Morashá
José, Retrato de um Tzadik Foto Ilustrativa

José, Retrato de um Tzadik

A história de José, filho de Jacob, constitui uma história de sonhos realizados. Trata-se de uma narrativa real, que transborda de tragédia e triunfo.

Edição 48 - Abril de 2005


Verdadeira lição sobre a Divina Providência, é tecida por uma trama dos elementos que, entrelaçados, produzem os grandes contos: amor e ódio, ambição e inveja, poder e paixão - embalados pelas incríveis reviravoltas do destino. Entre os heróis dos Cinco Livros da Torá, é José, Yossef em hebraico, quem ostenta o título de Tzadik - o justo. É comum pensar-se que ele teria conquistado esse honroso aposto por ter resistido às investidas de uma linda mulher, muito poderosa. Mas, não deveríamos esperar o mesmo de, por exemplo, seu pai, o patriarca Jacob, ou de Moisés, nosso Mestre?

É certo que tinha mais encantos pessoais do que os patriarcas que o precederam e do que os profetas que o sucederam. Mas, seria mais piedoso do que todos os demais? Conheçamos, pois, sua história.

A venda de José

José era o filho predileto de Jacob e pode-se facilmente entender a razão para tal predileção. Jacob o amava porque o fazia recordar-se de sua amada esposa - a bela Rachel, que morrera de parto ao dar à luz o seu segundo filho, Benjamin. É bem possível que filho e mãe se parecessem, fisicamente, pois a Torá os destaca como sendo possuidores de beleza física. Agrega o Midrash que José, mais do que os demais filhos de Jacob, parecia-se com o pai: ambos tinham sonhos que se tornavam realidade; ambos eram odiados por seus irmãos e ambos viveram e morreram no exílio. Aos olhos do pai, José era a ponte entre os três patriarcas - Abrahão, Isaac e ele próprio - e representava as futuras gerações do povo judeu.

Não surpreende, pois, que os outros filhos de Jacob se ressentissem do irmão, pois sabiam que era ele o filho dileto, o favorito de seu pai. E quando este presenteia Yossef com uma fina túnica de lã, multicolorida, desencadeia maior inveja ainda entre os irmãos. Era de se esperar que José, ao menos, tentasse aplacar sua ira, mas eis que este consegue fazer exatamente o oposto. Tem um sonho que certamente espicaçaria seus irmãos e ele se apressa em lhes contar. Diz: "Rogo-lhes que ouçam o sonho que tive. Estávamos todos a colher trigo nos campos, quando, subitamente, meu feixe se alça e assim permanece, enquanto os de vocês o circundam e se curvam perante o meu monte de trigo".

Os irmãos, compreensivelmente aborrecidos e preocupados, respondem: "O quê? Pretende você, porventura, reinar sobre nós?" José menospreza seus temores e sentimentos, pois, após ter novo sonho, a eles relata: "Vi o sol, a lua e onze estrelas prostrarem-se diante de mim". Desta vez, seu próprio pai o censura. Mas ele mesmo, Jacob, era um sonhador. E acreditava piamente nos sonhos. E, assim sendo, conta-nos o Midrash, o pai tomou de uma pena e um papel para anotar as palavras exatas que o filho pronunciara.

A essa altura da narrativa, cabe perguntar - como é possível que José, que viria a ser um genial estrategista, um homem mais perspicaz do que um profeta, não percebesse que estava semeando discórdia?

Após ouvir o relato de Yossef, seus irmãos reagem impiedosamente contra ele por temer que este planejasse escravizá-los, bem como a suas famílias, inclusive a seu pai. Um dia, estavam os irmãos nos campos apascentando os rebanhos. Eis que Jacob envia José ao encontro dos demais. José encontra os dez meio-irmãos - pois, apenas Benjamin, seu irmão de pai e mãe, lá não se encontrava - e os demais decidem garantir que seus sonhos jamais se pudessem materializar. E combinaram entre si: "Matemo-lo, jogando-o depois em uma cova ... aí, sim, veremos o que será de seus sonhos".

