Morashá
Purim e a Providência Divina Foto Ilustrativa

Purim e a Providência Divina

Purim é uma festividade judaica única. Enquanto as demais festas religiosas enfatizam a espiritualidade – em Chanucá, por exemplo, acendemos velas que simbolizam a alma do homem e a Torá – Purim é guardada cumprindo-se quatro mandamentos, três do quais envolvem alimentos e bebidas.

Edição 74 - Dezembro de 2011


Precisamos ter uma refeição festiva e abundante; enviar presentes com dois ou mais alimentos prontos para os amigos; doar dinheiro aos pobres, para que eles, também, possam desfrutar da festa; e estar presente na sinagoga para ouvir a leitura da Meguilat Esther. O principal tema de  Purim é a alegria, assim, além dos fartos alimentos e bebidas, realizam-se desfiles e celebrações, e as pessoas e crianças se fantasiam e usam divertidas máscaras.

Purim é uma ocasião festiva, mas pode dar a impressão de ser extremamente materialista. Mesmo a leitura pública da Meguilat Esther aparenta ser despida de espiritualidade, pois entre os 24 livros do Tanach (Torá, Profetas e Escritos Sagrados), é o único que nunca menciona o nome de D’us. Isso parece indicar que D’us não participou na história de Purim.

O mandamento dessa leitura da Meguilá parece ser a antítese das luzes de Chanucá: ao invés de dar publicidade a um milagre Divino, aparentemente aqui há uma negação do mesmo. De fato, podemos perguntar-nos por que a Meguilat Esther foi incluída no Tanach. Não se trata de um livro de mandamentos Divinos, como a Torá, tampouco uma ode a D’us, como o Livro dos Salmos. Pelo contrário, lê-se o Livro de Esther como um romance, onde há heróis e vilãos, tramas de conspirações e assassinatos, amor e sedução, reviravoltas, e, por fim, um final que foi plagiado, repetidamente, por escritores e cineastas: o mal se volta contra quem o iniciou, enquanto os heróis, após passar por um período de turbulência e sofrimento, emergem triunfantes.  Uma história fascinante e divertida, com certeza; mas seus autores acharam por bem não elencar D’us como um de seus personagens.

Um dia no qual comemos e bebemos, vestimo-nos com fantasias, realizamos festas e vamos à sinagoga para ouvir a leitura pública de uma história na qual não se menciona nem uma única vez o nome do Todo Poderoso parece contrário ao espírito do judaísmo. Contudo, nossos Sábios sempre prezaram a festa de Purim e nos ensinaram que deve ser celebrada como o dia mais jubiloso do calendário judaico. Os Cabalistas chegam ao ponto de equipará-la ao dia mais sagrado do ano: eles indicam que Yom HaKipurim literalmente significa “o Dia da Expiação”, mas também, o “Dia como Purim” (Yom (Ha) ke´Purim). Quanto ao texto que conta sua história, além de ter sido escolhido para integrar o Tanach, a Meguilat Esther foi comentada por nossos maiores Sábios.  Há um tratado inteiro do Talmud – Tratado Meguilá – que discute, entre outros, a Meguilat Esther e a história e as leis de Purim

Mas, se Purim é uma festividade tão sagrada, por que razão seus mandamentos são tão materialistas? E se a Meguilat Esther é um livro sagrado, digno de ser incluído no Tanach, por que razão não faz menção a D’us sequer uma única vez?

Uma história feliz e inesperada

A história de Purim, segundo o relato da Meguilat Esther e a elucidação do Talmud e do Midrash, é uma saga com final feliz e inesperado, constituída por um sem fim de eventos fortuitos – a que muitos chamam de “coincidências”.

O rei da Pérsia, Achashverosh, que reinava sobre um grande império, organizara uma celebração com duração de um semestre. Ele ordenou à sua mulher, a rainha Vashti, que desfilasse nua durante as celebrações, como forma de mostrar sua grande beleza. Normalmente, ela não se teria oposto àquele pedido, no entanto, como havia contraído uma terrível doença de pele, não quis revelar o seu aspecto desagradável. O rei, furioso com sua recusa, fez com que a banissem do reino e a executassem.

