e de um investimento humano e de capital. Os Estados Unidos investem cerca de 16% de seu PIB em saúde e em nosso País este valor atinge cerca de 4,5%. Portanto, num país tão heterogêneo, no qual cerca de 50% do PIB estão concentrados em 10% da população, acho fundamental definir, de maneira clara, papéis que se mostrem viáveis. É absolutamente possível criarem-se estruturas semelhantes à nossa fora de nossa cidade, com recursos humanos de excelente qualidade, trabalhando-se com protocolos e com regras rígidas de qualidade. Mas, para isto, a sociedade deve ser instrumentalizada de uma maneira madura, a ponto de exigir algo sustentável. 

Nosso Hospital foi pioneiro em tecnologia; foi pioneiro em programas de qualidade; jamais se esqueceu de programas de humanização. Com isto construiu credibilidade a ponto de conquistar uma grande clientela e de, hoje, projetar-se na área da alta complexidade. Nesse ponto entendo que poderíamos repetir o modelo aqui criado, evidentemente respeitando-se as regras do mercado de saúde e não com sonhos fora da realidade de quem efetivamente deseja comprar e arcar com estes serviços. Esta é uma realidade. Embora a saúde seja um direito social, ela depende efetivamente de um excelente gerenciamento para ser sustentável.

Morashá: Em sua opinião, que providências de maior prioridade o Ministro da Saúde do próximo Governo deve tomar?

CL: Tivemos um grande avanço na área de saúde, em nosso país, nos últimos anos. As batalhas contra AIDS, genéricos, mutirões, programa de saúde da família, todas foram iniciativas com muita lógica que trouxeram ganhos para a população. Entretanto, o modelo envolve, a meu ver, o princípio da eqüidade. Em outras palavras, falar de saúde é falar de algo muito sério. Vejo a atitude pública sob duas vertentes. A primeira, de caráter estrutural: são as ações educativas que colaboram para um mecanismo de inclusão social, no qual o indivíduo instrumentaliza-se para saber reivindicar. A segunda, de caráter compensatório, na qual certas necessidades primárias são preenchidas, mas não mudam o perfil de comportamento, pois não passam a integrar automaticamente uma necessidade percebida pelo cidadão. 

Temos que continuar oferecendo recursos de saúde, mas substancialmente educando para integrá-la definitivamente em cada brasileiro, como sendo um bem ao qual ele tem pleno direito. Isto exige programas básicos, essencialmente preventivos; investimentos que fortalecem o capital humano e que aumentam a produtividade da nação, com melhor aproveitamento escolar e na área de trabalho. O que precisamos é um aproveitamento adequado dos recursos existentes; uma melhor distribuição das redes de acordo com complexidades que respeitem demandas e características epidemiológicas regionais, informação ao leigo, instrumentalização aos profissionais de saúde sob temas de gestão e de racionalização de recursos, com finalidade de uso daquilo que realmente agregue valor e não necessariamente o que é mais caro ou mais novo dentro do conceito de economia da saúde. 

Esse tipo de ação é cobrado atualmente da área de medicina privada, que está sujeita às regras do mercado e entendo que deve ser aplicada na esfera pública. Isto significa atuar em muitos interesses, quebrar paradigmas, mas só nasce quando o consumidor final consegue entender todo o processo. Ele exige e nós temos que ofertar. Portanto, o desafio, a meu ver, está em agir com o espírito com o qual hoje se atua no nosso Hospital, com uma percepção clara da importância da saúde, instrumentalizando o cidadão e, ao mesmo tempo, exigindo da área pública – que hoje responde pelo atendimento a 75% da população – rigor de qualidade técnica e de gestão. 

Morashá: Fale um pouco sobre o novo projeto com dependentes de álcool e drogas. 

CL: O Projeto Álcool e Drogas é um projeto antigo no marco de nossa Sociedade. Há cerca de quatro anos nos interessamos por essa área como um instrumento para minimizar a violência em nossa cidade, que tem forte associação com o consumo de drogas. O álcool é uma droga lícita, acessível a todos e que tem grande importância epidemiológica, sendo hoje entendida como uma prioridade pública, inclusive com uma legislação que regulamenta seu consumo por motoristas. Trabalhamos inicialmente em mutirões, posteriormente no Colégio I.L.Peretz, envolvemo-nos com as iniciativas comunitárias e detectamos a necessidade deste projeto como sendo um verdadeiro produto vinculado a todo um setor hospitalar de saúde mental.

a de Katherine Szenes a David Alster Yardeni, em 7 de maio de 1987, na internet.