Morashá
Rabeinu Tam Foto Ilustrativa

Rabeinu Tam

Yaacov ben Meir, neto do Rashi, foi um dos maiores Sábios na história judaica e é uma das mais influentes autoridades na Halachá. Seus ensinamentos influenciaram todo o Povo Judeu. Mestre no Talmud, seus renomados comentários, as Tosafot, aparecem impressos nas margens externas dos textos sagrados.

Edição 70 - Dezembro de 2010


Conhecido como “Rabeinu”, Nosso Mestre, ele adquiriu o sufixo hebraico “Tam”, que significa “íntegro”, “verdadeiro”, porque esta é a virtude que a Torá explicitamente atribuiu a seu homônimo bíblico, Yaacov, o terceiro Patriarca, pai de todo o Povo Judeu.

Apesar de Rabeinu Tam ser muito conhecido porque era neto de Rashi, o comentarista clássico da Torá e do Talmud, ele não viveu à sombra de seu avô; na verdade, discordava, com freqüência, das decisões haláchicas de Rashi. Como veremos, as discordâncias entre avô e neto moldaram para sempre o cumprimento de alguns dos mandamentos centrais da Torá.

Mas não foram apenas a relação familiar e as discordâncias de Rabeinu Tam com Rashi que o fizeram tão renomado. Ele foi também um dos maiores Tosafistas franceses. Estes eram sábios medievais que escreveram críticas e notas explanatórias, perguntas e veredictos sobre o Talmud. Tais comentários, que aparecem impressos em praticamente todas as edições do Talmud, nas margens externas dos textos e do lado oposto às observações de Rashi, são chamados deTosafot – “adições”. O período dessas adições se iniciou imediatamente depois de Rashi ter escrito seu comentário; os primeiros Tosafistas foram os genros e netos de Rashi, e asTosafot consistiam principalmente de escrituras acerca de seus comentários. As elucidações e comentário de Rashi explicam oTalmud, ajudando-nos a entender o que, de outro modo, seria um texto muito complexo, quase indecifrável em sua secrecidade. As Tosafot, por outro lado, nos desafiam a pensar mais e de forma mais analítica, de modo a forçar nossa mente a mergulhar ainda mais fundo na infinita sabedoria embutida nesses textos sagrados.

O centro da literatura das Tosafot foi, sem sombra de dúvida, a França, pois começou com os discípulos de Rashi e continuou nos líderes das escolas haláchicas francesas. Apesar de asTosafot também terem sido escritas na Alemanha, os Tosafistas franceses sempre foram em número maior. Os primeiros trabalhos registrados foram os escritos pelos dois genros de Rashi, mas o verdadeiro “pai” das Tosafot na França foi, sem dúvida alguma, Rabeinu Tam, cujo estilo de escrever foi adotado por seus sucessores. Ele compôs grande número de Tosafot, muitos dos quais são encontrados em seu Sefer ha-Yashar.

Erudito, líder e empresário

Rabeinu Tam, o mais jovem dos netos de Rashi, nasceu na cidade francesa de Ramerupt, no ano judaico de 4860 (1100 desta Era), quando seu famoso avô já completara 60 anos. A mãe de Rabeinu Tam era Yocheved, filha de Rashi (ele não teve filhos homens). Seu pai, Rabi Meir, era um grande erudito, que transmitiu ao filho os pormenores da Torá e do Talmud. Outro dos primeiros professores de Rabeinu Tam foi seu irmão mais velho, Rabeinu Shmuel ben Meir (conhecido como o Rashbam), 15 anos mais velho, e, ele próprio, um famoso talmudista e comentarista.

A reputação do Rabeinu Tam como erudito de primeira linha espalhou-se além fronteiras. Recebia questionamentos sobre a Lei Judaica de discípulos de todo o país e das comunidades italianas de Bari e Otranto. Ele fez com que fosse atribuído a seu Beit Din, seu Tribunal Rabínico, o título de “o Tribunal mais importante daquela geração”, e era, de fato, conhecido por seus veredictos comunitários que melhoravam a vida judaica familiar, a educação e a condição da mulher.