Como o rei necessitava uma nova rainha, seus mensageiros saíram em busca de lindas moças, levando-as ao harém real. Uma delas era Esther, que era judia.  Ela também, por “coincidência”, era parenta de Mordechai – líder, à época, do Povo Judeu – que a criara.  Entre todas as mulheres do harém, é com Esther que o Rei se encanta e por quem se apaixona.

Enquanto Esther vive com Achashverosh em seu palácio, Mordechai toma conhecimento de um complô para assassinar o rei. Ele se apressa em levar a informação à Esther. O assunto é investigado e corroborado, sendo executados os que conspiravam contra a vida do soberano. Esther comunica a Achashverosh que fora Mordechai quem os prevenira sobre a conspiração. Inexplicavelmente, Mordechai não é recompensado por ter salvado a vida do rei; mas seu ato heroico é registrado nas crônicas reais. 

A trama se intensifica quando Haman – um homem que, como Hitler, era obcecado com a idéia de extirpar o Povo Judeu da face da Terra, de uma hora para outra, sobe ao poder e se torna primeiro ministro do reino. Ele convence Achashverosh – que não sabe que sua amada esposa Esther é judia – a lhe dar permissão de executar uma Solução Final para o Problema Judeu.  Haman estava determinado a executar Mordechai, que se recusa a se curvar perante ele, e, em seguida, a exterminar todos os judeus – homens, mulheres e crianças.

Haman manda construir a forca onde executaria Mordechai. Mas, na noite antes da planejada execução, o rei Achashverosh acorda em meio a seu sono e não consegue voltar a dormir. Pede então a seus serviçais que leiam para ele as crônicas reais. Entre os relatos encontra-se o episódio em que Mordechai havia salvado sua vida. Achashverosh pergunta aos serviçais se Mordechai tinha sido recompensado por tão nobre feito e é informado de que não. O Rei decide que era chegada a hora de pagar sua dívida de gratidão. E assim, no dia em que Mordechai devia ser executado, ele é recompensado pelo rei Achashverosh. Para cúmulo da ironia, o Rei ordena a Haman que ele, pessoalmente, renda o tributo ao líder dos judeus. Este se torna o momento da virada na história: a roda da vida começa a girar para o protagonista e o antagonista.

Enquanto a sorte de Mordechai começa a subir, a de Haman cai vertiginosamente. O clímax ocorre quando Esther – que vinha tramando secretamente com Mordechai uma forma de frustrar os planos genocidas de Haman – finalmente revela a Achashverosh que era judia. O rei desencadeia sua fúria contra Haman, e o vilão é enforcado no próprio patíbulo que construíra para Mordechai.  A história termina com Haman morto, em desgraça. Seus dez filhos malvados também foram enforcados – assim como o foram os dez filhos espirituais de Hitler após os julgamentos de Nuremberg. A Solução Final para o Problema Judeu é frustrada, Esther continua como rainha, Mordechai se torna o novo primeiro ministro do reino e os judeus passaram a ser honrados e favorecidos. Como escreveu Shakespeare: “Tudo bem quando termina bem”...

Mas é bem possível que tudo não tivesse terminado bem se qualquer um dos eventos da história de Purim tivesse sido um pouco diferente. E se a rainha Vashti não tivesse contraído uma doença de pele justo antes das celebrações? E se o rei Achashverosh tivesse sido mais compreensivo e tivesse decidido perdoá-la? E se uma moça não judia tivesse atraído seus olhares e fosse “a eleita” para sua rainha? E se uma moça judia fosse escolhida, mas não Esther – alguém que não conhecesse Mordechai, alguém que preferisse manter sua identidade judaica em segredo, e que não tivesse feito nada para salvar seu povo? E se jamais tivesse havido um complô para matar o Rei? E se Mordechai não tivesse tomado conhecimento de tudo? E se o Rei não tivesse despertado no meio da noite antes da planejada execução de Mordechai? E se outras passagens das crônicas reais, que não aquela sobre o nobre gesto do líder judeu que lhe salvara a vida, lhe tivessem sido lidas? E se Mordechai tivesse sido recompensado por seu ato ao invés de ter um mero registro nas crônicas reais? 

