Morashá
Amor e casamento segundo o judaísmo Foto Ilustrativa

Amor e casamento segundo o judaísmo

por por Rabino Gabriel Aboutboul

O casamento é a base da existência humana. É o que nos permite constituir família e encontrar alegria e realização na vida. É algo de profundo valor, pelo qual vale a pena lutar.

Edição 73 - Setembro de 2011


O casamento é um dos alicerces do judaísmo. O primeiro mandamento da Torá diz que um homem e uma mulher devem casar-se e constituir família – para “crescer e multiplicar-se”. Todos os seres humanos anseiam por amor – querem amar e ser amados – e sonham em encontrar sua “cara-metade” e viver “felizes para sempre”. Contudo, vivemos em uma época na qual muitos casamentos não dão certo, na qual os índices de divórcio são muito altos e muitas pessoas talvez continuem casadas, sem serem felizes.

Quando um casal judeu se casa, recebe sete bênçãos – as Sheva Berachot – sob a Chupá, o pálio nupcial. Uma destas é que sua união seja “binyan adei ad” – uma construção eterna. Como pode um casamento ser eterno? Afinal de contas, o ser humano é muito volátil. Além disso, como assegurar que o júbilo e a felicidade estejam presentes na vida de um casal quando sabemos que a felicidade é aquilo que buscamos para nós mesmos, não para os outros? Seria, então, uma união feliz algo realista?

O simples fato de as pessoas fazerem esta pergunta denota certa falta de fé no futuro de uma união. As pessoas não deveriam perguntar “se”, mas “como”. A pergunta não deveria ser “se o casamento será feliz”, mas “como fazer o casamento dar certo e ser uma união feliz”. Quando algo é verdadeiramente importante para nós, não consideramos possibilidades de fracasso nem que a batalha está perdida. Quando algo é verdadeiramente significativo para nós, encontramos os meios para garantir que dê certo.

É evidente que todos nós temos dúvidas: casamos com a pessoa certa? Como será nossa vida?
A resposta a perguntas deste tipo deveriam ser: podemos e havemos de vencer todo e qualquer obstáculo. O ceticismo e os sentimentos de insegurança derivam de uma inclinação para o mal que reside dentro de todos nós e que deseja nos derrotar e dissuadir de fazer as escolhas certas na vida. O primeiro passo para se ter um casamento feliz e eterno, portanto, é não lhe dar ouvidos.

O que é o amor

Um dos segredos de um casamento feliz é um entendimento maduro do que é o amor. Precisamos aprender a inculcar em nós mesmos a noção de que amor, felicidade, prazer e dor são sentimentos que não podem ser separados. Aquele que acredita que amor é só prazer e que não suporta dor, é alguém que desconhece o que é sofrer e compartilhar as dores e os problemas do outro.

Poucas são as coisas verdadeiramente valiosas, na vida, que são obtidas sem esforço, sacrifício ou até sofrimento. Em muitos casos, alcança-se a felicidade e alegria através da dor. Por exemplo, a mulher agüenta desconforto e dor ao dar a luz.

E após o nascimento da criança, os pais se empenham para dar o melhor a seu filho. Eles compartilham as alegrias da criança, mas também sentem suas dores.

O mesmo deveria valer no relacionamento entre cônjuges; eles deveriam se amar e compartilhar os momentos de alegria e dor do outro, como o fazem com seus filhos. Pais saudáveis nunca magoam propositalmente seus filhos. O mesmo é válido para casais saudáveis: o júbilo de um deve ser o júbilo do outro e o sofrimento de um deve ser o sofrimento do outro. Conta-se a história de um rabino que levou sua mulher ao médico, pois ela sentia dores nas pernas. Ao ver o médico, ele disse: “Doutor, estamos com dor nas pernas”. Para aquele homem, a mulher e ele constituíam uma só pessoa, assim ambos tinham dores nas pernas.

Mas um casamento feliz obviamente não é definido por dores compartilhadas, mas por alegrias compartilhadas. A Meguilat Esther, que nos conta a história de Purim, relata que após terem triunfado sobre Haman os judeus vivenciaram “luz, felicidade, júbilo e glória”. “Luz” e “felicidade” são dois conceitos entrelaçados que são primordiais para o que buscamos no casamento. De modo simplista, a luz e a felicidade são a forma de se atingir uma união duradoura. Pois, o que é a luz? Ao entrar em um quarto escuro e acender a luz, o quarto nos parece totalmente diferente, no entanto, a luz não mudou os objetos que lá estavam. A diferença entre um local com e sem luz é que quando há luz, podemos apreciar a beleza, mas também ver os perigos. Sabemos por onde andar e onde não devemos ir.