O plano não se concretiza pois um deles, Reuven, primogênito de Jacob e Léa, intercede em favor do irmão. Tencionando devolver José a seu pai, Reuven convence os demais a não manchar suas mãos com seu próprio sangue. E lhes diz: "Atirem-no nessa cova ... mas não lhe façam mal algum". Os irmãos seguem seu conselho; despojam Yossef de seu manto colorido e o forçam para o fundo do poço.

Reuven parte, planejando mais tarde retornar e resgatar José. Porém, durante sua ausência, Yehudá, outro dos irmãos, sugere-lhes vender José aos mercadores ismaelitas que por lá transitavam. E diz: "O que lucraremos matando nosso irmão e encobrindo seu sangue?". E os demais seguiram seu conselho. Retiraram-no do fundo do poço e o venderam aos descendentes de Ismael, que, posteriormente, venderam-no aos midianitas. Estes o levaram ao Egito e o venderam a Potifar, ministro do Faraó.

Ao voltar, Reuven toma conhecimento da venda do irmão. Rasga suas roupas em sinal de luto, pois prevê as terríveis conseqüências e o sofrimento que advirão daquela maldade. No entanto, até mesmo ele julga já ser tarde demais para salvar Yossef. Caberia agora aos irmãos acobertar o crime. Portanto, banham a túnica de José no sangue de uma cabra e a enviam a seu pai. E, desavergonhadamente, em vez de contar ao pai uma mentira deslavada, contornam a situação com a pergunta: "Encontramos isto, no caminho ... trata-se ou não da túnica de seu filho?" Ao ver Jacob a túnica ensangüentada, presume - e cai em prantos - que seu filho amado fora devorado por uma besta selvagem.

Escapa-nos o porquê de Jacob não ter ido mais a fundo em suas investigações sobre o acontecido. O que sabemos é que ele chorou a morte de José durante os 22 anos que se seguiram. Vivia absorto em silêncio e tristeza; e tendo entrado em depressão, perdeu seus dons proféticos, pois que D'us resolvera não lhe revelar o sucedido. A família de Jacob, inclusive os filhos que nem por um segundo pensaram nos sentimentos paternos ao vender o irmão José, tentaram consolar o patriarca. Mas Jacob se recusava ao consolo.

A roda-gigante da vida

A vida, nos ensina o Talmud, é como uma roda-gigante: quem está no alto geralmente desce e quem está embaixo geralmente sobe ao alto. Pois a vida de Yossef é comparável a uma roda-gigante que deu voltas sem fim - uma carreira de desastres e vitórias, mas todos fortuitos. Tudo o que a ele aconteceu teve grandes proporções. Sua vida foi um prenúncio do futuro de seu povo - o povo judeu. Quando ele sofreu uma derrota, chegou ao fundo do abismo; mas em sua glória, foi mais alto que as estrelas. Podemos qualificá-lo de qualquer coisa - menos de medíocre. A história de sua vida pode ser descrita de várias formas - menos como banal.

José foi vendido como escravo e se tornou servente na casa de Potifar, mas D'us o abençoava com o sucesso em todas as suas empreitadas. Percebendo que José lhe trazia sorte, o patrão o nomeou responsável por seus interesses e propriedades. Mas o talento não era a única qualidade de José; era um homem belo, muito sedutor; irresistível quase. E isso podia ser perigoso, especialmente em uma sociedade imoral como a do antigo Egito. A mulher de Potifar, que se apaixonara por seu fascínio, usava de todos os artifícios para o atrair; queria-o para si, como amante, a qualquer custo. Não obstante a tentação, quase insuperável - ela era bonita e poderosa; ele, jovem e só - José rechaça suas investidas.

