Morashá
QUANDO JACOB SE TORNOU ISRAEL Foto Ilustrativa

QUANDO JACOB SE TORNOU ISRAEL

De todos os relatos da Torá, este é um dos mais envoltos em mistério. Conta-nos a história da luta entre um ser humano e um anjo e a da outorga de um novo nome a esse homem. A luta durou apenas uma noite; no entanto, seu resultado ecoa na história humana,com reverberações até os nossos dias.

Edição 39 - Dezembro de 2002


A história envolve nosso ancestral, Jacob terceiro e último dos patriarcas do povo judeu. A Torá relata que após vinte anos de trabalho em Charan, onde esteve a serviço de seu tio, Labão, Jacob fugiu com a família de volta a seu torrão natal a Terra que um dia ostentaria o seu nome. Em uma profecia, D'us ordenara a Jacob: Volta à Terra de teus pais e para a tua parentela e Eu estarei contigo (Gênese, 31:3).

Já se tinham transcorrido muitos anos desde que Jacob deixara sua terra natal. Após receber as bênçãos patriarcais de seu pai Itzhak, ele fora despachado de sua casa como forma de protegê-lo contra a ira de seu irmão Esaú. Guerreiro e caçador ávido por sangue, Esaú acusara Jacob de lhe ter usurpado as bênçãos patriarcais da progenitura e ameaça-o de morte. E naquele então, 34 anos mais tarde decorridos quatorze de estudo na Academia de Shem e de Ever e 20 anos sob o teto de Labão Jacob seguiu em direção à terra de seus antepassados, com sua família e todos os seus agregados.

Jacob percebia que seria inevitável seu encontro com o irmão. Não tinha certeza se a ira de Esaú se tinha dissipado, portanto, decidiu tentar apaziguá-lo: E enviou Jacob anjos à sua frente, a Esaú, seu irmão, à terra de Seir, ao campo de Edom (Gênese, 32:4). Aos anjos caberia dizer a Esaú que Jacob regressava a casa e lhe oferecia um grande tributo a fim de conseguir graças a seus olhos (Gênese, 32:6).

Os anjos voltaram a Jacob contando que Esaú se dirigia a seu encontro, acompanhado por quatrocentos homens. Apesar de ter recebido ordens explícitas de D'us de retornar a casa, Jacob temia o confronto iminente com o irmão. Pois que, mesmo seu pai pronunciara o futuro de Esaú: Pela espada, viverás!, profetizara Itzhak. E mais, Esaú vinha ao encontro de Jacob com um exército, o que por certo não era um indício de intenções pacíficas. A Torá nos conta que Jacob temeu muito e se angustiou... (Gênese, 32:8). Rashi explica que ele temia ser morto e angustiava-lhe a idéia de que ao se defender e defender seus entes queridos, ele poderia ter que matar outras pessoas, inclusive seu próprio irmão. Outro famoso comentarista, Ralbag, explica que para tão piedoso homem como Jacob, a perspectiva de ser forçado a matar era ainda mais angustiante do que a possibilidade de ser morto.

Jacob se prepara para o confronto de três formas: reza a D'us por salvação, prepara um suntuoso presente para apaziguar a ira de Esaú e se prepara, bem como a seu pessoal, para a batalha. E dividiu o povo que estava com ele, e as ovelhas, e as vacas e os camelos, em dois acampamentos. E disse: Se vier Esaú a um acampamento e o arrasar, terá o acampamento restante escapado (Gênese, 32:8-9). Jacob despacha, na frente, seus homens com os presentes para Esaú, ficando para trás com sua família. E então, misteriosamente, Jacob levanta-se em meio da noite, para ajudar sua família a atravessar os bancos de areia do Rio Jabok. Mas ele fica para trás.

O Talmud afirma que Jacob voltara da travessia do Jabok por ter-se esquecido de alguns utensílios de barro. Mas fica-nos a pergunta: por que Jacob, que sempre se fazia acompanhar por uma legião de anjos, optou por permanecer sozinho na outra margem do Jabok, naquela noite? Teria necessitado de silêncio e tempo para pensar e se preparar para o encontro iminente com seu irmão? Teria desejado fazer uma introspecção sobre sua própria vida, ao perceber que poderia perecer no confronto? Ou teria, conscientemente, ficado só, sabendo que estava para se defrontar com um inimigo ainda mais assustador que seu irmão? Tendo-o previsto ou não, naquela noite às margens do Rio Jabok, Jacob estava prestes a vivenciar uma guerra espiritual sem proporções. Em nenhum outro momento de sua vida estaria tão só e, ao mesmo tempo, tão acompanhado. Pois que a seu lado estariam todos os seus futuros descendentes, cuja existência e sobrevivência dependiam exclusivamente de sua vitória.