E, por que a felicidade é comparada à luz? Por que a Meguilat Esther justapõe os dois conceitos? Porque, de modo similar à luz, o júbilo nos ajuda a ver as coisas como elas devem ser vistas. A verdadeira alegria é enxergar com os olhos do coração. Quando alguém sente júbilo, consegue encontrar razões infinitas para ser feliz. Mas quem vive sem alegria é alguém que vive no escuro, sem ver nada e ninguém. O maior milagre poderia descortinar-se diante de seus olhos e a pessoa não o perceberia. Um dos segredos de um casamento bem sucedido é a felicidade – a capacidade de enxergar com o coração, de apreciar o outro e as muitas bênçãos que a vida nos proporciona.
E o que é o amor? Filósofos, escritores, poetas – todos tentam defini-lo. O amor é a união desses dois elementos – a luz e a felicidade. Quando amamos alguém, verdadeiramente, amamos ver essa pessoa. Conta-nos a Torá que nosso patriarca, Yaacov, trabalhou sete anos para poder desposar sua amada, Rachel, dizendo que esses anos “pareceram-lhe uns poucos dias, tamanho era seu amor por ela”. O que a Torá nos ensina é que o amor dele por ela era tão grande que lhe bastava apenas vê-la. O simples fato de Rachel existir era razão suficiente para nosso patriarca se sentir feliz. Portanto, qualquer sacrifício que precisasse fazer para viver perto dela, vê-la e, um dia, casar-se com ela, Yaacov realizaria com alegria.

A verdadeira felicidade, portanto, é a capacidade de ver as coisas sob uma luz positiva. É ignorar – ou ao menos minimizar – o que é temporário e sem importância, e concentrar-se no que é real e eterno. Em um casamento, um casal não se deve fixar no que é transitório e que, com o tempo, deixará de existir ou será transformado, mas sim naquilo que perdurará: os valores do companheirismo e amor sincero, a construção de uma família, a constituição das gerações futuras.
Com certeza, há aqueles que se enganam a si próprios, acreditando ser mais fácil viver sozinho. Quem vive só não precisa dar de seu tempo ao outro, incomodar-se com ele e nem aguentar seus problemas. Mas viver só também significa viver uma vida despida daquilo que mais valorizamos: amor, companheirismo, verdadeira felicidade e intimidade. Aquele que se casa, mas pensa apenas em si próprio, não pode ter um casamento feliz. Pois o casamento representa compromisso – um compromisso com a vida – com o passado, presente e futuro. Para que um casamento funcione, marido e mulher precisam querer dar de si ao outro e abrir mão das coisas em benefício do outro. Se um dos cônjuges dá e se sacrifica, e o outro apenas recebe sem dar algo em troca, a união não perdurará, e, ainda que perdure, não será feliz e nem uma verdadeira parceria.

Diferentemente de outras religiões, o judaísmo permite o divórcio. No passado, havia casais que se divorciavam porque, por uma razão ou outra, a vida a dois era impossível: era melhor viver separado do que em situação de inimizade. Mas hoje, os casais se divorciam pelas razões mais triviais – e a raiz de muitos desses divórcios é a relutância em sacrificar o mínimo que seja de seu conforto e suas vontades. O lema dessas pessoas é que, na vida, o mais importante é ser feliz – agora e sempre. E se alguém – mesmo o nosso cônjuge – fizer nossa vida um pouco menos feliz, é melhor, então, desmanchar o casamento. Seguramente, muitas pessoas se divorciam porque é preciso fazê-lo. Mas também é justo dizer-se que, hoje, poucos são os que estão dispostos a fazer o menor sacrifício que seja – isto é, mudar um pouco a sua vida para acomodar o outro. Todos estão em busca de sua própria felicidade. Mas o que é a verdadeira felicidade? Não é um objeto que se pode encontrar na rua ou comprar em loja. É algo que introduzimos em nossa vida e em nosso lar.

É evidente que o que temos em casa não surgiu por si só – foi introduzido lá por alguém. Se a pessoa quer encontrar a felicidade e a paz em seu lar, ela deve introduzi-la. Este sentimento não entra sozinho. Igualmente, se alguém julga que seu lar é marcado por brigas e infelicidade, é porque alguém lá as introduziu. O lar deve ser um refúgio de júbilo, paz e felicidade, e não um lugar de conflitos e preocupações. Todos querem chegar em casa e lá encontrar paz e júbilo; mas isso requer certa pró-atividade. Quando alguém chega a seu lar e vê que lá não há paz cabe a ele ser o agente da mudança.

