Morashá
Um filho querido Foto Ilustrativa

Um filho querido

Em Rosh Hashaná, como em toda festa judaica, é lida, após a leitura da Torá, a Haftará – um trecho de um dos Livros dos Profetas. A Haftará trata de um tema relevante ao dia festivo e transmite uma mensagem do eterno para todo o povo judeu em toda geração.

Edição 81 - Agosto de 2013


A Haftará lida no segundo dia de Rosh Hashaná é uma passagem do Livro de Jeremias, que se conclui com a seguinte mensagem que D’us, através do profeta, transmite ao Povo Judeu: “Acaso Efraim não é Meu filho querido? Não é a criança com quem Me deleito? Pois por quantas vezes falo a respeito dele, tantas vezes dele Me recordo com ternura. Todo o Meu Ser por ele se comove; certamente dele terei compaixão – diz o Eterno” (Jeremias, 31:19).

É significativo que essa passagem, particularmente em seu último verso, seja lida em um dia muito especial – o Dia do Julgamento, quando tantos judeus acorrem às sinagogas para orar a D’us para que Ele os inscreva no Livro da Vida. Mas a que, exatamente, se refere esse verso? Se é uma mensagem a ser transmitida a todo o Povo Judeu, por que a menção específica a Efraim?

E, de fato, quem é Efraim? Ele foi um símbolo do Reino de Israel, um dos dois estados judeus que existiram na Terra de Israel antes da destruição do primeiro Templo Sagrado de Jerusalém. Efraim é sinônimo do Reino de Israel porque entre as Dez Tribos que o compunham, essa tribo era a líder.

O Reino de Israel era muito maior do que o outro estado judeu da época – o Reino de Yehudá. Israel também era uma importante potência militar e política. Em certa época, suas fronteiras se estendiam “desde a entrada de Hamat até o mar nas Planícies” (Reis II, 14:25). Hoje, isso seria do Norte da Síria ao Mar Morto.

Grande em área e poderoso, o Reino de Israel era, no entanto, um estado politicamente afundado em corrupção. Era comum que o rei no poder fosse assassinado por um general que, então, subiria ao trono. O novo rei governaria segundo sua vontade e, se sobrevivesse no poder, deixaria um herdeiro que, em geral, seria um inútil, que, cedo ou tarde, seria deposto por um general. Isso resume a história política do Reino de Israel – um estado separatista sem qualquer legitimidade política.

Muitas coisas duras são ditas no Tanach sobre o Reino de Israel e seus habitantes. Seus líderes eram corruptos e fraudulentos e seus habitantes cometiam todo tipo de pecado. Contudo, o Reino de Israel não era um estado secular: tal denominação não existia à época. Um judeu podia ser rotulado de idólatra, herético, negador, mas o conceito de ser um “judeu secular” não existia. À sua maneira, o Reino de Israel era um estado religioso – apesar de suas faltas, apesar de tudo, era um estado judeu. O povo adorava ídolos, mas guardava o Shabat. Eles transgrediam muitos mandamentos da Torá, mas eram meticulosos no respeito a outros. Talvez fosse um estado religiosamente incoerente com uma clara personalidade judaica e uma autodefinição judaica.

O outro estado judeu da época, o Reino de Yehudá, era muito diferente do Reino de Israel. Incluía Jerusalém e seu Templo Sagrado. Esse reino era o estado mais religioso. Contudo, também era corrupto e seus habitantes não eram muito melhores do que os judeus que viviam no Reino de Israel. Por exemplo, ocorreu certa vez que o Rei de Yehudá comprou ídolos da Assíria e o Cohen Gadol, o Sumo Sacerdote, os colocou no Templo Sagrado (Reis II, Cap. 16). Apesar de toda a religiosidade exteriorizada de seus habitantes, o que os profetas falavam deles não era muito melhor do que o que diziam dos cidadãos do Reino de Israel.

Apesar do fato de viverem em dois reinos separados, os cidadãos de Israel e de Yehudá nem sempre se davam bem. Havia muitos conflitos entre ambos. Às vezes tudo se resumia ao mútuo atirar de pedras pela fronteira; mas, em outras, havia atos de agressão, guerras até. Em um conflito que ficou famoso, o Reino de Israel conquistou Jerusalém e derrubou as muralhas da cidade. Em outro, venceu uma batalha decisiva contra Yehudá, fazendo um grande número de prisioneiros. Mas, acabaram vestindo e calçando os cativos e despachando-os para sua casa (Crônicas II, Cap. 28). Por que? Porque apesar de lutarem uns contra os outros, tendo todo o tipo de diferenças e contas a acertar, os judeus de Israel e de Yehudá tinham um senso de parceria – o senso de que somos todos judeus, de que somos uma grande família e que continuamos irmãos mesmo se lutamos entre nós. Portanto, mesmo quando guerreavam entre si, tais conflitos iam apenas até um certo limite.