Como seu avô, esse neto de Rashi não foi apenas o erudito mais eminente sobre o Talmud de sua época. Era, também, bem sucedido empresário e financista, além de amigo do governador da província. Após a morte de seu pai, tornou-se Rosh Yeshivá – diretor da Yeshivá de sua cidade natal. Teve inúmeros alunos, muito conceituados, chegando a contar, em certa ocasião, com 80 autores das Tosafot.

Rabeinu Tam era líder extrovertido, que dizia o que pensava; um Sábio que não se encaixava no estereótipo do típico Rabi ou erudito. Isto porque, apesar de ser um dos maiores conhecedores da Lei Judaica de toda a nossa história, diretor de uma grande Yeshivá francesa, ele era também um empresário de sucesso, que tinha condições de manter, sozinho, toda a suaYeshivá, com suas centenas de alunos. Financista, lidava apenas com nobres, inclusive com o Rei da França. Era proprietário de um vinhedo, que herdara do avô, Rashi. Entre outros negócios, tinha uma fábrica de laticínios, que herdara do irmão mais velho. Com suas posses, ele mantinha seus alunos e a sua própria família – todos os seus sobrinhos e primos – e tinha a seu cargo as finanças de muitos nobres franceses.

Conta-se a história de que ajudava financeiramente um nobre francês que lhe salvara a vida, em certa ocasião. No ano de 1146, iniciara-se a 2ª Cruzada. Não havia causado tanto dano aos judeus da França e da Alemanha quanto a 1ª Cruzada, mas houve muitos pogroms. Em 8 de maio de 1146 – segundo dia de Shavuot – uma turba de cruzados entra na cidade de Rabeinu Tam, Ramerupt. Eles o arrastaram para fora da sinagoga, onde ergueram uma cruz para crucificá-lo. Quando estavam para fazê-lo, passou pelo local um nobre francês em sua carruagem. Era um dos clientes de Rabeinu Tam, a quem este fizera vários favores, concedendo vários empréstimos sem cobrar juros. Quando o nobre viu que a gentalha só se satisfaria crucificando o próprio Sábio, ele teve uma idéia. Virou-se para os cruzados e argumentou: “Se vocês o matarem, estarão matando apenas mais um judeu! Em troca, dêem-no a mim, e eu o converterei ao cristianismo. Se, ao cabo de dois dias, ele se recusar a tal coisa, eu o trarei de volta”. Os cruzados acederam. Entregaram Rabeinu Tam ao nobre; e assim que ambos se tinham distanciado da multidão, o nobre dispensou o Rabi e lhe disse que seguisse seu caminho.

Rabeinu Tam juntou sua família e deixou para trás sua casa, seus negócios, riquezas e propriedades. Foram viver em Troyes, terra natal de seu avô, Rashi, onde continuou seus estudos e seu trabalho. Troyes era um famoso centro de estudo, naquele tempo; muitos grandes Rabis e eruditos lá se reuniam para estudar. E lá, Rabeinu Tam foi o grande luminar, entre todos o mais destacado.

No ano judaico de 4909 (1149), Rabeinu Tam terminou sua famosa obra, oSefer ha-Yashar. Ele também era uma autoridade em língua e gramática hebraica, poeta e compositor. Alguns de seus poemas litúrgicos foram incluídos nos livros de rezas diárias de muitas comunidades. O famoso Sábio, poeta e comentarista, Rabi Abraham ibn Ezra, da Espanha, era grande admirador da veia poética de Rabeinu Tam. Certa vez, quando Ibn Ezra estava viajando pela França, Rabeinu Tam o saudou em verso, ao que Ibn Ezra exclamou, surpreso: “Quem admitiu o grande Francês ao templo da poesia?”

Nos últimos anos de sua vida, Rabeinu Tam testemunhou o sofrimento de seu povo, que estava sendo cruelmente perseguido. Muitos judeus sacrificaram sua vida, preferindo ser queimados vivos a renunciar à sua fé. Cerca de um mês antes dele falecer, em Troyes, no ano de 4931 (1171), três proeminentes judeus deram a vida na fogueira “al Kidush Hashem”, para santificar o Nome de D’us, na cidade de Bloyes. Rabeinu Tam decretou aquele dia como de jejum e luto, sendo assim observado em toda a França e a Inglaterra.