A bela e infiel mulher, no entanto, não desiste facilmente de José. Um dia em que ambos estavam sós, na casa, ela arranca as roupas do rapaz, deixando-o despido. Prestes a sucumbir aos desejos de seu corpo jovem, eis que lhe aparece uma visão - a imagem de seu pai - e aquilo o leva a fugir daquela casa. A mulher não solta suas vestes e, cheia de despeito e frustração por ter sido rejeitada, acusa-o de ter tentado violentá-la. Ao inteirar-se da acusação, o marido manda prender José na mesma prisão onde ficavam confinados os prisioneiros reais.

No entanto, Potifar obviamente não acreditou na trama urdida por sua mulher - pois, se assim fosse, tê-lo-ia mandado executar e não apenas aprisionar. Em uma imagem do Midrash, Potifar pessoalmente acompanha Yossef ao cativeiro, quando lhe expressa seu dissabor por ter que encarcerá-lo. Sabia o que realmente acontecera; tinha conhecimento do extremo fascínio que o jovem hebreu exercia sobre as mulheres. Conta-nos também o Midrash que era impossível conhecê-lo e não se apaixonar por ele - secreta, apaixonadamente.

No cárcere, Yossef volta a se sentir no fundo do abismo. Mas como relata a Torá, D'us o havia abençoado, dotando-o de grande carisma. E esta qualidade o fez cair nas graças dos companheiros de cela e do guarda da prisão, que deixou todos os demais reclusos sob sua custódia. Vemos que até mesmo na prisão, Yossef se destacava, sendo sempre elevado ao primeiro lugar. E ao falar em seu sucesso, o Midrash se refere a ele como um homem que vencia todos os obstáculos - nada, nem ninguém, conseguia detê-lo. Quanto maior a queda, mais alto o vôo ao qual se alçava, subseqüentemente.

Doze anos, esse jovem brilhante passou na prisão - doze longos anos; anos difíceis e frustrantes. E um dia, inesperadamente, a roda-gigante, a sua roda da fortuna, voltou a girar.

Sonhadores e sonhos

Certa vez, no desempenho de suas tarefas, o Chefe Sommelier e o Confeiteiro Real do Egito desagradaram o Faraó, seu soberano. E por essa falta foram sentenciados à prisão, justamente à mesma onde estava detido Yossef.

Em uma determinada manhã, ele percebeu que os dois homens estavam muito desanimados. Perguntando-lhes o que havia de errado, contaram-lhe que ambos haviam tido um sonho estranho e que ninguém conseguira interpretar os presságios que traziam envoltos em mistério. Yossef lhes disse: "Porventura, não pertencem, as interpretações, ao Todo Poderoso? Contem-me os sonhos, rogo-lhes!"

O Sommelier Real lhe conta, então, o sonho e José prontamente o interpreta. "Dentro de três dias, o Faraó o reconduzirá a seu posto". Acreditando que aquele homem fosse o instrumento para a sua própria liberdade, pede-lhe que interceda em seu favor: "Se, apenas puder pensar em mim e interceder por mim perante o Faraó, quando as benesses estiverem sobre si, talvez isso me liberte deste confinamento". A seguir, é a vez do Confeiteiro-Chefe contar o sonho que tivera. Mas é sinistra a sua interpretação: José lhe anuncia que "dentro de três dias, o Faraó ordenará que o enforquem, em uma árvore". E, de fato, é exatamente o que ocorre três dias mais tarde. Os dois são libertados - um deles retoma o seu cargo, enquanto o outro é executado. Mas, o Sommelier, uma vez refestelado em sua antiga posição, negligencia completamente a súplica de José. Nem sequer o menciona ao Faraó e, pouco depois, toda aquela história perde-se nas brumas do passado.

Dez anos desde a sua prisão já tinham transcorrido quando José interpreta os dois sonhos. E preso continuou por outros dois anos. Até que, um dia, um nobre, poderoso, tem um sonho perturbador cujo significado nenhum dos magos consegue desvendar. Tivera dois sonhos, mas ambos traziam o mesmo presságio. Só que dessa vez, quem tivera os sonhos não era companheiro de cela de Yossef. Era ninguém menos que o próprio Faraó...

