Morashá
RABI BACHYA JOSEPH IBN PAQUDA Sinagoga Maria de La Blanca em Toledo - 'The Synagogue'

RABI BACHYA JOSEPH IBN PAQUDA

Rabi Bachya Bar Joseph Ibn Paquda, autor da famosa obra Deveres do Coração, Chovot Halevavot, foi um dos mais conhecidos filósofos religiosos da Espanha andaluza. Para ele, o judaísmo baseava-se em uma verdade espiritual fundamentada na razão tanto quanto na revelação e tradição.

Edição 30 - Setembro de 2000


Deveres do Coração foi a primeira obra na qual os valores éticos do judaísmo foram tratados de forma sistemática. A personalidade do autor, seu brilhante intelecto e amplo conhecimento, assim como a sua bondade e humildade profundas são manifestadas em cada página da obra. Rabi Paquda consegue combinar um raciocínio lógico a uma emoção e eloqüência poéticas, conseguindo assim mexer com o coração dos leitores. Sua obra tem influenciado gerações inteiras de judeus, desde a sua publicação até os dias de hoje.

Sua vida

Rabi Bachya, também chamado de Hasephardi - o Espanhol, foi uma das mais marcantes personalidades da Idade de Ouro do judaísmo espanhol. À sua época, a Espanha tinha-se tornado o maior centro cultural judaico do mundo. O centro talmúdico da Babilônia havia desaparecido e os centros judaicos da Itália, Alemanha e França apenas começavam a se desenvolver.

Pouco se sabe sobre sua vida, além do fato de ter sido um dayan, juiz, e ter vivido na chamada Espanha andaluza, região que esteve durante séculos sob domínio mouro. Não se sabe com exatidão em que época ele viveu, mas a maior parte das fontes judaicas mencionam o final do século XI início do XII.

Considerado um grande filósofo não só pelos judeus como também pelos árabes, Rabi Bachya ibn Paquda possuía vastos conhecimentos no campo secular e judaico. O método que empregava para explicar a Torá era abrangente e eclético; partia da explicação literal rumo à interpretação cabalística mais profunda, investigando o significado secreto das palavras.

Fluente tanto no árabe como no hebraico, escreveu sua obra em judeu-árabe. Embora versado no Talmud e Poskim, nunca escreveu quaisquer palavras sobre a Halachá. Agradavam-lhe mais os valores da ética judaica e a sabedoria básica da Torá. Escreveu também o comentário conhecido como Midrash Bahye al-Ha-Torá.

Rabi Bachya não era apenas um estudioso talmúdico, mas também um pensador de profundas reflexões e fortes convicções. Deveres do Coração, Chovot Halevavot foi o primeiro tratado ético da literatura medieval que não foi escrito para um filósofo ou cientista, mas sim para o homem comum, o homem a quem D'us deu a capacidade de pensar. O propósito de Rabi Bachya foi tornar mais claras e definitivas as verdades transmitidas pela Torá e pelo judaísmo. Utilizou, com sucesso, todos os recursos espirituais e intelectuais para expor e reafirmar os ensinamentos e valores judaicos, pois, na época, o questionamento do pensamento filosófico racional tomava conta dos judeus, em particular dos que viviam na Espanha e em Provença (França).

Sua obra

Apesar de ser uma sistemática apresentação dos valores morais do judaísmo, a obra é lida como se fosse um poema, uma canção de exaltação espiritual, um hino que desperta no ser humano um profundo amor ao próximo e a D'us. Este trabalho é uma exaltação dos valores interiores, os chamados "deveres do coração", em contraste aos "deveres dos membros", que são os atos religiosos propriamente ditos. Sinceridade, humildade, arrependimento e auto-análise são passos que, segundo Rabi Bachya ibn Paquda, culminam em um puro amor a D'us, a conquista derradeira.


Deveres do Coração é composto por uma introdução e outros dez capítulos escritos de forma linear, compreensiva, sistemática e fluente. A obra segue a linha de pensamento do Rabi Saadya Gaon que um século antes, na própria Espanha andaluza, escrevera o Livro das Crenças e Opiniões, Emunot Vedeot. Esta publicação abriu caminho para a especulação filosófica sistemática, tornando este tipo de trabalho aceitável nos meios rabínicos.