Os Tefilin de Rabeinu Tam

Conta-se que, certa vez, quando Rashi tinha nos braços seu neto, ainda bebê, a criança tocou no Tefilin que estava na cabeça do avô. Rashi, que tinha o dom da profecia, proclamou que um dia, aquele seu neto iria discordar dele sobre a ordem dos pergaminhos que são colocados no Tefilinda cabeça. E, de fato, isso aconteceu. Rabeinu Tam discordou, ao crescer, do veredicto do avô acerca do tema, e, em virtude dessa discordânciahaláchica, há judeus que colocam dois pares de Tefilin na cabeça - não apenas um.

O mandamento da colocação do Tefilin se aplica a todos os judeus do sexo masculino a partir da idade de 13 anos. Acerca do cumprimento deste mandamento fundamental, a Torá sanciona: “E os atarás como um sinal, em tua mão, e te servirão de lembrete entre teus olhos”. Tefilin não são meros ornamentos ou antigo ritual da tradição judaica; eles são um vínculo entre o judeu e D’us, e um sinal diário de nosso relacionamento com o Criador Infinito.

Como o Baal HaTanya comenta no Sidur: “Quando se coloca Tefilin, deve-se levar em conta que o Santo, Bendito Seja, ordenou-nos escrever sobre o pergaminho contido nos Tefilin as quatro passagens bíblicas específicas (Shemot 13:1-10; 11-16; Devarim 6:4-9; 11:13-21), que mencionam Sua Unicidade e o Êxodo do Egito, para que nos lembrássemos dos milagres e maravilhas que Ele realizou para nós. Estas passagens indicam Sua Unicidade e demonstram que Ele tem poder e domínio sobre o que está acima e o que está abaixo, para tratá-los como bem Lhe aprouver. E Ele nos impôs colocarmos os Tefilin sobre o braço, próximo ao coração, e, na fronte, sobre o cérebro, para que entreguemos nossa alma que está no cérebro, bem como os desejos e pensamentos de nosso coração, a Seu serviço. Assim, ao colocar os Tefilin, o judeu se recordará do Criador e restringirá seus prazeres”.

Tefilin colocado sobre a cabeça é dividido em quatro seções, cada uma contendo sua própria passagem da Torá escrita em pergaminho. Não há discordância sobre quais são as passagens, mas sim sobre como cada uma delas deve ser arrumada dentro dos quatro diferentes compartimentos doTefilin da cabeça. É com referência a esse ponto – a ordem dos diferentes pergaminhos – que surgiu a discordância entre o Rashi e seu douto neto, o Rabeinu Tam.

Devido a esta diferença de opinião, produzem-se “Tefilin do Rashi” e “Tefilindo Rabeinu Tam”. O costume universal entre o Povo Judeu, segundo decreto do Shulchan Aruch, o Código da Lei Judaica, é colocar Tefilin produzidos segundo a opinião de Rashi. Contudo, o Shulchan Aruch (Orach Chaim, cap. 34), afirma que “aquele que teme a D’us deve cumprir ambas as opiniões (Rashi e Rabeinu Tam), adquirindo dois pares de Tefilin (um com as passagens da Torá arrumadas na ordem disposta por Rashi e o outro de acordo com a opinião de Rabeinu Tam) e colocar ambos. Como a Lei Judaica dá preferência aos Tefilin de Rashi, nós rezamos as orações da manhã com eles, e antes de os colocar, recitamos a berachá referente à colocação dosTefilin. Aqueles que usam os do Rabeinu Tam, geralmente o fazem após rezar as orações da manhã; não se recita uma bênção antes de colocá-los; é obrigatório recitar apenas novamente a oração do Shemá Israel, na qual se menciona a obrigação de colocar os Tefilin.

Os Cabalistas e místicos judeus enfatizam a importância de colocar os Tefilinde Rabeinu Tam além dos de Rashi. Portanto, não é de surpreender que nas comunidades que dão grande ênfase ao estudo da Cabalá, tais como a sefaradi e a chassídica, há muitos judeus que têm o costume de colocar os dois.

