Morashá
Shlomo Hillel, o espião que  libertou os judeus do Iraque SHLOMO HILLEL, AOS 95 ANOS

Shlomo Hillel, o espião que libertou os judeus do Iraque

Shlomo Hillel foi um agente do Mossad, o serviço secreto israelense. Nascido em Bagdá, trabalhou como espião no final da década de 1940 e no início dos anos 1950. Executou inúmeras operações secretas e, sob vários disfarces e se valendo de subornos, vistos falsos e uma hábil rede de contrabandistas, conseguiu resgatar os judeus do Iraque. Ao todo, foi responsável pela Aliá de mais de 120 mil judeus iraquianos, salvando uma antiga comunidade dos horrores que se seguiram.

Edição 115 - Junho de 2022


Entre 1946-1951, Shlomo Hillel trabalhou como agente do Mossad ajudando judeus a emigrar ilegalmente e, posteriormente, de forma legal, do Iraque para Israel. Em 1951, quando já se tornara uma figura conhecida e seria imprudente continuar no serviço secreto, entrou para a vida pública. Passou quatro décadas servindo a seu país na política e na diplomacia. Viveu uma vida de serviços a Israel e ao Povo Judeu e era o orgulho da comunidade judaica iraquiana. Shlomo Hillel foi o grande responsável por encerrar a diáspora que se iniciara na Babilônia e levar seu povo de volta à sua pátria ancestral.

Pano de Fundo

Após a independência do Estado de Israel, em 1948, e sua subsequente vitória, em 1949, sobre os exércitos árabes entre os quais o iraquiano, o antissemitismo e a violência contra os judeus explodiram no país. Em 1947, o governo do Iraque tornou ilegal a emigração de seus cidadãos judeus para Israel e, após a independência do Estado Judeu, declarou oficialmente que a opção sionista constituía uma ofensa capital. Após serem impostas aos judeus do Iraque severas medidas, seus passaportes foram revogados. Eles viviam aterrorizados. Centenas foram presos, muitos foram torturados – às vezes até a morte – e condenados. Uma simples correspondência recebida da então Palestina sob Mandato Britânico era motivo de prisão.

Em 1932, havia 135 mil judeus no Iraque. Após 1952 a comunidade diminuiu para apenas seis mil pessoas.

Vida de Shlomo Hillel

Nascido em 9 de abril de 1923, em Bagdá, ele era o caçula dos 11 filhos de Aharon e Hanini Hillel – sete homens e quatro mulheres. Seu pai administrava um negócio de importação e exportação, principalmente de chá e roupas. Na época em que Shlomo nasceu, seus irmãos já haviam começado a viajar para o exterior – Índia, Inglaterra, Japão – ajudando nos negócios do pai, que permanecia baseado em Bagdá.

A maré começa a virar em 1932, com a independência do Iraque, e a vida muda drasticamente para os judeus do país. Essa situação fez com que o irmão de Shlomo, Eliyahu, fosse o primeiro de sua família a fazer aliá.

Em 1933, soldados iraquianos massacraram cerca de 500 cristãos assírios perto da cidade de Mossul. Da janela de sua casa, Shlomo e seu pai viram os iraquianos marcharem triunfalmente por Bagdá. “Se isso é o que fazem aos cristãos, o que farão conosco?” – essa frase do pai não lhe saiu mais da cabeça.

Em 1934, Shlomo Hillel fez aliá para Israel. Morou temporariamente com seus irmãos, até a chegada dos pais, em 1935. Suas irmãs casadas vieram mais tarde, com seus familiares.

Shlomo cursou Ciências Políticas, Economia e Administração Pública na Universidade Hebraica de Jerusalém, antes de se tornar cofundador do Kibutz Maagan Michael, no norte de Israel. Em 1952, casou-se com Temima Rosner, refugiada judia de Viena. O casal teve um filho, Ari, e uma filha, Hagar.

