Morashá
Rabi Levi Yitzhak, de Berditchev Foto Ilustrativa

Rabi Levi Yitzhak, de Berditchev

Conta-se que quando nasceu o Rabi Levi Yitzhak, de Berditchev, O Baal Shem Tov - renomado fundador do Movimento Chassídico - teria declarado: ´Uma grande alma desce dos Céus e ela zelará pelo bem-estar do Povo Judeu`.

Edição 52 - Abril de 2006


As palavras proféticas do Baal Shem Tov, de fato, se concretizaram: ao crescer, o Rabi Levi Yitzhak, de Berditchev, tornou-se um importante Rebe e Sábio, erudito e místico - mas é lembrado, sobretudo, por ter amado e defendido, incondicionalmente, seu povo e sua gente. De forma semelhante ao Baal Shem Tov, cujo espírito personificou, o Rabi Levi Yitzhak, é reverenciado não tanto por sua erudição, mas pelas histórias extraordinárias a seu respeito. Segundo a tradição chassídica, o relato de uma de suas histórias, a invocação de seu nome ou a simples menção de sua cidade, Berditchev, representam uma segulá - um meio espiritual de se alcançar a realização de um desejo.

Se a cidade de Berditchev, localizada na atual Ucrânia, está inexoravelmente ligada ao nome do Rabi Levi Yitzhak - e, de fato, a ele só se referem como "o Rebe de Berditchev" - é porque foi lá que ele se estabeleceu enquanto rabino. Mas era natural de Husakov, um vilarejo na Galícia, filho de Rabi Meir, proeminente estudioso do Talmud e da Cabalá, décimo sexto membro de sua família a seguir o rabinato. Rabi Meir enviou seu filho à ieshivá de Yarislav, para estudar a Torá, onde, em pouco tempo, ele ficou conhecido como "o prodígio de Yarislav".

Aos 17 anos de idade, Levi Yitzhak se casou com a filha do Rabi Israel Peretz, de Libertov. Não muito longe dessa cidade polonesa, localizava-se Ritchvol, cujo líder religioso era Rabi Shmelke Horowitz, mais tarde conhecido como o famoso Rebe de Nikolsburg. Levi Yitzhak passa a estudar Talmud e seus comentários com o Rabi Shmelke, em quem causou uma profunda impressão. O mestre via-se diante de um aluno faminto por conhecimentos; um jovem que não pronunciava sequer uma palavra em vão. Resolve encaminhá-lo a seu próprio mestre e o leva pessoalmente a Metzeritch, ao Grande Maguid.

Este grande sábio foi o maior dos discípulos do Baal Shem Tov, a quem sucedeu, após o falecimento do Mestre. Era o novo líder do Movimento Chassídico. Um tzadik de grandes poderes, famoso pelos milagres que obrava, ainda mais renomado por sua vasta erudição - assim era o Maguid de Metzeritch. É um dos maiores eruditos em Torá na História Judaica. E o simples fato de o grande líder ter aceito Rabi Levi Yitzhak como seu pupilo é prova inconteste da elevada espiritualidade e dos conhecimentos do jovem, pois que o Maguid apenas ensinava pessoalmente os mais elevados espíritos e mentes de sua geração. Apesar do aluno mal ter completado 20 anos, conquistou a reputação de ser um dos melhores alunos do Maguid de Metzeritch.

No ano de 1761, quando o Rabi Shmelke deixou Ritchvol, o discípulo Rabi Levi Yitzhak o substituiu como rabino da cidade. No entanto, crescia na região a oposição aos chassidim e o novo rabino foi praticamente escorraçado de lá. Como era um grande erudito, verdadeiro gênio talmúdico, prontamente lhe ofereceram várias outras posições rabínicas. Mas, como em Ritchvol, onde quer que fosse era combatido e expulso pelos mitnagdim - ferrenhos oponentes do Movimento Chassídico. Isto até que, finalmente, em 1785, torna-se o rabino da cidade de Berditchev, onde permanece até o fim de seus dias.

