Morashá
Rabino Ovadia Yossef ZT'L, pranto por um grande líder Foto Ilustrativa

Rabino Ovadia Yossef ZT'L, pranto por um grande líder

A morte do Rishon Letzion Ovadia Yossef zt’l, rabino chefe sefaradita de Israel durante 10 anos, deixa um vazio no mundo judaico. O amor que nutria por todos os judeus lhe era retribuído por seu povo. No dia em que faleceu, mais de 800.000 pessoas estavam nas ruas de Jerusalém para lhe prestar tributo. Foi o maior funeral já registrado na história do país.

Edição 82 - Dezembro de 2013


Reverenciado líder espiritual e mentor de milhares de judeus sefaraditas, tanto em Israel quanto na Diáspora, era chamado por seus seguidores de Maran (em hebraico, “nosso rabino” e mentor). Profundo conhecedor da Torá e do Talmud – famoso por sua extraordinária memória fotográfica, era capaz de recitar longos e complexos trechos de cor. Muito respeitado por sua erudição, é considerado um dos maiores legisladores na Lei Judaica. Entre os judeus sefaradim e mizrahim1, suas decisões referentes à aplicação de leis da Torá eram consideradas obrigatórias.

Embasado em seu profundo conhecimento da Halachá, a Lei Judaica, o Grão Rabino Ovadia Yossef foi responsável por decisões legais inovadoras e corajosas nesse campo. Entre estas, a permissão para que as viúvas dos soldados da Guerra de Yom Kipur, cujos corpos nunca foram encontrados, pudessem voltar a se casar; e a autorização para que a imigração dos judeus etíopes para Israel ocorresse dentro dos parâmetros da Lei do Retorno.

O Chacham Ovadia Yossef tinha o dom da oratória e conseguia falar, com a mesma desenvoltura, com grandes rabinos ou com judeus com pouco ou nenhum conhecimento do judaísmo.

Ele encontrava tempo para atender todos os que o procuravam para se aconselhar ou receber uma berachá, fossem eles personalidades políticas, homens de negócios ou judeus simples. Líderes israelenses como o então primeiro-ministro Menachem Begin, que buscou seu conselho antes de devolver a Península do Sinai ao

Egito, assim como outros primeiros-ministros e presidentes, procuravam-no antes de tomar decisões importantes. Com frequência, a rua onde morava era bloqueada e cercada de seguranças, pois, certamente, alguma personalidade havia ido em busca do conselho e bênção do Rabino.

Mas, sua maior importância era ser símbolo de liderança para centenas de milhares de judeus sefaraditas e mizrahim. Sob sua liderança, o Partido Shas se tornou o lar político, cultural e espiritual para uma grande parte da população sefaradita de Israel, que, antes dele, se sentia sem representação. Sob o slogan, “Restaurando à Coroa a sua Glória”, o Rabino Yossef os ajudou a se sentirem orgulhosos de sua origem e da cultura que os tinha embalado.

Sua trajetória pessoal

O Rabino Yossef nasceu em 23 de setembro de 1920, um dia depois de Yom Kipur, em Bagdá, Iraque. Seus pais, Yaakov Ben Ovadia e Gorgia, decidiram emigrar para a então Palestina em 1924, quando ele tinha apenas quatro anos. Sem recursos, sua família passava grandes dificuldades. Conta-se que à noite o futuro Rabino Chefe Sefaradita subia no telhado para estudar Torá e Talmud com a luz da Lua.

Durante a adolescência, estudou na Ieshivá Porat Yossef. De posse de grande interesse e de uma memória fotográfica, ele absorvia com facilidade os ensinamentos, passando, rapidamente, a frequentar os cursos avançados então ministrados pelo rabino Ezra Attiya (1885-1970), Rosh Ieshivá (diretor da instituição), um dos maiores professores de Torá do mundo judaico sefaradita do século 20.

Muitos dos jovens que com ele estudaram nessa Ieshivá e com os quais criou fortes laços de amizade vieram a se tornar, também, rabinos proeminentes, que exerceram posições de liderança no mundo judaico sefaradita. Entre estes, Rav Ben Zion Abba Shaul, Rav Baruch Ben Haim, Rav Yehuda Moallem e Rav Zion Levy.