No Mossad

Shlomo juntou-se à Haganá e começou a trabalhar em uma fábrica subterrânea de munições associada ao seu kibutz, mas logo entrou para o Mossad. Seu maior desejo era envolver-se no trabalho da imigração de judeus a Israel.

Dentro do Mossad, ele era conhecido como Shammai, em uma alusão aos nomes de Hillel e Shammai, dois dos maiores Sábios em toda a história judaica. As Escolas que fundaram – Beit Hillel e Beit Shammai – dedicaram-se a debater e elucidar as Leis da Torá.

Em 1946, com a iminência da proclamação de um Estado Judeu, Shlomo Hillel, com 23 anos e seu passaporte iraquiano no bolso, embarcou em sua primeira missão no Iraque. Ele se locomovia pelo país usando vários pseudônimos e identidades. Disfarçado de árabe, foi enviado a Bagdá para preparar as bases para a emigração dos judeus iraquianos para Israel – ensinando-lhes o hebraico moderno – o que já era ilegal no país – e organizando o movimento sionista clandestino, cujos membros seriam cruciais nas futuras operações de resgate.

Durante sua primeira estada em Bagdá a serviço do Mossad, Hillel tentou diversos planos para levar judeus para a Palestina sob Mandato Britânico. Pequenos grupos foram contrabandeados por caminhoneiros pelo deserto. Testaram-se diversas rotas e planos, muitos dos quais fracassaram antes mesmo de começar. Sua operação de contrabando de alguns judeus a cada vez foi desafiadora, ineficiente e até mesmo trágica. Muitos judeus iraquianos tentaram a sorte por conta própria, usando contatos, passaportes comprados e dinheiro para conseguir chegar à Terra Prometida. Alguns chegaram mesmo a fazer a viagem a pé.

Sua primeira estada no Iraque durou um ano. Voltou frustrado a Israel, mas logo se sentiu inquieto. Ele via navios cheios de judeus chegando da Europa – um deles transportava sua futura esposa, Temima – e almejava que os judeus iraquianos tivessem a mesma oportunidade. Hillel era uma voz constante dentro do Mossad, demandando maiores esforços e recursos para ajudar os judeus na terra onde nascera, o Iraque.

Operação Michaelberg

Após a 2a Guerra Mundial, alguns pilotos viram uma oportunidade de ganhar dinheiro no cenário do pós-guerra, contrabandeando ouro, cargas e pessoas. O Mossad fez contato com dois pilotos americanos que serviram na guerra e possuíam um avião de carga C-46. Alguém nos Estados Unidos lhes dissera: “Há alguns malucos que estão dispostos a pagar muito dinheiro para contrabandear judeus para a Palestina”. Os pilotos, que não eram judeus e estavam em busca de aventura e dinheiro, concordaram em fazê-lo.

Em agosto de 1947, o Mossad abordou Shlomo Hillel com o plano de regatar judeus iraquianos por transporte aéreo, e o apresentou aos dois pilotos americanos que já estavam instalados num quarto de hotel, com o mapa do Oriente Médio estendido no chão. Estudavam um lugar de onde decolar, próximo de Bagdá. O nome do piloto era Leo Wessenberg. O copiloto se fazia conhecer apenas pelo nome de Mike. Assim, o plano arquitetado por Hillel ficou conhecido como “Operação Michaelberg”.

Shlomo então voou para o Iraque disfarçado de tripulante, com os dois pilotos americanos e seu passaporte iraquiano. Não tinham nenhum plano em mente – apenas a importante missão de contrabandear 50 judeus para fora do país.

A operação enfrentava desafios de ambos os lados: eles precisavam contrabandear judeus para fora do Iraque – judeus que, por decreto governamental, tinham tido seus passaportes revogados. Tinham, também, que passar pelos britânicos, que barravam a entrada de judeus na Palestina sob Mandato Britânico.

Inicialmente, pensaram em decolar cladestinamente de Bacuba, em um campo de aterrissagem abandonado, a uns 40 km de Bagdá. Mas por se tratar de uma cidade pequena, a aterrisagem de um avião causaria muita sensação. Isso os fez desistir da ideia.