Vice-Rei do Egito

Faraó sonhara estar próximo ao Nilo quando sete vacas, robustas e bem nutridas, emergem do rio. Logo a seguir, outras sete vacas, descarnadas e doentias, também emergem das águas e comem as primeiras.

O monarca acordou, assustado, mas, voltando a adormecer, tem outro sonho. Dessa vez viu sete robustas espigas de trigo que brotavam de um só talo. Subitamente, sete espigas ralas crescem por trás daquelas e as engolem.

As duas visões perturbam profundamente o Faraó, que convoca todos os magos e sábios do Egito para decifrar que presságio trariam. Ao ver fracassarem os magos em seu intento, um após o outro, o Chefe Sommelier conta ao Faraó acerca daquele jovem hebreu, grande interpretador de sonhos, a quem conhecera no cárcere.

Eis, pois, que após doze anos de reclusão, no dia de Rosh Hashaná, Yossef é finalmente libertado. O soberano o convoca à sua presença e lhe conta que tivera um sonho que ninguém conseguia desvendar. E que ouvira dizer que Yossef, ao ouvir um sonho, conseguia decifrá-lo... Ao que este último responde: "Não tenho poderes próprios. Mas, o Todo Poderoso talvez me faça portador de uma resposta".

O Faraó lhe relata os sonhos e Yossef prontamente os interpreta, sem hesitação. Ambos possuem o mesmo significado, diz. "D'us fez ver ao Faraó aquilo que Ele, em Sua Grandeza, está para realizar. Sete anos se aproximam nos quais haverá grande fartura e abundância de alimentos, em toda a terra do Egito. No entanto, serão seguidos por sete anos de penúria, quando toda a abundância do Egito será coisa do passado e a fome grassará por toda a parte", narra ao soberano.

Ademais de interpretar, com precisão, os sonhos do Faraó, Yossef também sugere um plano de ação, na realidade um sistema de racionamento, que garantiria alimento suficiente ao Egito nos anos de penúria para sustentar o povo todo. Maravilhado com o jovem hebreu, Faraó o nomeia Vice-Rei do Egito. "Apenas o trono nos separa", diz a Yossef. "Em nada mais estou acima de ti. Deixo toda a terra do Egito em tuas mãos e sob tua responsabilidade". Yossef tinha apenas 30 anos quando se tornou o governante de facto daquele imenso reino. Eram os seus próprios sonhos, compartilhados com seus familiares apenas, que finalmente começavam a se desenrolar.

Como prenunciado nos sonhos do Faraó, chegaram os sete anos de abundância. E, então, como alertado por Yossef, chegaram também os anos de penúria e escassez. A fome de fato grassava em quase todo o mundo, mas graças ao filho de Jacob, havia pão e sustento para todos, no Egito.

E os irmãos descem ao Egito...

A terrível escassez não poupara nem a Terra Santa. Quando Jacob fica ciente de que o Egito vendia alimentos a forasteiros, envia seus filhos para que lá comprem as provisões. Para trás apenas ficou Benjamin, a pedido do pai, pois que um dos filhos de Rachel era tido por morto e ele, Jacob, não se arriscaria a perder o outro.

No Egito, José, em pessoa, dividia o racionamento dos alimentos entre as pessoas. Quando chegam os dez irmãos, estes não o reconhecem; mas ele jamais os esqueceria e os reconhece de imediato. Yossef vê o seu sonho tomando forma e corpo, ali, diante de seus olhos, quando os irmãos se prostram a seus pés, aos pés do Vice-Rei do Egito.

