Morashá
Yehudá - Retrato de um líder Foto Ilustrativa

Yehudá - Retrato de um líder

'Yehudá, a ti te louvarão teus irmãos… Yehudá é um filhote de leão… O poder não será tirado de Yehudá, nem o bastão de comando de seus pés… À videira amarrarás o teu burrinho...lavarás tua roupa no vinho e no sangue das uvas' (Gênese, 49:8).

Edição 67 - Março de 2010


Yehudá foi o progenitor de vários dos grandes sábios e líderes ao longo das gerações da história judaica. entre estes, o Rei David, que, como ele, nasceu no mês de Sivan e que, também, morreu no mesmo dia de seu nascimento.

Yehudá foi o pai de todos os reis da Casa de David e do homem pelo qual toda a humanidade tanto aguarda: o Mashiach ben David, que reunirá todos os judeus de volta na Terra de Israel, que liderará a construção do Terceiro Templo e fundará uma era de paz e prosperidade perpétuas para toda a humanidade.

Yehudá, o quarto filho de Yaacov e Leah, nasceu no 15o dia do mês judaico de Sivan e deixou esse mundo na mesma data, 119 anos depois - o que, segundo o misticismo judaico, indica que ele foi um homem justo que realizou plenamente sua missão nesta vida.

Nascido no ano de 2196 (1565 a.E.C.) em Charan, enquanto seu pai, Yaacov, trabalhava para Labão, Yehudá teve seu nome escolhido por sua mãe, Leah. Esse nome, que contém o Impronunciável Nome de D'us, deriva-se de uma palavra hebraica que significa "agradecimento" e "louvor". Leah chamou seu filho de Yehudá para agradecer a D'us por lhe ter dado um quarto filho com Yaacov.

Mãe de um terço dos doze filhos de Yaacov - que seriam os fundadores das Doze Tribos de Israel - ela tinha recebido mais do que seu merecido quinhão.

Yehudá teve cinco filhos. Dois dos três primeiros - Er e Onan - faleceram. Ele, então, tem outros dois com a bela Tamar - Peretz e Zerach. Na Cabalá, o relacionamento ente Yehudá e Tamar é comparado ao existente entre D'us e o Povo Judeu. Foi a união entre ambos que, um dia, traria salvação ao mundo. Relata o Midrash, que quando estava grávida, Tamar disse ao povo: "Profetas e Redentores serão minha descendência!" E assim foi. Os descendentes de seus filhos formaram a Tribo de Yehudá, a mais populosa e prestigiosa das Doze Tribos de Israel. Uma grande mulher, justa e tenaz, a Divina Providência a escolhera para se tornar a ancestral da dinastia do Rei David e do Mashiach.

Mas, por que, de todos os 12 filhos de Yaacov, Yehudá foi o escolhido para ser o progenitor dos maiores reis de toda a história judaica? Em seu leito de morte, Yaacov conferiu a liderança de Israel a Yehudá, proclamando: "O cetro não se distanciará de Yehudá, nem o legislador sairá do lado de seus pés, até que Shiló (o Mashiach) chegue…". E, por que os Filhos de Israel são chamados de judeus em homenagem a Yehudá?

A razão histórica é bem conhecida: após a morte do Rei Salomão em 797 a.E.C., o povo de Israel dividiu-se em dois reinos: o Reino de Israel foi formado ao norte, por 10 tribos, tendo Shomron (Samaria) por sua capital; ao passo que o Reino de Judá foi formado ao sul, nas áreas que circundavam a capital, Jerusalém, por apenas duas tribos - Yehudá e Benjamin.

O Reino de Israel sofreu sua derrota final aos assírios em 722 a.E.C, a maioria de sua população é deportada e dispersa pelos conquistadores, que instalam outros povos na região. As 10 Tribos ficaram perdidas do Povo Judeu. No ano de 588 a.E.C. o Reino de Judá é derrotado pelos exércitos de Nabucodonosor II, Jerusalém é arrasada, o Templo destruído e seus habitantes levados cativos para a Babilônia. Mas, mesmo expatriados, não se mesclaram às populações pagãs. Passam a viver entre si, cada vez mais apegados à sua fé e à sua terra. Com a queda do Império Babilônico, eles voltam para a Terra Santa, e reconstróem Jerusalém e o Templo Sagrado.

