Morashá
Rafi Eitan, o lendário espião que prendeu Eichmann Rafi Eitan durante Cerimônia anual em memória do Holocausto no knesset, Maio de 2008

Rafi Eitan, o lendário espião que prendeu Eichmann

Último dos gigantes da comunidade de inteligência de Israel, incansável na luta em prol do Povo Judeu, Rafi Eitan participou de centenas de operações para resguardar a segurança do Estado Judeu. Foi ele quem liderou a equipe de agentes do Mossad que, em maio de 1960, capturou Adolf Eichmann em Buenos Aires, e o levou a Israel para ser julgado. Eitan faleceu em março deste ano de 2019, aos 92 anos.

Edição 104 - Junho de 2019


Baixo e atarracado, Eitan foi um dos pilares dos Serviços de Inteligência de Israel. Facilmente reconhecido por seus cabelos brancos e óculos de aros grandes, ele era uma lenda no país pelo fato de muitas vitórias da espionagem levarem sua assinatura. Como não se cansou de repetir, ao longo de sua vida, quando questionado sobre os aspectos morais de algumas de suas decisões, dizia que sua prioridade era a segurança de Israel e de seu povo. Em suas palavras, não queria mais que o sangue judeu fosse impunemente derramado.

Em 2010, em uma entrevista ao jornal israelense Haaretz, ele disse: “Quando há uma guerra contra o terror, você é obrigado a conduzi-la sem pensar em princípios. Você simplesmente luta”. E ele lutou por Israel.

No entanto, por razões de segurança nacional, a maioria das operações nas quais participou são mantidas em segredo, ainda hoje. Conhecemos apenas algumas. Apesar da captura de Eichmann ser a mais famosa, Eitan foi o cérebro pensante por trás de várias operações pouco conhecidas, mas não menos importantes para os interesses nacionais de Israel. Teve, inclusive, papel importante no assassinato dos comandos palestinos que executaram o massacre dos atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e no ataque “cirúrgico” ao reator nuclear iraquiano Osirak, em 1981.

Líderes políticos israelenses e diretores dos Serviços de Inteligência do país lamentaram a morte do eterno chefe de operações do Serviço Secreto. Entre outros, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que afirmou: “Rafi faz parte da galeria de heróis dos serviços de Inteligência do Estado de Israel, que se dedicaram à segurança do país. Sua perspicácia e compromisso com o povo e Estado de Israel foram ímpares”. Netanyahu afirmou ainda que ele era “um amigo próximo da minha família”.

Yossi Cohen, atual diretor do Mossad, manifestou-se com as seguintes palavras: “Seu trabalho e suas ações ficarão gravadas em ouro nos Anais de nosso País. As fundações que Rafi colocou nos primeiros anos do Estado são protocolos ainda muito significativos nas atividades do Mossad …. A grande maioria de suas ações não podem vir a público, mas contribuíram significativamente para a segurança de Israel”.

Os primeiros anos

Rafi Eitan nasceu em 23 de novembro de 1926 no Kibutz Ein Harod, durante o Mandato Britânico, quando o kibutz ainda era um pequeno assentamento perto de Tel Aviv. Seus pais, Yehudit Volwelsky e Noach Hantman, sionistas russos, chegaram a Eretz Israel em 1923, com a Terceira Aliá. O casal teve quatro filhos. Em 1948, Rafi e um dos irmãos trocaram o sobrenome para Eitan.

O pai, Noach, era agricultor e poeta; e a mãe, Yehudit, uma ativista social. Ambos falavam hebraico com os filhos, hábito cultivado antes ainda de chegar à então Palestina. “Entre si, eles falavam russo, que era a cultura dominante em nossa casa”.

Rafi cresceu em Ramat Hasharon e cursou o Ensino Médio em uma escola agrícola, em Guivat Hashloshá. Foi sua mãe quem o levou, um dia, para assistir um filme sobre Mata Hari, uma espiã na 1ª Guerra Mundial. Anos mais tarde, em uma entrevista, Rafi contou ter ficado muito impressionado e ter dito à sua mãe que essa seria a sua profissão - espião.