De fato, a colocação dos Tefilin de Rabeinu Tam é quase que um costume universal entre as várias comunidades que seguem os ensinamentos do Baal Shem Tov, o fundador do Chassidismo. O Lubavitcher Rebe, Rabi Menachem Mendel Schneerson, determinava que todo homem judeu deveria colocar os dois Tefilin, o de Rashi e o de Rabeinu Tam. O Rebe insistia que a colocação dos de Rabeinu Tam é particularmente relevante em nossa geração. Em um discurso público, ele afirmou: “Nossos ancestrais foram impregnados de Torá, eles respiravam com estes textos sagrados, andavam com eles, viviam com eles; não conheciam outro tipo de vida. Hoje, influências maléficas nos rodeiam e permeiam nossas vidas, por todos os lados, embrutecendo nossa mente, enfraquecendo nossa determinação. Precisamos de força adicional para lutar contra tudo isso, para permanecermos puros em nosso serviço a D’us – e isto precisamente é o que adquirimos com a colocação dos Tefilin.(....). Em nossa geração, tornou-se imperativo usar os dois pares de Tefilin, para garantir uma maior submissão do cérebro e do coração”.

Mezuzá e o Sefer Torá

Mas não foi apenas sobre os Tefilin da cabeça que Rashi e Rabeinu Tam discordaram. Avô e neto também pensavam de modo distinto sobre o desempenho de outro mandamento primordial da Torá, que, como o dosTefilin, aparece nos dois primeiros parágrafos do Shemá Israel – a dizer, o mandamento da Mezuzá.

Em seu compêndio monumental sobre a Lei Judaica – Arbaá Turim – Rabi Jacob ben Asher, o Ba’al ha-Turim, (séculos 13-14) cita duas opiniões conflitantes sobre como a Mezuzá deve ser colocada no umbral das portas. Primeiro, ele cita Rashi, que ensina que a Mezuzá deveria ser colocada verticalmente. Depois, traz a opinião de Rabeinu Tam, que diz que a posição “de pé” não é respeitosa; para ele, deveria ser colocada horizontalmente, da forma como as Tábuas da Lei e a Torá ficavam arrumadas na Arca Sagrada, no Templo de Jerusalém. Para satisfazer ambas as opiniões, Rabi Jacob ben Asher conclui que o melhor seria colocar a Mezuzá inclinada. E, de fato, essa posição se tornou o costume entre os judeus asquenazitas. As comunidades sefarditas, no entanto, colocam-na verticalmente, pois seguem a opinião de Rashi, que também é a do Rambam (Maimônides) – e, também, a doShulchan Aruch do Rabi Yossef Caro, o Beit Yossef.

A discussão entre Rashi e Rabeinu Tam acerca da colocação da Mezuzáreside no centro de uma disputa sobre a maneira adequada de guardar um objeto sagrado. A questão de como posicioná-lo – horizontal ou verticalmente – também se aplica ao mais sagrado de todos os objetos do judaísmo, o Rolo da Torá. De acordo com a tradição sefaradi, o Sefer Toráfica dentro de uma caixa cilíndrica, o que lhe permite permanecer na posição vertical, mesmo enquanto está sendo lido, em público. Este costume é outra das ramificações da opinião de Rashi de que os objetos sagrados devem ser armazenados na vertical. Já a tradição asquenazita é uma mistura das opiniões de Rashi e Rabeinu Tam, tanto para as Mezuzot quanto para os Sefarim. Portanto, em uma sinagoga asquenazita, a Bimá onde oSefer Torá é colocado para ser lido, é levemente inclinada, e os rolos são guardados levemente na diagonal no Aron Ha-Kodesh – a Arca Sagrada.

O pôr-do-sol do Rabeinu Tam

Pela lei judaica, “Shkiá”– o pôr-do-sol – é o limite para o cumprimento de todos os mandamentos diuturnos, e o cair da noite é o momento em que se iniciam os mandamentos associados com o dia seguinte. 

As definições exatas de pôr-do-sol e do cair da noite são de importância fundamental no judaísmo. O mandamento de Tefilin, por exemplo, só pode ser realizado durante o dia. Quem não os colocou pela manhã ainda tem tempo de fazê-lo no restante do dia, mas tem que prestar atenção para não ultrapassar o pôr-do-sol, pela Lei Judaica. A questão do fim do dia e do início da noite é de suma importância em muitos mandamentos, como, por exemplo, o horário das orações; o horário do início e do término do Shabat,Yom Kipur e de outros dias sagrados.