Foi quando José decide pôr os irmãos à prova. Acusa-os de serem espiões - uma acusação que negam, com veemência. "Somos doze irmãos", lamentam-se. "Um deles ficou ao lado de nosso pai e o outro, está morto". Mas Yossef, fingindo não crer em suas palavras, manda-os à prisão. Três dias depois, liberta nove deles para que pudessem levar as provisões a seu pai e seus familiares. Mas a um dos irmãos, Shimon - aquele que o empurrara para o poço - ele mantém preso. E diz aos demais que se realmente estivessem falando a verdade, que voltassem à sua presença trazendo o irmão menor. Aí, sim, libertaria o irmão mantido como refém.

Os irmãos, perplexos com a acusação e a estranha exigência imposta pelo Vice-Rei, voltam para casa e contam ao pai tudo o que ocorrera no Egito. Jacob grita de desespero quando fica sabendo da prisão de Shimon, proibindo que Benjamin saia de seu lado. Mas, com o agravamento da escassez de alimentos, esgotaram-se as provisões de sua família. Na falta de outra solução, o patriarca decide enviar os filhos novamente ao Egito, em busca de mais mantimentos. Mas o filho Yehudá o faz recordar a condição imposta pelo Vice-Rei - que só retornassem à sua presença acompanhados do irmão mais novo. Implora, pois, ao pai que o deixe levar o jovem com ele. "Se eu não o trouxer de volta aqui, meu pai, diante de seus olhos, terei cometido um pecado que me acompanhará até o último de meus dias".

Jacob finalmente aquiesce e todos os onze irmãos descem ao Egito. Eles se apresentam diante do Vice-Rei, sem a menor desconfiança quanto à verdadeira identidade do potentado. Ao se deparar com Benjamin, seu irmão verdadeiro, filho como ele de Rachel e Jacob, convida a todos para almoçar em sua companhia. Shimon é libertado e, juntos, são conduzidos ao palácio em que vivia Yossef. Este, quando estão todos reunidos, pergunta pela saúde do pai e ouve, aliviado, que Jacob ainda vive. E, novamente, cumprindo a visão que José tivera em seus sonhos, os irmãos voltam a se prostrar no chão, diante dele.

O Vice-Rei dirige sua atenção a Benjamin, dizendo: "Este deve ser o menor de vocês, sobre quem falavam". E, a seguir, abençoa o jovem: "Que D'us te cubra de Suas Graças, meu filho". E, tomado pela emoção, sai, às pressas, do salão, para encobrir seu pranto. Ao retornar, sentam-se à mesa para a refeição. E José retoma o teste que fazia com seus convivas: propositalmente favorece Benjamin, servindo-lhe porções cinco vezes maiores que as dos demais. Assim agia para ver se eles se voltariam contra o outro filho de Rachel, como haviam feito com ele próprio, décadas antes.

A revelação

Quando tudo termina e os onze se preparam para partir, Yossef, em segredo, ordena ao seu intendente que "encha as sacas daqueles homens com o máximo de alimento que consigam transportar ... colocando de volta, no topo da saca, o valor que cada um havia pago pelas provisões. E, ademais, na saca do mais jovem, coloque o meu cálice de orações - o cálice de prata pura - em cima de tudo".

Quando os irmãos mal tinham deixado a capital do Egito, José ordena ao intendente que os alcance e prenda, sob a acusação de haverem roubado o cálice de prata do Vice-Rei.

O funcionário assim procede. Ao serem acusados do roubo, negam, veementes, exclamando: "Se algum de nós estiver de posse do cálice, ele deverá ser morto. E quanto aos demais, leve-nos como escravos". O intendente, seguindo à risca as instruções de José, responde: "Meu escravo será exclusivamente aquele que estiver de posse do valioso objeto. Os demais estarão livres para partir". E inspeciona cada uma das sacas e, obviamente, encontra o cálice onde o colocara - nos pertences de Benjamin. Os irmãos, mudos de espanto e em desespero, rasgam suas roupas em sinal de luto. E são todos reconduzidos ao palácio. Quando são levados diante do Vice-Rei, atiram-se ao solo, em súplica. Yehudá, sem desconfiar que se dirige a seu meio-irmão Yossef, faz uma referência explícita à venda daquele que está diante dele. Implora-lhe: "Como poderemos provar nossa inocência? D'us encobriu nosso antigo crime. Fazei-nos escravos, para que vos sirvamos - nós e aquele em cuja posse foi encontrado o cálice!"