Em sua Introdução, Rabi Bachya justifica seu trabalho afirmando que havia lido muitos livros sobre os preceitos e as leis talmúdicas, mas que nenhum dos autores tinha conseguido explicar os assuntos de forma lógica. Esta era, portanto, a razão pela qual decidira tomar a tarefa para si. Seu livro alinha-se com outros com o mesmo sentido ético, embora estes sejam discursivos, como o Livro dos Provérbios, A Sabedoria de Ben Sira, e A Ética dos Pais, da Mishná. Assim como Massechot Derech Eretz Rabá e Derech Eretz Zutá, tratados menores de boas maneiras, incorporados nas edições do Talmud Babilônico.

Chovot Halevavot não abrange totalmente o campo da Ética, mas atém-se aos princípios que devem ser reconhecidos pela mente e aos sentimentos e sensações que devem ser cultivados no coração. Os deveres tratados no livro são principalmente aqueles para com D'us. Não se pode verdadeiramente servir a D'us se a concepção que d'Ele possuímos for falsa. Rabi Bachya acreditava que para o homem crer em D'us e aprender a amá-Lo, é preciso conhecê-Lo.

No primeiro capítulo da obra, Rabi Bachya ibn Paquda expõe considerações filosóficas e argumentos sobre a existência de um único D'us que criou o mundo com um propósito definido. Trabalha para provar a Existência e a Unicidade de D'us, Sua Sabedoria, Seu Poder e Sua Bondade, apontando evidências baseadas não só em exemplos tirados da Torá e no Talmud, mas também no grande mundo que nos cerca e no pequeno mundo interior existente em cada um de nós.

Nos demais capítulos, Rabi Bachya escreve sobre a Providência Divina, o amor do homem a D'us, a modéstia, o equilíbrio espiritual e, finalmente, os princípios que deveriam guiar a conduta do homem. Sua obra reafirma a idéia da imortalidade da alma, do livre arbítrio, do Bem e do Mal. Conceitos estes que estavam sendo questionados por segmentos da sociedade judaica encantados com o racionalismo filosófico. Para ilustrar seus conceitos, Rabi Bachya ibn Paquda usa em toda a sua obra exemplos extraídos da Torá, do Talmud, do Midrash e de outros filósofos.

O livro Chovot Halevavot tornou-se conhecido e famoso após a tradução do judeu-árabe para o hebraico feita pelo Rabi Yehuda Ibn Tibbon. Este erudito, nascido em Granada em 1120, hesitou muito antes de aceitar traduzir esta grande obra. Temia cometer algum erro de interpretação por não ter tido contato com o autor ou com algum discípulo que pudesse colocá-lo a par do conteúdo do livro. No entanto, acabou aceitando a tarefa para não recusar o pedido do presidente da comunidade, Rabi Joseph Meshullam.

A influência de Deveres do Coração, Chovot Halevavot sobre o mundo judaico é enorme desde sua publicação até os dias de hoje. O erudito Chaim Joseph David Azulai (1727-1806) menciona em sua famosa obra Shem Hagdolim o hábito de estudar o Chovot Halevavot durante os dez dias de penitência entre Rosh Hashaná e Yom Kipur. Rabi Joseph Caro, que viveu no século XVI e autor do Shulchan Aruch, narra em uma de suas obras que um pregador, enviado dos Ceús, orientou-o sobre como direcionar uma vida de pureza. E esta orientação incluía o estudo diário de um capítulo de Chovot Halevavot.

O movimento chassídico considerou Chovot Halevavot o mais importante tratado ético judaico. O livro Tzena Urena, dedicado às mulheres judias, que foi escrito em um ídiche acessível pelo Rabi Isaac Ashkenazi, por volta de 1623, cita repetidamente Rabi Bachya.

Bibliografia:

Duties of the Heart, Rabbi ibn Paquda
The Kabbalah and Jewish Mysticism, Israel Gutwirth
Séfarades d'hier et d'aujourd'hui, Richard Ayoun et Haïm Vidal Séphiha