Mas as definições exatas do pôr-do-sol e do cair da noite são tema de debate entre grandes autoridades da Halachá. As respostas a tais questões – que são fascinantes discussões por si só – são um desafio que a Torá deixou a cargo do gênio dos homens.

O costume geral é que o pôr-do-sol ocorre quando o sol afunda totalmente por trás do horizonte, e o cair da noite se inicia quando três estrelas de tamanho médio surgem no céu. Isto ocorre logo depois do ocaso, mas a hora exata depende do local e da época do ano.

Rabeinu Tam era da opinião de que o pôr-do-sol ocorria mais tarde. Ele se baseava no que parece ser uma declaração contraditória, no Talmud, acerca da duração do tempo entre o ocaso e o cair da noite. Em um trecho doTalmud, Rabi Yehudah afirma que essa duração de tempo é a mesma  que o tempo que levaria para uma pessoa andar, em média, 4 mil – aprox. 72 minutos. Mas em outro ponto, no Talmud, ele afirma que essa duração de tempo é a mesma que levaria para andar ¾ de mil, ou seja, 13,5 minutos. Rabeinu Tam concilia essas duas declarações aparentemente contraditórias, explicando que a noite cai 72 minutos após o sol desaparecer por trás do horizonte, mas o pôr-do-sol, segundo a Lei Judaica, que marca o fim do dia, somente ocorre 13,5 minutos antes do cair da noite. Ainda que o sol se ponha por trás do horizontal mais cedo, Rabeinu Tam era da opinião que ainda há alguma luz visível durante mais 58,5 minutos, fazendo com que seja dia – e não noite.

De acordo com Rabeinu Tam, assuntos da Lei Judaica que dependem do cair da noite, tais como o horário do término do Shabat e de outros dias de festas judaicas, devem esperar até 72 minutos após o sol se pôr atrás do horizonte. Isso ocorre cerca de meia hora mais tarde do que o “anoitecer”, comumente observado. Quanto aos mandamentos que podem ser cumpridos até o pôr-do-sol, segundo a opinião de Rabeinu Tam, estes podem ser cumpridos até 13,5 minutos antes do cair da noite, ou seja, 58,5 minutos depois do que geralmente se considera como o pôr-do-sol.

Muitas outras grandes autoridades em Lei Judaica discordaram dessas opiniões de Rabeinu Tam, e encontraram outras formas de conciliar essas aparentes contradições do Talmud. Eles defendem que o fim do dia é marcado pelo total desaparecimento do sol por trás do horizonte e o cair da noite ocorre quando três estrelas de médio porte surgem no firmamento.

É digno de nota que, na Europa pré-guerra, muitas comunidades judaicas seguiam a opinião de Rabeinu Tam em todas as instâncias. Hoje, no entanto, isso não é tão comum. Contudo, algumas pessoas prolongam a conclusão doShabat para estar de acordo com a opinião de Rabeinu Tam. Em algumas comunidades, ele também é seguido no que diz respeito ao horário mais tardio para a oração de Minchá, o serviço da tarde.

O legado de Rabeinu Tam

Os ensinamentos e sentenças deste Sábio influenciaram, em maior ou menor grau, todo o Povo Judeu. Seus veredictos sobre mandamentos primordiais do judaísmo – horários de acordo com a Halachá, osTefilin, aMezuzá, entre tantos outros – foram adotados por muitas comunidades judaicas não apenas na Europa, mas no mundo todo, e continuam até o dia de hoje. Ademais, os comentários dos Tosafistas, por ele liderados, revolucionaram o estudo do Talmud. É muito raro que uma pessoa estude oTalmud e não se aprofunde nas Tosafot.

Mas o legado eterno e de extremo valor do Rabeinu Tam se deve, em grande parte, a seu avô e à sua mãe. Rashi ensinou às filhas a Torá e oTalmud em uma época em que a maioria das mulheres eram analfabetas. Suas filhas o ajudaram a transcrever seus comentários e até lhe ofereceram opiniões sobre Torá e Halachá. Portanto, não surpreende que sua filha, Yocheved, desse à luz e criasse tão extraordinário Sábio e Luminar de Israel.

