Morashá
A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE Foto Ilustrativa

A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE

Chanucá, a festa das luzes! Quem diria, uma reviravolta na história de nosso povo... Esta não foi a primeira nem a última vez que o povo de Israel, encontrando-se em sérios apuros e aparentemente sem nenhuma saída, é salvo e volta, novamente, a alcançar sua glória e seu esplendor.

Edição 31 - Dezembro de 2000



É desnecessário citar outros exemplos ao longo de nossa história; basta relembrar em que condições se encontrava nosso povo, há uns 60 anos, e ver como estamos hoje. Por isto devemos sempre lembrar que, apesar de todos os sofrimentos e calamidades que possam se abater sobre nós, a regra é uma só: nunca entrar em desespero! Certa vez, um rei pediu a seu conselheiro pessoal que lhe trouxesse algo que o impedisse de se orgulhar num momento de sucesso e, por outro lado, de cair no desespero em um momento de dificuldade e infelicidade. O sábio trouxe ao rei um anel no qual estavam gravadas as seguintes palavras: "Também isto irá passar...". Quando o rei era bem-sucedido e o sucesso parecia segui-lo por toda a parte, o rei continha seu entusiasmo e orgulho, pensando que aquilo também não iria durar para sempre. Do mesmo modo, quando passava por uma dificuldade ou aflição, lembrava das palavras do anel e pensava "isto logo passará". Assim, encontrava forças para enfrentar as dificuldades da vida e continuar seu va-lioso trabalho.

Um exemplo do Talmud para ilustrar como a confiança na Bondade Divina pode salvar uma pessoa é a história do rei Chizkiahu. O rei ficara doente e o profeta Yeshaiahu, por ordem Divina, foi visitá-lo. (É uma grande mitzvá visitar os doentes).

"Como sua Majestade está-se sentindo?", perguntou o profeta.
"Nada bem", respondeu o rei, "estou ficando cada dia mais fraco e os médicos não conseguem descobrir uma cura para minha doença".
"Vim para trazer-lhe uma Mensagem Divina", disse Yeshaiahu. "Faça seu testamento pois sua morte está próxima. Você não só morrerá neste mundo como também não terá parte no Mundo Vindouro".
"O que fiz para ser castigado com tanta severidade?", perguntou o rei.
"Você sem dúvida é considerado um Justo, porém o Todo-Poderoso é mais rigoroso com os Justos, punindo-os por pequenas falhas. No seu caso, você está sendo punido por não ter-se casado e cumprido com a mitzvá de procriar."
"Mas, graças à inspiração Divina, eu vi que meus filhos iam ser perversos e preferi morrer sem filhos a ter filhos que fossem agir contra a vontade de D'us".
"Mas você não tem autorização de interferir nos planos Divinos", disse Yeshaiahu. "Nós, seres humanos, devemos cumprir a nossa obrigação e D'us fará o que achar necessário".

O rei, arrependido e com lágrimas nos olhos, pediu então ao profeta sua filha em casamento. Quem sabe, combinando os méritos dos dois, o Decreto Divino fosse alterado. Mas o profeta recusou, pois o decreto já tinha sido outorgado e não havia como mudar a situação.

O rei, então, pediu ao profeta terminar sua profecia e se retirar. Lembrara o que o rei David ensinara: mesmo com uma espada afiada encostada no pescoço a pessoa nunca deve perder a esperança na Misericórdia do Todo-Poderoso.

O Rei Chizkiahu virou o rosto para a parede, e começou a rezar com todo fervor, conseguindo desta forma abolir o decreto e fazer com que D'us lhe concedesse mais quinze anos de vida.

Assim como a esperança e a fé podem realizar milagres, o desespero faz com que o homem cometa os maiores pecados. Pois quando alguém, em um momento de dificuldades, entra em desespero, torna-se extremamente vulnerável, tanto emocional quanto moral e espiritualmente. Somente se ele lembrar que há esperanças e que D'us Misericordioso, com a Sua infinita bondade, pode mudar os mais rigorosos decretos, o homem consegue atrair para si uma nova vitalidade e uma força espiritual que o ajudam a ultrapassar todos os obstáculos.

O livro Sichot Mussar, analisando de que modo a esperança pode salvar o homem enquanto o desespero pode levar ao abismo, explica que há uma diferença básica entre o pecado da idolatria e os demais.

Dizem nossos sábios que a Torá não foi entregue aos anjos, mas sim aos homens, seres falíveis. Isto significa que qualquer homem, até mesmo um Justo, pode errar. Mas o pecado da idolatria é diferente, já que segundo nossos sábios é impossível que um judeu pratique a idolatria "de um dia para o outro".