Com o passar do tempo, o termo "israelita" se tornou sinônimo do termo "judeu", que, originalmente se referia a um membro da tribo de Yehudá. Por essa razão, nós somos chamados de judeus. No entanto, nem todo judeu provém da Tribo de Yehudá - os Cohanim e os Leviim, por exemplo, se originam da Tribo de Levi. Por que, então, nós nos auto-denominamos de judeus? E por que a Divina Providência teria escolhido Yehudá para ser aquele que daria seu nome a todos os judeus, independentemente de sua origem tribal?

A venda de Yossef

No artigo "José - Retrato de um Tzadik", Morashá No. 48 - abril de 2005, contou a história de Yossef, filho de Yaacov e Rachel.

Yossef tinha um irmão por parte de pai e mãe, Benjamin, e 10 meio-irmãos, filhos de Leah, Bil'hah e Zilpah. Seus meio-irmãos invejavam-no porque acreditavam que seu pai o protegia e favorecia, bem como ao outro filho que tivera com Rachel. E, quando Yossef lhes conta seus sonhos de que, um dia, ele reinaria sobre seus irmãos e seus pais, eles se convencem de que ele acabaria subjugando-os. Decidem então deter Yossef, a qualquer custo.

Certo dia, Yaacov envia Yossef em busca de seus meio-irmãos que estavam apascentando seu rebanho. Vendo-o se aproximar, eles decidem matá-lo. "E viram-no de longe, e antes que os alcançasse, tramaram matá-lo. E cada um disse a seu irmão: Eis que aquele sonhador está vindo. E agora, vamos matá-lo e jogá-lo num dos poços, e depois diremos: 'Um animal selvagem o devorou', e então veremos o que será dos seus sonhos. (Gênese, 37: 18-20).

Mas Reuven, o mais velho de todos, lhes diz: "Não derrameis sangue! Jogai-o neste poço que está no deserto, e não ponhais a mão nele!" Como o atesta a Torá, Reuven pretendia resgatá-los dos demais e devolvê-lo a seu pai (Ibid 37: 21-22). Há uma acirrada discussão entre os irmãos, mas Reuven finalmente os convence a não mancharem suas mãos de assassinato a sangue-frio. Após atirarem Yossef no poço, os irmãos, à exceção de Reuven, que os abandona, sentam-se para comer. Vêem uma caravana de ismaelitas que surge em sua direção, trazendo especiarias para o Egito. Yehudá diz a seus irmãos: "Que proveito teremos matando a nosso irmão e ocultando o seu sangue? Vamos vendê-lo aos ismaelitas - e não poremos nossa mão nele, pois ele é nosso irmão, ele é nossa carne" (Ibid 37: 26). Os irmãos concordam. Retiram, então, Yossef do fundo do poço e o vendem aos estrangeiros. Quando Reuven retorna ao poço, o irmão já não está lá. Ele fica consternado, mas já era tarde. Em vez de admitir aquele ato abominável, eles armam um plano para fazer seu pai acreditar que Yossef fora morto por um animal selvagem.

A essa altura da história, uma pergunta merece ser respondida: onde estava Reuven enquanto seus irmãos estavam armando a venda de Yossef? A resposta: ele não esteve presente na venda porque estava jejuando em arrependimento por uma grande falta de respeito a seu pai - que cometera muitos anos antes. Era um pecado muito sério faltar com o respeito a Yaacov, o homem mais espiritual que jamais tinha existido. E Reuven passou muitos anos de sua vida penitenciando-se por isso. Quando o fazem acreditar que Yossef estava morto, Yaacov se fecha para o mundo. Ao testemunhar a dor intensa de seu pai, tão inconsolável, os irmãos começam a se arrepender de tê-lo vendido. Eles lançam a culpa sobre Yehudá. "Você nos disse para vendê-lo", acusavam-no. "Tivesse-nos dito para mandá-lo de volta a nosso pai, tê-lo-íamos atendido!"