As pessoas perguntam: nosso lar não é o lugar onde somos livres para fazer o que quisermos? Expressar nossas frustrações, raiva e tristeza se assim o quisermos? Pois não é. O lar deve ser como o Jardim do Éden – um refúgio, um porto seguro, onde somente prevaleçam a harmonia, a paz e o amor. Se quisermos discutir problemas, é melhor fazê-lo fora de casa, distante de nossos filhos. Se um casal almeja ter um lar feliz, não deve levar para lá nada de negativo ou destrutivo. De outro modo, essa família não se sentirá bem vinda em sua própria casa, em seu próprio refúgio. Até o local de trabalho lhes parecerá mais aconchegante. E isto é extremamente prejudicial para qualquer união.

Um dos mandamentos mais importantes da Torá é a colocação da Mezuzá nos umbrais das portas de casa. Além de fonte de proteção, é o símbolo de que o lar de cada um de nós é um pequeno templo e, assim sendo, não se deve deixar nele entrar nada que não seja adequado a um santuário.

Definição judaica de amor

O amor, segundo o judaísmo, é medido pelo que queremos fazer por outra pessoa – quão disponíveis somos, quanto de nós estamos dispostos a dar e a sacrificar. O casamento significa abrir espaço dentro de si próprio para deixar o outro entrar. Mas quando a pessoa ama a si mesmo em demasia – quando ela deseja estar apenas consigo mesma – ela não pode esperar que seu casamento dê certo. É o amor o que abre espaço para o outro ser parte de nossa vida. O verdadeiro amor não é egoísta; pelo contrário, ele se manifesta quando a pessoa se esquece de si – esquece aquilo que quer ou que a incomoda – e pensa no outro.

Mas isso também significa que o amor pode ser perigoso e destrutivo. Como é uma emoção muito dominante, muitos se aproveitam de quem os ama, manipulando-os para seus propósitos egoístas.
Em um casamento feliz, não pode haver uma situação onde um explora o amor e a generosidade do outro. Há que haver reciprocidade, e mais, é preciso amar o outro no mínimo tanto quanto a pessoa ama a si própria. O Rebe de Lubavitch ensinava que o amor significa não poder viver sem o seu amado. É uma alma completando a outra. Na verdade, é a mesma alma em dois corpos diferentes que se unem sob a Chupá.

De acordo com a mística judaica o primeiro ser humano foi inicialmente criado metade homem e metade mulher. Isto significa que um homem não é completo sem uma mulher, nem ela é completa sem o homem. Os seres humanos procuram o amor e o casamento não nos sentimos inteiros quando sozinhos. É nosso cônjuge quem completa a imagem Divina que reside dentro de nós.

Casar-se significa unir-se à nossa metade que reside em um corpo diferente. O casamento é a reconexão de duas partes em um todo, e, assim sendo, é a cura para muitas feridas. Em hebraico, a palavra para homem é “Ish”, que contém a letra Yud; e a palavra mulher, “Ishá”, contém a letra Hei. Ambas formam um dos Nomes de D’us. Isto nos ensina que quando um homem e uma mulher vivem juntos com amor e harmonia e respeito, D’us habita em seu meio.

Vivemos ou existimos?

Nós, enquanto adultos, podemos escolher como levar nossa vida. Há um versículo na quinto livro da Torá, em que D’us nos diz que Ele está colocando dois caminhos diante de nós – a vida e o oposto da vida – e Ele nos ordena escolher a vida. Nossos Sábios perguntam: que tipo de escolha é essa? Quem optaria pelo oposto da vida? E respondem que, de fato, muitas pessoas optam por não viver – escolhem simplesmente existir.

O Talmud ensina que aquele que é mau, mesmo enquanto ainda está na Terra, é chamado de morto, ao passo que o justo, mesmo após deixar este mundo, é chamado de vivo. O Talmud explica que a verdadeira vida não é medida por quanto tempo passamos na Terra, mas pelo impacto positivo que causamos. Um justo deixa um impacto incomensurável e eterno, mesmo depois de não estar mais entre nós. Aqueles que optam pela vida são aqueles que infundem energia positiva nos demais. Aqueles que optam pelo oposto de vida são aqueles que sugam a energia dos outros. Eles não impactam as pessoas de forma positiva, não geram energia. Vivem apenas para si mesmos, geralmente levando uma vida egoísta e arrogante e se tornam um peso para quem os cerca. Eles não compartilham nada com ninguém e, como só se preocupam consigo mesmos , ninguém mais lhes importa, a menos que possam levar alguma vantagem. São muitos os que vivem assim, mas na realidade não estão realmente vivendo, eles apenas existem.