Inicialmente, o Reino de Israel foi formado por motivos políticos e econômicos. Com o passar do tempo, porém, Israel decidiu que desejava se separar de Yehudá e Jerusalém. Substituiu o Templo Sagrado por seus templos e altares, apesar de isso ser terminantemente proibido pela Torá.

Por volta do ano 720 a.E.C., o Reino de Israel foi invadido pela Assíria e sua população foi exilada. Os exilados são conhecidos como as Dez Tribos Perdidas de Israel.

O Livro de Crônicas, uma das obras que constitui o Tanach, relata um incidente revelador ocorrido após o colapso do Reino de Israel. Ainda havia judeus que lá viviam – mas estavam perdidos e sem esperança. O rei de Yehudá, Iehezkiáhu, um grande rei, decidiu agir: “Depois disso, Iehezkiáhu enviou mensageiros por todo Israel e Yehudá, e escreveu cartas a Efraim e Menashé para que viessem à Casa do Eterno, em Jerusalém, a fim de fazerem o sacrifício de Pessach ao Eterno, D’us de Israel” (Crônicas II, 30:1). O Rei de Yehudá envia emissários ao Reino de Israel, conclamando: “Voltem a casa. O Templo está aberto a todos vocês. Venham, rogo-lhes”. A reação: “E os mensageiros passaram de cidade em cidade pela terra de Efraim e Menashé, até Zevulun, porém riram-se e zombavam deles” (Crônicas II, 30:10).

Os mensageiros do Rei Iehezkiáhu foram aos sobreviventes do Reino de Israel, das tribos de Efraim, Menashé, Zevulun e das demais tribos, e a resposta que receberam foi: “Queres nossa presença no Templo em Jerusalém? Não temos interesse em fazê-lo”. E, de fato, não foram ao Templo Sagrado.

O Profeta Jeremias

Já vimos quem era Efraim: o representante do Reino de Israel. E quem foi Jeremias? Foi um dos profetas mais importantes na História Judaica. Mas era, também, profundamente impopular – talvez mais do que qualquer outro. Foi difamado, preso e fustigado; sofreu maus-tratos, foi julgado e por pouco escapou com vida. Ele disse ao Povo Judeu o que eles não queriam ouvir: sobre eles e sobre o que aconteceria com eles se não melhorassem sua conduta.

É importante notar que Jeremias, como a maioria dos profetas, não detinha poder político. Eles não eram reis nem membros da corte. Não detinham cargos públicos nem eram eleitos. E, muito triste, a maioria dos profetas não eram reconhecidos durante sua vida. Contudo, suas palavras ficaram gravadas para a posteridade. Kierkegaard disse, certa vez: “O tirano morre e termina seu governo; o mártir morre e então se inicia seu governo”. Isso é válido para os profetas judeus, especialmente para Jeremias.

A intenção do profeta não era prever o futuro. O mundo antigo estava repleto de pessoas que o tentavam fazer. A Torá bane quem “pratica adivinhações ou magias, interpreta agouros, faz bruxarias ou feitiços, é médium ou espírita ou consulta os mortos” (Deut. 18: 10-11). Condena tais práticas por muitas razões, entre as quais por acreditar na liberdade do homem: ensina que com o arrependimento e bons atos, qualquer decreto negativo pode ser revogado. Se um profeta faz uma profecia negativa que não se realiza, não significa que seja um falso profeta. Significa que conseguiu persuadir as pessoas a melhorar seu comportamento, e essa mudança anulou o decreto negativo.

De acordo com o judaísmo, o futuro depende de nós – isto é, das escolhas que fazemos e de nossos atos. O profeta é um porta-voz de D’us e nada mais. O que ele faz é transmitir uma mensagem: prevê o futuro com um único objetivo: – transmitir o alerta Divino do que acontecerá se as pessoas não mudarem seus modos para melhor.

Os profetas ensinaram que se o Povo Judeu fosse fiel à sua missão, a seu pacto com D’us e à Sua Torá, floresceria. Caso contrário, fracassaria: sofreria derrotas e seria exilado. Era isso o que Jeremias nunca se cansava de dizer a seus contemporâneos, e por isso era tão odiado.

Jeremias castigava o povo tanto pelos pecados que cometiam contra seus semelhantes quanto pelos que cometiam contra D’us. Ele não tinha interesse na política do Estado, mas, como os demais verdadeiros profetas de D’us, nunca se cansava de dizer ao povo que se tivessem fé em D’us e uns nos outros, nenhuma força na Terra seria capaz de derrotá-los. Mas, se não a tivessem, nenhuma força seria capaz de os salvar. Como Jeremias os alerta, eles descobrirão, muito tardiamente, que seus falsos deuses oferecem falso conforto.

Jeremias foi o mais atormentado dentre os profetas. Foi o autor de um dos livros do Tanach, o Livro de Eichá (“Lamentações”), que recitamos em Tishá b'Av. Em suas “Lamentações”, Jeremias grita: “Sou o homem que viu a aflição”. Ele falava depois da grande Catástrofe: a destruição do primeiro Templo Sagrado e de Jerusalém. Ele não tinha simplesmente lido ou ouvido falar da desgraça; ele a testemunhara. Ele sofrera durante todo o seu desenrolar.