Conta-se que Rabi Attiya foi instrumental em manter o jovem Ovadia no mundo da Torá. Certa vez, o jovem faltou vários dias às aulas. Preocupado, pois aquilo não era de seu feitio, Rabi Attiya foi até a casa dele. Ao lá chegar, ficou chocado com a pobreza da família. Ao perguntar ao pai de Ovadia por que seu filho deixara de comparecer às aulas, ouviu deste que ele precisava da ajuda do filho na pequena mercearia que lhes dava o sustento. Rabi Attiya tentou convencer o homem sobre a importância dos estudos da Torá, mas não teve êxito. Na manhã seguinte, quando chegou à mercearia, o pai encontrou o rabino esperando por ele, vestindo um avental. Rabi Attiya explicou que tinha vindo trabalhar, gratuitamente, no lugar do jovem, possibilitando, assim, que Ovadia retornasse à Ieshivá. “A educação de seu filho é muito mais importante do que o meu tempo”, explicou o Rosh Ieshivá. Esse gesto fez com que o pai de Ovadia percebesse a gravidade das implicações e permitiu que o filho continuasse os estudos.

Rav Ovadia Yossef ficou conhecido ainda adolescente por sua erudição e seus conhecimentos sobre o Talmud e a Torá, e, com 20 anos de idade, foi ordenado rabino pelo Rabi Ben-Zion Meir Hai Uziel.

Ele tinha 24 anos quando se casou com Margalit Fattal, filha de um rabino sefaradita sírio, com quem teve 11 filhos. Margalit, falecida em 1994, era conhecida por seus atos de bondade e caridade. Todos os filhos do casal são eruditos no Talmud; alguns se tornaram Rosh Ieshivá e outros ocupam postos de rabinos distritais. Um deles, o Rabino Yaakov Yossef, faleceu neste ano de 2013. Seu filho, Rav Yitzhak Yossef, foi recentemente eleito Rabino Chefe Sefaradita de Israel. Sua filha, Adina Bar Shalom, fundou uma escola para mulheres religiosas (V. Morashá 78).

Trajetória como Rabino

Em 1945, com apenas 25 anos, Rav Ovadia Yossef se tornou Dayan no Beit Din Sefaradita, a Corte Rabínica dos sefaradim, em Jerusalém.

Dois anos mais tarde, foi convidado pelo Rabi Aharon Choueka, fundador da Ieshivá VeAchvá, para ir ao Cairo para lecionar na instituição. Ainda no Egito, a pedido do Rabino Ben-Zion Meir Hai Uziel, foi chamado para presidir o Beit Din da cidade. Em 1947, passou a ocupar o posto de Vice Rabino Chefe do Egito.

Rav Yossef percebeu que os judeus egípcios, de modo geral, não eram muito observantes no que se referia à Halachá. Uma de suas principais queixas era a falta de um sistema organizado para controle da cashrut. Dois anos após sua chegada ao Cairo, após alguns confrontos com membros da comunidade sobre o assunto, Rav Yossef acabou renunciando ao seu cargo.

É importante ressaltar que ao longo de sua permanência no Egito, Rav Ovadia jamais teve medo de se posicionar em relação a temas considerados politicamente sensíveis. Mostrou coragem e determinação quando se recusou a emitir declarações contra o Estado de Israel, proibiu doações para aquisição de equipamentos militares para o exército egípcio e defendeu seu direito de pregar em público em hebraico.

Em 1950 voltou a Israel, onde já se espalhara sua fama de profundo conhecedor da Torá, do Talmud e da Halachá.

A sede de saber e o amor pela Torá manifestos desde sua juventude o acompanharam durante toda a vida. Logo após o retorno a Eretz Israel, passou a estudar no Midrash Bnei Zion, dirigido pelo Rav Tzvi Pesach Frank. Renomado sábio, Rav Frank ocupou durante décadas o cargo de Rabino Chefe de Jerusalém.

Os conhecimentos acumulados na juventude e os conteúdos absorvidos no Midrash, aliados às características de sua personalidade, fizeram dele um líder indiscutível.

Na época ele costumava estudar até altas horas na sinagoga dos Bucharim, em Jerusalém. Certa vez, Rav Ovadia precisou pegar um livro que se encontrava bem alto na estante. Para alcançá-lo, usou algumas das almofadas da sinagoga. Um dos responsáveis, ao ver o que ele estava fazendo, levantou a voz e o repreendeu severamente. O Rabino da sinagoga, que entrara naquele momento e a tudo assistira, sugeriu que fossem retirar as almofadas e, para espanto de todos os presentes, colocou, no lugar, seu paletó dobrado, permitindo, assim, que Rav Ovadia alcançasse o livro. O Rabino sabia o quão importante o estudo era para Rav Ovadia.

