Morashá
ETROG, UMA FRUTA DIVINA Foto Ilustrativa

ETROG, UMA FRUTA DIVINA

Assim, no primeiro dia da festividade de Sucot, cada pessoa deve adquirir para si as “Quatro espécies” (em hebraico, Arbaá Minim) – um etrog (fruta citríca), o lulav (ramo de palmeira), o hadás (ramo de mirta) e os aravot (ramos de salgueiro). As qua

Edição 38 - Setembro de 2002


Assim, no primeiro dia da festividade de Sucot, cada pessoa deve adquirir para si as “Quatro espécies” (em hebraico, Arbaá Minim) – um etrog (fruta citríca), o lulav (ramo de palmeira), o hadás (ramo de mirta) e os aravot (ramos de salgueiro). As quatro espécies usadas para cumprir este mandamento prescrito pelo Todo-Poderoso são, em essência, a representação simbólica de tudo o que D’us criou para o homem.

De acordo com nossos sábios, o fruto da árvore descrita no texto em hebraico como sendo a do hadar, a árvore formosa, é o etrog, uma espécie de fruta cítrica doce e aromática. É uma fruta especial, pois a árvore na qual brota tem o mesmo sabor que seu fruto. Por ser uma fruta que se reproduz o ano inteiro, simboliza também a fertilidade. Cheiroso e fértil, o etrog representa o judeu completo, que conhece a Torá e cumpre as mitzvot. O Midrash diz que assim como este fruto tem gosto e fragrância, assim existem no seio de Israel homens que são ao mesmo tempo instruídos e devotos.

A Torá se refere a Sucot como “a época de nossa alegria“, quando celebramos a generosidade e a proteção que D’us dispensa a seu povo. Entre os mandamentos desta festa estão a obrigação de fazer as bênçãos sobre as Quatro Espécies todos os dias, com exceção do Shabat e a construção de uma sucá, na qual todo judeu deve dormir e fazer as refeições, todos os dias. Nossos sábios afirmam que são reservadas bênçãos especiais para todos aqueles que escolhem, unem os quatro tipos de espécies e fazem as orações sobre as mesmas. Com exceção do etrog, as três outras espé-cies – todos ramos de plantas– são amarradas juntos por anéis feitos de fibra de palma trançada. Segurando os ramos na mão direita e o etrog na mão esquerda, as Quatro Espécies são agitadas para as seis direções do espaço: nas quatro direções do quadrante, para cima e para baixo. Com isto está-se reconhecendo que D’us se encontra em toda parte e que Seu reinado é eterno. 

Através dos séculos, a cada Sucot os judeus enfrentam muitas dificuldades para obter o etrog, o “fruto da árvore formosa”. Conta-se que uma renomada família – os Spaniers, de Frankfurt – estiveram durante várias gerações no ramo de importação de etrog da Espanha (origem do nome Spanier). Reinando por 150 anos nesta área, a empresa ganhou o título “The Golden Apple” (A maçã dourada) em homenagem ao negócio. 

Esse comércio de etrog tornou-se tão importante que, na Idade Média, um dos acordos do tratado de paz imposto sobre a República de Pisa-derrotada em 1329 pela Liga Guelph da Toscana (comandada por Florença) – proibiu a família Spanier de continuar seu comércio. Provavelmente Florença e seus aliados pretendiam assumir o próspero mercado com os comerciantes judeus da Alemanha, Áustria e Polônia.

Devido às mudanças econômicas e políticas nos últimos 400 anos, tornou-se cada vez mais difícil obter os etroguim necessários para o cumprimento da mitzvá determinada pela lei judaica. A escassez de etroguim gerou uma ampla discussão sobre o uso do limão enxertado (proibido de acordo com a lei judaica), sobre a origem geográfica do fruto e sobre a definição do que seria uma “árvore formosa”.

No início do século XX, a associacão Fruit of the Goodly Tree foi criada por plantadores judeus de cítricos e avalizada pelo então rabino–chefe de Yaffo, o Ravi Abraham Isaac Kook, para estimular a compra de etroguim na Terra de Israel. No entanto, as guerras, as limitações naturais da oferta e as preferências de alguns grupos não permitiram que Israel se tornasse a única fonte dos etroguim. Atualmente, são cultivados nas ilhas gregas de Creta, Naxos e Corfu; no sul da Itália, nas regiões de Cosenza, Salerno e Potenza; e na Califórnia (EUA), Marrocos, Tunísia, Iêmen e Israel. Nos Estados Unidos, os principais importadores são judeus chassídim. Alguns dos produtos do Norte da África estão longe do ideal dos antigos rabinos de que ambos – fruto e árvore – tinham que ser bons e formosos: esses etroguim são pretos e enrugados. Porém, os chassidim argumentam que a própria falta de beleza da fruta é a prova de sua pureza, pois nenhum fruto enxertado poderia ser tão feio.

Embora a tradicional devoção judaica ao fruto não tenha diminuído ao longo dos séculos, o etrog em si talvez tenha sutilmente mudado de significado. Originalmente visto como um fruto concreto no Levítico e no Talmud, tornou-se para muitos também um ideal. Uma coleção de atributos: o fruto é perfeito; o caule é intacto e o aroma é singular.

Para o judeu, o etrog significa uma árvore enraizada na eternidade, sua criação antecedendo o homem; uma árvore cujos galhos geraram o fruto que, pondo fim à estada do homem no Eden, resultou na vida humana e na história como a conhecemos. 

Segundo o Midrash, o etrog é “o coração do homem”. De acordo com um sábio chassídico, ele seria “a esfera do mundo”. O etrog é um símbolo tanto nacional como universal para o judeu. Sua fragrância estava nas roupas de Jacó quando Itzhak o abençoou, outorgando sobre o povo de Israel, através de Jacó, sua identidade, e o favor de D’us. O etrog lembra a glória do Segundo Templo, quando o instrumento da reza tornou-se a corajosa expressão de um povo que lutava por sua liberdade. Finalmente, o etrog simboliza a continuidade da história judaica e suas aspirações, eliminando as diferenças geográficas das comunidades da diáspora.

Quando toma um ramo de palmeira em uma mão e na outra a verdadeira fruta do etrog, o judeu une-se a uma corrente de íntima associação com seu povo, através de Jacó; através de Adão com a raça humana e, finalmente, através do cumprimento de um lindo mandamento, com seu D’us.

 “E tomareis para vós no primeiro dia,
o fruto de árvore formosa (etrog),
ramos de palmeira e galhos 
de mirta e de salgueiro de ribeiras, 
e vos alegrareis diante do Eterno, 
vosso D’us, por sete dias” 
(Levítico 23:40).