Viver, de verdade, significa diminuir a matéria e gerar energia. Significa abrir espaço ao “outro”. Significa não se importar tanto consigo mesmo, mas sim com o bem-estar dos demais. As histórias de amor geralmente terminam com as palavras: “E eles viveram felizes para sempre”. É importante observar as palavras: diz-se que eles “viveram”, não que “existiram” felizes para sempre.

Para ser feliz a pessoa precisa estar viva e, para estar viva, não pode preocupar-se apenas consigo própria. Quando a Torá descreve o casamento como uma união entre homem e mulher que se tornam uma só carne, está nos dizendo qual o segredo de um casamento feliz: somente quando um homem e uma mulher se tornam verdadeiramente um, eles podem viver felizes para sempre.

A Cabalá ensina que o casamento é a fusão de duas almas. Esta visão poética de duas almas que se reúnem e se fundem sob a Chupá é, sem dúvida, uma inspiração. Mas é importante observar que é mais fácil a fusão de duas almas do que de dois corpos, pois o ser humano é, por natureza, egoísta. Cada pessoa tem suas necessidades, seus desejos, suas preferências e suas antipatias. Viver com alguém – não em um mundo imaginário, mas no mundo real – geralmente requer algum sacrifício. Em geral temos que fazer coisas que não queremos e abandonar coisas que gostamos de fazer. É preciso deixar de lado nosso ego – e isto, para muitos, é o mais difícil de fazer. O Tzemach Tzedek, o terceiro Rebe de Lubavitch, ensinava: “As crianças são felizes e os adultos, infelizes, porque as crianças preferem ser felizes a estar certas, ao passo que os adultos preferem estar certos a estarem felizes”. É por isso que muitos casais carecem de paz e felicidade, pois cada cônjuge quer estar com a razão o tempo todo.

Vale a pena ouvir o conselho do famoso rabino e psiquiatra norte-americano, o Rabi Dr. Abraham J. Twerski: “Se você está certo o tempo todo e seu cônjuge está errado o tempo todo, significa que você está casado com um perdedor. E quem quer estar casado com um perdedor?”.

Intimidade e limites
                                        
Como viver realmente feliz? Quando construímos uma vida atraente, todos nós queremos dela participar. Quando um lar transborda não só de felicidade, mas de júbilo e entusiasmo, todos os obstáculos podem ser vencidos. Mas mesmo as relações mais felizes necessitam de limites para que possam perdurar.

Um dos conceitos fundamentais da Cabalá se refere às Sefirot, que são energias Divinas utilizadas para criar o mundo e que continuam a sustentá-lo. A alma humana também é composta dessas emanações Divinas. Há três que são Sefirot intelectuais e sete que são emocionais. A duas primeiras emocionais são Chessed e Guevurá – que são livremente traduzidas como bondade e severidade. Os místicos ensinam que todo relacionamento saudável precisa dessas duas forças opostas. Não pode haver bondade sem disciplina, nem disciplina sem bondade.

Quando esses conceitos são aplicados ao casamento, significa que o amor precisa ser restringido. Apesar da união, há que haver limites entre marido e mulher, senão a relação de respeito não se desenvolverá nem perdurará. A verdadeira intimidade não significa saber apenas como amar, mas também respeitar. Se há muito amor e pouco respeito, o casamento desandará. Isto é válido para qualquer relacionamento: entre pais e filhos, professores e alunos, entre o homem e D’us.

Outro conceito que é central a qualquer relacionamento, especialmente para o casamento, é a diferença entre direitos e deveres. A expressão “minha” mulher e “meu” marido não significa que os cônjuges são propriedade, um do outro, e, portanto, podem fazer ou dizer o que acharem por bem. Nenhum ser humano “possui” o íntimo do outro. Quando marido e mulher creem possuir o outro, os limites são ultrapassados e, por fim, o próprio relacionamento se desfará. “Meu” cônjuge significa que eu tenho obrigações com o outro, não direitos ou posse sobre o outro. Significa que é meu dever cuidar, fazer o melhor para atender suas necessidades e tentar fazê-lo feliz.