Partindo da premissa de que uma operação realizada bem debaixo do nariz do inimigo muitas vezes constitui um risco menor do que qualquer outra que procure desviar sua atenção, Shlomo Hillel decide que a decolagem com os judeus contrabandeados seria mesmo do aeroporto de Bagdá.

Ao pousar nessa cidade, ele percebeu que, no processo de decolagem, os guardas iraquianos verificavam o avião e, após a inspeção, os aviões taxiavam até o final da pista, onde esperavam cinco minutos antes de decolar para aquecer seus motores. O final da pista ficava a cerca de 1 ½ km de distância do prédio do aeroporto. Havia uma cerca em volta da pista, mas não havia prédios, nem polícia, nem ninguém por perto. Se os judeus se escondessem na beira da pista, poderiam usar aquela breve janela de oportunidade para subir a bordo, em meio ao barulho ensurdecedor dos motores e às fortíssimas luzes da frente do avião, e as autoridades iraquianas nunca descobririam o que se passara.

Para isso, a operação precisava ser planejada e sincronizada com perfeição. Hillel e os líderes do movimento sionista estudaram o aeroporto e planejaram como proceder. Os judeus não poderiam levar malas ou pacotes – precisavam estar com as mãos livres para subir no avião com rapidez. Podiam vestir quantas roupas quisessem, uma em cima da outra, mas seria somente isso.

O Mossad havia combinado que os pilotos seriam pagos na chegada à Palestina sob Mandato Britânico. Mas, em Bagdá, um deles repentinamente mudou de ideia e exigiu o dinheiro antes de partirem. Naquela manhã, Shlomo Hillel havia mexido nos pertences dos pilotos e viu que o piloto tinha uma conta no Chemical Bank de Nova York. Mentindo, disse que tinha uma conta no mesmo banco e fingiu procurar, em vão, seus cheques. Usando um cheque de Wessenberg, colocou um número de conta falsa e preencheu o cheque, resolvendo assim o impasse.

O plano correu perfeitamente. Eles decolaram as 3:30h da manhã e pousaram cedo e sem surpresas na Palestina sob Mandato Britânico. Ao pousarem em uma pista improvisada, um agente do Mossad entregou aos pilotos um saco com o equivalente a cinco mil libras em moedas de ouro e Hillel recuperou seu cheque falso.

Shlomo Hillel, cuja experiência em aviação se resumia a ter sido passageiro em dois voos comerciais, acabara de comandar a primeira operação de resgate por via aérea realizada pelo Mossad. A Operação Michaelberg ocorreu mais uma vez, sem a presença do Hillel, e outros 50 judeus iraquianos foram levados a Israel antes da eclosão da Guerra da Independência.

Shlomo Hillel e o Abade Glasberg

Após o início dessa guerra, piora a situação dos judeus no Iraque. Em meio à guerra, em junho de 1948, Hillel partiu novamente com destino ao Iraque, fazendo escala em Paris. Permaneceu dois meses em Paris, frequentando o escritório do Mossad e tentando elaborar um novo plano para retirar mais judeus do Iraque.

Esse país é rodeado de países muçulmanos: Síria, Jordânia, Arábia Saudita, Kuwait, Turquia e Irã. Os dois últimos são países mulçumanos, mas não estados árabes. A geografia da fronteira com a Turquia não é favorável, já a fronteira com o Irã é mais convidativa e havia passagens conhecidas por contrabandistas. Além do mais, no Irã não se perseguia judeus. Na época, eles viviam bem, podiam falar hebraico abertamente na rua e ser sionista não era uma atividade ilegal.

Em Paris, Shlomo Hillel se encontrou no escritório do Mossad com um abade chamado Alexander Glasberg. Abade Glasberg nasceu em 1902, em uma família judia, na Ucrânia, e frequentou escola judaica. Em certo momento de sua vida, converteu-se ao Catolicismo e, em 1932, emigrou para a França.