E Jacob luta com o anjo

E ficou Jacob só, e lutou um homem com ele, até levantar-se a aurora (Gênese, 32:25). Um único verso na Torá, descrevendo a luta que durou até o amanhecer, mas durante a qual nenhum dos dois personagens proferiu uma palavra sequer. Quem era o homem que lutou com Jacob? Contam os sábios que era o anjo guardião de Esaú saró shel Esav disfarçado de ser humano.

O anjo de Esaú não conseguiu derrotar Jacob, apesar de deixá-lo fisicamente marcado. A Torá, novamente, reveste de mistério o relato do ocorrido: E viu o anjo que não podia com ele [Jacob], e tocou-lhe na articulação de seu quadril; e deslocou-se a junção da coxa de Jacob do quadril, em sua luta com ele (Gênese, 32:26). O ferimento de Jacob tem forte significado pois nos deixou uma importante lei de cashrut: Por isso não comem os filhos de Israel o tendão encolhido que está sobre a articulação da coxa, até este dia, pois tocou [o anjo] na articulação da coxa de Jacob, no tendão encolhido (Gênese, 32:33).

Mas, apesar de ferido, Jacob prevaleceu. O homem que fugira de casa, que fugira com toda a sua família da casa de seu tio inescrupuloso, em Charan, e que temera confrontar seu irmão, lutara com um anjo e sobrevivera. Naquela noite, às margens do Jabok, talvez pela primeira vez em sua vida, Jacob não tivera chance de fugir. E aquele tinha sido o momento da virada em sua vida, o seu momento de decisão: lutar e vencer ou morrer. E com vida, saiu. O adversário, derrotado, pediu, ou melhor, implorou que o deixasse partir: E disse [o anjo], Despacha-me, que vem rompendo a aurora (Gênese, 32:27). De súbito, a Torá nos oferece aquilo que os franceses chamariam de um coup de théâtre uma mudança drástica e inesperada dos acontecimentos: a vítima se torna o herói, ao passo que o algoz se torna o refém. Jacob deveria ter ficado aliviado pelo fato de o anjo querer partir, mas, pelo contrário, manteve-o sua presa, não o deixando partir. Jacob se recusou a libertar o anjo sem primeiro receber uma bênção. Vejamos partes desse diálogo, de acordo com o Midrash:

-"Não posso ficar", diz o anjo, "não há tempo". Já rompe a aurora e tenho que partir.

-"Tens medo da aurora? Por quê? És, por acaso, ladrão? Jogador noturno, talvez?", perguntou-lhe Jacob.

-"Não, mas esperam-me na Corte Celestial para cantar louvores a D'us".

-"Há outros anjos nos Céus. Que cantem eles, e não tu", disse Jacob.

-"Mas, se hoje cantarem sem mim, hão de me dizer: 'Por não teres vindo ontem, não fazes mais parte de nossa corte".

-"Os anjos que visitaram meu avô, Abrahão, abençoaram-no antes de partir. Terás que fazer o mesmo comigo".

-"Não posso. Aqueles foram enviados com esse propósito, mas eu não posso fazer algo que não me foi ordenado".

-"Então não partirás. Ou me abençoas ou não te deixo partir".

O anjo, percebendo que tinha menos poder do que Jacob, decide abençoá-lo. E essa bênção foi a outorga de um novo nome: um nome que, durante muitas gerações, iria simbolizar a luta e a resistência. E disse-lhe [o anjo], "Não, Jacob não mais será teu nome, senão Israel, pois lutaste com [o anjo de] D'us e com homens e venceste" (Gênese, 32:29).

E é por essa razão que nosso antepassado Jacob se tornou Israel. O nome Israel pode significar aquele que luta com o Divino ou aquele que luta pelo Divino. Pode, ainda, ser definido como aquele que será grandioso perante D'us. Todas essas definições são apropriadas para o terceiro patriarca do povo judeu e para os seus descendentes. Estes freqüentemente viriam a lutar com o Divino, por discordar de Seus decretos e determinações. Mas, ao mesmo tempo, Israel iria sempre lutar pelo nome de D'us, fazendo sacrifícios indescritíveis para cumprir Seus mandamentos e santificar Seu Nome. A grandeza de Israel do nome, do homem que o ostenta e de seus descendentes é ainda mais evidenciada quando o Eterno usa a mesma denominação para identificar a Si Próprio. Após esta passagem, ao longo de toda a Torá, o Criador freqüentemente Se autodenomina o Eterno, D'us de Israel.

Ao amanhecer, após ter sua vontade prevalecida sobre a do anjo e ter sido abençoado, Jacob tornou-se um homem diferente. O erudito íntegro era agora também um guerreiro. A força de Jacob leva o nome Israel, ensina o Midrash. Antes de partir, o anjo diz a Israel: “Sou uma criatura celestial e tu me derrotaste. Portanto, não tens razão para temer Esaú. Certamente o vencerás. Pois agora, Israel poderia enfrentar seu irmão e, se necessário fosse, “enfrentar o fogo com o fogo e, ainda, prevalecer.