O mandamento de pureza familiar – época do mês em que marido e mulher não podem ter intimidade física – reafirma os princípios de limites e de respeito. Este mandamento da Torá pode parecer inconveniente, mas como os demais, foi-nos dado em nosso benefício. Há várias razões biológicas e relacionadas à saúde para um casal não ter intimidade durante o período da Nidá feminina. O ciclo menstrual é uma transformação para a mulher e, durante essa época do mês, ela necessita de espaço para si própria. Quando um casal consegue respeitar esse ritmo biológico – criado e ditado por nosso Criador – marido e mulher têm condições de manter acesas as chamas de seu relacionamento e, ao mesmo tempo, preservar o respeito e os limites entre si, algo que jamais deve ser ultrapassado.

O compromisso com o casamento

A maioria das pessoas percebe que para ter sucesso em tudo na vida a pessoa necessita dedicar tempo e esforço ao que quer. Não se pode ser um erudito sem estudar, não se pode ser um atleta sem treinar, não se pode ter um negócio bem sucedido sem dedicar-se ao mesmo. De igual maneira, não se pode ter um casamento feliz se não se é comprometido com o mesmo. As pessoas encontram tempo e energia para tanta coisa – trabalho, hobbies, atividades prazerosas, mas quanto tempo dedicam a seu casamento? Quanto cada um de nós investe em seu relacionamento? Mas não se trata apenas de quanto tempo se passa com o cônjuge, mas da qualidade desse tempo. Quando marido e mulher passam tempo com o outro, eles têm que estar presentes, não apenas fisicamente, mas também espiritualmente. E, se escolhermos nossos piores momentos para estar ao lado de nosso cônjuge – quando estamos cansados, aborrecidos, preocupados – esse relacionamento não florescerá.

Estar comprometido com o seu casamento significa, também, ser generoso com o cônjuge. A generosidade é o maior mandamento da Torá, aplicável a todos e, mais ainda, à nossa família. Se alguém tem um relacionamento comercial de valor – um grande cliente, por exemplo – fará o impossível para preservá-lo. Não quer perder o cliente. Somos atenciosos com as necessidades de nossos clientes ; atentamos para não perder a paciência ao falar com eles, tentando agradá-los para que não nos deixem por outro comerciante. Nosso cliente mais importante, nosso maior investidor é nosso cônjuge. É ele quem merece nossa maior atenção e respeito. Se as pessoas tratassem seus esposos como tratam de seus grandes clientes, os casamentos raramente fracassariam...

Se os atos de generosidade são instrumentais para construir e manter um casamento feliz, os atos de crueldade são uma forma certa de arruinar qualquer relacionamento. Quando os cônjuges se desrespeitam e se insultam, especialmente em público, eles estão envenenando seu casamento. Humilhar alguém em público, segundo o Talmud, é o mesmo que assassiná-lo. Isto se aplica a todos, inclusive aos membros de uma família. Obviamente os cônjuges podem apontar os erros um do outro, mas isto deve ser feito na privacidade e em tom respeitoso. E se um tiver que criticar o outro, devem fazê-lo de maneira carinhosa, nunca se esquecendo de mencionar as boas qualidades do outro. Se tiver que criticar alguém, teça elogios a esse alguém, no mesmo momento. Uma crítica deve ser acompanhada por, no mínimo, quatro elogios.

Todos nós merecemos um relacionamento feliz e amoroso, mas, mesmo assim, tantos casamentos estão ruindo. A razão para tal não é o fato de ser necessário seguir regras complicadas para que nosso casamento dê certo. É bastante simples o que temos que fazer. Sabemos o que promove e o
que arruína um relacionamento. O problema é nos empenharmos em fazer o casamento funcionar.

O casamento é, acima de tudo, um compromisso entre duas pessoas. E é a paixão desse compromisso o que leva a uma vida feliz para sempre. Os místicos ensinam que o relacionamento entre marido e mulher simboliza o relacionamento do homem com D’us. Se o casamento se baseia em compromisso, amor e respeito, certamente levará ao verdadeiro júbilo e felicidade entre os esposos. E quando o casal é forte, a família é fortalecida. Quando as famílias são fortalecidas, também o é a sociedade e o mundo, em geral. Oramos e esperamos o dia em que o amor e a luz, o júbilo e a satisfação se tornem a realidade de todos os seres humanos.

O Rabino Gabriel Aboutboul é rabino atuante da Sinagoga Agudat Israel e integra o corpo de rabinos da Sinagoga Beit Lubavitch, no Rio de Janeiro.