Durante a 2ª Guerra Mundial, o abade salvou cerca de dois mil judeus, em sua maioria crianças, escondendo-os em mosteiros ou em casa de famílias cristãs até poder transportá-las a algum lugar seguro. Chegou a salvar 108 crianças judias em Venissieux, que estavam prestes a serem deportadas com os pais para um campo de extermínio. O abade foi condenado à morte in absentia, passou para a clandestinidade e continuou a trabalhar para a Resistência Francesa até o término da guerra.

O sacerdote, cuja língua nativa era o iídiche, havia sido condecorado pelo governo francês e era ardente apoiador da causa sionista e frequentador assíduo do escritório do Mossad. Já estava envolvido em levar judeus europeus para Israel e concordou em ajudar Shlomo Hillel a tirá-los do Iraque. Os dois decidiram que se os judeus conseguissem atravessar a fronteira porosa com o Irã – e se Hillel pudesse subornar a polícia iraniana para “olhar para o outro lado” – então o abade Glasberg, que era amigo íntimo do Ministro do Interior francês, poderia providenciar vistos para que eles pudessem emigrar para Israel via França. As autoridades iranianas não permitiriam que os judeus voassem direto a Israel, já que o Irã ainda não havia reconhecido o Estado de Israel. Com o término da 2a Guerra Mundial, vários de seus amigos da Resistência passaram a ocupar importantes cargos públicos. O abade Glasberg garantiria pessoalmente às autoridades francesas que nenhum dos refugiados ficaria na França.

Em 31 de agosto de 1948, Hillel foi para o Irã. Dessa vez, ele se passou por um cidadão francês – Maurice Perez, representante da Gasoline e da Sitex, duas empresas francesas – portando um passaporte franco-marroquino. O abade Glasberg embarcou para o Irã logo em seguida.

Zion Ezri, judeu iraniano sionista, entrou em contato com a polícia em Teerã e obteve seu comprometimento de que, se os judeus entrassem no Irã pela fronteira com o Iraque, eles não seriam mandados de volta e teriam permissão para deixar o país – desde que possuíssem um visto. Passariam pelo Irã somente em trânsito. Os refugiados se declarariam fugitivos da perseguição no Iraque e pagariam uma multa às autoridades iranianas. Ao exibirem vistos de entrada para outro país, as autoridades lhes forneceriam um laissez-passer para poderem sair do Irã. Como prometido, o abade Glasberg obteve os vistos.

No início, os refugiados foram mantidos em hotéis. Mas logo seu número aumentou e tiveram de acampar em um antigo cemitério judaico que foi equipado com calefação, fogões para cozinhar, local onde dormir e banheiros. Era necessário alimentos, roupas, lençóis, cobertores e assistência médica. Também era preciso ocupar as pessoas, então foram organizados grupos de estudos, atividades desportivas, entre outras. As condições eram ruins, o inverno era brutal – podendo chegar a -20 oC – e a burocracia iraniana demorava a emitir os documentos necessários.

Enquanto isso, diversas rotas eram usadas para cruzar clandestinamente a fronteira entre o Iraque e o Irã e muitos judeus foram presos, torturados ou “desapareceram” no trajeto. Era fundamental ter dinheiro para o alojamento das pessoas até chegarem a Teerã, pagar a viagem e pagar subornos em diversas paradas nessa jornada.

A princípio, depois de obter os documentos, os refugiados voavam para a Europa, de onde seguiam para Israel. Quando os grupos começaram a chegar às dezenas e, depois, centenas de pessoas, o ideal era que os refugiados nem tocassem em solo francês, indo diretamente para Israel. Os primeiros voos foram feitos pela Iranian Airways. Seus aviões frequentemente apresentavam problemas técnicos e costumavam chegar ao destino com somente um motor funcionando, mas era a opção disponível. Tinham também que dissimular o destino, dizer que o avião estava vazio e se dirigia a Beirute ou Cairo, enquanto seguia a rota para Israel. O piloto e sua tripulação, pessoas admiráveis e corajosas, assumiram grandes riscos.

