Morashá
Rabi Yitzhak Kaduri, z´l Foto Ilustrativa

Rabi Yitzhak Kaduri, z´l

Inúmeras são as histórias sobre a vida de Rabi Kaduri. Muitos lhe atribuíam poderes milagrosos. No universo da Cabalá, era considerado autoridade suprema. Para o mundo judaico, suas previsões eram um alerta para os doentes, pobres e desamparados, seus conselhos e bênçãos, um alento.

Edição 52 - Abril de 2006


O mundo judaico perdeu no dia 28 de Tevet (28 de janeiro), um shabat, o Rabi Yitzhak Kaduri, o mais respeitado cabalista da atualidade, vítima de pneumonia. Mais de 200 mil pessoas lotaram as ruas de Jerusalém, durante horas, acompanhando o cortejo fúnebre ao cemitério de Har Menuchot, onde o sábio foi enterrado. Segundo as autoridades, este foi um dos maiores funerais registrados na memória recente de Israel, comprovando a reverência e o carinho que o venerado Rabi despertava no seio da sociedade israelense. Inúmeras personalidades religiosas e laicas, jovens e idosos, representantes de todas as correntes do judaísmo acompanharam Rabi Kaduri à sua última morada. Na ocasião o presidente de Israel, Moshe Katsav, disse: "Perdemos um dos maiores líderes espirituais desta geração, uma figura de enorme estatura, que velava por nosso povo... O rabino Kaduri deu um exemplo a todos nós ao se desprender do materialismo. Era um modelo da espiritualidade e da moralidade que acompanham o povo judeu, há gerações".

Uma vida dedicada à Torá

Homem de dons intelectuais e espirituais únicos, o Rabi Kaduri dedicou sua longa vida à Torá e a seu povo. Chamado de Rosh Hamekubalim, que poderia ser traduzido como o "Líder dos Cabalistas", era o mais respeitado mekubal da atualidade. Sua espiritualidade e profundos conhecimentos do misticismo judaico o tornavam único, reconhecido dentro e fora de Israel.

Rabi Kaduri nasceu no Iraque, por volta de 1897, quando o país ainda era parte do Império Otomano. Nem sua família ou discípulos mais próximos sabem, com exatidão, sua idade. Supunha-se que tivesse 106 anos. Inúmeras são as histórias e lendas que povoam sua longa e abençoada vida. Desde jovem, conforme a tradição sefaradita, escolheu uma profissão que lhe garantisse o sustento, enquanto se dedicava ao estudo da Torá. Assim sendo, o grande Rosh Hamekubalim encadernou livros durante a maior parte de sua vida.

Antes dos 13 anos, começa a estudar com o Rabi Yossef Hayim, de Bagdá, líder espiritual do judaísmo oriental e um dos maiores mestres das últimas gerações. Abençoado com dotes intelectuais privilegiados, foi um dos últimos discípulos do Rabi Hayim, também conhecido como Ben Ish Hai. Conta-se que o sábio abençoou o jovem Rabi Kaduri com uma vida longa - o que de fato ocorreu. Mestre tanto em Halachá como em Cabalá, Ben Ish Hai transmitiu a Rabi Kaduri, além de seus conhecimentos, grande amor e dedicação pela Terra de Israel. Aos 16 anos, já considerado uma autoridade entre os rabinos de Bagdá, partiu rumo a Eretz Israel. Uma vez lá estudou na Ieshivá Porat Yossef, em Jerusalém, tendo como professores grandes nomes do misticismo, que viviam e estudavam na cidade desde o início do século XIX. Entre seus mestres contam-se o rabino Salman Eliyahu, pai do Rishon Le'Tzion, o rabino Mordehai Eliyahu; o rabino Yehuda Petaya e o rabino Efraim Cohen, diretor e coordenador daquela prestigiada Ieshivá.

Após a Guerra da Independência de Israel, Rabi Kaduri ingressou na Ieshivá Bet-El, passando a residir no bairro de Bucharim, em Jerusalém, da forma modesta que sempre o caracterizou. Mesmo sem jamais ter publicado nenhuma obra, era respeitado por sua erudição e sabedoria. Ainda que segmentos mais céticos tenham duvidado de seu poder de cura ou de suas visões proféticas, sempre houve consenso em relação aos seus profundos conhecimentos sobre a Lei e o misticismo judaico. Quando, em 1990, visitou o Rebe de Lubavitch, este lhe disse que o nome Kaduri, que significa "globo" em hebraico, indicava a grande influência que ele exercia, não apenas sobre Israel, mas sobre todo o mundo.

