Morashá
Amuletos e Talismãs no Judaísmo XALE BORDADO PARA PROTEÇÃO DE MULHERES GRÁVIDAS, TURQUIA, C. 1900. TIARA EM VELUDO PARA PROTEGER PARTURIENTE, ORNADA COM AMULETOS. PAR DE BRAcELETES EM PRATA COM O NOME DA PARTURIENTE, TZIPORA. IRÃ, C. 1900. TEL AVIV, ACERVO DA FAMÍLIA GROSS

Amuletos e Talismãs no Judaísmo

Amuletos e talismãs são encontrados entre os mais diferentes povos, em todos os continentes, desde os primórdios da História até nossos dias. Entre nós, judeus, sua história se estende ao longo de vários milhares de anos.

Edição 115 - Junho de 2022


E o que são amuletos e talismãs? São objetos geralmente usados no pescoço ou no pulso, com o intuito de proteger ou ajudar aquele que os porta contra forças espirituais negativas. É preciso, no entanto, ressaltar que há uma nítida diferença entre amuletos e talismãs. Os primeiros são usados pela pessoa como forma de proteção e defesa contra algum mal. Já o talismã age de forma oposta, pois acredita-se que empodere aquele que o usa, atribuindo algum poder ou energia positiva à pessoa que o possui.

Historiadores e arqueólogos acreditam que praticamente todos os ornamentos usados pelas pessoas, na Antiguidade, eram originalmente amuletos. Esta premissa se baseia no fato de que a maioria desses ornamentos costuma trazer a imagem de ídolos ou a estes eram consagrados. No Livro de Gênesis, por exemplo, lemos que nosso Patriarca Yaacov enterrou sob uma árvore “todos os deuses estranhos que (aqueles que viviam em sua casa) tinham em seu poder, e os aros de suas orelhas” (Gênesis 35:4).

No Judaísmo, religião puramente monoteísta que rejeita completamente tudo o que se pareça à adoração de ídolos, o papel dos amuletos e talismãs é servir como canal condutor para as bênçãos Divinas. Assim sendo, o Judaísmo permite apenas aqueles amuletos e talismãs feitos e usados de acordo com as leis da Torá. O Talmud nos ensina que esses objetos geralmente contêm nas palavras que trazem inscritas um dos Nomes de D’us ou mesmo passagens da Torá (Talmud Babilônico, Shabat 115b).

No entanto, cabe perguntar, por que razão a Torá sanciona o uso dos amuletos e talismãs? Uma das razões seria a seguinte: como ensina a Cabalá, misticismo judaico, o ser humano vive em um mundo físico, portanto precisa usar da materialidade para atrair e transmitir a plenitude Divina para o mundo. O cajado usado por Moshé e Aaron para realizar milagres – as 10 pragas, no Egito, e a abertura do Mar de Juncos – são um ótimo exemplo disso.

Os amuletos judaicos geralmente são feitos de textos (letras ou símbolos gráficos) gravados sobre algum tipo de material; podem até conter plantas ou pedras preciosas. Têm, na maioria das vezes, um propósito específico como, por exemplo, facilitar o nascimento, promover a recuperação ou a cura de uma enfermidade, promover uma melhora nos negócios e assim por diante.

A palavra hebraica para amuleto, kamêa1, relaciona-se com a noção de amarrar ou unir. Um amuleto judaico, portanto, deve ser “ligado ou amarrado em torno de algo”. Na maior parte das vezes, os amuletos são usados em volta do pescoço da pessoa ou amarrados em seu pulso; ou, no caso de um bebê, presos em sua roupa. Às vezes, os amuletos são usados diretamente no corpo da pessoa, de forma oculta. Na Antiguidade, era comum encontrar-se amuletos no corpo dos valentes guerreiros judeus.

As maiores evidências do uso de amuletos pelos judeus remontam à época dos Sábios do Talmud. A discussão que girava em torno de ser ou não permitido portar amuletos no Shabat encontra-se no Tratado Shabat, junto com uma resposta afirmativa – podia-se usar o amuleto desde que quem o tivesse confeccionado fosse um judeu especializado em sua produção ou que o amuleto fosse, de fato, um objeto cuja eficácia tivesse sido comprovada (Mishná, Shabat 6.2; Talmud Babilônico, Shabat 61a).

