Morashá
O significado dos alimentos simbólicos de Rosh Hashaná

O significado dos alimentos simbólicos de Rosh Hashaná

Não é um mero costume, folclore OU superstição servir alimentos de importância simbólica em Rosh Hashaná. Pelo contrário, constitui uma prática imbuída de valor místico, incentivada pelo Talmud e codificada no Shulchan Aruch  – o Código de Lei Judaica.

Edição 97 - Setembro de 2017


Iniciamos a refeição festiva nas duas noites de Rosh Hashaná fazendo o Kidush com uma taça cheia de vinho doce, fazendo a ablução ritual das mãos (Netilat Yadayim) e comendo Chalá molhada no mel ou açúcar – um pedaço do qual é distribuído a todos os presentes. Antes de ser servido o jantar, é costume comer-se certos alimentos simbólicos nesta festa. O consumo de cada um deles é precedido por uma bênção ou uma pequena oração. Apesar de variarem entre as diferentes comunidades esses alimentos, o ritual de Rosh Hashaná é adotado por todo o Povo Judeu.

Para um observador casual, esse costume parece uma forma de superstição. Será que o fato de comer certos alimentos tem, realmente, influência no ano que se inicia? Será que o fato de comer maçã vermelha molhada em mel ou açúcar muda veredictos celestiais? Esse ritual de Rosh Hashaná pode até mesmo parecer contrário aos princípios do judaísmo, pois a Torá condena a superstição, equiparando-a à idolatria. Como, então, pode o judaísmo estimular essa prática, e como pode todo o Povo Judeu adotá-la, especialmente em Rosh Hashaná, o Ano Novo, que é quando D’us preside o julgamento e decide o destino do mundo e de cada criatura para o ano vindouro? A realidade é que comer os alimentos de importância simbólica em Rosh Hashaná não é mero costume ou folclore e, muito menos, superstição. Pelo contrário, é uma prática imbuída de valor místico, fortemente estimulada pelo Talmud, e até codificada no Shulchan Aruch, o Código de Lei Judaica.

O Talmud não tem o hábito de tentar justificar seus decretos, ensinamentos e recomendações, independentemente de quão enigmáticos ou surpreendentes possam ser. Essa obra de Lei e Sabedoria Divina confia a tarefa a seus grandes comentaristas. Um dos maiores dentre eles, Rabi Menachem ben Shlomo Meiri (1249-1310), revela uma das razões pelas quais comemos alimentos simbólicos em Rosh Hashaná, dizendo que seu propósito é concentrar nossa atenção na agenda do dia: oração, arrependimento e a decisão de realizar bons atos. Conta que, a princípio, o costume era apenas olhar ou comer esses alimentos e refletir sobre seu significado. No entanto, com o tempo, as pessoas ficaram mais entretidas na comida do que na introspeção. Para evitar que isso aconteça, as comunidades judaicas adotaram o rito de recitar uma breve oração antes de comer cada um dos alimentos simbólicos. Isso garantiria que a mensagem de cada um deles não se perdesse.

Ao ponderar sobre as preces, podemos entender sobre o que devemos refletir ao comer tais alimentos. Assim, um dos propósitos do ritual é provocar e direcionar nossos pensamentos e planos para o novo ano. Isso é especialmente relevante em Rosh Hashaná, pois, como ensinam nossos Sábios, essa festividade de dois dias dá o tom para o restante do ano: aquilo em que pensamos, o que dizemos e fazemos em Rosh Hashaná influenciará todo o nosso ano. A Torá nos conta que não apenas nossos atos e palavras têm poder; nossos pensamentos também podem exercer influência sobre o mundo. Em Rosh Hashaná, quando o destino de todo o mundo e de cada indivíduo é decidido – quando o registro de cada ser humano está sendo revisto nos Céus –, todo pensamento positivo pesa a nosso favor. Precisamos ser muito cuidadosos na maneira como direcionamos nossa mente, pois isso influenciará todo o nosso ano.