Diz o Talmud (Shabat 105: 2): "Assim é o caminho do instinto mau, primeiro convence a pessoa a fazer um determinado erro; no dia seguinte, um outro, até que acaba convencendo-o a crer no poder da idolatria". Isto porque no que diz respeito à idolatria, o processo de decadência espiritual é lento, não imediato.

Porém, quando o povo de Israel cometeu o pecado do bezerro de ouro, as coisas foram surpreendentemente diferentes.

O Todo-Poderoso disse a Moisés: "...Eles (o povo de Israel) desviaram-se rapidamente do caminho que Eu lhes ensinei e fizeram uma estátua de bezerro em ouro...".

D'us está referindo-se ao povo que recebeu no Monte Sinai a Torá e presenciou pessoalmente a Revelação de D'us - algo único na história da humanidade. Como puderam cair tanto espiritualmente, ao ponto de adorar uma estátua? E tão rapidamente? O Talmud responde afirmando que o desespero levou-os a adorar o bezerro de ouro.

O Talmud (Sha-bat 89:1) explica que na hora que Moshé Rabe-nu subiu ao Monte Sinai para receber as Tábuas da Lei, ele comunicou ao povo de Israel que no final de quarenta dias, ao meio-dia, estaria de volta. Quando chegou o meio-dia e Moisés demorava em retornar, Satan provocou uma escuridão e um denso nevoeiro de confusão e dúvida no mundo.

"Onde está Moisés?" perguntou Satan ao povo de Israel.
"Subiu ao monte para receber as Tábuas da Lei", respondeu o povo.
"Mas já passou da hora marcada e Moisés ainda não voltou; sem dúvida, ele deve ter falecido e nunca mais voltará", disse Satan.

E como para comprovar a veracidade de suas palavras, fez com que o povo visualizasse uma imagem na qual os anjos carregavam Moisés sem vida. Ao ver aquilo, o povo de Israel entrou em desespero. O homem que os libertara da escravidão do Egito e através do qual D'us realizara tantos milagres e maravilhas não se encontrava mais entre eles. O que seria deles e de seus filhos dali em diante? Quem iria guiá-los pelo árduo deserto? Quem iria levar o povo até a Terra Prometida? Eis que eles tinham acabado de ver os anjos carregando Moisés, morto. Afinal, qual seria a sorte do povo a partir de então? Desesperados e abalados pelo suposto desaparecimento de seu líder, o maior entre os profetas, assustados pela escuridão que pairava sobre o mundo naquele momento, o povo de Israel tornou-se vulnerável.

Somente em situações de desespero como esta, Satan pode atacar e derrubar a pessoa de uma maneira "não-convencional". Em momentos parecidos, o "instinto mau" que existe em cada homem não precisa mais instigá-lo para cometer atos negativos aos olhos de D'us. Não precisa mais sugerir ao homem seguir caminhos que o afastem de D'us, até chegar ao ponto de conseguir conven-cê-lo a adorar ídolos. Em situações de desespero a pessoa se torna tão vulnerável que já decai rapidamente para os níveis espirituais mais baixos, até chegar à idolatria.

Este princípio de quão destrutivo pode ser o desespero é encontrado repetidas vezes em nossos livros. Vejam este segundo exemplo:

A Torá, em Gênese capítulo 4, relata a conversa entre Caim e seu irmão Abel. O targum Yonatan Ben-Uziel explica que a intenção de Caim era dizer que "não existe julgamento nem juiz, não há mundo vindouro, tampouco recompensa e punição..." Isto é bastante difícil de entender, pois até então Caim era um homem de grande fé e adorava D'us.

Segundo Nachmânides, Caim havia conseguido compreender o segredo profundo dos sacrifícios e resolveu, de livre e espontânea vontade, fazer uma oferenda a D'us. Como esse homem poderia, de súbito, negar os princípios da fé?

Na realidade, tudo isso aconteceu logo após D'us ter aceito o sacrifício de Abel e rejeitado a oferenda de Caim. Quando o Todo-Poderoso rejeitou o sacrifício de Caim, este entrou em desespero total.

O desespero afeta de tal maneira que pode levar o mais elevado entre os homens até aos níveis mais baixos, até mesmo ao ponto de negar a própria fé.

De modo geral, nossa história e particularmente a festa de Chanucá, fazem-nos lembrar que no final de todo túnel, até o mais escuro, sempre há uma luz a brilhar.