Grupos posteriores voaram de Teerã diretamente para Israel e de forma mais segura, graças a uma companhia aérea norte-americana, a Trans-Ocean, encarregada pelo Mossad de trazer pessoas de Bombaim, hoje Mumbai, na Índia. Foi feito um acordo com a Iranian Airways para atuar como agentes da Trans-Ocean e cuidar dos serviços em terra. A Iranian Airways receberia uma taxa adicional de 25 dólares por pessoa para cobrir as despesas de documentação. Em pouco mais de um ano, cerca de 12 mil judeus iraquianos fizeram essa viagem.

Outros tantos também aproveitaram a oportunidade para partir para Israel. Gholam Ibtihaj, gerente da Iranian Airways, telefonou para o primeiro-ministro iraniano e para o chefe de polícia, que era seu cunhado, e propôs que permitissem que os judeus iranianos também pudessem partir para Israel.

A condição era que viajassem com a empresa iraniana ou por meio de um acordo com a mesma. O governo deu o sinal verde – podiam sair na condição que renunciassem à cidadania iraniana. Assinaram um acordo formal e surpreendente, já que o Irã era um país mulçumano que ainda não havia reconhecido o Estado de Israel1. De 1949 a 1951, emigraram para Israel 24.805 judeus iranianos.

Sob forte pressão do Iraque, a política iraniana a respeito dos refugiados iraquianos judeus sofreu uma série de reviravoltas. Em um dos relatórios de Hillel, por volta de julho de 1949, ele define o momento como “um fenômeno muito alarmante, ou seja, que nossos amigos iranianos começam a se cansar de nos ajudar”. Foi necessário usar a mídia internacional, a pressão dos Estados Unidos e a pressão interna no Irã para reverter várias decisões que deportariam os refugiados para o Iraque e, certamente, para seu trágico fim. Contudo, estava claro que o crescente fluxo de refugiados já desagradava o governo iraniano.

Exausto, no dia 30 de setembro de 1949, Shlomo Hillel, ainda conhecido como Maurice Perez, retornou a Israel determinado em se aposentar do Mossad e deixar outro agente em seu lugar.

Operação Ezra e Nehemias

A perseguição contra os judeus no Iraque se intensificou em 1949, quando o primeiro-ministro Nuri as-Sa’id, assumiu o poder. A polícia começou a prender mais pessoas aleatoriamente. A polícia secreta usava de toda a barbárie – prendiam os judeus com correntes e os chicoteavam, mergulhavam suas mãos e pés em água fervente, queimavam seu corpo com ferro em brasa, entre outros métodos de tortura. Alguns dos que sobreviveram nunca mais foram os mesmos e muitos morreram em meio às torturas. As prisões de Bagdá estavam lotadas de judeus, chegando ao ponto de terem que transferir os presos para campos de concentração. A polícia chegou até a cercar uma sinagoga e prender pessoas em pleno Yom Kipur. A situação era desesperadora.

Em 1949, os delegados de Israel nas Nações Unidas começaram a expor a perseguição aos judeus no Iraque. O mundo estava começando a perceber o êxodo dos judeus do Iraque: em fevereiro de 1950, o jornal The New York Times enviou um repórter à fronteira Irã-Iraque para cobrir a situação. Com a memória do Holocausto ainda fresca, levantou-se um pequeno clamor internacional.

A situação começou a melhorar com Tawfiq Suweidi. Suweidi foi primeiro-ministro do Iraque em três momentos diferentes da história do país – inclusive entre 5 de fevereiro de 1950 e 15 de setembro de 1950. Poucos sabiam, mas Suweidi havia estudado na escola judaica da Alliance Israélite Universelle, em Bagdá. À época, muitos mulçumanos ricos mandavam seus filhos a essa escola, considerada a melhor do Iraque.

Em Purim, no dia 2 de março de 1950, quando os judeus já tinham perdido a esperança e a situação era insustentável, foi apresentado o projeto de lei permitindo que os judeus deixassem o Iraque definitivamente e de forma legal desde que renunciassem à sua cidadania. Dois dias depois, a lei foi promulgada.