O nascimento de um guerreiro

Ele tinha apenas 12 anos quando se filia à Haganá, o exército clandestino judaico na Terra de Israel, então sob Mandato Britânico, semente do futuro Exército de Israel, estabelecido em 1948 com a criação do Estado. Dessa época, ele guardou na memória o momento em que foi levado a uma plantação de laranjas, juntamente com outras crianças, onde jurou lealdade ao sionismo. Entrou na Haganá para defender os assentamentos judaicos contra os ataques árabes. E continuou defendendo e lutando por Israel durante toda a sua vida. Ao completar 18 anos, em 1944, passa a integrar a unidade de elite da Haganá, o Palmach.

Após a 2ª Guerra Mundial, participou de operações para a entrada “clandestina” de refugiados judeus no país, desafiando as autoridades britânicas. Em uma das ações explodiu a estação de radares que supervisionava o porto de Haifa. O equipamento era usado pelos ingleses para detectar os barcos que se aproximavam ilegalmente do porto. Para chegar até a estação sem ser visto, Eitan foi obrigado a rastejar através dos esgotos, o que lhe garantiu o apelido que o acompanharia pela vida toda, Rafi, Hamasriach (“Rafi, o fedorento”). Esse apelido o diferenciou de outro conhecido Rafael Eitan (Raful), que mais tarde seria Chefe do Estado-Maior de Israel.

Em 1946, Rafi participou de uma operação do Palmach contra os templários, uma comunidade alemã protestante instalada na então Palestina, que era simpatizante do nazismo. O objetivo era “desencorajar” os membros do movimento, que se consideravam filiados ao Partido Nazista, de voltar para Israel. Dois desses templários foram mortos. Ao falar posteriormente sobre o episódio, Eitan contou: “Não sentimos culpa alguma; pelo contrário, sabíamos que tínhamos feito nossa obrigação, como filhos do Povo Judeu”.

Ainda em 1946, no mês de junho, ele foi um dos participantes da operação “Noite das Pontes”. Também conhecida como Operação Markolet, a missão tinha como alvo a destruição de 11 pontes que ligavam a área do Mandato Britânico ao Líbano, Síria, Transjordânia e Egito, e assim interromper as rotas de transporte usadas pelas forças britânicas. Para proteger a operação e confundir os ingleses, cerca de 50 ações foram realizadas ao longo do país, em uma mesma noite. Apenas uma falhou e 14 combatentes do Palmach nela perderam a vida.

No ano seguinte, 1947, juntamente com os outros membros do Palmach, Eitan libertou judeus presos no campo inglês de detenção em Atlit, perto de Haifa. No local os ingleses mantinham presos milhares de “imigrantes judeus ilegais”, a maioria sobreviventes do Holocausto. Ele foi encarregado de colocar minas ao longo da estrada para impedir que os britânicos chegassem ao campo após o início da operação. Durante a execução, uma das minas explodiu, danificando seu ouvido e resultando na perda de audição. Eitan foi forçado a usar aparelho auditivo pelo resto da vida.

Em 14 de maio de 1948, dia em que David Ben-Gurion declarou a criação do Estado de Israel, Eitan estava com uma unidade do Palmach no Norte do país, em uma área próxima ao vilarejo de Malkiya, lutando contra o exército libanês.

“No meio da batalha, o operador de rádio me chamou para dizer que Yigal Alon, comandante do Palmach, estava transmitindo o discurso de Ben Gurion, proclamando a independência, em Tel Aviv. Eu lhe respondi: “Obrigado! ’, e voltei à luta... Estávamos ocupados demais para celebrar a grandeza daquele dia”...

Durante a Guerra da Independência, lutou em várias batalhas decisivas. Como outros de sua geração, conquistou uma aura de herói. Mas, ferido no pé e com o problema da audição, Eitan comunicou a seus superiores que não tinha mais condições de lutar nos campos de batalha. Encaminharam-no, então, à Unidade de Inteligência. Ao dar baixa no exército, ele entrou para o Shin Bet, Serviço de Segurança e Inteligência interna. Iniciava-se sua carreira de espião. Nesse ínterim, fez o curso de Economia na London School of Economics.

Nasce um Espião, com E maiúsculo

Em 1951, Eitan é recrutado para a área de Inteligência por Isser Harel, outra lenda na Inteligência israelense, que chefiou o Mossad e o Shin Bet1. Eitan lembra que foi aceito após uma breve conversa com Harel. “Isser apontou para o terceiro andar de um edifício, em frente ao café onde estávamos, e simplesmente disse: ‘Quero você lá’; e eu respondi: ‘Sem problema’, e me levantei. Inspecionei o prédio e decidi escalar a calha. Na época, eu era magro e forte. Cheguei rapidamente à varanda e acenei para Harel. Quando desci, ele me disse que eu tinha sido aceito”.