Há outros eventos fortuitos na história de Purim. Mencionamos alguns deles para ilustrar que bastava algum acontecimento, de maior ou menor porte, ter-se desenrolado de forma ligeiramente diferente para que a história fosse completamente outra. Mas como devemos interpretar esta cadeia de ocorrências fortuitas? Teriam os judeus sido poupados da aniquilação porque Alguém os guardava – trabalhando por trás dos bastidores para poupá-los? Ou teria a série de coincidências, resultado, em última instância, na salvação dos judeus?

Providência Divina ou simples coincidência?

Falando de modo geral, todos os seres humanos se dividem em dois grupos. Quando algo notável acontece com os integrantes do primeiro grupo, eles o entendem como algo mais do que simplesmente sorte; consideram como evidência de que Alguém zela por eles. Para tais pessoas, tudo é um sinal ou mensagem Divina e nada na vida é simples coincidência. Em contraste, os que pertencem ao segundo grupo, mesmo crentes em D’us, não endossam a ideia da Providência Divina. Portanto, sempre que algo de fortuito lhes ocorre, eles o consideram uma coincidência, e sempre que são confrontados com uma situação de incerteza, sentem-se apreensivos e até temerosos, pois crêem que nós, seres humanos, estamos sós neste mundo, sem ninguém que zele por nós.

Todos nós, judeus e não judeus, nos enquadramos em um desses dois grupos. Interpretamos os eventos felizes em nossas vidas como sinais Divinos, milagres? Ou os vemos como meras coincidências?

À luz desta pergunta, podemos abordar o mistério da Meguilat Esther não mencionar o nome de D’us sequer uma vez. Quem a escreveu? Não foi nenhum dramaturgo laico, mas seus próprios protagonistas: Mordechai e Esther. E foram os membros da Grande Assembleia, os Anshei Knesset Ha’Guedolá – constituída por 120 sábios, escribas e profetas – que  a incluíram entre os 24 livros do Tanach. Os autores da Meguilá omitiram propositalmente o Nome de D’us, e os Homens da Grande Assembleia corroboraram sua decisão, pois a história de Purim tem o propósito de nos ensinar uma lição que é ainda mais profunda do que a que nos é transmitida pelas velas de Chanucá.  Esta lição é que D’us governa Seu mundo enquanto Ele Próprio permanece oculto.  A mensagem da Meguilá é atemporal e universal.

Em Pessach, celebramos os milagres que D’us fez em favor do Povo Judeu na época de Moshé – no Egito e no deserto de Sinai.  Em Chanucá celebramos os milagres que D’us realizou em prol de nossos antepassados na época do segundo Templo Sagrado. Mas, desde então, quando foi que D’us realizou milagres? A Meguilat Esther ensina que o Todo Poderoso nunca cessou de fazer milagres, mas Ele agora trabalha por trás dos bastidores. Para simultaneamente fazer milagres e ocultar a Sua Presença e participação, Ele orquestra os eventos em nossas vidas em uma forma que nos faz imaginar a quem os atribuir: à Providência Divina ou simplesmente à sorte.

Não é apenas a Meguilat Esther, mas Purim como um todo que tem como seu tema básico e subjacente a ocultação Divina. Até mesmo o nome da protagonista da história, Esther, alude a isso. Este nome é derivado da palavra hebraica “Hester”, que significa “ocultação”, e alude ao conceito de Hester Panim – a ocultação da “Face Divina”: uma época quando D’us não mais Se revela abertamente.

De fato, Esther nem era mesmo seu verdadeiro nome, que era Hadassah. O nome Esther, muito comum na Pérsia antiga, fora escolhido para ocultar sua identidade judaica até o momento em que ela a tornasse pública.