O governo iraquiano chegara à conclusão de que era melhor permitir que os judeus deixassem o país legalmente. As razões por trás dessa permissão não são claras, mas há aparentemente uma combinação de motivos: a situação dos judeus no Iraque se tornara motivo de constrangimento para o governo iraquiano; as autoridades iraquianas não mais desejavam monitorar as atividades sionistas e a fuga pelas fronteiras iraquianas – que lhes custava muito dinheiro; o desejo do governo iraquiano de se apropriar de propriedades judaicas; e a necessidade que o Iraque tinha de melhorar sua imagem e reputação internacional.

Shlomo Hillel viajou para Bagdá mais uma vez, em 27 de abril de 1950, desta vez como um cidadão britânico de nome Richard Armstrong Jr., representante de uma empresa americana de fretamento chamada Near East Air Transport. Acompanhava-o Ronnie Barnett, uma das figuras mais importantes da empresa. De propriedade de um americano pró-Israel, essa empresa era real e tinha fortes laços com o Mossad. Hillel, ou Armstrong, viajou a Bagdá para fazer os preparativos para a operação e negociar os termos e a logística com membros do governo iraquiano.

Hillel e Barnett fizeram um acordo com Abdul Rahman Raouf, diretor da agência de viagens Iraq Tours, para que a Near East Air Transport se encarregasse do transporte dos judeus iraquianos. Barnett havia conhecido Raouf quando administrava um voo de peregrinos a Meca. O primeiro-ministro Suweidi fazia parte da direção da Iraq Tours e era amigo pessoal de Raouf.

Cinco dias após pousarem em Bagdá, Raouf levou Hillel e Barnett para um jantar na casa do primeiro-ministro Suweidi para fecharem o negócio. A Near East Air Transport propunha cobrar $48 dólares por passageiro adulto.

O primeiro-ministro convidou o líder da comunidade judaica, Ezekiel Shemtob, para participar da reunião. Por coincidência, ele era primo da mãe de Hillel. Muito rico e educado, ele tinha relações com vários membros importantes do governo iraquiano – inclusive com Tawfiq Suweidi. Hillel temeu ser reconhecido pelo primo a quem não via desde criança. Foi uma das inúmeras vezes em que sua identidade quase foi descoberta...

Shemtob concordou com que a comunidade judaica recolhesse o dinheiro para cada passageiro e cobrisse os custos de quem não tivesse condições de pagar, transferindo o dinheiro para a Iraq Tours.

A primeira viagem ocorreu no dia 19 de maio de 1950. Junto com o primeiro grupo de refugiados estava Shlomo Hillel. A polícia secreta havia recebido uma denúncia de que o sr. Armstrong (disfarce de Shlomo Hillel) era judeu. Para não se arriscar a ser preso, ele partiu para nunca mais pisar no Iraque.

Tendo terminado sua missão nesse país, Shlomo retornou a seu kibutz, em Israel, casou-se com Temima e iniciou uma carreira política e diplomática. Os judeus foram levados em cerca de 950 voos com destino a Israel no que ficou conhecido como a Operação Ezra e Nehemias – em homenagem aos dois líderes e profetas que conduziram os judeus do exílio da Babilônia de volta para Jerusalém, por volta de 348 AEC.

No início, os aviões voavam para Chipre, pousavam por curto período de tempo e depois decolavam para Israel. Em 1951, era enorme o número de judeus ansiosos por partir, e as autoridades iraquianas permitiam voos direto a Lod, Israel.

O governo de Tawfiq Suweidi caiu em setembro de 1950 e Nuri as-Sa’id, voltou a ser primeiro-ministro. Isso trouxe grandes preocupações. Em 23 de novembro de 1950, 80 mil judeus aguardavam o transporte que os levaria do Iraque. Todos os que esperavam para fazer aliá já haviam renunciado à sua cidadania. A lei de imigração iria expirar em 9 de março de 1951, mas, em lugar de bloquear a saída dos judeus, Nuri aprovou uma lei em 10 de março congelando os bens de todos aqueles que haviam renunciado à sua cidadania – um total de 103.866 pessoas, até então.

