Morashá
A CADA ANO, UM NOVO ANO!? Foto Ilustrativa

A CADA ANO, UM NOVO ANO!?

Estamos encerrando o ano 5761 e prontos para receber um novo ano, 5762. Todo ano, a coisa se repete. Os dias correm, os meses passam e, ano após ano, ao comer a maçã com mel, na noite de Rosh Hashaná, desejamos, uns aos outros, um ano novo, bom e doce.

Edição 34 - Setembro de 2001



É muito curioso notar que o nosso pedido é enfatizado pela prece: "... renove para nós um ano novo...". Porque renove? O que há de novo a cada ano? Todos os anos não são idênticos? O que faz com que este seja mais novo do que o anterior? Será que a simples mudança de número - 5761 –5762 - torna o ano mais novo?

O conceito de novidade e renovação é um tema fundamental na personalidade humana, pois o ser humano, por si só, é uma novidade no mundo. Já foi comprovado cientificamente que cada mulher tem um número específico de óvulos (alguns milhões), e aliás, que nenhum é semelhante ao outro. Não há duas criaturas iguais, nem dois seres humanos que têm as mesmas funções. Assim nos ensinam nossos sábios: "O Eterno criou todo ser humano semelhante a Adam Harishon, contudo, não há um ser humano igual ao outro" (Sanhedrin 37a).

É óbvio que o ser humano não é algo absolutamente novo, pois é a continuidade da espécie humana. Porém, cada indivíduo tem uma particularidade que nenhum outro possui. Cada um é um ser único e especial. Portanto, os seus atos também devem ser especiais, renovados constantemente e não podem ser copiados e imitados. O rei David escreve nos Salmos: "Cantem para o Eterno um cântico novo...". Para nos ensinar que não basta cantar um cântico já conhecido, mas que o cântico deve ser diferente e novo.

Já que o ser humano tem que viver em um espírito inovador, aprecia qualquer novidade. Toda pessoa fica feliz ao comer uma fruta nova, ao vestir uma roupa diferente, encantada ao mudar-se para um novo apartamento, enfim, qualquer novidade é motivo de alegria e entusiasmo. Para expressar este sentimento, os nossos sábios instituíram uma bênção para tudo o que é novo: "...Que nos deste vida, sustentaste-nos e nos fizeste chegar a esta época".

Assim, o homem sempre gosta de visitar lugares novos, estudar assuntos nunca analisados anteriormente, ler livros novos, ouvir notícias e novidades. Sem dúvida, tudo que é novo o deixa fascinado. Hoje em dia, o interesse pelas coisas novas é muita mais enfatizado. São poucas as pessoas que se interessam, por exemplo, em estudar textos e em participar de cursos, nos quais o livro é um instrumento necessário para acompanhar as discussões.

O público, atualmente, possui maior interesse em palestras e conferências, fato que também pode ser explicado da seguinte forma. O sentimento que o interlocutor tem ao estudar em livros é que as coisas não são novas, pois já foram escritas e documentadas. Em contrapartida, as palestras parecem tratar de assuntos totalmente novos, como se tivessem sido inventados e apresentados naquele momento.

Tudo no mundo tem que ser analisado minuciosamente. Esta é uma das capacidades do ser humano: analisar os fatos óbvios e conhecidos como se os estivesse vendo pela primeira vez em sua vida. Desta forma, pode descobrir coisas maravilhosas que, na maioria das vezes, podem explicar muitos mistérios de nossa existência. Conta-se que, certo dia, o famoso Sir Isaac Newton percebeu que todo objeto, quando caía, era atraído para baixo, nunca para cima. Milhões de pessoas visualizaram este fenômeno e ele próprio também o viu repetidas vezes na sua vida. Porém, quando analisou este fenômeno de perto e com mais atenção, acabou descobrindo a Lei da Gravidade. Isto significa renovação!

A natureza baseia-se sobre o conceito de renovação. A terra gira ao redor de si e, a cada 24 horas, renova o seu ciclo. A lua gira em torno da terra e, a cada 30 dias (aproximadamente), temos um novo mês (Chodesh - mês, em hebraico, é originário da palavra Chadash, que significa novo, pois a lua se renova mensalmente). A própria terra completa a sua rotação em torno do sol em 365 dias e, a partir daí, tudo recomeça e é renovado (a palavra Shaná – ano - pode ter dois significados: repetição ou mudança. Pois a cada ano tudo se repete, novamente, com as mesmas datas, porém sob uma forma diferente).