Outros comentaristas da Torá vão mais além: explicam que o propósito de se comer alimentos simbólicos no Ano Novo não é apenas concentrar nossos pensamentos. Eles revelam que o ato de comê-los, de fato, desencadeia bênçãos Divinas. Como isso é possível? De que forma comer maçã vermelha molhada no mel ou no açúcar aumenta nossas chances de ter um ano bom e doce? E como comer as sementes da romã nos torna mais merecedores? Rabi Yehudá Lowe, o Maharal de Praga, um dos maiores Sábios e cabalistas de todos os tempos, famoso por ter criado o Golem, explica que, com frequência, acontece de os decretos e bênçãos Divinas que D’us concede permanecerem apenas em um estado potencial, nas esferas espirituais, até que os seres humanos realizem um ato físico para concretizar e dar forma física a esses decretos. Isso significa que a transição do potencial para o real depende, em geral, dos atos físicos da pessoa.

Isso explica por que os profetas geralmente realizavam um ato físico para simbolizar suas profecias. Por exemplo, vemos no Livro dos Reis que o profeta Elisha levou o Rei Yoshiyahu (Josias) a atirar uma flecha na direção da terra de Aram – o inimigo dos judeus à época – e pegar uma flecha e bater no chão, explicando que o número de pancadas determinaria a força da vitória de Israel sobre Aram.

O que nos transmite o Maharal de Praga é que como vivemos em um mundo físico, é necessário direcionar as bênçãos dos Céus por meio de atos físicos. Por essa razão, precisamos pronunciar nossas orações com os lábios, enunciando cada palavra, e não meramente pensar nas mesmas, ainda que D’us, que é Onisciente, saiba o que está em nossa mente e coração. É essa a razão pela qual tantos mandamentos da Torá são realizados fisicamente. Alguns exemplos: colocamos Tefilin, que são objetos de couro; fazemos o Kidush com vinho; e seguramos as Quatro Espécies em Sucot. D’us conhece melhor do que nós os nossos pensamentos, necessidades e desejos. Mas, para dar forma física às bênçãos Divinas – para canalizá-las dos domínios espirituais ao nosso plano terreno –, não basta amar e reverenciar a D’us, meditar e ter pensamentos bons e sagrados: com frequência, é necessário agir e usar de fisicalidade para cumprir a Vontade Divina.

Comemos alimentos simbólicos em Rosh Hashaná porque, assim, estamos ajudando a canalizar bênçãos espirituais e plenitude para o nosso mundo físico. O Maharal de Praga ensina que, no início do ano, comemos alimentos que sejam um bom augúrio, para que os decretos do Todo Poderoso de um bom ano se concretizem em nossa realidade física.

Outra explicação para esse ritual foi dada pelo Rabi Shlomo Kluger (1783-1869) em seu comentário no Código de Lei Judaica (Chochmat Shlomo, Shulchan Aruch, Orach Chaim 583). Ele explica que, ao comer tais alimentos, não estamos apenas rezando, mas expressando nossa fé em que seremos inscritos para um ano bom e doce. Segundo ele, isso tem o poder de transformar qualquer decreto negativo em positivo. De fato, as obras cabalísticas, o Talmud e o Livro dos Profetas nos ensinam que D’us honra a confiança dos que verdadeiramente confiam n’Ele. É especialmente importante que cada judeu se comporte em Rosh Hashaná com alegria, plenamente confiante em que seu veredito Divino será positivo e que será inscrito para um ano bom e doce. Uma das maneiras de expressar nossa fé é comer os alimentos simbólicos de Rosh Hashaná e recitar as orações pertinentes, confiante em que D’us as atenderá.

Devemos entender que, ao comê-los, não estamos seguindo um costume folclórico, nem supersticioso. Portanto, esse rito deve ser encarado com seriedade. Seu propósito não é fazer com que os jantares de Rosh Hashaná sejam mais coloridos e memoráveis. Eles têm um poder espiritual e, se bem utilizados, podem ajudar-nos a alcançar as inúmeras bênçãos, individuais e coletivas, pelas quais ansiamos.

Contudo, é importante mencionar que quem não pode ingerir um ou vários dos alimentos simbólicos – por não gostar ou por lhe fazer mal – deve olhar ou apontar para esses alimentos ao recitar a oração de “Yehi Ratzon” correspondente. Mesmo que não coma o alimento, se ele recitar a oraçãocorrespondente, isso terá um efeito significativo.