Com a venda de Yossef e a reação dos irmãos a Yehudá, aprendemos três coisas sobre ele: primeiro, apesar de não ser o primogênito, ele era o líder entre os irmãos, aquele a quem todos se voltavam em busca de orientação. Segundo: ele era homem de ação; ele teve a idéia de vender Yossef e a executou. E terceiro, no final das contas, ele era o responsável por ter salvo a vida de Yossef. Nenhum dos irmãos sabia que Reuven planejara devolvê-lo a seu pai. A decisão de Yehudá de vender seu irmão fora, de fato, um ato de grande crueldade - tanto com o próprio quanto com o pai - mas era melhor do que permitir que ele morresse no poço.

Os irmãos descem ao Egito

E os sonhos de Yossef se concretizam: ele é vendido como escravo, no Egito. Mas, 13 anos mais tarde, ele é alçado ao cargo de Vice Rei do Faráo. E são os seus talentos proféticos e sábios que salvam o Egito de uma terrível escassez que se abate sobre todo o Oriente Médio. Na Terra de Israel, a família de Yossef desconhece seu paradeiro. Seu pai acreditava que estivesse morto, ao passo que os irmãos nem podiam sonhar que ele se tornara o líder de facto da maior potência da região. Como a fome também atingira Eretz Israel, os irmãos desceram ao Egito em busca de suprimento para seus familiares.

Eles são levados até Yossef, o Vice Rei, que é o responsável pela venda e distribuição de alimentos. Não o reconhecem, mas ele, prontamente os reconhece. Yossef lembra-se de seus sonhos; acusa-os de serem espiões. Eles refutam a acusação, respondendo: "Nós, teus servos, somos 12 irmãos, filhos de um mesmo homem da terra de Canaã. E eis que o caçula está hoje com nosso pai e o outro não está mais" (Ibid 42: 13). Yossef insiste em que eles são espiões e manda prendê-los. Três dias depois, manda soltá-los com a seguinte condição: "Deixai um de vossos irmãos em vosso lugar de detenção, enquanto levai as provisões para aplacar a fome que atinge vossa família. Depois trazei vosso irmão menor à minha presença para que eu verifique se o que dizeis é verdade. Assim não morrereis" (Ibid 42: 19-20). É Shimon que empurrara Yossef para o fundo do poço, que é mantido prisioneiro no Egito.

Os irmãos voltam para casa, carregados de alimentos. Contam a seu pai tudo o que acontecera no Egito. Quando Yaacov se inteira de que Shimon está preso no Egito, grita, angustiado: "Sou aquele a quem enlutaste, tirando-me meus filhos! Yossef se foi, Shimon se foi, e agora querem levar-me Benjamin? Tudo recai sobre mim!" (Ibid 42:36). Reuven, o primogênito, volta-se para o pai e diz: "A dois de meus filhos farás matar se eu não o [Benjamin] trouxer a ti; dá-o em minha mão e eu o devolverei a ti" (Ibid 42:37). Sua assustadora promessa era claramente figurativa. Mas Yaacov não aquiesce: "Meu filho não descerá convosco! Porque seu irmão morreu, e ele ficou só; e se lhe acontecer um desastre no caminho que trilharem, fareis minha velhice descer com tristeza à sepultura" (Ibid, 42:38).

Mas quando a fome se torna mais grave e as provisões que os irmãos haviam trazido do Egito terminam, Yaacov pede que os filhos lá retornem para comprar mais víveres. Yehudá diz ao pai que o Vice Rei os avisara, seriamente, que não ousassem retornar sem trazer o irmão caçula. "Deixe-me levar o jovem comigo", ele pede ao pai. "Eu serei o seu fiador; de minha mão o pedirás; se não o trouxer a ti e o colocar diante de ti, pecarei para ti todos os dias" (Ibid, 43: 8-9).