Mas, contudo, muito de Jacob permaneceu no íntimo de Israel. O guerreiro ainda era amante da paz, alguém que só lutaria para defender a si e aos outros. E pouco depois da luta com o anjo, Israel defrontou-se com seu irmão e, apesar de seu poder recém-descoberto, diante do irmão ele se humilhou. E os irmãos se lançaram nos braços, um do outro, e juntos derramaram as lágrimas daquela separação. No entanto, há diferentes interpretações para a reação de Esaú. Teria sido um momento de compaixão pelo irmão ou chorara movido pela raiva e pela frustração? Esaú, que por tanto tempo planejara o momento de matar Jacob, tinha percebido que não poderia triunfar sobre Israel.

Mas, apesar daquele pacífico reencontro, sua confrontação não terminaria naquele momento. Apenas fora adiada. O terceiro patriarca do povo judeu prosseguiu em direção à terra de seus ancestrais, presente eterno de D'us a seus descendentes, a partir dele nomeados: a Terra de Israel. Mas, nas gerações futuras, em diferentes locais, em guerras que durariam muito mais do que aquela de uma noite, seus filhos iriam enfrentar os descendentes de Esaú. O anjo do mal iria lutar contra os descendentes de Jacob através da história, até a aurora da salvação. (Midrash Lekach Tov). 

E, deveras, há apenas uma geração, na história de nosso povo, a confrontação suprema entre Jacob e Esaú voltou a ocorrer. Como seu pai, os filhos de Jacob foram deixados sós abandonados por todas as nações durante aquela noite uma longa noite de grande escuridão moral e física no mundo. O que Esaú e seu anjo protetor não conseguiram, seus descendentes têm tentado realizar: aniquilar os filhos de Jacob. E a história se repete: o povo judeu emerge ferido, abatido após perder legiões de seus membros, mas sobrevive. E, vivo, retornou à sua amada pátria ancestral. E, a contragosto, as nações do mundo o abençoaram com o nome Israel, uma denominação muito própria para um povo que, em tão curto período de tempo, se tornou conhecido por seu poderio militar.

Um homem de dois nomes

O avô de Jacob, primeiro patriarca do povo judeu, também vivenciou a troca de seu nome. Originalmente chamado Avram, também ele foi abençoado com a outorga de um novo nome: Avraham. O Talmud afirma que é um mandamento positivo chamá-lo Avraham, enquanto que chamá-lo de Avram é negativo somos proibidos de fazê-lo. No entanto, o mesmo não se aplica a nosso terceiro patriarca. O último trecho do primeiro livro da Torá diz: E viveu Jacob na terra do Egito 17 anos... (Gênese, 47:28). Outros versículos da Torá combinam ambos os nomes do terceiro patriarca judeu. Por exemplo: E estes são os nomes dos filhos de Israel que vieram ao Egito com Jacob (Êxodo, 1:1). Jacob tornou-se Israel, mas Israel permanece sendo Jacob.

Na Amidá (Shmone Esre), uma prece tão importante que a ela se refere o Talmud como a oração, dirigimo-nos ao D'us de Avraham, Itzhak e Jacob não de Israel. Há uma razão para tal. Naquela noite sobre o Rio Jabok, nosso antepassado compreendeu que há momentos em que Jacob se deve tornar Israel. Se confrontado com um adversário, seja físico ou espiritual, um judeu não tem escolha senão lutar e vencer. No entanto, a missão do povo judeu é trazer ao mundo uma era de paz, de júbilo e de prosperidade para toda a humanidade; uma era em que a Terra toda se encherá do conhecimento do Senhor D'us, como as águas cobrem o mar (Isaías, 11:9).

Concluímos a Amidá orando pela paz e pedindo a D'us que reerga o nosso Templo Sagrado e nos dê uma parte em Sua Torá. Portanto, nada mais próprio do que iniciar a mesma oração dirigindo-nos ao D'us de Jacob, não de Israel. Pois nossa oração suprema é o desejo de que logo venha o dia em que Israel possa deitar as armas e voltar a ser Jacob um homem íntegro, que habita em tendas e nelas estuda a Lei de D'us (Gênese, 25:27).

Tev Djmal
Tradução: Lilia Wachsmann

Bibliografia:
The Chumash - The Stone Edition
The Artscroll Series - Mesorah Publications
Kaplan, Rabbi Arieh. The Living Torah, Maznaim Publishing Corporation
Wiesel, Elie, Messengers of G-d: Biblical Portraits and Legends, Touchstone - Simon & Schuster
Weissman, Rabbi Moshe, The Midrash Says - The Book of Beraishis
Bnay Yacov Publications
Blech, Rabbi Benjamin, Understanding Judaism, Jason Aronson Inc.