Morashá
A SUCÁ E SEU SIGNIFICADO Foto Ilustrativa

A SUCÁ E SEU SIGNIFICADO

“E falou o Eterno a Moisés: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Aos quinze dias deste sétimo mês, será festa das cabanas (Sucot), por sete dias, ao Eterno.

Edição 34 - Setembro de 2001


E celebrareis esta festa ao Eterno por sete dias cada ano; estatuto perpétuo pelas vossas gerações; no sétimo mês a celebrareis. Nas cabanas habitareis por sete dias; todo natural de Israel habitará nas cabanas. Para que as vossas gerações saibam que nas cabanas fiz habitar os filhos de Israel, quando os tirei da terra do Egito, Eu sou o Eterno, vosso Deus”. (Levítico 23, 33-34;41-43)

Morashá traz uma leitura diferente da mitzvá da celebração de Sucot através dos ensinamentos do Rabino S. R.Hirsch. Nascido em Hamburgo em 1808, o rabino e filósofo liderou a criação de um judaísmo ortodoxo modernizado que pudesse conter o desafio do movimento liberal no judaísmo alemão – então nascente – sem abandonar o que de melhor havia na civilização européia. Quando em 1876 a Prússia adotou a lei que emancipava os judeus, permitindo-lhes estabelecerem-se em sociedades independentes, Rav Hirsch separou sua congregação do restante da comunidade, lutando para mantê-la a fiel à Torá e seus preceitos, pois considerava que o grupo neo-ortodoxo era infiel à Lei de nossos antepassados. Verdadeiro líder da ortodoxia alemã no século 19, apresentava o judaísmo como uma comunidade baseada na fé, que almejava a santificação da vida, a espiritualização do homem e a conscientização da presença Divina na terra.

Os trechos selecionados fazem parte da obra HOREB: A Philosophy of Jewish Laws and Observances, em que o Rabino Hirsch apresenta magistralmente nossas leis e como devemos observá-las, dando ênfase especial às idéias subjacentes às mesmas. A obra é considerada um marco do retorno à Halachá como o centro da vida e do pensamento judaico.

Rav Hirsch interpreta o mandamento Divino de habitar na fragilidade das tendas, durante Sucot; explica o propósito da festividade, que visa nossa preservação física e espiritual na fartura e na escassez, na riqueza ou na pobreza, sempre confiantes na mão de D’s a guiar nosso povo:

“... A festa de Sucot é dedicada à preservação física de Israel por D’s. É a época quando a colheita do ano está quase terminada e o celeiro e a casa estão abastecidos. Já não mais voltas, ansioso, teus olhos aos céus, implorando por uma bênção, pois já colheste o que te tocava e, confiante no que estocaste, enfrentas o inverno com serenidade. Por outro lado, a colheita do ano pode ter-te dado escassos resultados e, refletindo sobre tua privação e pobreza, tu e tua mulher e teus filhos podem tornar-se desesperançados e, tomados pelo desespero, vislumbrar um futuro submerso em necessidade.”

“... Deixa tua moradia, sólida e segura; habita sob o esparso teto de folhagens e aprende a lição que estas nos transmitem: HaShem, teu D’s, fez com que teus antepassados habitassem em tendas durante quarenta anos, quando os tirou do Egito; e Ele os sustentou em suas cabanas e desta forma revelou-Se como a Divina Providência que a todos ampara”.

Seus textos mostram-nos o real valor da vida, quão fugazes são as riquezas, quão vazio é o culto ao dinheiro e aos bens materiais. Apontam-nos a riqueza que há na humildade e no respeito a D’s, HaShem, o Único que nos sustenta e nos ampara, onde quer que estejamos, no deserto ou na segurança de nossos lares, nesta e em todas as gerações de nosso povo:

“... Se és rico, fica ciente de que não são as riquezas nem as posses – nem tampouco os talentos dos quais o homem tanto se orgulha – os deuses que tornam mais segura a tua existência. Somente D’s o faz, este D’s que ampara mesmo nas tendas aqueles que se rendem a Ele em total devoção e lealdade. Lembra-te, então, de agradecer a D’s – e somente a Ele – por tua riqueza, por tua distinção, por teus tesouros; pois tudo isto só é teu enquanto a D’s aprouver. Lembra-te, também, de que cada talento adquirido pode mudar e que os antepassados dos hoje ricos netos, viveram em cabanas, durante 40 anos, na aridez do deserto. Portanto, aprende a não ser escravo da tua riqueza e a não te afastar de D’s. Te sentirás livre sob Sua proteção, quer estejas em uma cabana coberta de folhagens ou sob um firme teto de cimento. No final, se estabeleceres teu próspero lar não sobre a riqueza e o conforto, mas sobre D’s – pois que Ele guarda a tua morada ainda que teu telhado seja de pedra; e foi apenas através de Sua bondade que conseguiste conquistar tuas posses e sobretudo mantê-las – só assim aprenderás – através da opulência e da riqueza – a depositar tua confiança apenas em D’s, que é o Único Sustento de todos os seres vivos.”

As palavras do Rabino Hirsch nos dão alento quando a sorte não parece sorrir-nos, quando a roda da fortuna gira para outro lado. Mostram-nos que a mesma Mão que nos tirou do desespero e da desolação do deserto, que nos colocou em cabanas, virará o Seu olhar sobre nós:

“... E se fores pobre, meu querido irmão judeu, se estiveres na pobreza e no desespero, eu te suplico: vai viver na tenda coberta de folhagem! Afasta-te de teu antigo abrigo protegido e de bom grado vive a vida dos mais pobres e aprenda esta lição: D’s sustentou teus antepassados em meio à aridez das cabanas. Esse mesmo D’s ainda vive e Ele é teu D’s, e assim como o brilho das estrelas cintila sobre o teto de folhagens, assim Ele, com Seu olhar cuidadoso, abraça-te com amor, contempla teu sofrimento e tuas lágrimas, ouve teus suspiros e conhece tuas angústias. Ele não te abandonará assim como não abandonou os teus antepassados. Por acaso estás desesperado por não possuíres os bens sobre os quais os homens constróem suas vidas? Deveras... por acaso os teus antepassados, que foram alimentados com o maná, não aprenderam em suas cabanas que sua vida é governada por cada uma das sentenças Divinas? Será que tu não aprenderás esta lição, como o fizeram teus antepassados, ao seguires o teu caminho ao longo da dura estrada da vida? Entra já na Sucá! Aprende a ser forte e animado no sofrimento; tem fé em D’s, Aquele que dá o sustento mesmo nas cabanas e na penúria.”

“... O que será, na vida, que nos afasta de D’s, tornando-nos convencidos ou despidos de esperança e, em meio a todas as nossas aflições por nosso bem-estar, não deixa espaço para nossa verdadeira felicidade? Porventura será a loucura com a qual nos agarramos aos bens mundanos, colocando-os em um pedestal como se fossem os deuses de nossa vida? Será a loucura com a qual cada um de nós constrói sua própria Torre de Babel, levando-nos a nos sentirmos seguros em nossos falsos abrigos? Que a festa de Sucot possa livrar-nos dessa loucura; que dessa idolatria das posses e bens materiais e das obras humanas possa nossa submissão à Sucá nos libertar; e que ao invés disso leve-nos a D’s que é a única base de nossa vida. Que a festa de Sucot possa nos ensinar a colocar nossa confiança nas mãos de D’s, para apenas em D’s confiar. Isto é a verdadeira fé, isto é emuná.”

Nestes trechos, de extrema beleza, Rav Hirsch traça um paralelo com as palavras do profeta Jeremias para alertar os judeus europeus que, deslumbrados com a emancipação que lhes era concedida, afastavam-se de sua lealdade com a herança religiosa de nossos pais. Conclama-os a voltar para a Sucá, voltando a buscar a orientação Divina em meio à dispersão em que se encontravam entre as nações:

“... Mas tu não deves transferir-te para a Sucá pensando apenas no teu próprio destino ou na emuná que envolve apenas a tua vida; mas sim como um filho de Israel, ciente do destino de teu povo e, portanto, estendendo essa fé também ao destino de teu povo. Ó, se ao menos Israel, enquanto ainda vivia feliz e unido no solo abençoado por D’s, tivesse adentrado a Sucá imbuído do verdadeiro espírito desta, nunca, em tempo algum, teriam “seus deuses se tornado tão numerosos quanto suas cidades”; jamais teria sido ouvida a voz do Profeta: “Voltem à desolada aridez do deserto!” No entanto, vós, queridos irmãos judeus, que novamente estais dispersos pela desolação do deserto, entrai na Sucá e gravai na memória como D’s sustentou vossos antepassados enquanto erravam pelo deserto inóspito. Ele está a teu lado, também, em tua atual vagueação pelos áridos desertos. Olha para trás, para os séculos de sofrimento, opressão, degradação e escuridão – estavam ausentes as nuvens protetoras do Todo Poderoso? Porventura não estava a chama ardente a indicar o caminho? Não foi D’s quem te sustentou, ó pobre filho de Israel? E agora, ó Israel, tua geração mais jovem vislumbra nesses atos de misericórdia a sua libertação, o triunfo de sua luta, uma luta pela livre construção de seu ser e a livre consumação de seu próprio modo de vida. Comportam-se como se Israel tivesse sido separado de outras nações para marchar através da história apenas para submergir em meio das nações que idolatram e veneram os bens materiais. Ó jovens de Israel, que ainda estais imbuídos do espírito de Israel, adentrai na Sucá; mantende-vos afastados da loucura deste momento! Agarrai-vos rapidamente a D’s, este D’s que vos transporta nas asas das águias também neste exato momento de provação.”

“... Sim, adentrai na Sucá como cidadãos do mundo, ó juventude de Israel! Nossos profetas e sábios, no passado, em seus pronunciamentos, nos deram uma visão do que está por acontecer no futuro. E, portanto, quando no futuro os homens tiverem aprendido na própria carne o vazio e a irrealidade de suas obras – este vazio que começou pela Torre de Babel e continua agora, nesta tentativa de fundamentar a vida em deuses terrenos, sem a presença de D’s – quando tiverem aprendido, eles hão de entrar na Sucá. Nesse momento do futuro, um vínculo de fraternidade envolverá a humanidade e, unidos em irmandade sob um Único D’s, estarão libertos do culto ao ídolo do dinheiro. E aí este D’s Único os receberá, a todos, no Tabernáculo da Paz, como seu Pai; e como tal, HaShem, D’s Único, Ele e somente Ele será adorado na face da terra.”

Festejemos, pois, em Sucot, a nossa fé, seguindo os ensinamentos de Rav Hirsch! Dispamo-nos de tudo o que denigre a dignidade humana e de tudo aquilo que leva ao nosso coração a adoração pelo poder das riquezas. Estaremos, assim, cada um de nós, em paz com D’s, com o mundo, com nossa própria vida!

Do capít. Edot da obra Horeb: A Philosophy of Jewish Laws and Observances, Hirsch, S. Raphael.

As palavras do Rabino Hirsch nos dão alento quando a sorte não parece sorrir-nos, quando a roda da fortuna gira para outro lado. Mostram-nos que a mesma Mão que nos tirou do desespero e da desolação do deserto, que nos colocou em cabanas, virará o Seu olhar sobre nós:

“... E se fores pobre, meu querido irmão judeu, se estiveres na pobreza e no desespero, eu te suplico: vai viver na tenda coberta de folhagem! Afasta-te de teu antigo abrigo protegido e de bom grado vive a vida dos mais pobres e aprenda esta lição: D’s sustentou teus antepassados em meio à aridez das cabanas. Esse mesmo D’s ainda vive e Ele é teu D’s, e assim como o brilho das estrelas cintila sobre o teto de folhagens, assim Ele, com Seu olhar cuidadoso, abraça-te com amor, contempla teu sofrimento e tuas lágrimas, ouve teus suspiros e conhece tuas angústias. Ele não te abandonará assim como não abandonou os teus antepassados. Por acaso estás desesperado por não possuíres os bens sobre os quais os homens constróem suas vidas? Deveras... por acaso os teus antepassados, que foram alimentados com o maná, não aprenderam em suas cabanas que sua vida é governada por cada uma das sentenças Divinas? Será que tu não aprenderás esta lição, como o fizeram teus antepassados, ao seguires o teu caminho ao longo da dura estrada da vida? Entra já na Sucá! Aprende a ser forte e animado no sofrimento; tem fé em D’s, Aquele que dá o sustento mesmo nas cabanas e na penúria.”