Por que comemos maçãs vermelhas em Rosh Hashaná

Em Rosh Hashaná, temos o costume de tomar vinho doce e fazer as Chalot no feitio redondo, em vez do tradicional oval, trançado. O Chatam Sofer (1762-1839), que foi um de nossos grandes Sábios e cabalistas, explica o costume como expressão de que nossas orações e esperanças sejam abençoadas infinitamente durante o ano vindouro, pois o círculo é especial por não ter início nem fim. Por isso fazemos os pães nesse formato, como símbolo de nossa esperança de que D’us nos conceda bênçãos incontáveis, pessoais e coletivas, no novo ano.

Após o Kidush e a lavagem ritual das mãos (Netilat Yadayim) e comer um pedaço da Chalá molhada no mel ou açúcar, comemos o primeiro dos alimentos simbólicos da festa, que são pedaços de maçã vermelha, também molhados no mel. São inúmeras as razões para esse costume judaico. A mais simples delas é que essa fruta tem um belo aspecto, ótima fragrância e gosto. É saborosa de qualquer forma que seja apresentada e extremamente saudável. E simboliza nossas esperanças de que o Ano Novo nos traga alegria, sucesso, saúde e felicidade em todas as áreas da vida.

Mas o significado simbólico da maçã vai além do simples fato de ser uma fruta doce e saborosa. O Arizal (Rabi Itzhak Luria), maior cabalista de todos os tempos, ensina que há um profundo significado cabalístico no fato de comê-la nas noites de Rosh Hashaná. O Zohar, obra fundamental da Cabalá, escrita pelo Rabi Shimon bar Yochai, se refere ao Paraíso como Chakal Tapuchin Kadishin – “Pomar das Maçãs Sagradas”. As maçãs simbolizam não só a doçura, mas também Gan Eden – o Paraíso. De acordo com o Midrash, o Jardim do Éden tem o aroma de um pomar de maçãs. De fato, ao analisar a expressão usada por nosso patriarca Itzhak ao descrever seu filho, Yaacov: “Veja! O cheiro do meu filho é como o cheiro do campo que o Eterno abençoou!” (Gênesis, 27:27), Rashi, comentarista clássico da Torá, explica que isso se refere ao aroma de um pomar de maçãs – o aroma do Jardim do Éden.

Ademais, em seu Cântico dos Cânticos, o Rei Salomão descreve o amor de D’us pelo Povo Judeu por meio da seguinte metáfora: “Debaixo de uma macieira, despertei teu amor” (Shir HaShirim 8:5). Ao comer pedaços de maçã em Rosh Hashaná, estamos nos recordando do amor de D’us por Seu povo.

Uma razão cabalística para esse costume é que, como escreve o Ben Ish Chai, essa fruta é associada à Sefirá de Tiferet, que é a emanação Divina de misericórdia, beleza, harmonia e paz. Essa Sefirá também representa a Torá e é associada com o Atributo Divino da Verdade. E é particularmente relevante em Rosh Hashaná, pois é nessa festividade que todas as criaturas são julgadas com base no Atributo Divino da Verdade Absoluta, quando oramos pedindo a Misericórdia Divina.

Ainda que muitos não estejam familiarizados com os ensinamentos da Cabalá acerca das Sefirot, o fato de saber que as maçãs simbolizam a Sefirá de Tiferet nos ajuda a perceber a profundeza e a importância de cada um dos rituais que cumprimos durante os jantares de Rosh Hashaná: nenhum dos detalhes é irrelevante. Ao contrário, há conceitos espirituais e místicos que sustentam tais rituais. Eles se baseiam em profundos conceitos cabalísticos e, portanto, não devem ser menosprezados ou negligenciados.

Por que comemos mel em Rosh Hashaná

Em Rosh Hashaná, enfatizamos o conceito de doçura – pois oramos não apenas por um ano bom, mas que também seja doce – e é, portanto, adequado não comer alimentos amargos ou azedos nos dois dias festivos.