Mas o Vice-Rei, recusa, determinado. E lhes diz: "Aquele com quem foi encontrado o cálice será meu escravo. Os demais, partam em paz ao encontro de seu pai". Yehudá suplica em favor do irmão, oferecendo sua própria vida e liberdade em troca: "Permiti que eu fique como escravo em seu lugar. Deixai partir nosso jovem irmão com os demais!". Mas, como o Vice-Rei continua inflexível em sua recusa, o homem reúne uma força descomunal para enfrentar o poderoso governante em seu próprio reinado. Diz o Midrash que, em sua ira, Yehudá teria sido capaz de "esmagar lingotes de ferro com os dentes". E brada ao Vice-Rei, ameaçador: "Se eu desembainhar a minha espada, destruirei vosso reino de um extremo a outro!". Ao que José retruca: "Desembainha, então, tua espada e a torcerei ao redor de teu pescoço". Até que, por fim, Yehudá ordena aos irmãos que incendeiem aquelas terras, deixando que o Egito seja devastado.

Nesse ponto, Yossef finalmente compreende as razões para o sofrimento pelo qual passara. Yehudá - aquele mesmo que o vendera - estava-se oferecendo a si próprio como escravo, para que Benjamin pudesse voltar aos braços do pai. Seus dez irmãos, que por pouco não o haviam assassinado, estavam dispostos ao embate com um poderoso reino para salvar o outro filho de Rachel. Naquele então, Yossef compreendeu que todas as suas provações e atribulações - os sonhos, a venda, as falsas acusações que lhe foram imputadas, a prisão injusta - tudo fora decretado por D'us, tudo fora parte de um grande projeto Divino, para que ele pudesse salvar não apenas sua família, mas também o Egito e grande parte da humanidade. E, de uma forma que talvez constitua a passagem mais tocante da Torá, Yossef se revela aos irmãos. Pede que seus auxiliares saiam do recinto para que pudesse ficar a sós com seus familiares.

E se desfaz em pranto. E nós, a cada vez que lemos essa passagem, não conseguimos evitar chorar com ele. Conta a Torá que seus soluços eram tão altos, que mesmo fora do palácio se podia ouvi-los. "Sou Yossef", exclama diante dos irmãos, "estará vivo, meu querido pai?"

Os irmãos, atônitos, não conseguiam emitir um som, em resposta. José lhes pede que se aproximem e conta: "Sou Yossef, seu irmão, a quem venderam ao Egito. Mas, peço-lhes que não tenham medo nem remorsos por tê-lo feito. Ouçam! D'us, que tudo pode, afastou-me de vocês para que eu poupasse muitas vidas! Nem foram vocês que me fizeram aqui chegar, mas D'us. Foi Ele, em Sua Glória, que me fez Vizir do Faraó, para dirigir todo o seu reinado e ditar sobre toda a terra do Egito".E então, Yossef atira-se nos braços de Benjamin e, juntos, choram, emocionados. E beija seus meio-irmãos e, igualmente, chora em seus ombros.

Quando o Faraó descobre que os irmãos de José estavam no Egito, convida-os, juntamente com o pai e demais familiares, para lá viver. Oferecia-lhes moradia onde o que de melhor o país tivesse a oferecer.

Os irmãos retornam à sua terra e contam ao pai que Yossef estava vivo e era ninguém outro senão o poderoso Vice-Rei do Egito. A notícia era tão extraordinária que, a princípio, o patriarca não lhes dá crédito. Mas ao ver as carruagens e carroças que seu filho enviara para transportá-los ao Egito, seu espírito renasceu. E, ao superar a depressão que se tornara sua fiel companheira, após 22 anos de silêncio, D'us se lhe aparece diante dos olhos para lhe dizer que não temesse partir para o Egito, pois "é naquela terra que hei de fazer de ti uma grande nação!".