Rashi não teve filhos homens, mas era muito próximo a seus netos. O mais velho deles, Rabi Shmuel ben Meir, o Rashbam, terminou a terceira edição do comentário do avô sobre alguns tratados do Talmud. Já o Rabeinu Tam, que era o mais novo de todos, era ainda criança quando Rashi faleceu, mas, ainda assim, foi grandemente influenciado pela obra do avô.

O maior dos Tosafistas, Rabeinu Tam era um crítico do Rashi em muitas áreas, e, ainda assim, seu mais firme defensor contra a crítica de terceiros. Na tradição judaica, as discordâncias em questões de Torá entre pais e filhos, mestres e discípulos, além de permitidas, são estimuladas. 
Talmud ensina que há diferenças de opinião na Torá para que esta possa ser estudada com maior cuidado e maior profundidade. Ensina, também, que os debates e desacordos servem para exaltar e glorificar seu conteúdo. Esta idéia é evidenciada pelos frutos das diferenças de opinião entre avô e neto: suas discordâncias serviram para enriquecer o judaísmo – tanto seu estudo quanto sua prática. Rashi e Rabeinu Tam deixaram uma marca indelével no judaísmo e no Povo Judeu. Quando um judeu abre o Talmud e o estuda com os comentários de Rashi e dos Tosafistas, ele se une aos dois grandes Mestres que dedicaram sua vida a tornar mais acessível a Sabedoria Divina e mais profundo e fascinante o seu estudo.

Shemá Israel, preceito fundamental da fé judaica, fala de vários mandamentos: estudo da Torá, Tefilin e Mezuzá. Rashi e Rabeinu Tam moldaram, de forma sem paralelo, a maneira pela qual nós, o Povo Judeu, cumprimos esses mandamentos. No tocante ao estudo da Torá, eles dois foram os maiores pilares do estudo do Talmud, esteio da Lei e prática judaicas. Sem esses dois grandes Mestres, o Talmud, que é a explicação da Torá e de suas leis, seria uma obra incompreensível para a maioria dos judeus. Já o mandamento de colocação dos filactérios, os dois tipos deTefilin que usamos são feitos de acordo com suas opiniões haláchicas e, de fato, levam seus nomes – os Tefilins de Rashi e os de Rabeinu Tam. Por último, a maneira como guardamos e lemos o Sefer Torá e como afixamos as Mezuzot nos umbrais de nossas portas foram determinadas por Rashi (para os sefaradim), e por Rashi e Rabeinu Tam (no caso dosashquenazim). 

O grande Mestre do Chassidismo, Rabi Nachman de Breslav, ensinava que aquele que usa os Tefilin de Rabeinu Tam além dos de Rashi, consegue atrair incríveis energias espirituais. Rabi Nachman, portanto, insistia para que o fizesse aquele que verdadeiramente queria se aproximar de D’us. Este talvez tenha sido o maior legado de Rashi e de Rabeinu Tam: com seus ensinamentos e veredictos, ajudaram o Povo Judeu, coletiva e individualmente, a chegar mais perto de seu Criador e Pai Celestial.

Nosso Mestre, Rabeinu Tam, faleceu no 4o dia de Tamuz do ano de 4931, aos 71 anos. Ele e seus irmãos, bem como outros Tosafistas, foram enterrados em Ramerupt. Mas a alma de Rabeinu Tam, assim como a de todos os demais Tzadikim, apenas se fortalece com o tempo, pois ele continua a influenciar e fortalecer geração após geração de judeus, ligando-nos à Torá, a Árvore da Vida – Etz Chaim – e Àquele que a deu a nós. Sempre que algum judeu estuda as Tosafot; sempre que alguém coloca osTefilin de Rabeinu Tam; sempre que alguém coloca uma Mezuzá levemente inclinada... este alguém está invocando a memória e o mérito desse extraordinário Tzadik.

Zecher Tzadik L’Vrachá – Que a memória desse Justo possa ser uma bênção. E que seu mérito extraordinário proteja e abençoe todos os judeus, onde quer que estejam, hoje e sempre.