O costume de usar fantasias e máscaras em Purim também faz referência à ocultação Divina. Como o relato da Meguilá, aparentam ser mero entretenimento, mas transmitem uma séria mensagem: a de que D’us usa um disfarce e uma máscara e estes são o curso natural dos eventos e as leis naturais do mundo, que ocultam a Sua Presença e a Sua Providência. De fato, os Cabalistas ensinam que a palavra hebraica Olam, mundo, deriva da palavra Helem, que significa “oculto”. Vivemos em um mundo no qual seu Criador e Governante – Aquele que verdadeiramente comanda o espetáculo – permanece nas sombras.

O Nome de D’us foi propositalmente deixado fora da Meguilá para servir como uma mensagem e um desafio para todos os judeus e, de fato, para todos os seres humanos: não apenas quando ouvirmos a história de Purim, mas em nossa vida diária, vemos sinais Divinos – milagres ocultos – ou apenas coincidências? Colocando de outra maneira: Estará alguém zelando por nós? Ou nós, os 7 bilhões de seres humanos, estamos completamente sós neste mundo?

Três tipos de milagres

Há três festas judaicas que comemoram a salvação do Povo Judeu – Pessach, Chanucá e Purim – sendo que cada uma simboliza um tipo diferente de milagre.  Em Pessach, celebramos milagres sobrenaturais ocorridos na época em que Moshé liderou o Povo Judeu: as 10 pragas, a divisão do mar, o maná que caía dos céus e outros mais. Esses milagres Divinos foram tão óbvios que mesmo o Faraó e seus magos idólatras não puderam negar sua Origem. Mas após Moshé Rabenu, milagres sobrenaturais em tamanha quantidade e magnitude jamais voltaram a ocorrer. 

Já os milagres que celebramos em Chanucá são uma mescla entre o natural e o sobrenatural. São naturais no sentido de que não caíram dos Céus: os Macabeus tiveram que lutar para vencer. Ademais, uma superpotência ser derrotada por um exército paramilitar, apesar de altamente improvável, não pode ser considerado um evento sobrenatural. Há apenas poucas décadas, as duas grandes superpotências foram derrotadas por exércitos de guerrilhas: os americanos pelos vietcongues e os soviéticos pelos afegãos.

Daí a necessidade de um segundo milagre em Chanucá: o suprimento de azeite para um dia que ardeu durante oito dias.  Este milagre, que foi, de fato, sobrenatural, foi necessário para fazer entender ao Povo Judeu que sua vitória militar tinha sido também milagrosa, ainda que natural.  Mas mesmo os milagres de Chanucá, aos quais anunciamos acendendo as velas da festividade, estes ocorreram em nível nacional, quando os judeus viviam na Terra de Israel – a Morada Terrena de seu Pai Celestial. Sua luta era empreendida em nome de D’us, para preservar a Sua Torá e reaver Seu Templo Sagrado. Portanto, não surpreende o fato de o Divino ter vindo em seu socorro: o Rei lutou ao lado de Seus leais soldados.

Mas, será que D’us opera milagres por nós, individualmente, mesmo quando vivemos fora da Terra de Israel? Purim nos ensina que Ele o faz. Mas se por um lado os milagres de Pessach foram sobrenaturais e os de Chanucá uma mistura do natural com o sobrenatural, os de Purim foram unicamente do tipo natural. Milagres desse tipo são menos empolgantes do que os demais, mas em alguns aspectos, são os mais maravilhosos, pois acontecem o tempo todo, sem que nos demos conta de estarem ocorrendo.

A seguinte analogia ajuda a transmitir a razão para um milagre natural ser, de certa forma, superior a um sobrenatural. De tempos em tempos, temos notícia de uma operação extraordinária realizada pelas Forças Especiais do exército de Israel. Esses feitos heroicos são semelhantes a milagres sobrenaturais no sentido de serem louvados e celebrados e causarem um “big-bang” no mundo. Mas raramente ouvimos falar das inúmeras vezes em que os espiões israelenses – pessoas que ocultam sua identidade – frustram um ataque terrorista. Somente os espiões e os chefes dos serviços de inteligência em Israel estão cientes de quantas vezes eles conseguiram abortar tragédias e sofrimento. Em Israel e na Diáspora, eles são heróis judeus dos tempos modernos que zelam por nós; mas como são espiões, não podem revelar sua identidade, nem o que fazem, muito menos o que sabem. Portanto, raramente chegam ao nosso conhecimento seus esforços extraordinários e heroicos. As Forças Especiais de Israel realizam feitos que são espetaculares, porém raros. Em contraste, os espiões agem nas sombras, mas trabalham todos os dias para nos salvar contra aqueles que querem nosso mal.