Yaacov recusara a oferta de Reuven, mas aceita a de Yehudá. Ele percebe que este último estava tentando remover um de seus medos, que era o de que se todos os irmãos coletivamente garantissem a segurança de Benjamin, ninguém de fato seria responsável, pois cada um jogaria a culpa no outro. Ao prometer assumir responsabilidade integral - "Guardá-lo-ei do calor e do frio, dos animais selvagens e dos desordeiros; oferecerei minha vida pela dele e farei o que for necessário para garantir sua segurança (B'chor Shor)" - Yehudá ganhou a confiança de Yaacov.

O Rabi Meir Zlotowitz sugere outra razão para Yaacov ter aceito a oferta de Yehudá. Quando nosso patriarca se lamentou: "Sobre mim tudo se abateu!" (Gênese, 42: 36), ele deixa implícito que somente um pai poderia perceber a magnitude da perda de dois de seus filhos. De todos os irmãos, apenas Yehudá perdera dois filhos - Er e Onan, que morreram após a venda de Yossef - e, portanto, era ele quem melhor podia entender a dor de seu pai. Assim sendo, quando Yehudá assumiu a responsabilidade pela integridade e segurança de Benjamin, Yaacov finalmente aquiesce. Mais uma vez é Yehudá quem traduz as palavras em ação.

Aqui vemos, novamente, a diferença nas personalidades dos dois filhos de Yaacov. Apesar de Reuven ter sido o primeiro a tentar assumir a responsabilidade por Benjamin, Yaacov concordou com o pedido de Yehudá porque tinha mais confiança nele. Reuven falava de forma mais exagerada, enquanto que Yehudá se expressava de forma simples, literal, prometendo arcar com total responsabilidade pela vida do irmão menor. É ele quem, certo ou errado, faz as coisas acontecerem. E é ele, portanto, quem, apesar de não ser o primogênito, é o verdadeiro líder aos olhos do pai e dos irmãos.

Yehudá e Yossef

Os irmãos retornam ao Egito, dessa vez com Benjamin. Juntamente com Shimon - que fora libertado da prisão após a partida dos irmãos para a Terra de Israel - eles são convidados para partilhar uma refeição com Yossef. Durante a refeição, o Vice Rei, cuja verdadeira identidade não fora revelada aos irmãos, cobre Benjamin de atenções. Os demais não demonstram ciúmes. Isso convence Yossef de que eles não mais guardavam rancor dos filhos de Rachel, como no passado. Mas, será que estavam prontos para lutar e se sacrificar por um de seus filhos? Para testá-los, arquiteta uma maneira de mandar prender Benjamin por roubo e sentenciá-lo à escravidão, por toda a vida. Dessa forma, Yossef estaria armando uma situação similar à sua própria.

Ordena, então, a um de seus funcionários que coloque um de seus cálices de prata na sacola de Benjamin. Depois que os irmãos deixam o Egito, também dessa vez carregados de suprimentos, Yossef envia um de seus criados com a ordem de trazê-los de volta - sob a acusação de roubo. Os irmãos negam a acusação e declaram: "Aquele de teus servos com quem for encontrado, morrerá, e nós também seremos escravos para meu senhor" (Gênese, 44:9). O criado de Yossef revista as sacas todas e, naturalmente, encontra o cálice onde o pusera - na sacola de Benjamin.

Os irmãos são levados de volta ao Egito. É Yehudá quem lidera os irmãos de volta à casa de Yossef e declara ao poderoso Vice Rei egípcio: "O que podemos dizer a meu senhor? Estamos dispostos a ser seus escravos". Mas Yossef responde que ele só aceitará aquele que "roubou" seu cálice: Benjamin.

Enquanto os irmãos estão emudecidos pela situação, é Yehudá, e somente ele, quem se adianta, arriscando a vida, para interceder por Benjamin. O mesmo irmão que vendera como escravo o primogênito de Rachel agora arriscava a vida para salvar o segundo filho dela. Yehudá não pôde protestar contra a justiça do veredicto, pois o cálice tinha realmente sido encontrado na saca de Benjamin. E, assim sendo, ele honra sua promessa ao pai, oferecendo-se como escravo no lugar de Benjamin - sem ter idéia de que ele estava diante da mesma pessoa a quem ele próprio vendera como escravo, anos atrás.