A razão para molharmos a Chalá e os pedaços de maçã vermelha no mel ou açúcar é para indicar e pedir que sejamos abençoados com um ano doce. Alguns têm o costume de só usar açúcar, não mel, e cada pessoa deve seguir a tradição de sua família. Mas é importante observar que apesar de ambos serem doces, cada um representa uma forma diferente de doçura. O açúcar representa a doçura pura, enquanto o mel é produzido pelas abelhas – uma criatura cujo ferrão pode causar muita dor. Portanto, o mel representa a doçura resultante de experiências dolorosas ou difíceis. Em outras palavras, simboliza bênçãos ocultas. O Livro dos Juízes relata a seguinte história, com uma importante lição universal: o poderoso Sansão, desarmado, matou um leão que ia atacá-lo. Quando mais tarde ele retornou ao mesmo lugar, deparou-se com “um enxame de abelhas cheias de mel na barriga do animal. E Sansão apresenta a seguinte charada a um grupo de amigos: “Do comedor saiu comida e do forte saiu doçura” (Juízes,14:14). Daí nos vem o ensinamento de que mesmo uma situação negativa traz algo positivo.

Muitas pessoas têm o costume de comer açúcar e mel em Rosh Hashaná. O açúcar representa a bondade Divina revelada. O mel, a bondade Divina oculta: bênçãos que se apresentam disfarçadas como se fossem eventos e experiências difíceis, mas que, posteriormente, revelam-se como tendo sido em nosso benefício. Diferentemente das bênçãos reveladas, as ocultas geralmente causam dor. No entanto, cedo ou tarde, as que vêm disfarçadas de fantasias assustadoras tendem a se revelar maiores e mais significativas que as bênçãos reveladas, que tanta alegria nos dão.

Na mesma linha, o Rabi Yosef ben Moshe (Leket Yosher - Séc. 14) escreve: “As abelhas têm um ferrão dentro delas, e, no entanto, seu produto é doce. Fazemos votos de que o Atributo Divino do Julgamento seja temperado por Seu Atributo da Misericórdia, produzindo um resultado mais doce”.

Outra razão para comermos mel em Rosh Hashaná é que nossos Sábios ensinam que “o mel e os doces restauram a visão das pessoas”. O Talmud menciona vários “recursos” para auxiliar a memória e os comentaristas talmúdicos acrescentam: “Também o mel torna a pessoa sábia” (Talmud Bavli, Horayot 13b).

Orações pela eliminação de nossos inimigos

Após comer pedaços de maçã molhados no mel ou açúcar, comemos três alimentos: acelga, tâmara e alho-poró ou cebola – e as preces correspondentes se referem a nossos inimigos. Tais orações contêm um linguajar duro. Pedimos que D’us remova, elimine e extirpe nossos inimigos. À primeira vista, é estranho que em uma festividade judaica – especialmente a que marca o início de um novo ano – estejamos presos a essa negatividade e pensando em nossos inimigos. Evidentemente, há importantes razões para fazê-lo.

Nenhum judeu jamais pode esquecer que, ao longo da história, tivemos muitos inimigos que, sem qualquer razão, perseguiram e tentaram exterminar nosso povo. Como proclamamos na Hagadá de Pessach: Em toda geração, eles se levantam para aniquilar-nos. E o Santo, Bendito é Ele, nos salva de suas mãos”. Através dos milênios, o Povo Judeu tem sido o alvo principal de alguns dos personagens mais cruéis do mundo. Em Rosh Hashaná, quando D’us decide o destino da humanidade e de cada indivíduo, oramos para que Ele nos livre daqueles que nos querem prejudicar. As orações referentes a nossos inimigos são recitadas não apenas em benefício do Povo Judeu, mas de todas as pessoas de bem no mundo, pois os arqui-inimigos dos Filhos de Israel, como Hitler e Stalin, mostraram ser a personificação da maldade no mundo. Aqueles que mostraram ser os líderes mais perversos na história geralmente começaram escolhendo o Povo Judeu como alvo para depois passar para o restante da humanidade. Seu desaparecimento seria benéfico para todo o mundo.