A coragem do futuro Rabino Chefe Sefaradita como posek (legislador) se revelou já em sua primeira gestão como Dayan (juiz), quando, aos 30 anos, escreveu uma responsa haláchica permitindo, se assim quisessem as partes envolvidas, a prática do yibum (casamento por levirato). Esta lei permite que uma viúva sem filhos se case com seu cunhado, sem realizar a halitzá, ou seja, uma cerimônia que elimina essa obrigação. Esta medida exigiu muita coragem, pois contradizia uma recém-promulgada determinação do Rabinato Chefe de Israel, que tornara obrigatória a prática da halitzá.

Em 1954, Rav Yossef fundou a Ieshivá Or HaTorá para jovens sefaraditas. O intuito era perpetuar o método sefaradita de estudar a Torá, em oposição ao método asquenazita, o pilpul, que é a busca de diferenças sutis com base na análise do texto. Igualmente, a Ieshivá visava a formação de futuras lideranças espirituais sefaraditas. Embora a Or HaTorá não tenha permanecido aberta por muito tempo, foi a primeira das inúmeras ieshivot que criou. Foi, também, diretor da Ieshivá Torá ve-Hora’á, da unidade de Tel Aviv da Ieshivá Porat Yosef, e do instituto para formação de Dayanim fundado por ele.

De 1958 a 1965, Rav Yossef atuou como membro da Corte Rabínica de Petach Tikva e de Jerusalém. Em 1965 foi indicado para a Suprema Corte Rabínica de Apelação de Jerusalém e, três anos mais tarde, em 1968, tornou-se Rabino Chefe Sefaradita de Tel Aviv.

No dia 16 de outubro de 1972, foi eleito Rabino Chefe Sefaradita de Israel – por 81 a 68 votos, sucedendo o Rabino Yitzhak Nissim. Sua candidatura para o cargo foi motivo de crítica em alguns segmentos pelo fato de concorrer diretamente com o então Rabino Chefe. Na mesma época, o Rabino Shlomo Goren foi escolhido Rabino Chefe Asquenazita do país.

Enquanto esteve nessa honrosa posição, Rav Ovadia lidou com uma série de questões importantes de cunho social e da Halachá. Fez várias tentativas para unificar os min’haguim (costumes religiosos) sefaraditas e asquenazitas na Terra de Israel. Para ele, estes costumes deveriam estar submetidos às interpretações da lei do Rabino Yossef Caro, autor do Shulchan Aruch, Código de Lei Judaica, do século 16. Em seu entender, como Rabi Yossef Caro legislou na Terra de Israel, isso significava que, mesmo os ashquenazim que moram em Israel deveriam seguir suas determinações. As lideranças asquenazitas, no entanto, que se baseavam nas interpretações de Rabi Moses Isserles, o Rama, não aceitaram a proposta do Rishon LeTzion.

Em 1983, o Rabino Ovadia Yossef deixou o cargo de Rabino Chefe mas, mesmo afastado do cargo, continuou, até o final de seus dias, sendo uma liderança religiosa e uma figura política muito ativa. Suas opiniões eram regularmente expressas nas prédicas de Motzaei Shabat, sábado à noite, e transmitidas via satélite pela rádio Kol Hai, em Israel.

Seu amplo programa de envolvimento comunitário, “Lehachzir Atará Leyoshná” (literalmente, “Restaurar à Coroa a sua glória”), impactou todos os setores das comunidades sefarditas do mundo, levando centenas de milhares de pessoas de volta ao cumprimento das leis de observância do judaísmo tradicional. A expressão “restaurar à Coroa a sua glória anterior”) continha a essência de sua agenda social e haláchica. No âmbito social, visava restaurar a autoestima dos judeus mizrahim e sefaraditas, historicamente discriminados pela maioria asquenazita, em meio à sociedade israelense.

O Partido Shas

Como líder espiritual do Partido Shas, Rav Ovadia era uma voz muito ouvida. Até a década de 1980, ele não se tinha envolvido diretamente na vida política israelense. No entanto, em 1984 fundou o Shas, um partido político ultra ortodoxo, cujo objetivo visava corrigir a injustiça da sub-representação dos judeus orientais na vida pública israelense. O Shas se tornou uma das principais forças políticas do país, cujo clímax aconteceu em 1999, quando elegeu 17 deputados para o Knesset.