O Midrash nos relata que os irmãos se encolheram, afastando-se, quando Yossef e Yehudá se confrontam. Este inicia implorando por misericórdia: "E agora, como irei a teu servo, meu pai, se o moço não estiver conosco? Sua alma está ligada à alma dele, e acontecerá que, ao ver que o rapaz não está mais, ele morrerá, e teus servos farão a velhice de teu servo, nosso pai, descer com tristeza à sepultura. Pois teu servo se deu por fiador do moço para com meu pai, dizendo: Se não o trouxer a ti, pecarei para meu pai todos os dias.

E agora, rogo que fiques com teu servo como escravo de meu senhor em lugar do moço, e que ele suba com seus irmãos. Porque, como subirei eu a meu pai, se o moço não for comigo? Assim, talvez não veja o mal que sobrevirá a meu pai!" (Ibid, 44: 30-34). Mas Yossef não aceita a oferta de Yehudá. É então que Yehudá, que era o mais forte dos irmãos, prepara-se para lutar com o poderoso Vice Rei. Conta o Midrash que Yehudá se torna capaz de "esmagar pelotas de ferro entre os dentes". Ele diz a Yossef: "Se eu desembainhar minha espada, destruirei seu reino de uma ponta a outra". Mas Yossef responde: "Desembainha tua espada, e a enrolarei ao redor de teu pescoço". Yehudá lhe responde: "Se eu abrir minha boca, engolir-te-ei". "Abre-a, e a fecharei com uma pedra", replica Yossef. Yehudá volta-se aos irmãos e lhes ordena que toquem fogo na terra, deixando-a devastada. Só então Yossef decide revelar sua identidade.

Ele acabara de testemunhar o completo arrependimento de Yehudá, o homem que o tinha vendido e agora se oferecia como escravo em lugar de Benjamin; e quando isso não foi bastante, tinha ameaçado o Vice Rei e se preparava para lutar contra ele e o poderoso Egito. E Yehudá não tinha blefado. Ele estava pronto para expiar pelo erro de Benjamin e não quebraria a promessa feita a seu pai. Se necessário fosse, com sua força física e sua vontade ele destruiria o Egito.

Yehudá: líder do Povo Judeu

Depois que Yossef se revela a seus irmãos, ele manda buscar seu pai, Yaacov. O Faraó o convida, juntamente com toda a sua família para se radicar no Egito, e eles o fazem. Mas, antes disso, Yaacov "mandou Yehudá à sua frente, a Yossef, para preparar-lhes lugar em Góshen" (Ibid 46:28). Dentre todos os seus filhos, Yaacov escolheu Yehudá para essa missão, pois ele provara ser o líder da família. Há um Midrash que diz que Yaacov atribuiu a Yehudá a missão de fundar uma casa de estudos no Egito. O líder dos irmãos era, também, responsável por sua educação - uma garantia de que eles permaneceriam judeus.

Por que razão Yehudá é considerado o líder judeu perfeito? Porque, apesar de Reuven, o primogênito dos 12 irmãos, ser uma alma mais pura do que Yehudá, ele perdera seu papel como líder quando negligenciou o pré-requisito mais básico da liderança: quando Yossef estava no poço, acreditando que este estivesse a salvo, Reuven se afastou para fazer suas orações e penitências, esquecendo-se de que a preocupação com os demais deve sempre vir antes do que os nossos próprios interesses - por mais sagrados que estes possam ser.

Enquanto Reuven orava e jejuava, Yehudá agia. Em seu leito de morte, Yaacov abençoou este último como o progenitor de líderes e reis porque este seu quarto filho conquistara a liderança do Povo Judeu graças à sua atuação, mesmo à custa de arriscar sua própria vida em prol de outrem - seu meio-irmão Benjamin.