Defensor de Israel

Uma história chassídica muito conhecida: o Rabi Levi Yitzhak vê um cocheiro que, enquanto põe os tefilin, engraxa as rodas de sua carroça. A cena permitia que ele visse um homem que trabalhava enquanto rezava. Mas ele opta por ver um homem que reza enquanto faz seu trabalho. Levantando, então, seus olhos em direção aos Céus, exclama: "D'us de Israel, orgulha-te de Teu Povo! Pois seus filhos oram a Ti mesmo em meio à labuta diária".

Esta história é contada e recontada por simbolizar o olhar bondoso do Rabi. Via sempre o lado bom das pessoas, dando-lhes o benefício da dúvida, isentando-os, assim, de antemão, de qualquer ato ilícito. Defensor dos pobres e dos fracos, misericordioso em seus atos, destemidamente enfrentava quem quer que fosse - até mesmo D'us - em sua busca pela justiça e pela proteção de seu povo.

Portanto, não nos surpreende o fato de pobres, ignorantes, rejeitados o procurarem. Sua presença e afeto os tornavam importantes para si próprios. Dava-lhes o que mais necessitavam - dignidade. Como o Baal Shem Tov, dedicava-se à camada mais simples e humilde da população. Amava todos os seus irmãos, judeus, mas sua empatia era canalizada aos humilhados, aos famintos, aos marginalizados. Atraía-o seu sofrimento. Apesar de não ter posses, o pouco que ganhava distribuía aos pedintes. Em seu entender, os recursos materiais apenas existiam para serem distribuídos entre os carentes.

Rabi Levi Yitzhak, de Berditchev, soube defender a todos, menos a si próprio. Apesar de grande talmudista, costumava perguntar: "Por que todos os tratados do Talmud se iniciam na 2ª. página?". Ao que ele mesmo respondia: "Para nos recordar que ainda que os saibamos de trás para frente, sequer iniciamos a entendê-los". Como outros grandes tzadikim que o precederam, era desumanamente severo consigo próprio. Todas as noites, antes de adormecer, passava em revista o dia. E chorava. "Levi Yitzhak pecou, hoje", dizia a si mesmo. "Mas Levi Yitzhak promete não mais fazê-lo. É verdade, ele fez igual promessa ontem. Mas, esta noite, está determinado a cumpri-la".

Mas, quando se tratava de alguém outro, ele jamais pronunciou uma palavra negativa. Fez todo o possível para isentar os judeus do pecado, arcando com a responsabilidade por todos os sofrimentos da humanidade. Aproximava-se de todos, tentando resgatá-los de seus erros. Certa vez, ao se deparar, na rua, com um notório pecador, esse mestre do chassidismo lhe disse: "Sabe que o invejo?", ao que o homem, incrédulo, respondeu: "Posso saber por quê?" E o Rebe de Berditchev: "Porque dizem os sábios que aquele que se arrepende, do fundo d'alma, tem todos os seus pecados transformados em méritos. Portanto, se você se arrepender, de todo o coração, seus méritos serão muitos e maiores que os meus".

Tinha o poder de tocar a alma dos outros, fazendo emergir o que tinham de melhor. E, como tantos outros Tzadikim, justos, tinha o dom do Ruach Hakodesh - o sexto sentido, a capacidade de ver o que aos olhos dos outros ficava encoberto. Uma vez, quando vivia em Minsk, chamou à sua presença um professor, jovem e tímido, de nome Aharon. Apesar de hesitante, o jovem atendeu o ilustre chamado. Rabi Levi Yitzhak o recebeu com grandes honras: "Baruch habá! Seja bem vindo, Rebe Aharon. Sente-se, Rebe Aharon de Karlin". O visitante, que aos olhos dos comuns era um homem do povo, simplório, surpreendeu-se com a acolhida, mas não se pronunciou. Os dois se sentaram, mantendo-se em silêncio. Não trocaram palavra. Por fim, após duas horas sem emitir som algum, os dois sorriem - simultaneamente. A seguir, põem-se de pé e cada um toma seu rumo, em silêncio. Não se sabe o que aquele silêncio ou aquele sorriso continham, em si, ou transmitiram. Mas, sabe-se que o jovem professor se tornou o Rebe Aharon, de Karlin - um dos pilares do movimento chassídico, sábio e justo, e poderoso operador de milagres.