Rapidamente seus superiores perceberam sua mente rápida e seus talentos operacionais, e ele foi indicado chefe da Unidade Central de Operações, uma unidade conjunta com o Mossad. Galgou por todas as posições do Shin Bet, antes de se juntar ao Mossad, onde se tornou chefe de operações. Serviu no Mossad até 1972.

Durante esse período, participou pessoalmente, ou na qualidade de chefe de operações, em algumas de suas mais ousadas operações.

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, a unidade da qual fazia parte concentrou-se na contraespionagem, seguindo e interceptando diplomatas e espiões soviéticos, invadindo embaixadas e instalando equipamentos de escuta. Entre outras, por exemplo, suas atividades incluíam impedir a venda de equipamentos alemães ao Egito. Trabalhou, também, para a devolução de propriedades confiscadas aos judeus durante o Holocausto, além de estar envolvido no desenvolvimento israelense de armas nucleares e manter contatos clandestinos com países árabes.

Em 1954, participou do sequestro, em Paris, de um oficial da Força Aérea de Israel acusado de espionar para o Egito. O oficial foi levado para Israel em um avião militar, mas a sedação foi por demasiado forte e ele acabou falecendo. Seu corpo foi lançado ao mar. O episódio foi mantido em sigilo durante décadas. Quando veio à tona e lhe perguntaram sobre o ocorrido, repetiu o que respondia sempre que questionavam seus atos: “Nada do que fiz no cumprimento de uma missão poderia ter-me incomodado, de maneira alguma”.

Não há dúvidas de que seu maior triunfo público foi ter liderado a equipe do Mossad responsável pela captura de Adolf Eichmann, um dos principais formuladores da “Solução Final”, em 1960, em Buenos Aires, e seu translado a Israel para ser julgado. Como veremos mais adiante, o sucesso na missão permitiu levar o carrasco nazista a julgamento, em abril do ano seguinte.

Em 1964, Eitan assumiu o Departamento de Operações do Mossad na Europa. A Operação Dámocles foi executada sob seu comando. O objetivo era impedir o envolvimento de cientistas alemães em projetos bélicos no Egito, na época uma das grandes ameaças a Israel. Para isso, era necessário rastrear e, em seguida, liquidar os cientistas alemães que estavam construindo foguetes para Nasser, então presidente do Egito.

No ano seguinte, como chefe do Mossad na Europa, envolveu-se em uma operação que localizou e entregou o agente da Inteligência do Marrocos, o líder oposicionista Medhdi ben-Barka. Na época, cercado por inimigos liderados pelo Egito, Israel procurava criar vínculos secretos com regimes árabes moderados e pró-ocidentais. Entre eles, o Marrocos do rei Hassan II. Os Serviços de Inteligência marroquinos propuseram um acordo a Israel: ajudá-los a encontrar ben-Barka e o monarca permitiria ao Mossad espionar o Egito e países árabes inimigos a partir de solo marroquino.

Em 1968, os serviços de Eitan foram necessários para mais uma missão complicada. A Inteligência israelense havia registrado uma empresa de fachada na Europa. Essa empresa tinha comprado 200 toneladas de urânio de uma empresa belga que estava desesperada para se livrar desse urânio. O material foi embarcado em um navio que Eitan e seu colega tinham comprado, usando o disfarce de empresários estrangeiros. Em alto-mar a carga foi transferida para outro navio e, depois, carregada em um porto israelense e enviada para abastecer o reator de Dimona.

No mesmo ano, passando-se por um químico israelense ligado ao governo, Eitan visitou a fábrica da U.S. Nuclear Materials and Equipment Corporation (NUMEC), na cidade de Apollo, Pensilvânia, que reciclava urânio descartado para o Departamento de Energia dos Estados Unidos. A fábrica pertencia a Zalman Shapiro, judeu americano e sionista devotado que fazia doações ao serviço secreto israelense. Pouco depois da visita de Eitan, 90 quilos de urânio enriquecido, quantidade suficiente para a produção de seis bombas atômicas, desapareceram.

Na época, levantou-se a suspeita de que Eitan estava envolvido no misterioso “desaparecimento” do urânio e que as 200 toneladas haviam sido desviadas para abastecer o programa nuclear israelense, mas nada foi provado e o caso nunca foi solucionado.