O congelamento incluía bens de todo tipo, inclusive estoques comerciais e contas bancárias. Portanto, quem não havia vendido seus bens e mandado o dinheiro para fora do país viu-se, instantaneamente, sem dinheiro algum. Ao mesmo tempo, as prisões e torturas continuavam. A polícia secreta do Iraque finalmente desmantelou o movimento sionista clandestino que tivera um papel fundamental em toda a operação. Os líderes que conseguiram escapar à prisão saíram do Iraque o mais rápido possível. Os outros sofreram brutais consequências.

Os últimos judeus que optaram por sair chegaram em Israel em fevereiro de 1952. A partir de então, o governo iraquiano fechou suas fronteiras. Até o êxodo dos judeus soviéticos, na década de 1970, esse foi maior contingente aéreo de imigrantes na história de Israel.

Durante a Operação Ezra e Nehemias, 104 mil judeus foram transportados de avião para Israel, constituindo quase toda a comunidade judaica iraquiana. Esse movimento de emigração em massa chocou o governo iraquiano, que não esperava que o número de emigrantes ultrapassasse alguns milhares. Documentos mostram que Tawfiq Suweidi estimava que sete a dez mil judeus optariam por partir.

Mas os números esmagadores também pegaram Israel de surpresa. O país, recém-fundado, sem casas para todos, com acampamentos de refugiados cheios e que vivia com racionamento de alimentos, não estava preparado para absorver tantos imigrantes, de uma só vez. Vindo de uma comunidade rica e próspera, a maioria dos judeus iraquianos chegou a Israel praticamente sem um centavo e foram alojados em Ma’abarot – acampamentos de transição para imigrantes e refugiados  aglomerados em cabanas ou barracas.

Os judeus iraquianos ficaram muito frustrados. A maioria estava desempregada e achava que Israel não fazia o suficiente para ajudá-los. Shlomo Hillel, já então um parlamentar, membro do Knesset, tornou-se a voz dos imigrantes iraquianos. E os defendeu com empenho, conseguindo melhores condições e oportunidades de emprego para eles.

O Parlamento Israelense

Em 1951, Hillel entrou na política e, em 1952, assumiu o seu primeiro mandato no Knesset. Viveu uma vida de serviço público.

Em 1959, saiu da política e atuou como embaixador em vários países africanos, ajudando a estabelecer laços entre Israel e a África, e como membro da Delegação Israelense nas Nações Unidas. Ele retornou a Israel em 1967, de volta à política, onde permaneceu até 1992.

Foi vice-diretor do Ministério das Relações Exteriores, membro e presidente do Knesset, serviu como ministro nos governos de Golda Meir e Yitzhak Rabin e ocupou várias pastas durante sua carreira política.

Shlomo Hillel faleceu em 8 de fevereiro de 2021, em sua casa, em Ra’anana, Israel. Ele tinha 97 anos. Sua família não revelou a causa da morte. Além de seu filho, Ari, ele deixa três netas.

A comunidade judaica no Iraque existiu por cerca de 2.500 anos. A Babilônia foi o lugar de nascimento de Avraham, o primeiro patriarca do Povo Judeu. Hoje, no ano de 2022, apenas cinco judeus permanecem no Iraque. No entanto, seus descendentes vivem, sãos e salvos, graças à coragem e aos esforços incansáveis ​​de Shlomo Hillel.

1  O Irã reconheceria o Estado de Israel de facto, mas não oficialmente, em 6 de março de 1950. Relações diplomáticas foram rompidas em fevereiro de 1979, após a Revolução Islâmica do Irã.

BIBLIOGRAFIA

Hillel, Shlomo, Operação Babilônia, Editora Contexto, São Paulo.

https://www.jpost.com/israel-news/culture/shlomo-hillel-who-spearheaded-mass-aliya-of-iraqi-jews-dies-at-97-659728