Rabi Levi Yitzhak conquistou vários adeptos para o seio dos chassidim - mas, ele próprio nunca fundou nenhuma Casa com seu nome. Era despido de vaidades e estava muito acima das discussões mundanas. Preferia seguir a ser seguido. E, por essa razão - por sua humildade e piedade, e por sua genuína preocupação com qualquer de seus semelhantes - sempre que surgia um problema na comunidade chassídica - quer fosse uma disputa a ser arbitrada, quer fosse uma ação conciliatória a ser tomada - o local para onde se dirigiam todos era um único - Berditchev.

Não levava muito tempo para que Rabi Levi Yitzhak vencesse qualquer oposição, até mesmo em se tratando dos mitnagdim - oponentes dos chassidim. Desarmava a todos com sua natureza afável e caridosa. Nem seus opositores ficavam imunes a seu carisma, ao amor e respeito que dele emanavam. Ele os conquistava com sua sinceridade e piedade e com o amor, irrestrito e incondicional, que nutria por todos os judeus, sem os diferenciar por sua erudição em matéria de Torá ou pela vertente religiosa ou a intensidade com que a cumpriam.

Batalhas travadas com o Eterno

Como os demais mestres chassídicos, o Rabi Levi Yitzhak de Berditchev vivia segundo o princípio fundamental da Torá: amar os outros e buscar o seu bem-estar. Mas quando falava em defesa dos Filhos de Israel, ia além dos Sábios que o precederam e dos que o sucederam: até mesmo com D'us ousava disputar. Os profetas bíblicos questionavam o Criador e Seus caminhos misteriosos, mas jamais algum deles ousara julgá-Lo. Rabi Levi Yitzhak, no entanto, esbravejava contra os Céus, praticamente sem reservas. Certa vez, permaneceu de pé em seu púlpito, de manhã à noite, sem nenhuma palavra pronunciar. Antes, disse a D'us: "Se Te recusares a atender nossas preces, recusar-me-ei a seguir entoando-as".

Em Rosh Hashaná, certo ano, antes do serviço de Mussaf, Rabi Levi Yitzhak bradou, em plena sinagoga: "Hoje é o Dia do Julgamento. O Rei David o proclamou em seus Salmos. Hoje é o dia em que todas as Tuas criaturas se colocam diante de Ti, para que Tu pronuncies a Tua sentença. Mas eu, Levi Yitzhak, filho de Sarah, digo e proclamo diante de todos que Tu serás julgado, hoje! Serás julgado por Teus filhos que sofrem e morrem por Ti e pela santificação de Teu Nome e de Tua Torá!"

Em se tratando de defender seu povo, o Rabi Levi Yitzhak não dava trégua ao Todo Poderoso. Costumava implorar a D'us: "Se um judeu vir um conjunto de tefilin no chão, correrá para os recolher e beijar. Não está, porventura, escrito que nós somos os Teus Tefilin? Quando irás recolher do chão todos os nossos caídos?" Ou, como disse certa vez: "Ordenaste ao homem que fosse em auxílio dos órfãos... Nós, o Teu Povo, somos todos órfãos. Por que, então, não nos socorres?"

Em Yom Kipur, o Dia do Perdão, o Rebe de Berditchev tinha o costume de fazer ver a D'us que também Ele devia pedir perdão pelos sofrimentos que impusera a Seu Povo. E costumava "barganhar" com o Altíssimo: "Nós Te daremos nossos pecados e Tu, nos retribuirás com o Teu perdão. E Tu é que saíras ganhando. Pois, que farias do Teu perdão se não contasses com nossos pecados?"

Mas Rabi Levi Yitzhak não se satisfazia apenas com as perguntas que dirigia a D'us. Exigia Suas respostas. Certa vez, às vésperas de Pessach, transtornado com o sofrimento de nosso povo, explodiu: "Esta noite celebramos nosso Êxodo do Egito. Segundo a tradição, quatro filhos questionam seus pais sobre o evento. Não, são apenas três. O quarto nem sabe o que perguntar. Eu sou esse quarto filho. Não que me faltem perguntas, ó Eterno. Mas não sei como enunciá-las. E ainda que o soubesse, não ousaria fazê-lo. Portanto, não vou perguntar-Te por que somos perseguidos, massacrados, onde quer que estejamos e sem motivo. Mas, ao menos, gostaria de saber se todo o nosso sofrimento é por Ti, em louvor de Teu Nome".