O Shas conseguiu integrar, na mesma legenda, partidários de várias correntes de pensamento religioso e político. Sob o slogan “Restaurando à Coroa a sua glória anterior”, levou centenas e milhares de judeus orientais a se orgulharem de suas origens e de sua cultura.

Com a ascensão e fortalecimento do partido, o Rabino Yossef tornou-se uma das figuras mais proeminentes e influentes do país. Com exceção de quatro anos, o Shas foi parte de todas as coalizões governamentais entre 1984 e 2013, tornando-se, em várias ocasiões, o fiel da balança na política israelense. Nas últimas eleições parlamentares, este ano, o Shas elegeu 11 deputados para o Knesset.

O sistema escolar do Partido, em Israel, chamado EI ha-Ma’ayan, foi fundado com a bênção e sob sua direção. As escolas do Shas fornecem transporte e refeições quentes, atraindo jovens famílias nas cidades em desenvolvimento e áreas carentes. As crianças são tratadas com carinho e aprendem a amar a Torá e as tradições.

Rav Yossef era uma personalidade pragmática. Suas origens judaico-orientais tornavam sua visão de mundo relativamente mais aberta e liberal do que a visão de mundo das ieshivot lituanas. Para Rav Ovadia, a formação profissional de um judeu era importante.

Personalidade religiosa e política sempre em evidência, ele se tornou alvo dos terroristas. Em abril de 2005 três membros da Frente Popular de Libertação da Palestina (PFLP), que o seguiam, foram detidos como suspeitos de tentativa de assassinato. Um dos presos, Musa Darwish, foi condenado em dezembro de 2005 sob a acusação de tentativa de assassinato e por bombas incendiárias em carros na estrada de Ma’aleh Adumim, nos arredores de Jerusalém. Foi condenado a 12 anos de prisão e três em regime condicional.

Amor ao povo e à Torá

O Chacham Ovadia Yossef tinha sede de Torá. Certa manhã, um de seus filhos encontrou-o deitado no chão, estudando. Perguntou-lhe: “Por que o Rav está no chão?” E o pai respondeu: “Acordei cedo, subi uma escada para pegar um livro e caí. Tentei pedir ajuda, mas era muito doloroso e ninguém ouviria meu chamado. Então, ao invés de ficar simplesmente deitado no chão sentindo dor e perdendo tempo, peguei o livro de Torá que pude alcançar e decidi estudar”. Quando foi ao médico, constatou-se que tinha quebrado uma costela e que precisava ser operado.

Há cerca de dez anos, o Rabino Yossef sofreu o primeiro ataque cardíaco, sendo imediatamente levado ao hospital. Os médicos concluíram que ele precisava ser operado em caráter de urgência. Ele pediu para adiar a operação por três dias e pediu voltar para casa. O Rabino Aryeh Deri, seu principal assessor, foi pego de surpresa pelo pedido e tentou convencê-lo a não esperar mais. Depois do adiamento da cirurgia, ele explicou a sua atitude: “Eu estava escrevendo uma responsa sobre uma aguná (uma mulher em situação civil indefinida, segundo a lei judaica) quando tive o infarto e não pude terminar o trabalho. Se eu não sobrevivesse à cirurgia, o que seria da pobre mulher? Ela estaria numa situação indefinida pelo resto de sua vida, impossibilitada de se casar novamente. Eu tinha que terminar a responsa antes da cirurgia”.

O Chacham adotava o ditame talmúdico de que “o poder da indulgência é o maior de todos”. Um de seus princípios fundamentais sobre a legislação haláchica é que a indulgência deve-se sobrepor à chumrá -

proibição ou obrigação da prática judaica que exceda os limites da Lei judaica. Para ele, esta era uma característica que diferenciava a abordagem da Halachá sob a ótica sefaradita em relação à asquenazita.

Em uma de suas decisões judiciais, cita o Rabi Chaim Josef David Azulai: “Os sefardim são definidos por uma medida extra de piedade e, portanto, são indulgentes em relação à Halachá; enquanto os asquenazim são dominados por uma medida extra de severidade e, portanto, julgam de maneira mais rígida”. Rav Ovadia considerava este princípio ideal, pois se lhe perguntassem algo sobre ritual, do ponto de vista haláchico, e ele conseguisse provar que uma posição mais leniente era a correta, para ele isso representava uma grande conquista”.