“... O que será, na vida, que nos afasta de D’s, tornando-nos convencidos ou despidos de esperança e, em meio a todas as nossas aflições por nosso bem-estar, não deixa espaço para nossa verdadeira felicidade? Porventura será a loucura com a qual nos agarramos aos bens mundanos, colocando-os em um pedestal como se fossem os deuses de nossa vida? Será a loucura com a qual cada um de nós constrói sua própria Torre de Babel, levando-nos a nos sentirmos seguros em nossos falsos abrigos? Que a festa de Sucot possa livrar-nos dessa loucura; que dessa idolatria das posses e bens materiais e das obras humanas possa nossa submissão à Sucá nos libertar; e que ao invés disso leve-nos a D’s que é a única base de nossa vida. Que a festa de Sucot possa nos ensinar a colocar nossa confiança nas mãos de D’s, para apenas em D’s confiar. Isto é a verdadeira fé, isto é emuná.”

Nestes trechos, de extrema beleza, Rav Hirsch traça um paralelo com as palavras do profeta Jeremias para alertar os judeus europeus que, deslumbrados com a emancipação que lhes era concedida, afastavam-se de sua lealdade com a herança religiosa de nossos pais. Conclama-os a voltar para a Sucá, voltando a buscar a orientação Divina em meio à dispersão em que se encontravam entre as nações:

“... Mas tu não deves transferir-te para a Sucá pensando apenas no teu próprio destino ou na emuná que envolve apenas a tua vida; mas sim como um filho de Israel, ciente do destino de teu povo e, portanto, estendendo essa fé também ao destino de teu povo. Ó, se ao menos Israel, enquanto ainda vivia feliz e unido no solo abençoado por D’s, tivesse adentrado a Sucá imbuído do verdadeiro espírito desta, nunca, em tempo algum, teriam “seus deuses se tornado tão numerosos quanto suas cidades”; jamais teria sido ouvida a voz do Profeta: “Voltem à desolada aridez do deserto!” No entanto, vós, queridos irmãos judeus, que novamente estais dispersos pela desolação do deserto, entrai na Sucá e gravai na memória como D’s sustentou vossos antepassados enquanto erravam pelo deserto inóspito. Ele está a teu lado, também, em tua atual vagueação pelos áridos desertos. Olha para trás, para os séculos de sofrimento, opressão, degradação e escuridão – estavam ausentes as nuvens protetoras do Todo Poderoso? Porventura não estava a chama ardente a indicar o caminho? Não foi D’s quem te sustentou, ó pobre filho de Israel? E agora, ó Israel, tua geração mais jovem vislumbra nesses atos de misericórdia a sua libertação, o triunfo de sua luta, uma luta pela livre construção de seu ser e a livre consumação de seu próprio modo de vida. Comportam-se como se Israel tivesse sido separado de outras nações para marchar através da história apenas para submergir em meio das nações que idolatram e veneram os bens materiais. Ó jovens de Israel, que ainda estais imbuídos do espírito de Israel, adentrai na Sucá; mantende-vos afastados da loucura deste momento! Agarrai-vos rapidamente a D’s, este D’s que vos transporta nas asas das águias também neste exato momento de provação.”

“... Sim, adentrai na Sucá como cidadãos do mundo, ó juventude de Israel! Nossos profetas e sábios, no passado, em seus pronunciamentos, nos deram uma visão do que está por acontecer no futuro. E, portanto, quando no futuro os homens tiverem aprendido na própria carne o vazio e a irrealidade de suas obras – este vazio que começou pela Torre de Babel e continua agora, nesta tentativa de fundamentar a vida em deuses terrenos, sem a presença de D’s – quando tiverem aprendido, eles hão de entrar na Sucá. Nesse momento do futuro, um vínculo de fraternidade envolverá a humanidade e, unidos em irmandade sob um Único D’s, estarão libertos do culto ao ídolo do dinheiro. E aí este D’s Único os receberá, a todos, no Tabernáculo da Paz, como seu Pai; e como tal, HaShem, D’s Único, Ele e somente Ele será adorado na face da terra.”

Festejemos, pois, em Sucot, a nossa fé, seguindo os ensinamentos de Rav Hirsch! Dispamo-nos de tudo o que denigre a dignidade humana e de tudo aquilo que leva ao nosso coração a adoração pelo poder das riquezas. Estaremos, assim, cada um de nós, em paz com D’s, com o mundo, com nossa própria vida!

Do capít. Edot da obra Horeb: A Philosophy of Jewish Laws and Observances, Hirsch, S. Raphael.