A mensagem da Haftará

À luz do que sabemos acerca de Efraim e do profeta Jeremias, a Haftará que é lida no segundo dia de Rosh Hashaná é comovente e estimulante.

Sabemos que Jeremias não mede nem adoça as palavras. Ele não se expressa de forma diplomática e tem coisas duras a dizer não apenas a Israel, mas também a Yehudá. Ele sofreu nas mãos de sua própria gente. Ele alertou o povo e eles fizeram pouco caso de suas advertências; a tragédia sobreveio. Jeremias tinha todo o direito de perder a confiança no Povo Judeu e de ficar desesperançado acerca do futuro. Contudo, apesar de tudo o que viu e vivenciou, ele era um profeta da esperança. Ele é o homem que disse que o Povo de Israel seria eterno como o sol, a lua e as estrelas (Jer. 31). Foi ele quem, enquanto os babilônios sitiavam Jerusalém, comprou um campo como um gesto público de fé de que os judeus retornariam do exílio: “Pois assim disse o Senhor das Legiões, o D’us de Israel: Ainda se comprarão casas, campos e vinhedos nesta terra!” (Jeremias 32).

Na passagem escolhida como Haftará do segundo dia de Rosh Hashaná, Jeremias novamente transmite a promessa Divina ao Povo Judeu de que eles seriam redimidos: “Aquele que espalhou Israel, Ele os reunirá e os guardará como um pastor faz com seu rebanho. Pois o Eterno terá redimido Jacob… Eu transformarei seu pranto em júbilo e Eu os confortarei e alegrarei em lugar de sua tristeza”.

Jeremias continua: “Assim falou o Eterno: Uma voz se ouviu nas Alturas: um lamento, um pranto amargo – Rachel chora por seus filhos, ela se recusa a ser confortada por seus filhos, pois eles se foram”.

Na simples interpretação desse verso, Rachel simboliza as Dez Tribos de Israel que constituíam o Reino de Israel, pois sua tribo líder, Efraim, descendia de Rachel.

Jeremias transmite uma mensagem de esperança e consolo aos filhos de Rachel: “Assim disse o Eterno: Contenha sua voz para não chorar e seus olhos para não verter lágrimas; pois há recompensa para seus feitos – e eles voltarão da terra inimiga. De fato ouvi Efraim lamentar-se: Tu me castigaste e eu aceitei Teu castigo… Chama-me de volta e eu voltarei, pois És o Eterno, meu D’us”.

Essa Haftará é especialmente relevante para Rosh Hashaná por ser um chamado para que todos os judeus voltem a Casa do Pai. Jeremias, falando em nome de D’us, não hesita em repreender duramente o Povo Judeu. No entanto, há uma coisa que nem ele nem outro profeta qualquer jamais fizeram: ele, em momento algum, abre mão da existência do nosso povo – nem dos mais rebeldes entre eles, aqueles a quem prega e adverte. Ele os chama de “um bando de bêbados, adúlteros e mentirosos” (Jeremias, 9:1), mas jamais, jamais, desiste deles. Ao contrário, leva-lhes a mensagem de D’us de que, cedo ou tarde, até mesmo Efraim arrepender-se-á de seus erros e retornará a D’us.

O Altíssimo, que é Onisciente, sabe quem é Efraim. Ao contrário de um pai, um rabino ou um professor, Ele não pode ser enganado ou ludibriado. Ele sabe o que Efraim pensa, ouve o que ele diz, e vê o que ele faz. Contudo, D'us ecoa a mensagem enviada pelo Rei de Yehudá ao Reino de Israel: “Volte para casa. O Templo – ou seja, a sinagoga – está aberta a todos vocês. Venham, por favor!”. A profecia de Jeremias nos ensina que podemos abandonar D’us, mas Ele jamais nos abandona.

Há judeus que possam se considerar como Efraim. Talvez eles não tenham estado em uma sinagoga desde o último Yom Kipur, talvez nem mesmo nessa data. Eles talvez julguem que D’us não está interessado em um relacionamento com eles. Jeremias nos ensina que Ele, sim, está. Efraim pode comportar-se mal e D’us pode repreendê-lo, mas ele continua sendo um filho querido, uma criança em quem Ele Se deleita. O Pai deseja que todos os judeus voltem para Ele: "Acaso Efraim não é Meu filho querido? Não é a criança com quem Me deleito? Pois por quantas vezes falo a respeito dele, tantas vezes dele Me recordo com ternura. Todo o Meu Ser por ele se comove; certamente dele terei compaixão – diz o Eterno” (Jeremias, 31:19).

Bibliografia:
Rabi Steinaltz, Adin (Even Israel), A Dear Son to Me, Koren Publishers, Jerusalem.
Rabino Chefe Lord Sacks, Jonathan, The Prophetic Voice - www.chiefrabbi.org