O Talmud assim define um amuleto forte: como ensinaram os Sábios no Tosefta2,o que constitui um amuleto eficaz? É aquele que curou uma pessoa uma vez, e a curou novamente, e a curou uma terceira vez. Este é o critério para um amuleto eficaz e se aplica tanto a um amuleto escrito quanto a um feito com raízes de ervas; sendo necessário que sua eficácia tenha sido comprovada na cura de um doente em estado grave ou na cura de um doente em estado não tão grave.

O valor e a eficácia de um amuleto ou de um talismã dependem, também, da espiritualidade de seu autor, já que seus poderes espirituais são o que irá determinar a força do amuleto ou do talismã. Os amuletos considerados válidos eram compostos e gravados por mestres no assunto, conhecidos como os Ba’alei Shem (os Mestres do Nome Sagrado).

Os Cinco Livros da Torá apenas fazem menção a amuletos, ao passo que as passagens da era do Talmud e pós-Talmud, bem como os textos da Cabalá, fornecem mais informações sobre esse assunto. Até mesmo o Livro dos Provérbios, escrito pelo Rei Salomão, Shlomó HaMelech, o mais sábio dos homens que já viveu, refere-se a concepções consagradas sobre os amuletos.

O uso de amuletos genuinamente judaicos – e não os emprestados de fontes não-judaicas, foi muito intenso no período rabínico, a dizer, de cerca do século 1 até cerca do século 7 da Era Comum. Consequentemente há várias menções sobre amuletos na literatura rabínica. Como o Talmud não proíbe o uso de amuletos, vemos que através da História seu uso foi muito difundido e praticado entre os judeus. Floresceu na Espanha, no Oriente e em toda a Europa. No continente europeu, a crença nos poderes ocultos dos amuletos era muito difundida entre judeus e não-judeus, em todos os níveis da sociedade.

Os amuletos podiam ser tiras de pergaminho com letras do Nome de D’us, anagramas e transposições do mesmo, passagens da Torá e outros textos do gênero. Frequentemente eram uma pequena plaquinha de metal contendo as letras do Nome Divino. Os amuletos eram usados enrolados no braço ou no pulso; ou excepcionalmente eram carregados na mão. As mulheres e crianças os portavam geralmente em correntes no pescoço, anéis ou em outros adornos.

Opiniões contraditórias acerca dos amuletos

Rav Hai Gaon, rabino e erudito que foi o mestre da Academia Talmúdica de Pumbedita, na Babilônia, no início do século 11, negava os poderes de certos amuletos, como, por exemplo, que um pedaço de papiro, inscrito com o Nome de D’us, pudesse afugentar os ladrões; ou que esse Nome Sagrado gravado em uma telha nova pudesse acalmar os mares. No entanto, é interessante notar que ele admitia que os amuletos pudessem ter eficácia como meio de cura e proteção. Como escreveu, “tudo dependia do autor do texto e do momento de sua aplicação”.

Rabi Moshé ben Nachman, Nachmanides, permitia o uso de uma placa de metal com a imagem de um leão como remédio contra uma forte tosse. Esse tipo de crença era universal e também é mencionado por Manasseh ben Israel, de Amsterdã – rabino português, cabalista, escritor, diplomata, pintor, editor e fundador da primeira gráfica em caracteres hebraicos em Amsterdã, em 1626.

Vale ressaltar, porém, que nem todos os nossos Sábios concordavam sobre o uso e poder dos amuletos. Houve uma forte oposição a seu uso entre certos Sábios, ao longo dos séculos, entre os quais se contava Maimônides, que declaradamente os condenou. Ele negava que tivessem qualquer força ou virtude, escrevendo sobre “a loucura dos que fazem os amuletos, que esperam conseguir milagres com as permutações do Nome Divino”.

No entanto, importantes rabinos do século 18, como o Rabi Yonatan Eybeschütz e o Rabi Naftali ha-Kohen Katz (que serviu como rabino em Poznan e em Frankfurt am Main), eram conhecidos por escrever amuletos. Em seu testamento, Rabi Katz determinou que seu grande amuleto fosse dividido em cinco partes, uma para cada um de seus cinco filhos.