Esta analogia está longe de ser perfeita, porque diferentemente dos espiões, D’us está em toda parte. Mas serve para transmitir a ideia de que a qualquer momento podemos vivenciar milagres, ainda que naturais. Como ensina o Talmud, não podemos sequer imaginar quantas vezes na vida D’us evitou males que vinham em nosso caminho. E mais, como o Todo Poderoso habita acima de tudo e do tempo, Ele zela por nós no presente e também olhando para o futuro. Isto significa que um evento mundano e aparentemente inconsequente poderia ter, muitos anos depois, um enorme significado – poderia ter sido um grande milagre.

A história de Purim é o maior exemplo disto.  Poucas pessoas estão cientes de que os eventos narrados na Meguilá ocorreram durante um período de 12 anos.  Muitos dos eventos que constituem a história de Purim provavelmente passaram despercebidos pela grande maioria dos judeus que viviam no reinado de Achashverosh. Que diferença fez para eles o fato de a rainha Vashti ter-se recusado a desfilar nas comemorações? Doze anos depois, tornou-se claro: iniciava-se um processo que acabaria salvando-os da aniquilação. 

Mas não sejamos ingênuos neste debate sobre os sinais e os milagres Divinos. Acreditar na Providência Divina não significa que a vida seja despida de dor e sofrimento. Nós, judeus, sabemos disto muito bem. O que significa é que como D’us está sempre presente, nada acontece sem uma razão ou propósito: tudo é, de alguma forma, parte de um plano Divino. Um corolário disto é que o homem não pode fugir nem se esconder de D’us.

Os Hamans e os Hitlers do mundo não são apenas a personificação da maldade – eles também são tremendamente tolos. Não importa quão poderoso um homem possa se julgar, é estúpido tentar medir forças com o Infinito. Haman e seus filhos, Hitler e seus capangas, e todos aqueles que com eles colaboraram, são responsáveis perante D’us por todos os seus atos. Sua desgraça e sua morte não foi seu fim, mas apenas o começo do sofrimento eterno que eles vivenciariam após deixar este mundo. Pois não há sofrimento na Terra que seja comparável ao castigo Divino imputado aos malfeitores no Mundo Vindouro. Mas o oposto também é válido para todas as pessoas de bem neste mundo, judeus ou não. Suas boas ações e seu sofrimento não passam despercebidos perante D’us e a recompensa infinita que recebem d’Ele após suas almas deixarem seu corpo sobrepuja qualquer prazer ou júbilo que o ser humano possa conhecer neste mundo.

O dia mais feliz do ano

Como Purim celebra um tipo de milagre que ocorre frequentemente, é fácil entender por que a festa é tão apreciada por nossos Sábios e pelos Cabalistas. Mas como explicar o caráter materialista dos mandamentos referentes a esse dia? Mencionamos acima que dentre todas as demais festividades, Purim, devido à natureza de seus mandamentos, é a menos espiritual. A realidade é o oposto: os mandamentos de Purim são os mais espirituais, e é por isso que Yom HaKipurim, o dia mais sagrado do calendário judaico – é chamado de um “ dia como Purim”. Os quatro mandamentos de Purim representam a própria essência da Torá.

O mandamento de Mishloach Manot – enviar presentes de alimentos a amigos – destina-se a promover o amor e a amizade entre o nosso povo. Rabi Akiva, o maior mestre do Talmud, ensinava que o mandamento de “Amar nosso próximo como a nós mesmos” é o ensinamento fundamental da Torá (Sifra, Levítico, 19:18). O envio de presentes na forma de alimento é um cumprimento desse mandamento central da Torá.