A despeito de suas explosões em público, ninguém jamais o poderia acusar de blasfemar. Ele era um Sábio, um tzadik, que dedicou sua vida a D'us e a levar os judeus para mais perto Dele e de Seus Mandamentos. Certo dia, ao ver os judeus em verdadeiro frenesi, a comprar e vender na praça do mercado, subiu ao telhado de uma casa e se pôs a bradar: "Meus irmãos, minha gente boa, não se esqueçam de que acima de nós há um D'us deste mundo, a quem devemos temer!".

Mesmo quando o Rebe de Berditchev se confrontava com o Criador, ele nunca deixou de O reverenciar por um segundo sequer. Na véspera de Rosh Hashaná, ele não entrava na sinagoga ereto. Ia totalmente encolhido, vergado, quase tocando o chão para demonstrar sua nulidade e total submissão a D'us. Conta-se que quando ele entrava na sinagoga o trovejar de sua voz chegava a sacudir as paredes. E, enquanto orava - o que fazia constantemente e por longo tempo - o fazia com toda a intenção e a força de sua alma. Como o Rabi Akiva, que o antecedera por 2 milênios, ele reverenciava a D'us com tamanho abandono que, enquanto orava, o mundo à sua volta deixava de existir. Certa vez, um grupo de baderneiros, anti-semitas, atacaram-no enquanto orava, sem piedade. Ele não interrompeu a oração, pois, naquele momento em que comungava com o Altíssimo, aquela turba não existia para si e ele não sentia a dor dos ferimentos. Seu fervor era assim intenso, ao rezar, por ser enorme a sua fé na oração. Aliás, tudo o que fazia era imbuído de intensa dedicação, envolvendo todo o seu ser.

Seus trabalhos, intitulados Kedushat Levi, são permeados por dois temas básicos: o amor pelo povo judeu e a reverência a D'us. Nos textos que deixou, escreveu: "A pessoa deve temer a D'us com tamanha intensidade a ponto de anular totalmente o seu ego". Ensinou, também, que "a principal causa do exílio era o ódio que existia entre nós, judeus, e que a única maneira de fazer chegar a redenção era através do amor mútuo. E tal amor só se torna possível se todo o nosso povo estiver unido entre si e em torno de D'us, Raiz de toda a união. E até mesmo a advertência e as ações corretivas não devem ter por objetivo diminuir aquele que as recebe; devem, sim, convencê-lo de quão elevada é sua alma e do quanto é amado por D'us".

Desde tenra idade Levi Yitzhak se revelara um prodígio, um grande talmudista. Mais tarde, ele se revelou como místico, cabalista, mestre operador de milagres que faziam dobrar e vergar as leis da natureza, seguindo sua vontade. Vejam esta história. Seu neto desposou a neta do Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Alter Rebe, fundador do movimento Chabad-Lubavitch. Quando ambos os Rebes, grandes Tzadikim cada um, deixaram a festa de casamento, depararam com uma multidão que bloqueava a saída. Rabi Levi Yitzhak virou-se para o Alter Rebe e disse: "Atravessemos a parede. Por que haveríamos de permitir que obstáculos materiais se interpusessem em nosso caminho?". Mas o Alter Rebe não o deixou fazê-lo, dizendo que "um homem não precisa mostrar tudo o que é capaz de fazer".

Seu legado

Rabi Levi Yitzhak, de Berditchev, personificava a essência de um mestre chassídico. Incorporava todas as características que o Baal Shem Tov introduzira no mundo judaico: uma abordagem nova e fervorosa ao judaísmo, o papel do tzadik como médico de almas, dispensador de misericórdia e bênção, e portador de um amor pelos judeus pobres e ignorantes, em geral esquecidos pelos eruditos.

Tão amado era o Rabi de Berditchev - não apenas na Terra, mas também nos Céus - que, quando morreu, viu-se um pilar de fogo pairando sobre seu esquife. Na tradição judaica, esse era o sinal - no passado, reservado apenas para os mestres supremos do Talmud - que alguém de extraordinária espiritualidade e mérito acabara de passar deste mundo para o Mundo das Almas.