Há, no entanto, uma explicação mais profunda para rezarmos pela eliminação de nossos inimigos em Rosh Hashaná. Esses inimigos não são seres humanos, mas forças espirituais negativas. Rosh Hashaná é o Dia do Julgamento, quando, falando metaforicamente, os “promotores celestiais” apresentam seus casos perante o Juiz da Verdade. O Talmud ensina que a Inclinação para o Mal – o Yetser Hará –– seduz o ser humano, instigando-o a pecar e, quando consegue fazê-lo, apresenta-se perante o Trono Celestial para condená-lo. Instigador e acusador são um só. Em Rosh Hashaná, Dia do Julgamento, oramos a D’us para que a Inclinação para o Mal e todas as forças do mal espiritual, que nos fazem sair do caminho do bem para depois nos acusar perante a Corte Celestial, sejam removidas, eliminadas e exterminadas, para que assim possamos ser inscritos para um ano bom e doce.

É interessante notar que, durante os jantares de Rosh Hashaná, recitamos três orações diferentes acerca de nossos inimigos. Um das razões para serem três e não uma é que, como ensina a Cabalá, nosso mundo contém três klipot impuras – “cascas” – que são a origem de todo o mal. Essas três preces expressam nosso desejo de que essas klipot sejam eliminadas do mundo. Isso ocorrerá na Era Messiânica. Essas orações são, portanto, um pedido para que D’us nos traga a era utópica, que será de paz e prosperidade para toda a humanidade.

Orações para termos méritos e praticarmos mitzvot

As três preces seguintes e seus respectivos alimentos compartilham um tema comum: méritos e mitzvot – ou seja, mandamentos Divinos e boas ações.

Recitamos essas orações para pedir a D’us um veredicto totalmente positivo para o novo ano. Rogamos a Ele para “apagar” qualquer decreto Celestial negativo contra nós e nos julgar favoravelmente, pesando nossos méritos e relevando nossos deméritos. Pedimos a Ele que nos estimule espiritualmente – dando-nos forças, motivação e disciplina para executar a Sua Vontade. Tais súplicas não são exclusivas de Rosh Hashaná; nossas preces diárias pedem a D’us para depositar nosso coração, nosso amor e nossa reverência em Suas mãos, para que possamos estudar zelosamente a Sua Torá e cumprir Seus mandamentos. Mas tal pedido é enfatizado em Rosh Hashaná, pois é nessa festividade que D’us decide não só nossas bênçãos materiais, mas também espirituais, para o ano vindouro.

A oração ao comermos a romã – de que nossas mitzvot sejam tão numerosas quanto as sementes dessa fruta – é bem conhecida. De fato, a romã é um dos grandes símbolos de Rosh Hashaná.

Essa fruta tem grande destaque na Torá. É uma das Shivat HaMinim – Sete Espécies de frutas e grãos que são produtos especiais da Terra de Israel. Além disso, em uma discussão sobre o significado de ver essa fruta em sonhos, o Talmud explica que “quando vemos frutos pequenos, isso significa que os negócios serão frutíferos como a romã, enquanto que quando vemos os frutos grandes, isso significa que os negócios vão-se multiplicar como romãs. Se no sonho as romãs estiverem abertas, se quem sonhou é um estudioso da Torá, estudará ainda mais…enquanto que se não for um estudioso, realizará mais mitzvot”. Baseando-se em um verso do Cântico dos Cânticos (Shir HaShirim 4:3), o Talmud conclui afirmando que “mesmo os judeus mais vazios, também eles estão repletos de mitzvot como a romã é carregada de sementes” (Talmud Bavli, Chaguigá 27a).

Em Rosh Hashaná, oramos a D’us para que Ele nos dê a oportunidade de cumprir muitas mitzvot – muitos mandamentos Divinos e boas ações. Então, cabe a pergunta: por que devemos orar pedindo isso? Não cabe exclusivamente ao ser humano exercer seu livre arbítrio e cumprir a Vontade Divina?