O mandamento de dar dinheiro aos pobres para que, também eles, possam comer e beber é o mandamento de maior valor da Torá. A Tzedacá – o cuidado com os necessitados – é a Mitzvá que se destaca entre todas as demais. Quando o Talmud de Jerusalém usa a palavra Mitzvá sem especificar qual delas, está implícita a de Tzedacá.  O judaísmo nos ensina que nossa maior preocupação espiritual deve ser atender as necessidades materiais de pessoas carentes. Portanto, quando doamos para os pobres em Purim, estamos cumprindo o mandamento supremo da Torá.

No tocante ao mandamento de fazer uma refeição festiva e abundante, isto nos ensina que D’us está presente em nossa vida não apenas quando oramos e estudamos e realizamos bons atos, mas também quando comemos e bebemos e desfrutamos a vida. Isto, na verdade, faz eco ao próprio tema de Purim: ao fato de que D’us está presente no curso natural da vida. Nossos sábios ensinam, ademais, que D’us se preocupa muito com nosso corpo, talvez ainda mais do que com nossa alma. A razão para tal é que até a mais nobre das almas não pode cumprir os mandamentos Divinos se estiver desprovida de um corpo. Cuidar bem de nosso corpo é, pois, essencial para podermos servir a D’us. O judaísmo dá muita ênfase à vida e à boa saúde, pois quando estas não existem, não podemos cumprir plenamente a missão que nos foi atribuída por D’us na Terra. Como ensinava o Rabi Dov Ber de Mezeritch, o Grande Maguid: “Um pequeno furo no corpo pode causar um enorme vazio na alma”.

E, por fim, no que toca o mandamento de ouvir a leitura da Meguilá, esse ato representa o maior atestado de fé em D’us. Ouvimos essa leitura duas vezes – uma delas na noite de Purim e de novo no dia de Purim – e recitamos uma berachá antes de sua leitura. Ao assim proceder, estamos transmitindo a D’us que nós,  judeus, não nos deixamos iludir por Sua ocultação e não nos intimidamos por um mundo que ousa mascarar o Divino. Apesar do “Hester Panim”, a ocultação da “Face Divina”, acreditamos não em eventos aleatórios nem em coincidências, mas na Providência Divina e nos sinais e milagres Divinos.

Em Purim, as comidas e bebidas, os presentes e as doações, as fantasias e as máscaras, as festas e os desfiles, e o ouvir atentamente uma história que nos fascina... tudo isso tem um tema que tudo permeia: o júbilo.  Maimônides, o maior filósofo e codificador da história judaica, escreveu: “O júbilo com o qual o homem deve alegrar-se no cumprimento dos preceitos e no amor a D’us, Aquele que os ordenou, é um ato de suprema devoção Divina” (Hilchot Lulav, 8:15).

Devemos alegrar-nos em todas as festividades judaicas. No entanto, em Purim, há uma medida adicional de júbilo. Por que razão?

Nas demais festas, como Pessach, Sucot, Shavuot, celebramos a revelação de milagres e a manifestação da “Face Divina”. Em Chanucá, festa das luzes, celebramos o fato de que D’us é encontrado na luz: de tempos em tempos, especialmente quando ousamos erguer-nos contra a escuridão e empreender Suas guerras, Ele faz brilhar Sua Face sobre nós. Por outro lado, em Purim, festa cujo tema é a ocultação Divina, celebramos o fato de que D’us também é encontrado na escuridão – mesmo quando Ele esconde Sua Face de nós.

O Rei David – um homem que conheceu as maiores Alturas e as maiores profundezas – escreveu: “Se eu aos Céus ascendesse, lá Te encontraria, e se às profundezas me lançasse, também lá estarias... De Ti nada encobrem as trevas e para Ti brilha a noite como o dia, pois luz e trevas são para Ti iguais” (Salmos, 139:8, 12).

Purim é o dia mais jubiloso do ano porque nos faz lembrar que onde quer que estejamos – em meio à luz ou em meio às trevas, na mais alta felicidade ou na mais profunda tristeza, neste mundo ou no vindouro – jamais estamos sós.