Milhares de pessoas dão testemunho de sua sabedoria, visões e poderes milagrosos. Durante uma entrevista publicada logo após o seu falecimento, um dos discípulos do Rabi Kaduri disse ao jornal israelense Haaretz: "Milhares foram beneficiados por suas bênçãos - vítimas de câncer, doentes cardíacos e casais sem filhos recuperaram sua fé e esperança na vida".

À procura de ajuda e de uma berachá, muitos iam até Jerusalém. À porta de sua residência podiam ser vistas longas filas de pessoas que, pacientemente, esperavam para ser atendidas pelo Rabi. Nos últimos anos, vivia em um apartamento anexo à sinagoga construída em sua homenagem pela família Safra.

Durante esta última década, muito enfraquecido, o Rabi Kaduri, com sua longa barba branca, mal tinha forças para falar. Suas palavras eram transmitidas pelos filhos, aos quais as sussurava, com grande esforço. Devido à sua saúde frágil, procuravam mantê-lo mais distante do público. Ainda assim, quem o quisesse, podia vê-lo na sinagoga. Apesar de não conseguir segurar o sidur nem tampouco fazer qualquer movimento sozinho, não faltava aos serviços religiosos.

A forma mais simples de se aproximar dele para obter uma bênção era participar das preces matutinas. O "brilho em seu rosto" e o sorriso acalentador com que recebia quem quer que fosse chamavam a atenção de todos que se aproximavam. "Era como se houvesse uma aura especial a envolvê-lo", dizem seus seguidores. Quando era mais jovem e, com passos firmes, caminhava pela sinagoga carregando a Torá, era comum as pessoas dele se aproximarem para tocar suas mãos ou apenas o talit que o envolvia.

A Guerra de Iom Kipur, em 1973, teve um papel fundamental no aumento de sua popularidade fora dos círculos religiosos e cabalistas. Movidas pelo desespero e atraídas pela fama do sábio, dezenas de famílias de soldados desaparecidos em combate o procuravam para obter informações sobre seus entes queridos.

Foi, no entanto, a partir de meados da década de 1990 que seu nome atravessou o país de norte a sul, justamente quando começou a se envolver na vida política nacional. Uma simples palavra de Rabi Kaduri era capaz de mover montanhas políticas. Para muitos, não há dúvidas de que o magnetismo exercido pelo rabino nos meios tradicionalistas e religiosos contribuiu para o sucesso dos setores mais ortodoxos nas eleições israelenses de 1996. Além de dar sua bênção ao então candidato a primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, que realmente venceu o pleito, também deu explícito apoio ao Partido Shas, que conquistou dez cadeiras na Knesset. Em 1998, realizou-se um encontro pouco usual na Jordânia entre o Rabi Kaduri e o Rei Hussein. O Rabi, que foi à Jordânia na qualidade de convidado pessoal do Rei, foi levado num helicóptero pilotado pelo próprio Hussein ao túmulo de Aaron, irmão de Moshé Rabênu, sepultado no Monte Hor.

Nesse mesmo ano, o Rabi Kaduri afirmou que o ditador iraquiano devia ser removido do poder. "Que o medo caia sobre eles (os iraquianos)", foram suas proféticas palavras. Em 1999, se opôs abertamente a um plano de paz com a Síria, que previa a devolução das Colinas do Golã. Na ocasião, disse textualmente que "a região não deveria ser devolvida aos sírios". Um ano mais tarde, as negociações seriam abandonadas.

Em 2000, Rabi Kaduri revelou ter tido uma visão acerca do então pouco conhecido deputado Moshe Katsav, segundo a qual este seria favorecido na eleição. Atual presidente de Israel, Katzav derrotou o trabalhista Shimon Peres na disputa pelo cargo.

Em setembro do ano de 2005, Rabi Kaduri conclamava os judeus do mundo todo a viver em Israel, alertando sobre os grandes desastres naturais que ocorreriam em diferentes partes do mundo. Um de seus derradeiros pronunciamentos descreve a vida em Israel após a chegada do Mashiach e a era de Luz, paz e justiça que, então, envolverá o planeta em que vivemos.

Mesmo hospitalizado desde 15 de janeiro, o Rabi continuou a receber e abençoar os que o visitavam e a estudar Torá. Após alguns dias, pediu para ter alta para poder encontrar-se com aqueles que o precisavam de sua ajuda.

Rabi Kaduri, de Abençoada memória, deixou sua segunda esposa, a Rabanit Dorit, filhos e inúmeros netos e bisnetos, além de centenas de milhares de judeus, em toda a parte, inconsoláveis com sua partida deste mundo.