A resposta é que todos necessitamos de inspiração e assistência Divina, mesmo se estivermos determinados a cumprir a Vontade de D’us e realizar atos de bondade. Há um conhecido ensinamento do Talmud que diz que D’us escolhe as pessoas meritosas para realizar boas ações. Em Rosh Hashaná, rogamos a D’us para nos escolher como Seus agentes da sabedoria, bondade e justiça no mundo: que Ele nos dê a oportunidade de cumprir Seus mandamentos. Esse privilégio não depende apenas de nosso livre arbítrio, mas também da Divina Providência. Para fazer muita Tzedacá, precisamos estar financeiramente bem. Para poder ensinar e disseminar sabedoria e conhecimento, precisamos ter sucesso em nossos estudos de Torá. Para poder realizar muitos mandamentos Divinos, precisamos ter boa saúde e tranquilidade. Assim como oramos por prosperidade material em Rosh Hashaná, também precisamos rogar por saúde espiritual. A romã simboliza abundância – material e espiritual –, que, quando bem utilizada, permite que acumulemos muitos méritos.

Oração para sermos a cabeça e não a cauda

O último dos alimentos simbólicos é a língua ou cabeça de um carneiro. Certas comunidades judaicas usam outros alimentos em vez desses. Quando comemos um dos dois, pedimos que D’us nos abençoe para que, ao longo do ano recém-iniciado, possamos ser “a cabeça, e não a cauda”. Não se trata de uma prece apenas por sucesso, mas também um pedido a D’us para nos dar a oportunidade de sermos forças proativas e efetivas, no mundo – fontes de sabedoria, liderança e bondade. Pedimos a D’us que nos dê a oportunidade de ter influência positiva sobre os demais, seja como pais, educadores, líderes comunitários, empresários ou profissionais. Vivemos em uma geração em que os líderes sábios, verdadeiros e abnegados são raros. Oramos pela capacidade de exercer liderança com sabedoria, bondade e eficácia.

Outra razão para comer língua ou cabeça de carneiro é que isso nos faz lembrar o animal que foi sacrificado em lugar de nosso patriarca Itzhak. Na verdade, essa última prece menciona nossos dois primeiros patriarcas – Avraham e Itzhak – ao se referir ao episódio conhecido como Akedat Itzhak – quando D’us ordenou a Avraham sacrificar seu filho. Esse relato é um dos temas principais em Rosh Hashaná: surge, com relevância, na oração de Mussaf e constitui a leitura da Torá do segundo dia da festa. Akedat Itzhak relembra como pai e filho estavam dispostos a fazer o sacrifício supremo para cumprir uma ordem Divina. Invocamos sua lembrança, não apenas pelo fato da menção a um Tzadik ser uma fonte de bênçãos, mas porque o episódio – a submissão absoluta de Avraham e de seu filho diante da Vontade Divina – é uma fonte de proteção para todas as gerações de seus descendentes.

A prece por “ser a cabeça e não a cauda” e a história de vida de Avraham e Itzhak são interligadas. Avraham introduziu o monoteísmo no mundo. Ele, sozinho, desafiou um mundo politeísta – rebelou-se contra a idolatria e dedicou sua vida a revelar a Verdade e a disseminar o Nome de D’us por toda parte. Foi um dos maiores líderes espirituais de todos os tempos e seu filho, Itzhak, pai de nosso patriarca Yaacov, continuou no caminho que lhe fora ensinado. Em Rosh Hashaná, rogamos a D’us para que nos inspire de modo a continuar a promover o legado e a liderança de nossos patriarcas.

Após o término da cerimônia dos alimentos simbólicos de Rosh Hashaná, que, como vimos, é imbuída de grande significado e poder místico, seguimos com a refeição festiva. As refeições de Rosh Hashaná devem ser muito alegres e fartas, incluindo comidas doces e deliciosas, expressando nossa confiança em que seremos todos inscritos e confirmados para um Shaná Tová Umetucá – um ano bom e doce. Amén, ken yehi ratsón.

BIBLIOGRAFIA

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Zivotofsky, Ari, “What’s the Truth about Pomegranate Seeds?”. www.ou.org

“Special Rosh Hashanah Foods” . www.chabad.org

Shurpin,Yehuda, Why All the Symbolic Rosh Hashanah Foods? www.chabad.org