O encontro entre pai e filho foi de uma emoção devastadora. Apesar de ser a pessoa mais importante do Egito, José, pessoalmente, atrela os cavalos de sua carruagem para ir ao encontro do pai. Ao vê-lo, após tantos anos, joga-se em seus braços e deixa esvair-se em lágrimas toda a sua emoção. E Jacob diz ao filho amado: "Agora posso ir-me em paz, pois vi teu rosto com vida e vigor".

E assim, o patriarca Jacob e sua família fincaram suas raízes no Egito, na terra de Goshen. Muitas décadas depois, quando ele e todos os seus filhos já tinham deixado este mundo, os egípcios deixaram para o esquecimento o fato de que um Vice-Rei, filho do povo hebreu, os salvara da penúria e da morte por inanição. Começaram a perseguir o povo de Yossef até que D'us "recordou-Se" de Sua promessa aos patriarcas e enviou Moisés para libertar os Filhos de Israel. Esta, no entanto, já é outra história - a história de Pessach - que nas noites do Seder que se aproximam, iremos contar e recontar a nossos filhos, e aos filhos de nossos filhos, como vimos fazendo há gerações.

Um justo entre os homens

Acabamos de fazer um relato muito sumário da vida de Yossef. Há tanto mais a ser dito e são inúmeras as perguntas e divagações que, em sua riqueza e profundidade, sua bela história requer. Basta dizer que ocupa quatro partes da Torá e um incontável número de páginas das obras de nossos Sábios.

Lançamos, no início do texto, uma pergunta que é primordial em sua biografia. É chegado o momento de tentar respondê-la: por que razão Yossef é destacado, na Torá, como sendo um Tzadik - um homem verdadeiramente justo?

Yossef é considerado mais justo do que os que o precederam ou sucederam não apenas por ter resistido aos encantos e investidas de uma mulher belíssima. A razão para tal se encontra em sua vida adulta, época em que agiu imaculadamente aos olhos de D'us e aos olhos dos homens. Atribuía a D'us todos os seus talentos e seus sucessos, permanecendo devoto e temente ao Senhor de tudo o que há sobre a Terra. Murmurava as preces, em silêncio, enquanto trabalhava, nunca deixando que o sucesso e a glória lhe subissem à cabeça ou lhe tomassem o coração. Homem atraente, rico e poderoso, podia ter a mulher que desejasse, no Egito. Quando passava, as princesas egípcias atiravam-lhe aos pés suas jóias, tentando atrair sua atenção. Mas ele a todas ignorava. Permaneceu casto até se casar, com uma filha de seu povo, graças à Divina Providência.

Após ter sido vendido pelos irmãos, Yossef teria todos os motivos para esquecê-los e, com isso, virar a página de sua identidade judaica. Contudo, sempre fez questão de se revelar como filho do povo hebreu - fosse na casa de Potifar, na prisão ou ao longo de toda a vida como governador do Egito. Quando Faraó o alçou ao cargo de Vice-Rei, deu-lhe um novo nome - Tzafnat Paneach, o rompedor de códigos - mas ele de todos os títulos abriu mão, para ficar com o nome judaico que recebera de seus pais: Yossef , filho de Jacob e Rachel.

José poderia ter-se questionado por que seu pai nunca fora à sua procura; mas, por outro lado, até hoje nossos estudiosos se digladiam com uma incômoda indagação: por que motivo José, mesmo depois de se tornar Vice-Rei do Egito, esperou tantos anos para buscar um contato com o pai... Sabe-se, no entanto, que nem por um momento se olvidou nem tampouco deixou de amar a Jacob. Pensava com freqüência no pai e esta teria sido a fonte de onde bebia a força com que venceu todas as tentações enfrentadas no Egito. Através de sua vida, intacta permaneceu a lealdade ao pai.

