Morashá
MILAGRES NA FILOSOFIA JUDAICA MEDIEVAL Coleção Rothschild-Veneza, 1470. Israel Museum

MILAGRES NA FILOSOFIA JUDAICA MEDIEVAL

Os milagres eram um tema importante nos escritos dos filósofos medievais. Muitos dentre eles tinham dificuldade em aceitar a noção bíblica referente aos milagres.

Edição 31 - Dezembro de 2000


Era difícil explicar certos milagres bíblicos em termos de ciência contemporânea e, por outro lado, a aceitação de milagres requeria a crença na Criação e na Divina Providência -noções rejeitadas pela filosofia grega.

Saadia Gaon (882-942)

Saadia ben Joseph, também conhecido como Rabi Saadia Gaon por ter sido apontado como Gaon (chefe) da Academia de Sura, na Babilônia, pode ser considerado o pai da filosofia medieval. Seu sistema filosófico é amplamente detalhado em seu livro Emunot Vedeot, O livro das Crenças e Opiniões. Ele não questiona os milagres. Saadia Gaon coloca a possibilidade de que D'us considere apropriado alterar sua Criação com o intuito de confirmar Suas revelações aos profetas. Em seu livro, O livro das Crenças e Opiniões (cap.3:4,5), Saadia insiste que o propósito dos milagres é confirmar o profeta como mensageiro de D'us e suas palavras como verdadeiras. Ele também acredita que há uma correlação completa entre o conteúdo da revelação e as conclusões da investigação racional - a existência de D'us, Sua unicidade e a criação do mundo. Entretanto como a verificação intelectual das doutrinas reveladas é acessível a poucas pessoas, Saadia é da opinião que revelações e milagres eram necessários para a maioria do povo.

A interpretação alegórica dos milagres é feita por Saadia apesar do próprio Midrash ter registrado muitas interpretações alegóricas. Enquanto aceitava o fato de que todas as palavras da Torá eram divinas, ele insistia que a verdade da Bíblia está na razão e que sempre que a Bíblia parece entrar em conflito com a razão, as palavras devem ser entendidas em um sentido metafórico e alegórico. (Gênese 3:1) Desta forma ele explica as palavras da serpente e do asno falante de Bilaam (Números 22:28).

Em relação à compreensão do texto da Torá em geral, Saadia argumenta que um texto pode ser interpretado contrariamente ao seu sentido literal, quando contradiz a razão. Tudo isto é baseado em provas ou comprovado por milagres. Os profetas, por exemplo, deve-riam, em sua opinião, provar sua missão através de milagres públicos. Esta teoria levou à doutrina da tradição, de Saadia, que afirma existirem três fontes de sabedoria: percepção sensorial, evidência racional e conclusões racionais tomadas a partir de dados fornecidos pela razão e aliadas à percepção. A convicção numa tradição fidedigna fundamentou sua noção de fé religiosa.

Yehuda Ha-Levi (1075-1141)

Os ensinamentos de Rabi Yehuda Ha-Levi se baseiam no conceito de que a experiência religiosa imediata é superior às deduções racionais. Desta forma Ha-Levi define o profeta como aquele que atingiu o mais alto grau de perfeição possível à imaginação. Apesar do raciocínio humano negar facilmente a possibilidade da ocorrência de milagres, estes fatos são sustentados pela autenticidade da tradição que os presenciou. Yehuda Ha-Levi não considera os milagres como Saadia Gaon, que os considerava uma afirmação da Revelação. Por sua vez ele considera os milagres como uma revelação direta de D'us. Considera milagre a comunicação direta de D'us com as pessoas ou com as nações. O desvio da ordem natural das coisas com o propósito de guiar o ser humano a seu destino religioso é um milagre. A autenticidade da revelação de D´us no Monte Sinai foi estabelecida pelo fato de que todos os israelitas, tanto crianças como adultos, foram presenteados com a profecia por intermédio de Moisés e puderam testemunhar a Revelação como experiência própria.

Resumindo, para Yehuda Ha-Levi a Revelação bíblica é a fonte da verdade religiosa e como foi um ato público no Sinai, é inquestionável. Somente a clara determinação do relacionamento entre D'us e o indivíduo está além do que pode ser conhecido como filosofia.

Maimônides (1135-1204)

A maior obra filosófica escrita por Rabi Moses ben Maimon, também conhecido como Maimô-nides, é o Guia dos Perplexos.

Esta obra foi feita para conciliar algumas diferenças entre revelação e filosofia e para ser uma espécie de guia àqueles que têm dúvidas sobre a filosofia ou a religião devido à aparente contradição entre ambas. Maimônides não considera que uma seja contrária à outra. Filosofia é o meio através do qual o indivíduo compreende a Revelação. A fé religiosa é uma forma de sabedoria. A filosofia é um elemento central dentro da própria religião. Desta forma aprender a filosofia é uma tarefa religiosa e a filosofia pavimenta o caminho para D'us.

Para Maimônides, os milagres foram predeterminados no momento da Criação e desta forma não constituem uma mudança na vontade de D'us. Em sua opinião, são necessários para sustentar a autoridade da Revelação perante o povo. Maimônides é muito cauteloso em não definir o milagre como uma anulação das Leis Divinas sobre a natureza.

Ele também é cuidadoso ao evitar que a afirmação da atividade sobrenatural de D'us seja utilizada como meio de interrupção da ordem natural da criação. Em seu comentário da Mishná, Maimônides ensina que os milagres foram inseridos na natureza no momento em que D'us criou o mundo.

