Morashá
A FORÇA DO ESPÍRITO Dr. Abraham J. Twerski

A FORÇA DO ESPÍRITO

O Dr. Abraham J. Twerski é o fundador e diretor-médico emérito do Centro de Reabilitação Gateway, na Pensilvânia, Estados Unidos. A entidade, especializada no tratamento de dependentes químicos, é citada por publicações americanas como um dos doze melhores centros para tratamento anti-álcool e drogas do mundo. Ele é, também, um dos fundadores do JACS (Jewish, Alcoholics, Chemically Dependent Persons and Significant Others).

Edição 32 - Abril de 2001


Twerski tem 31 livros publicados, dois deles com ilustrações de Charles M. Schulz, que trazem os personagens Charlie Brown e Snoopy. É o fundador do primeiro programa da Pensilvânia para enfermeiras com problemas de álcool ou drogas, denominado Nurses Off Chemicals - Enfermeiras Longe de Substâncias Químicas. Também participou do Conselho Governamental sobre Drogas e Abuso de Álcool e foi presidente do Comitê da Sociedade Médica da Pensilvânia sobre Médicos Incapacitados. Em 1997, recebeu a maior honraria da Sociedade Médica da Pensylvania, o The Distinguished Service Award, por sua dedicação no combate à dependência química. Em 1988 foi agraciado pela Fundação Filantrópica Católica com o prêmio Charitas.

No entanto, antes de se tornar um dos maiores especialistas dessa área, o dr. Abraham J. Twerski, ordenou-se rabino. Descendente de quarta geração do líder chassídico Baal Shem Tov e filho de um rabino, Twerski um dia percebeu que queria fazer algo mais, durante sua vida, do que oficiar serviços religiosos e cerimônias de Bar Mitzvá. Sua experiência como líder espiritual já lhe vinha mostrando que, às vezes, quando as pessoas procuram um rabino para conversar, querem algo mais. Na verdade, estão em busca de alguém que as ouça e que procure entendê-las, uma espécie de psicólogo. E foi no estudo da medicina e da psiquiatria que foi buscar as respostas para tentar compreender e ajudar os indivíduos, sem no entanto, abrir mão, a nenhum instante, de sua formação religiosa e de sua herança judaica.

Ao contrário, o Rabino Twerski, já então com o título de médico, fez de sua bagagem espiritual um dos principais instrumentos de seu dia-a-dia profissional. Sua crença no ser humano e em sua capacidade de superar desafios, desde que encarados de frente, são os princípios que norteiam o seu trabalho junto a dependentes de álcool e de drogas. Sua fé em que a vida espiritual dos indivíduos – não importa qual a sua religião é fundamental para a recuperação dos dependentes, é um dos pilares que sustenta, há décadas, suas teorias. A maior prova da eficiência destes conceitos são os resultados obtidos pelo Centro de Reabilitação Gateway e em outras instituições que usam o seu método.

Em entrevista concedida ao Projeto Morashá, algumas horas após a sua chegada a São Paulo, recentemente, Twerski falou um pouco sobre os seus primeiros anos como médico. “Logo percebi que nem a universidade, nem mesmo a especialização em psiquiatria, iriam mostrar-me qual o melhor caminho para lidar com os dependentes químicos. Isso era algo que eu iria aprender gradativamente, no contato com os pacientes, através de longas conversas, tentando descobrir e entender as razões que os haviam levado ao vício. Mesmo sem nem sempre entendê-los, percebi que era muito importante ouvi-los, para então tentar conhecer o porquê e ajudá-los a trilhar o caminho da volta”, lembra Twerski.

Através do contato com os pacientes, o rabino psiquiatra reafirmou sua certeza de que o caminho da sobriedade - ou o fim de qualquer dependência - passa necessariamente pela motivação dos indivíduos e pelo seu desejo autêntico de mudança. Sua crença nesse princípio fortaleceu-se após um contato mais estreito com a Associação Alcoólicos Anônimos (AAA), em 1961, uma entidade de auto-ajuda criada em meados de 1930 por duas pessoas que não conseguiam deixar de beber.