Acredita-se, também, que, durante um tempo, ele tenha sido assessor secreto para contraterrorismo do MI6, a agência britânica de Inteligência, e, nessa qualidade, tenha ajudado os agentes do Mossad a localizar um agente do esquadrão de bombas do Exército Republicano Irlandês, em Gibraltar, que foi morto naquela época por forças especiais britânicas.

Em 1972, desapontado por não ter sido promovido a diretor do Mossad, renuncia ao cargo.

A captura de Eichmann

Como vimos acima, nenhuma missão chamou tanta atenção quanto a captura de Adolf Eichmann, em que Eitan foi chefe de operações. “Pela primeira vez, os judeus puderam julgar seus assassinos”, disse Isser Harel, chefe do Mossad na época.

Um dos nazistas mais procurados do mundo, Adolf Eichmann, oficial da SS e um dos participantes da Conferência de Wansee2, era um dos arquitetos mais graduados da “Solução Final” de Hitler, responsável, entre outros, por elaborar o plano de deportações em massa dos judeus para os campos de extermínio.

Em 1957, Felix Shinar, representante do governo de Israel nas negociações de reparações de guerra, foi secretamente informado pelo procurador-geral da província de Hesse, Fritz Bauer, judeu alemão, que Eichmann estava vivo, na Argentina. A informação que Shinar retransmitiu à Israel chegou até Isser Harel, do Mossad. Daí para frente seus agentes passam a investigar o caso. (V. “Os segredos da Captura de Eichmann”, Morashá Ed. 95, abril 2017)

Descobriram que conferia a informação de que uma jovem alemã de Buenos Aires namorava um rapaz chamado Nicolas Eichmann, que vivia com sua família em um subúrbio da cidade. O pai do rapaz usava outro sobrenome, fazendo-se conhecer por Ricardo Klement. Durante dois anos, esse homem foi vigiado de perto, 24 horas por dia, 7 dias por semana, por uma equipe de 11 homens, até que o Mossad chegasse à conclusão de que Klement era realmente Eichmann.

Assim, no dia 11 de maio de 1960, agentes israelenses liderados por Eitan capturam “Ricardo Klement” enquanto este caminhava até o ponto de ônibus que o levaria para casa. “Un momentito, señor”. Essa frase permitiu a Eitan capturar o nazista. Ao relembrar aquele dia, ele contava: “Eu apertei seu pescoço com tanta força que pude ver seus olhos saltando das órbitas. Um pouco mais de pressão e eu o teria matado. Comecei a procurar as cicatrizes que sabia que ele tinha, e as encontrei. E me dei conta – este é o homem. Em meu coração, cantei o hino dos partisans judeus durante o Holocausto: ‘Mir zainen do’, Estamos aqui !’”.

Eichmann foi colocado em um carro e levado para uma casa segura, onde permaneceu durante sete dias, até finalmente admitir que era, de fato, Adolf Eichmann. Para tirá-lo do território argentino, disfarçaram-no de tripulante da companhia aérea EL Al, forçando-o a tomar uísque para embebedá-lo. Foi, então, escoltado até o avião que já estava pronto para partir.

A captura repercutiu rapidamente, sendo condenada pelas autoridades argentinas por violação à soberania nacional e à lei internacional. O fato de ter sido capturado um dos mais procurados criminosos de guerra nazistas não dava o assunto em si por encerrado. Na esteira do sequestro de Eichmann iria desenvolver-se um longo processo cuja finalidade era expor ao mundo e à nova geração de israelenses os pormenores do genocídio sistemático dos judeus da Europa executado pela Alemanha.

Julgado, ele foi considerado culpado por crimes de guerra e crimes contra a Humanidade por ter organizado o extermínio de milhões de judeus. Foi enforcado em 1962. A captura de Eichmann e seu julgamento em Jerusalém foram fundamentais para a compreensão do Holocausto no mundo todo.

Em seu livro Gideon’s Spies: The Secret History of the Mossad (1995), o escritor britânico e jornalista investigativo Gordon Thomas narrou o diálogo entre Eitan e Eichmann na câmara de execução, baseado em conversas com o israelense: “Eichmann me olhou e disse, ‘Chegará a sua hora de me seguir, judeu’. E eu lhe respondi: ‘Mas não hoje, Adolf, não hoje’. Eitan estava posicionado atrás da forca quando Eichmann foi executado. Em uma entrevista concedida em 2014 ao programa de televisão Uvda, Eitan disse que aquela operação tinha sido uma das mais simples que executou.