Em seu Guia dos Perplexos, Maimônides não parece mais se ater a esta posição extrema que excluiria qualquer interferência de D'us no curso da natureza. Ele admite a possível suspensão temporária da ordem natural das coisas como parte do plano Divino. Muitas narrativas milagrosas, especialmente as mais extraordinárias, como a de Bilaam falando com um asno ou a fala da serpente no Jardim de Éden, são explicadas por Maimônides alegoricamente ou através de interpretações de histórias como parte da visão profética. Quando um profeta descreve a ruína de um reinado ou a destruição de uma grande nação com expressões como "as estrelas caíram" ou "a terra está perdida e treme", utiliza metáforas para se referir aos derrotados. Enquanto os vitoriosos aproveitam a Luz e a alegria, os derrotados estão na escuridão.

Para explicar a linguagem figurada da Bíblia, em seu Guia dos Perplexos, Maimônides cita o Salmo 77, cap. 17-19, referindo-se à morte dos egípcios no Mar Vermelho: "As águas viram-nos e ficaram com medo, as profundezas tremeram... a terra tremeu e estava confusa." Maimônides afirma que um milagre não pode provar aquilo que é impossível. Serve apenas para confirmar o que é possível.

Maimônides, pois, explica que realidade deriva da Razão Divina e que nem tudo que é imaginável é necessariamente possível. Ele eleva os milagres de Moshé acima de todos os outros. A verdade metafísica vem de momentâneos flashes de iluminação, algo comum na filosofia e na profecia.

Os profetas costumavam usar parábolas e metáforas porque o indivíduo comum não consegue compreender a verdade em sua forma pura. Somente o filósofo é capaz de fazê-lo, já que o conhecimento metafísico exige a perfeição do intelecto e a purificação da personalidade humana.

Gershon ben Levi (1288-1344)

Para explicar a natureza dos milagres, Rabi Gershon ben Levi (Gershonides) estudou os milagres bíblicos, concluindo que podem ser classificados em aqueles que envolvem mudança na matéria e outros em que a matéria permanece a mesma. Como exemplo dos primeiros, há a transformação do bastão de Moshé em serpente, e do rio Nilo em sangue. E como exemplo dos segundos há a mão de Moshé quando se torna leprosa. Indo mais além, divide os milagres entre aqueles em que o profeta foi avisado antes (Dez Pragas do Egito) e aqueles nos quais não houve aviso prévio. Sua análise dos milagres mostra que todos foram realizados ou relacionados com os profeta e que foram feitos com bom propósito. Segundo Rabi Gershon, como os milagres não parecem ser acidentais, devem ter como autores alguém que tem conhecimento espiritual de D'us, a chamada Inteligência Divina ou o próprio profeta). Conclui que o Autor de milagres é o mesmo que o Inspirador dos profetas, cujo Intelecto tem como conteúdo o sistema da criação unificado como uma idéia abstrata (por exemplo, o Intelecto Ativo). Assim, para Gershon ben Levi, o profeta sabe dos milagres porque o Intelecto Ativo, seu Autor, é também a Causa da inspiração profética.

Nachmânides (1194-1270)

Durante a vida de Rabi Moshe ben Nachman havia filósofos que continuavam a repudiar a crença em milagres, explicando-os com alegorias, enquanto outros tentavam provar que eles de fato ocorreram. Nachmânides, diferentemente de Maimônides, sugere que o milagre precede a natureza. Desta forma, para Nachmânides o milagre não é um acontecimento isolado, mas uma realidade sobrenatural imutável. Em sua opinião, a natureza e a ordem do mundo não afetam o propósito da Torá e desta forma o destino de Israel é passível de milagres. Entretanto os milagres não conflitam necessa-riamente com a ordem natural das coisas. Nachmânides postula uma distinção entre os milagres evidentes (por exemplo, aqueles que desviam da ordem natural, servindo para trazer fé aos céticos), e os milagres ocultos, que consistem de coincidências não usuais de um certo número de eventos. Os milagres ocultos e sua natureza milagrosa serão evidentes somente para os que têm fé.

Hasdai Crescas (1340-1410)

Rabi Hasdai Crescas desenvolve a mais completa crítica da posição de Maimônides sobre os milagres. Assumindo que o mundo foi criado a partir do nada, mas não teve início temporal, o mundo é continuamente renovado pela infinita graça de D'us. Já que D'us é o Todo Poderoso e a Bondade Infinita, os milagres (instrumentos do bem) não estão meramente no poder de D'us mas são um efeito necessário de Sua existência. Para Crescas, os milagres nem são desvios da natureza nem conflitam com esta, mas sim uma expressão da ordem sobrenatural. Enquanto as ocorrên- cias naturais são trazidas por D'us indiretamente, expressando sua força limitada, o milagre é trazido diretamente por D'us, expressando o seu poder ilimitado e tendo uma existência absoluta. Para Crescas, o mundo em si é na verdade um milagre perpétuo que abrange a ordem natural. O milagre precede a natureza e seu verdadeiro propósito é trazer a fé aos céticos e reforçar a fé daqueles que já a têm. Para Crescas, a cada evento no qual a onipotência de D'us é revelada, D'us Se torna presente para os humanos. Como a graça de D'us é infinita, deve forçosamente se revelar a toda a humanidade.