Os demais mestres chassídicos, que o amavam e respeitavam, inundavam-no de louvores. Seu professor, o Rebe Shmelke de Nikolsburg, que o apresentara ao mundo chassídico, chamava-o de "Meu discípulo de niglá (a Torá revelada) e meu Mestre em nistar (a Torá mística, a Cabalá). Rebe Shneur Zalman de Liadi assim se referia a ele: "D'us é o Tzadik nos Céus e Levi Yitzhak o é aqui na Terra". Rebe Baruch de Mezibush, neto do Baal Shem Tov, alegava que os anjos invejavam o fervor do Rebe de Berditchev. O Rebe Menachem-Mendel de Kotzk, que dedicou sua vida a buscar a verdade e a dizer a verdade, afirmou sem hesitar que os portões do santuário do amor tinham sido abertos pelo Rabi Levi Yitzhak. Após sua morte, segundo o mestre de Kotzk, tais portões se haviam fechado. Rabi Nachman de Bratislav, grande místico que viu na alma de Rabi Levi Yitzhak a "luz de Israel", disse que "Qualquer um que tenha olhos em sua cabeça verá que, no dia que ele faleceu, uma grande escuridão desceu sobre este mundo". Dos Céus, realmente, desceu sobre a Terra uma grande escuridão após a partida do Rabi Levi Yitzhak de Berditchev. O povo judeu perdeu seu grande defensor. Contam os chassidim que antes de falecer, o Rabi jurou, na presença de seus mais diletos discípulos, que se recusaria a entrar no Jardim de Éden até que o Messias chegasse à Terra, para nos redimir. Mas, para impedi-lo de manter a promessa, os anjos celestiais o ludibriaram: fizeram dele um anjo de fogo, soprando-o diretamente para os Céus.

Esta história, segundo seus seguidores, explica a razão para o Mashiach tardar tanto a chegar. Eles acreditam ser também a razão para que o Rabi Levi Yitzhak não tivesse podido prever e evitar as atrocidades que se abateriam sobre o judaísmo europeu. Nos campos de morte - sim, em especial nos campos de extermínio - nosso povo o recordava e buscava ânimo em suas histórias. Desde o Holocausto, tais histórias se tornaram mais relevantes do que nunca. Pois, foi através das mesmas que o Rabi continuou sendo um porta-voz para todos os homens de bem - judeus ou não - que são torturados intimamente pelas razões para o sofrimento, a maldade e a injustiça que recaem sobre a humanidade.

Como nosso patriarca, Abrahão, o Rebe de Berditchev teve a coragem de dizer a D'us que não cabia ao Juiz do Mundo não praticar a justiça. Como Moshé Rabênu, nosso Mestre, o maior profeta de todos os tempos, ele teve a audácia de questionar o Todo Poderoso: "Senhor, por que Tu fizeste tanto mal a Teu Povo?". E, como o profeta Jonas, ele se mostrou mais preocupado em fazer o bem para os Filhos do que em honrar o Pai.

Exatamente como previsto pelo Baal Shem Tov, que se regozijou com a chegada dele ao mundo por já prever sua grandeza, Levi Yitzhak se tornou uma lenda viva, não apenas entre os chassidim. Hoje, suas histórias são transmitidas em todos os segmentos do povo judeu, até mesmo por aqueles cujos antepassados a ele se opunham. Fala-se dele com tal familiaridade e intimidade, como se fosse um de nossos pares e vivesse entre nós. Desta forma, portanto, pode-se até dizer que ele transcendeu a morte. O legado do Rabi Levi Yitzhak de Berditchev é de justiça poética. Ele, que amava todos os judeus, passou a ser amado por todos. Ele, que se esquivou, por toda a vida, da fama e das honrarias, tornou-se, juntamente com o Baal Shem Tov, o Mestre chassídico mais popular e festejado. E ele, que nunca fundou uma Casa com seu nome por não querer ser o Rebe de ninguém, tornou-se, com o tempo, o Rebe de todos.

Traduzido por Lilia Wachsmann

Bibliografia:

Rabi Aryeh Kaplan, Chasidic Masters, Moznaim Pub. Corp

Wiesel ,Elie ,Souls on Fire, Ed. Simon & Schuster