Morashá
CELEBRANDO PESSACH, SEGUNDO OS COSTUMES SEFARADITAS Pessach - Norman Über, 1949

CELEBRANDO PESSACH, SEGUNDO OS COSTUMES SEFARADITAS

Comer matzá até um dia antes do Seder e consumir arroz seguindo os ensinamentos de Joseph Caro, no Shulchan Aruch, são alguns dos costumes adotados pelos judeus sírios.

Edição 28 - Abril de 2000


Preparação do arroz

Inicia-se a limpeza, quarto por quarto, proibindo a família de entrar com pão no cômodo já limpo. Semanas antes de Pessach, a dona de casa começa a preparar o arroz. No costume ashquenazita, seguindo os ensinamentos do rabino Moses Isserles, não se comem arroz ou outros tipos de grãos em Pessach. Os sefaraditas, por outro lado, seguem Joseph Caro que, no Shulchan Aruch, declara que arroz e outros grãos podem ser ingeridos. O arroz é um elemento muito importante, já que a maioria da comida é feita à base do mesmo. Por isso, limpar o arroz para ver se tem um grão de trigo é um trabalho que requer o maior cuidado e é feito exclusivamente pela dona da casa. O arroz é escolhido três vezes e despejado em cima de uma toalha branca, para se ter certeza de que nenhuma sujeira escapou. Depois desta rígida inspeção, o arroz é empacotado em sacos plásticos e guardado para a semana da festa.

Venda e busca

A Shetar harchaá (venda do chametz) é praticada pelo rabino. Após guardar o chametz num quarto fechado ou num congelador trancado, leva-se a chave para o rabino que a coloca num envelope e a vende a um não judeu. Assim o chametz não pertence mais ao judeu.

É costume dos sírios comer matzá até um dia antes do Seder. À véspera de Pessach, é permitido comer Matzá ashirá (matzá de ovo).
A matzá shemurá é usada nas duas noites do Seder. Alguns a usam durante toda a festa.

A bedikat chametz (busca do chametz) é feita na véspera do Seder, com a ajuda da mulher. Ela prepara dez pedaços de pão muito bem embrulhados e os espalha pela casa. O marido e os filhos, com uma vela acesa, procuram estes pedaços de pão e os guardam para serem queimados no dia seguinte.

Recebendo Pessach

No dia do Seder, o chefe da família volta do trabalho mais cedo, à tarde, para ajudar a preparar a mesa do cerimonial ou para verificar se a mesa foi bem posta e se nenhum item foi esquecido. A mesa do Seder é preparada antes do pôr-do-sol. A tarefa do marido é preparar os copos de vinho em número suficiente para os convivas, preparar os livros da Hagadá e, na maioria das vezes, ajudar a ordenar os itens que constam da bandeja cerimonial, a keará. Esta é preparada seguindo a tradição do Ari (Rabi Isaac Luria). Para o maror usa-se alface romana, com um pequeno pedaço de escarola. Para o chazeret também se usa alface romana. O charosset é feito com uma massa à base de tâmaras, amêndoas e vinho; o carpás seria o salsão, e betsá são os ovos cozidos. O zeroá (um osso de vitela) deve ser assado.

A proibição de se comer o zeli, carne chamuscada, é observada pelos sírios.

O Seder

O kos shel Eliahu (copo de Eliahu) está sempre presente à mesa, tradição que foi incluída seguindo uma tradição ashquenazita. Cada um dos presentes toma quatro copos de vinho durante o Seder. Antes do Kidush, adiciona-se água ao vinho a ser usado durante o Seder (mezigá). O Kidush é então feito pelo chefe de família e todos sentam-se, reclinando-se para a esquerda para tomar o vinho, como pede a Halachá.

Para o yachatz, quebra-se a matzá do meio e, seguindo a Cabalá, forma-se a letra dalet (letra hebraica que eqüivale ao número quatro) e a letra vav (que eqüivale ao número seis) somando o número "dez", para simbolizar os dez sefirot da Cabalá.

O Aficoman (um pedaço de matzá) é embrulhado num pano especial, e passa de mão em mão. Cada um por sua vez coloca o pano por cima do ombro e recita o Micharotam zerurot besimelotam al shikhmam ubenei Yisrael kidebar Moshe (Êxodo 12:34). Os presentes perguntam então em árabe: "de onde você vem?" (min uen jaie) e cada um por sua vez responde "Egito" (mitzraim). Depois, "para onde você vai?" (la uen rayeh) e a resposta é: "para Jerusalém" (le Yerushalaim).

Este é a única parte em árabe usada na Hagadá. Antigamente, existia uma tradução da Hagadá em língua árabe. Algumas famílias pedem até hoje para o membro mais velho da família ler alguns trechos em árabe, mas este costume está-se perdendo, já que a maioria das pessoas à mesa não fala mais a língua materna.Na enumeração das Dez Pragas, o chefe de família derrama um pouco de vinho numa bacia que a dona da casa segura. Procura-se não olhar para este vinho, considerado sujo. O conteúdo da bacia é jogado fora em seguida. Na hora da netilat yadaim (lavar as mãos), algumas famílias costumam trazer uma bacia para a mesa. As moças presentes passam a bacia de um homem para outro, jogam água sobre as mãos, passando-lhes em seguida uma toalhinha.

Depois da leitura da Hagadá, a comida é servida com fartura de arroz. No final come-se o Afikoman. Na tradição síria, só é permitido tomar água, café turco ou talvez um chá depois do Afikoman.

Muitas comunidades sírias cantam o Had gadya em árabe ou em ladino antigo, texto que se encontra em algumas Hagadot. Este e o único costume espanhol que permanece na comunidade síria.

As famílias da comunidade costumam visitar o rabino no primeiro ou segundo dia de Pessach. É uma maneira de demonstrar o respeito ao líder religioso da comunidade. As visitas geralmente se estendem à casa dos avós, dos pais, dos tios... Mas esta tradição está sendo cada vez menos praticada pelos jovens.