Morashá
Bandeirantes Espirituais do Brasil Foto Ilustrativa

Bandeirantes Espirituais do Brasil

Quem conduz esta narrativa é o próprio autor do livro, o Rabino Y. David Weitman, estudioso belga que chegou ao Brasil em 1979 e desde 1993 atua como Rabino na Sinagoga Beit Yaacov. Entusiasmado pela riqueza espiritual dos judeus que encontrou por aqui, o Rabino David tornou-se perito e principal pesquisador dos manuscritos judaicos do período colonial.

Edição 47 - Dezembro de 2004


De autoria do Rabino Y. David Weitman, o livro começa com a frase "Sendo eu oriundo da Europa, nunca pensei, nem sequer imaginei a possibilidade de ter existido uma colônia organizada de judeus europeus, no Brasil, há 350 anos atrás. Por essa razão, talvez seja importante relatar como, de repente, passei a pesquisar sobre os 'Bandeirantes Espirituais', os sábios judeus do Brasil do século XVII".

Quem conduz esta narrativa é o próprio autor do livro, o Rabino Y. David Weitman, estudioso belga que chegou ao Brasil em 1979 e desde 1993 atua como Rabino na Sinagoga Beit Yaacov. Entusiasmado pela riqueza espiritual dos judeus que encontrou por aqui, o Rabino David tornou-se perito e principal pesquisador dos manuscritos judaicos do período colonial. Foram muitos anos de trabalho, entre descobertas arqueológicas e resgate de textos originais, que resultaram em uma série de documentos inéditos, escritos por integrantes da primeira comunidade judaica que se estabeleceu no país, no século XVII, durante o período da ocupação holandesa no Nordeste.

Numa época em que a escrita é praticamente eletrônica e abreviada e os jovens criam uma linguagem simplista para se comunicar através da rede de computadores, o resgate de manuscritos históricos toma-se relevante para a preservação da memória escrita. Para tanto, o autor preocupou-se em digitalizar as imagens autênticas dos manuscritos e inseri-las no livro, além de traduzir os textos para que as pessoas compreendam o significado de seu valor histórico.

Quando se estuda a história da colonização do Brasil, aprende-se os nomes dos pioneiros portugueses, como Martim Afonso de Souza, Mem de Sá, entre outros, que de fato fundaram as primeiras cidades e vilas. Certos de que os primeiros colonizadores eram cristãos portugueses, esquece-se, entretanto, dos franceses que colonizaram parte do Rio de Janeiro e dos holandeses e judeus que se estabeleceram no Nordeste. "Se levarmos em conta que muitos portugueses que vieram para o Brasil eram cristãos novos e, portanto, tinham origem judaica, podemos concluir que atualmente, grande parte da população brasileira descende desses colonizadores judeus", relata os pesquisadores.

A maioria dos primeiros judeus que vieram morar no Brasil era originária de Portugal e Espanha, de onde fugiu, indo para a Holanda, por medo de se tornar vítima da Inquisição. Ao chegarem no Brasil, esses judeus, apoiados pelo governo liberal do Conde Maurício de Nassau, tinham a vantagem de falar vários idiomas: espanhol, francês, ladino e português (a língua falada no Brasil). Assim foi fácil que se tornassem imediatamente intérpretes para os holandeses, ingleses, franceses, alemães, polacos e outros que não falavam o português. De simples intérpretes, foram rapidamente passando a mercadores e comerciantes e, assim, não tardou para que se transformassem em grandes proprietários urbanos e rurais, ajudando na vida econômica da Nova Holanda.

Em Recife, a numerosa comunidade judaica - que aumentava, a cada ano, com a chegada de novos imigrantes - fundou sinagogas e se organizou comunitária e religiosamente na Congregação Tsur Israel (Tsur significa rochedo), uma clara homenagem à capital pernambucana, repleta de rochas e fortificações. A influência dos judeus era tão grande que a principal rua de Recife era conhecida como "Rua dos Judeus". Desta maneira, no auge da colonização holandesa em Pernambuco, havia mais judeus em Recife do que na própria Amsterdã, o que aumenta a importância destes estudos. O livro "Bandeirantes Espirituais do Brasil" realizado em co-edição pela Editora Maayanot e a Imprensa Oficial do Estado, resgata dissertações filosóficas, correspondências e poemas produzidos naquela época. Os textos foram encontrados em bibliotecas públicas e acervos particulares, logo após ser iniciada a recuperação da "primeira sinagoga das Américas", no Recife.

"As descobertas até agora eram apenas arqueológicas. Agora os textos vêm dar vida às pedras", revela o rabino e autor do livro. Entre os manuscritos mais importantes expostos em fac-símiles coloridos, encontram-se verdadeiras preciosidades - como textos traduzidos de orações-poemas do rabino Isaac Aboab da Fonseca, escritas durante o cerco português ao Recife. Os poemas trazem detalhes do ataque, da situação dos sitiados e das relações políticas da época. O livro traz também uma grande obra do rabino Moshe Rafael d'Aguilar, um Tratado sobre a Imortalidade da Alma.

Ao tomar conhecimento do projeto, o Ministério da Cultura do Brasil destacou imediatamente a importância de tais documentos, do ponto de vista histórico, enquanto o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) manifestou grande interesse e expectativa pela publicação do livro.

Estudiosos, intelectuais e historiadores expressaram seu apreço pelo projeto, entre eles, o Dr. Fernando Henrique Cardoso que comentou o livro na sobrecapa e o Dr. Marco Maciel, que escreveu o prefácio.