Nossos patriarcas são, sem dúvida, um exemplo para nós. Avraham Avinu era considerado o pilar da bondade; o seu filho Yitshak agia mais de acordo com a severidade e o temor; e Yaacov Avinu representava a virtude da verdade – cada um tinha a sua especialidade. O homem tem que desenvolver as suas próprias virtudes e não apenas imitar os outros, pois é uma nova criatura no mundo, com uma nova e única missão, que cabe somente a ele.

Quando perguntaram a um grande líder judeu por que não seguira o costume do seu pai, respondeu: "Isto não é verdade, estou agindo igualzinho ao meu pai – ele também não imitou o seu pai, esforçando-se em desenvolver as suas próprias virtudes, moldando a sua personalidade de acordo com o seu temperamento".

Há uma diferença fundamental entre coisas novas e renovação. Novidade significa algo totalmente novo, que não tem nenhum elo com o passado, portanto, pode ser muito negativo, sem conteúdo e perigoso. Porém, a renovação está fortemente vinculada e fundamentada às experiências do passado.

É costume dizer que o Todo-Poderoso renova a criação espiritual e materialmente a cada instante. O ar que respiramos é sempre o mesmo, sendo apenas renovado através do fenômeno da fotossíntese. As estações do ano são sempre as mesmas e, após um inverno árduo, com árvores secas e sem flores, surge novamente a primavera, com o seu manto verde, e a natureza parece estar, mais uma vez, renascendo.

Sendo assim, quando dissemos que não é aconselhado imitar os nossos semelhantes, não significa romper com os costumes dos nossos pais. Pelo contrário, devemos continuar no caminho traçado pelos nossos antepassados e seguir a tradição que nos foi transmitida de geração em geração, até os dias de hoje. A nossa intenção ao dizer que não devemos ser imitadores é que devemos ser como a lua ou o ar dentro da natureza, isto é, os mesmos, porém renovados. Devemos seguir pela mesma trilha; como o fizeram nossos patriarcas, porém usando nossos próprios sentimentos e emoções.

Após esta pequena exposição sobre a renovação obrigatória dentro da natureza e em cada ser, vamos tentar entender nosso desejo por um novo ano.

Consta no livro Tanya, de autoria de um dos grandes mestres chassídicos, que a cada ano, em Rosh Hashaná, existe uma nova vitalidade que D’us manda ao mundo, totalmente diferente da vitalidade do ano que já passou. O êxito em recebermos esta energia depende do desempenho do povo de Israel durante as orações nos dias de Rosh Hashaná e de sua maior aproximação ao Todo-Poderoso.

Nenhum ano é igual ao outro, assim como não há dois seres idênticos. Certa vez, um grande sábio disse aos seus discípulos: "Vou mostrar-lhes algo totalmente novo, que nunca esteve no mundo e jamais voltará a existir. Assim, tirando uma maçã da geladeira, disse: Esta maçã nunca esteve no mundo e, após ser consumida, nunca mais voltará a existir".

Se isto é válido para qualquer criatura, pode também ser válido para a noção de tempo. O mês que passou não é o mês que começará, os dias não são iguais, as horas também, e até os minutos e os segundos são diferentes. Cada segundo que, na realidade, faz parte da corrente do tempo, tem sua particularidade e é único na história. Os anos também são diferentes uns dos outros. Assim como existe a cada Rosh Hashaná um julgamento de como será o próximo ano, assim dizem nossos sábios que existe uma retrospecção a cada Rosh Chodesh e a cada dia ao término do dia. Considerando que, dentro do tempo, o ano é o maior dado astronômico, a nossa atenção e preocupação estão dirigidas sempre na mudança de ano.

A uma conclusão vital e essencial a qual chegamos : saber valorizar o tempo e não desprezar nenhuma criatura. O tempo é muito importante e não pode ser desperdiçado. Cada dia, cada coisa, cada ser tem o seu lugar devido no mundo e não pode ser desprezado. E ao desejarmos a cada ano, em Rosh Hashaná, um novo ano, isto significa que devemos saber que as coisas se modificam e se restauram. Nossa tarefa é saber aproveitar estas novas oportunidades. A cada novo ano, temos novas chances para podermos nos regenerar espiritualmente, e novos portões se abrem perante nós, com visões diferentes e diversas novas realizações.

Avraham Cohen