Escritor prolífico de trabalhos haláchicos

Sua grandeza na interpretação da Lei religiosa se baseava no registro cronológico que mantinha dos últimos 200 anos de decisões do Beit Din e a coragem com a qual emitia suas próprias sentenças, geralmente indulgentes, muitas vezes sobre assuntos delicados que outros rabinos nem ousavam tocar.

Ele publicou seu primeiro trabalho, Yabi’a Omer, aos 18 anos, enfocando assuntos do Tratado Horayot. Usou o mesmo título para uma coleção de responsas publicadas em Jerusalém em 1954, 1956, 1960,1964 e 1969. Com a obra “Yabi’a Omer”, Rav Ovadia ganhou o respeitado Prêmio Israel na categoria de Literatura sobre a Torá.

Uma segunda série de responsas foi publicada sob o título Yeavei Da’at. Escreveu, também, Hazon Ovadyah (1952), sobre a Hagadá de Pessach, obra dividida em duas partes: uma haláchica e outra na forma de Midrashim. A segunda parte foi publicada e ampliada em uma nova edição, em 1967. Seus trabalhos se diferenciavam pela erudição, com posições claras e objetivas.

Um funeral sem igual

O Rishon LeTzion Ovadia Yossef teve um infarto em janeiro de 2013. Foi hospitalizado no dia 21 de setembro em estado crítico e faleceu, aos 93 anos, no dia 7 de outubro no Hospital Hadassah-Ein Keren, em Jerusalém. O presidente Shimon Peres o visitou algumas horas antes de seu falecimento, dizendo posteriormente: “Quando apertei sua mão, senti que estava tocando a História. E quando beijei sua cabeça, pensei que era como se estivesse beijando toda a verdadeira grandeza de Israel”.

Às 17h, uma hora antes do funeral, as ruas já estavam totalmente fechadas à passagem dos carros – na hora do rush, os veículos foram substituídos pelos pedestres que lotavam as vias de acesso ao cemitério Sanhedria. Imagens aéreas da cidade mostravam um mar de trajes negros dos judeus ortodoxos vindo das avenidas ao norte da cidade. Mas havia, também, milhares de pessoas com roupas informais, jovens de camisetas e soldados uniformizados, ainda carregando suas armas, vindo diretamente de suas bases. Pequenas quipot, dos ortodoxos modernos, misturavam-se aos chapéus negros. Um homem de casaco negro conversava com outro de bermuda. Centenas de mulheres, a maioria trajada de forma recatada, caminhavam pelas ruas.

O funeral do rabino Yossef foi o maior já registrado na História de Israel – mais de 850 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia de Jerusalém, das quais 200 mil vindos de outras cidades. O tráfego nos arredores de

Jerusalém foi totalmente fechado e cerca de outros 200 mil não conseguiram entrar em Jerusalém. Cerca de 15% da população de Israel compareceu para render tributo a seu grande líder.

Essa comoção nacional revela a singularidade do Chacham Ovadia que, além de seu brilho e sua compaixão, possuía algo que o tornou, de fato, insubstituível: independentemente de qual fosse a faceta da vida judaica, ele era a pessoa certa onde buscar aconselhamento. “A vida desafia a Torá com diversas questões, pois o mundo mudou e tais mudanças precisam ser respondidas de maneira adequada”, dizia. O rabino Ovadia fez desse desafio constante a sua missão.

Sua grandeza não se limitava ao conhecimento da Torá, mas do mundo em geral. Ele era capaz de mostrar que a Torá tinha respostas para todos os assuntos e questões do dia-a-dia. Esta característica, na verdade, este dom, refletiu-se no seu funeral, pela profunda emoção dos presentes e pela incrível diversidade dos que ali estavam. Cada tipo de judeu, de cada etapa de sua vida ali estava para manifestar sua solidariedade um ao outro, lamentando juntos a perda de um homem tão grandioso.

Sobre ele, disse o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu: “O Rabino Ovadia foi um profundo conhecedor da Torá e da Lei judaica e um professor para milhares de pessoas. Ele trabalhou arduamente para fortalecer a herança judaica e, ao mesmo tempo, sua forma de liderança sempre levou em consideração os tempos e as realidades da renovada vida no Estado de Israel. Ele era totalmente imbuído do amor pela Torá e pelas pessoas”.