Yehudá legou a seus descendentes suas qualidades de líder do Povo Judeu. Um exemplo disso foi o ocorrido na esteira do Êxodo: apenas uma semana após os judeus terem deixado o Egito, eles se vêem aprisionados entre o exército egípcio, que os perseguia, e o Mar dos Juncos. D'us diz a Moshé que erga seu cajado para que as águas se abram. Moshé assim faz, mas nada acontece. O povo se desespera. Até que um homem, de nome Nachshon ben Aminadav, líder da Tribo de Yehudá, é o primeiro a se aventurar mar adentro, suas águas caudalosas, impenetráveis. Como ele sinceramente crê na promessa Divina de salvação, Nachshon enfrenta as águas, com dificuldade, até a altura de suas narinas. Foi somente então - depois dele provar sua confiança em D'us - que as águas se partiram, salvando todo o Povo Judeu. Ficou claro então que o legado de liderança de Yehudá sobreviveu em sua descendência.

De fato, o talento de Yehudá para a liderança foi transmitido de geração em geração. Um de seus descendentes mais proeminentes, o Rei David, também personificou a liderança, a força e a coragem. Foi ele quem trouxe união e honra a Israel e que estabeleceu Jerusalém como capital eterna do Povo Judeu. E será o descendente de Yehudá e do Rei David quem irá liderar não apenas o Povo Judeu, mas toda a humanidade àquela era utópica com a qual os homens sempre sonharam. Anteriormente fizemos a pergunta: por que nós, os Filhos de Israel, somos chamados de judeus? O primeiro Rebe de Ger observou que os judeus foram chamados de Yehudim por causa de Yehudá, cujo nome significa "agradecimento", pois é uma característica judaica sempre ser grato a D'us, entendendo que Ele sempre nos dá mais do que merecemos por direito.

Mas há outra razão: como Yehudá, somos destinados a ser líderes espirituais da humanidade. D'us prometeu a Avraham, o primeiro patriarca do Povo Judeu: "Em seus filhos, serão abençoadas todas as nações do mundo". O que D'us nos destinou é que sejamos uma força de bondade no mundo, proclamando a toda a humanidade que todos os homens descendem de um ser humano que foi obra de D'us. Fomos ordenados de construir um mundo de harmonia e paz, e, como Yehudá, somos responsáveis por cuidar dos demais filhos de D'us.

Como os filhos de Yaacov, os fundadores das Doze Tribos que foram enviados ao Egito, nós somos enviados a este mundo de desafios e segredos. A missão de cada judeu é retirar os demais do "fundo do poço", seja de um poço material ou espiritual, e trazê-los mais próximos de nossa herança e de D'us. Pois como ensinava o Rebe de Lubavitch, como é possível que qualquer um de nós, depois de nossa longa estada na Terra, retornemos à nossa Casa Celestial sem ter levado outros judeus de volta a D'us? Como Yehudá disse a Yossef, o Vice Rei do Egito: "Como subirei eu a meu pai, se o moço não for comigo"?

A complexa dinâmica entre esses dois irmãos, Yehudá e Yossef, reverbera no tempo. Serão dois de seus descendentes que irão redimir o Povo Judeu e toda a humanidade. O Talmud ensina que haverá dois Mashiachs: primeiro, virá o Mashiach filho de Yossef, que será seguido pelo Mashiach filho de David, que descenderá de Yehudá. Será este filho de Yehudá que irá liderar e lutar em nome de todos os seus irmãos, trazendo-os de volta a Israel e Jerusalém.

Bibliografia

Rabbi Elie Munk, Sefer Bereishis. The Call of the Torah, an anthology of interpretation and commentary of the Five Books of Moses. Mesorah Publications.

Rabbi Nosson Scherman, The Chumash - The Artscroll Series - Mesorah Publications, Ltda

Wiesel, Elie, Messengers of G-d, Simon & Schuster

Rabbi Yanki Tauber, Reuben and Judah

Judah - www.chabad.org