“Eu sempre acreditei que a maioria das pessoas possui personalidade, força e recursos suficientes para lidar com os desafios da vida. Se falhamos, é porque não temos consciência da nossa capacidade e de nossos recursos. No meu contato com os pacientes, sempre trabalho no sentido de fazer com que descubram sua força e também mostrar-lhes que, às vezes, é preciso buscar uma ajuda externa com pessoas com as quais possam compartilhar suas experiências. Com isso, sentem-se iguais e não inferiorizados por estarem nessa situação. Instituições como a AAA desempenham um papel muito importante neste contexto, pois, além de estimularem a auto-ajuda, enfatizam a igualdade entre todos os membros. Lá, todo mundo é igual, todo mundo tem um problema que pode resolver e todo mundo precisa de ajuda. Isto se chama ‘compartilhar’ e, de modo geral, as pessoas dependentes são solitárias. O fato de compartilhar traz resultados positivos”.

Segundo Twerski, no entanto, o processo de recuperação deve ser ordenado para que os objetivos sejam atingidos. Foi dentro deste espírito que elaborou um programa de “doze passos” que conduz a uma vida mais feliz e realizada. O método não possui nenhuma base religiosa específica, porém tem um componente espiritual, já que a oração e fé são essenciais para o sucesso do tratamento. “Acho fundamental que as pessoas acreditem em alguma coisa, que tenham crenças e procuro transmitir isso aos meus pacientes. Ao pensar em cada uma das etapas do programa de recuperação, eu tinha um objetivo definido: ajudar os indivíduos a corrigir sua visão distorcida da realidade e a obter uma conscientização plena da mesma e de si próprios”, ressalta o rabino psiquiatra.

Ele falou, também, sobre o papel da família e do contexto social no processo de recuperação dos dependentes do álcool e das drogas. Segundo Twerski, é muito comum que as pessoas mais próximas dos viciados, inconscientemente, mascarem a realidade, preferindo ignorar a gravidade da situação. “Este é um comportamento que só prejudica a todos. Por mais doloroso que seja, é preciso enfrentar a situação e fazer com que o dependente confronte a si mesmo e àqueles com os quais convive. O relacionamento sincero e aberto entre todos os envolvidos, fazendo inclusive com que o dependente ouça e sinta como seu comportamento afeta e preocupa os demais, é um dos pontos de partida para o processo de recuperação. Sabemos que isto é muito difícil, principalmente porque, em geral, o dependente não admite que tem o problema e não reconhece sua impotência diante do elemento de dependência. Se conseguirmos fazer com que ele aceite esse fato, o caminho já começou a ser trilhado”.

O caminho, no entanto, enfatiza Twerski, é longo e penoso e não termina nunca, pois cada dia é um novo dia e os indivíduos não devem jamais se desviar de suas metas. É neste processo constante de busca da sobriedade que, afirma ele, a crença na força interior, uma vida espiritual rica e a fé são fatores de grande importância. Em seu livro “Despertando na hora certa”, ele afirma que “as doze etapas do programa são como degraus de uma escada que devemos estar constantemente subindo, sempre reexaminando e colocando tudo em discussão. Assim, percebemos tudo o que há de melhor em nós e damos o máximo possível de nós mesmos”.

Este programa, segundo Twerski, pode ser aplicado a qualquer tipo de dependência, não apenas química, pois tudo que passa de um determinado limite e que não pode mais ser controlado pelo indivíduo torna-se um vício. Quando questionado se até a Internet não se encaixa nisto, respondeu que provavelmente sim e mencionou o fato de ter descoberto, recentemente, um site sobre este tema - netaddiction.com. “O ponto fundamental quando se analisa a questão da dependência é justamente o que se refere à falta de controle. Ou seja, quando o elemento da dependência exerce tanto controle sobre os indivíduos que provoca mudanças significativas de comportamento, como agressividade e até lapsos de memória. É aí que se deve estar atento e não relevar qualquer mudança”.