Quando pediu que os irmãos o trouxessem ao Egito, disse: "Peço-lhes, por favor, que lhe detalhem todas as honras com que me agraciaram". O Rebe de Kotzk, Menachem Mendel, lançou a pergunta: "Como imaginar que tamanha expressão de vaidade pudesse sair dos lábios puros de Yossef?! Não! Essa passagem tem que ser interpretada de maneira totalmente distinta: Yossef disse a seus irmãos, 'Peço-lhes, por favor, que digam a meu pai que sou capaz de receber tantas honrarias sem deixar que as mesmas afetem o meu caráter'". O patriarca nada tinha a temer - o poderoso e abastado governador do Egito continuava sendo aquele filho amado e íntegro que ele criara e conhecera.

Quanto a seus irmãos, José poderia ter-se vingado pelo sofrimento imenso que lhe haviam causado. Preferiu, no entanto, perdoar. Bem verdade que os colocou à prova, chegando a manter Shimon como refém. Mas, como revela o Midrash, quando os irmãos não estavam por perto, José o livrava da cela, alimentando-o com o que de melhor havia e agraciando-o com todas as regalias, como um anfitrião gentil e poderoso sabe fazer. Morto o pai, assustaram-se os irmãos pensando que Yossef fosse, por fim, acertar as contas com eles. Mas o irmão apenas lhes disse: "Se dez velas não foram capazes de extinguir a luz de uma única, como poderia essa única extinguir dez velas?" E soluçou de mágoa ao constatar que tal pensamento lhes tivesse sequer ocorrido - de que ele buscaria por vingança. "Não têm por que temer. Hei de prover-lhes por todas as suas necessidades, bem como as de seus filhos".

E não se limitou a ajudar apenas a seus familiares. Yossef foi um judeu que, à semelhança de tantos outros que vieram depois dele, assumiu a responsabilidade de zelar por todos os que buscaram o seu auxílio. Com os múltiplos talentos e a capacidade com que D'us o tinha abençoado, empenhou-se para salvar o Egito - o mesmo país que injustamente o mantivera preso durante 12 anos - bem como a muitas outras nações que a ele se voltaram em busca de alimento.

Mesmo após a sua morte, Yossef continuou a atuar em prol de seu povo. Diferentemente de seu pai que foi enterrado em Hebron, ele foi posto em um caixão e no Egito permaneceu - até que os judeus fossem libertados dos grilhões da escravidão. Sua alma desejava a proximidade com eles, para assim melhor interceder junto ao Todo Poderoso, em favor de sua gente. Segundo a Cabalá, foi por mérito de Yossef - e não de Moisés - que o Mar de Juncos se dividiu para que os judeus pudessem, por fim, escapar do jugo egípcio, em sua jornada em direção ao Monte Sinai.

A Torá usa uma única palavra para descrever Yossef: "belo". Mas, merecerá, também, o aposto de "Tzadik"? Não resta dúvida que sim. Foi um homem extraordinário e a história de sua vida faz justiça à sua grandeza de espírito. Uma história de sonhos e sonhadores, é, indiscutivelmente, a mais tocante em toda a Torá. Os pensamentos e as emoções que a mesma desencadeia tocam fundo a alma do gênero humano. Pois, de uma forma ou de outra, todos encontramos algum tipo de afinidade com seus sonhos e seus anseios, suas angústias e seu júbilo, seus problemas e seus sucessos. A história de Yossef mostra como a pessoa pode estar no mais profundo dos abismos - para de lá ser impulsionada aos píncaros das alturas.

É a história da vida - e de tudo aquilo que a torna tão extraordinária.

Bibliografia

· The Living Torah - by Rabbi Aryeh Kaplan - Maznaim Publishing Corporation

· The Chumash - The Stone Edition - by Rabbi

· Nosson Scherman - The Artscroll Series

· Messengers of G-d: Biblical Portraits and Legends by Elie Wiesel - Simon and Schuster