Muitos dos livros escritos por Cabalistas nos séculos 17 e 18 incluem textos sobre amuletos. Seu uso foi também praticado pelos Hassidim, tendo sido escritos e gravados por uma série de Rebes ilustres.

É interessante notar que os amuletos não foram apenas um fenômeno da vida judaica medieval. Mesmo hoje em dia, muitos judeus creem em seu poder. Como demonstra um artigo escrito pelo Hospital Assaf HaRofeh, em Tel Aviv, os amuletos e talismãs continuam sendo parte da prática judaica contemporânea. Durante dois meses, os funcionários do hospital pediram aos pais de todas as crianças internadas na UTI Pediátrica, para preencher um questionário com dados demográficos sobre o paciente e seus familiares, o uso de talismãs ou outras práticas de medicina popular, bem como sua percepção sobre os efeitos de tais práticas no bem-estar do paciente.

E constataram, surpresos, que 30% das famílias judias usavam amuletos e talismãs na UTI, independentemente da situação socioeconômica da família ou da gravidade da enfermidade da criança internada. Os resultados indicaram que esses objetos eram significativamente mais usados por judeus religiosos, por famílias com um nível mais elevado de instrução e nos casos em que as crianças eram mais jovens.

Mezuzá

Qualquer controvérsia acerca da permissão de se usar amuletos segundo o Judaísmo depende da definição dada a esses objetos. Por exemplo, um dos mandamentos mais conhecidos da Torá, que é mencionado duas vezes no texto da oração do Shemá Israel, é o de se colocar uma Mezuzá nos umbrais das portas de casa. Por um lado, a colocação da Mezuzá atende a um mandamento da Torá. Mas, por outro, também cumpre o papel de um “amuleto”, já que protege os habitantes desse lar onde é afixada.

Desde tempos remotos há registros de pessoas que usavam a Mezuzá como amuleto. De fato, a Mishná menciona que alguns tinham o costume de usar um cajado com uma parte oca onde era afixada uma Mezuzá para sua proteção.

Vejamos os poderes protetores da Mezuzá: na parte externa do seu pergaminho, consta um dos Nomes de D’us, Sh-a-dai (י-ד-ש). Os Cabalistas explicam que além de constituírem um Nome Divino, essas três letras são também o acrônimo de Shomer Delatot Israel – “Guardião dos portais de Israel,” em alusão à proteção dada pela Mezuzá. Em vista disso, nas Responsas da época pós-Talmúdica, há uma discussão sobre o seguinte: a proteção pode ser obtida apenas com uma Mezuzá colocada de forma correta, segundo o mandamento – ou pode advir de qualquer Mezuzá?

Muitos são da opinião que, de fato, há alguma medida de proteção na própria Mezuzá, mesmo que não esteja afixada no umbral da porta. A esse respeito, o Rebe de Lubavitch recomendou que certos indivíduos que tratavam de assuntos relacionados à saúde sempre levassem consigo uma Mezuzá – obviamente além de terem Mezuzot casher afixadas nos portais de sua casa.

Os poderes de proteção da Mezuzá servem como paradigma para os amuletos e talismãs casher – ou seja, aqueles que são confeccionados e empregados de acordo com as leis da Torá. Diversas fontes judaicas, inclusive o Talmud, ensinam que, de forma semelhantes às Mezuzot, os Tefilin também são amuletos permitidos, preservando o Povo Judeu da força do mal e de seus inimigos.

De forma figurativa, o principal amuleto do Povo de Israel é a própria Torá, já que é o canal que conduz todas as bênçãos, perdões e bondade Divinos até nós, seres humanos.

Kamêa, interessante mencionar, écomo sãochamados os Quadrados mágicos, um dos métodos de organização numérica.

Tosefta é uma segunda compilação da Lei Oral, no período de redação daMishná,c. 200 desta Era.

BIBLIOGRAFIA

Amulet, artigo de Ludwig Blau publicado no site https://www.jewishencyclopedia.com/articles

Contemplative and Practical Kabbalah, artigo do rabino Moshe Miler pubicado site http://www.chabad.org/kabbalah

Kaplan, Aryeh, Meditation and Kabbalah, 1989. Editora Rowman Littlefield