Como evitar comportamentos autodestrutivos

Especial para a Revista MorasháMeu envolvimento no tratamento de alcoólatras tem sido uma forma de aprendizado muito valiosa. Indivíduos que levam a sério sua recuperação, e que fazem grandes esforços para eliminar em seu caráter as falhas que marcaram suas história com a bebida, podem ser vistos como uma rica fonte de mussar - disciplina. São exemplos vivos do que deve se fazer para evitar comportamentos auto-destrutivos.

Se substituirmos a palavra avera - transgressão - por álcool, podemos ver que existe uma similaridade muito grande entre um programa efetivo de recuperação para alcoólatras e muitos dos ensinamentos do mussar.

É muito comum, por exemplo, ouvir de um alcoólatra que conseguiu se recuperar, a afirmação de que “na vida não há coincidências. Coincidências nada mais são do que milagres nos quais D’ us quis ficar anônimo”.

A transição do alcoolismo para a sobriedade requer que o individuo aceite o quanto ele tem sido impotente perante certos aspectos de sua vida. Ao se conscientizar de sua própria falta de poder, ele poderá então aceitar a existência de uma Força Superior.

Ao mesmo tempo em que temos livre arbítrio para termos comportamentais e morais, devemos compreender que existem muitas coisas que são obras de D’us. Muitos acontecimentos em nossas vidas parecem ser “fenômenos naturais”, mas na realidade são atos de D’us nos quais Ele prefere permanecer anônimo.

A Torá é repleta de milagres, mas é importante notar que nem todos são comemorados. Não temos uma festa para celebrar a ocasião na qual o profeta Yoshua parou o sol e a lua, para que o Povo de Israel pudesse continuar guerreando numa sexta à noite, sem violar o Shabat. Mesmo Pessach é celebrada como a Festa da Liberdade, e não como a Festa dos inúmeros milagres descritos pela Torá.

Chanucá e Purim são celebradas como as Festas dos Milagres porque os acontecimentos de ambas ocasiões podem ser facilmente interpretados como eventos naturais. Afinal, não há nada de excepcional na história de um rei bêbado se livrar de sua rainha e casar-se com uma mulher mais jovem que acaba defendendo a causa de seu povo. O triunfo dos Macabeus, celebrado em Chanucá, pode ser visto como o sucesso de guerrilhas numa luta. Mas, estes “acontecimentos naturais” devem ser compreendidos como intervenções Divinas. Mesmo se D’us preferiu permanecer anônimo em tais situações, não devemos permitir que assim sejam considerados.

Você deve estar se perguntando por que um psicanalista está escrevendo sobre um assunto que a rigor deveria ser deixado para os rabinos? Porque enquanto há ansiedades patológicas que requerem tratamento médico ou psicológico, também há muitos tipos de estresse que são decorrentes da realidade que nos cerca. Estes são acompanhados por ansiedade e tensão que na realidade são respostas normais para eventos ou acontecimentos que nos incomodam, nos pressionam e nos estressam. São condições normais que não exigem “tratamento”. Este tipo de ansiedade pode ser atenuado pelo apoio de amigos com os quais podemos contar, e pela segurança que podemos ter através da fé e da confiança em D’us (emuná e bitachon). Devemos sempre lembrar que D’us está “tomando conta” e que Ele é Infinitamente Bom.

Um paciente cuja insônia era resultante de uma situação que o deixava muito estressado me disse: “Eu finalmente consegui dormir quando percebi que D’us está sempre acordado, e que não há necessidade que ambos façamos o mesmo”.

Tranqüilizantes são remédios e estes só servem em caso de doenças. Porém, quando as realidades de nosso cotidiano nos deixam insatisfeitos e podem nos causar ansiedade e tensão, não devemos recorrer imediatamente a medicamentos.

Talvez, confiar em D’us e se apoiar em um amigo que nos ouça e que compartilhe conosco nossa angústia, não sejam “tratamentos”, mas acreditem, podem ser atitudes de extrema eficácia.