Em uma entrevista posterior, ele revelou que, na época da captura, o Mossad já tinha conhecimento da presença na Argentina de outro nazista notório, Josef Mengele, responsável pelos terríveis experimentos médicos com os prisioneiros, em Auschwitz. Eitan impedira qualquer tentativa de irem em seu encalço por acreditar que isso colocaria em risco a captura de Eichmann. Mengele faleceu de morte natural, no interior de São Paulo, sem jamais ter sido capturado.

A vida após o Mossad

Em 1976, quando Yitzhak Rabin torna-se primeiro-ministro, Ariel Sharon assume a pasta de Assuntos de Segurança. Amigos de longa data, Sharon, nomeia Eitan seu assistente. Dois anos depois, foi indicado assessor para Contraterrorismo do então primeiro-ministro Menachem Begin. Nessa função, desempenhou papel importante nas duas operações mencionados no início deste artigo: a caça e assassinato dos palestinos responsáveis pelo massacre dos atletas israelenses em Munique, em 1972, e o ataque “cirúrgico” de Israel ao reator nuclear iraquiano, em 1981.

Em 1981 foi nomeado chefe do Escritório de Relações Científicas (em hebraico, LekemHa-Lishká le-Kishrei Madá), uma Agência de Inteligência israelense para coletar inteligência científica e técnica no exterior, particularmente para o programa nuclear de Israel, e também recrutar espiões nos países ocidentais.

Um caso diretamente ligado ao Lekem e a Eitan ocorreu em 1985 e envolveu o judeu americano Jonathan Pollard, analista de um centro de contra Inteligência naval dos EUA. Ele foi preso pelo FBI sob a acusação de ser espião de Israel. Ao ser detido, Pollard contou que fora recrutado por Eitan, a quem ele admirava, e confessou ter entregue milhares de documentos aos israelenses. O analista foi condenado à prisão perpétua e libertado após 30 anos, em 2015.

Antes de ser preso, Pollard procurou asilo na Embaixada de Israel em Washington, mas foi impedido de entrar, por ordem direta de Eitan, temendo que o asilo provocasse sérias consequência no relacionamento entre Israel e seu maior aliado, os Estados Unidos. Eitan sempre insistiu que suas ações tinham total apoio de seus superiores apesar de Shimon Peres, então primeiro-ministro de Israel, ter afirmado de que o Affair Pollard fora uma operação não-autorizada. Eitan não aceitou a acusação e repetiu que tinha agido sob ordens do governo, mas assumiu a responsabilidade pela operação e renunciou ao seu cargo.

Com a prisão de Pollard, o Lekem foi fechado e Eitan passou a ser procurado pela Justiça americana. Nunca mais entrou nos Estados Unidos. O caso deixou Israel em uma situação constrangedora, pois o país foi surpreendido espionando seu aliado mais próximo, e desgastando seu relacionamento com os EUA. Atualmente, sabe-se que é uma prática comum, inclusive americana, espionar não apenas os inimigos, como também os amigos. Em 2013, Edward Snowden, revelou que os Estados Unidos haviam grampeado telefones de 35 líderes mundiais, inclusive de Angela Merkel, chanceler da Alemanha e aliada americana.

Anos mais tarde, Eitan, que sempre atestou a qualidade e relevância do material entregue por Pollard, diria que “o caso fora sua falha mais famosa”. Ainda durante uma entrevista concedida ao programa Uvda ele revelou que, apesar de não se arrepender de suas ações, pois sempre agiu dentro da perspectiva de interesse nacional, pedia desculpas pessoais por seu papel no Caso Pollard. Mas, em 2018, quando lhe perguntaram se sentia remorsos por ter recrutado e coordenado o trabalho de Pollard, respondeu: “Não; por que deveria sentir? Eu trabalhava em uma área de alto risco. Algumas vezes você ganha; outras, você perde”.

Com sua renúncia e afastado da comunidade de Inteligência israelense, com o apoio de Ariel Sharon, então ministro da Indústria, Eitan é nomeado diretor da empresa estatal Israel Chemicals, cargo que manteve até 1993. Supostamente aposentado, continuou a trabalhar assumindo a execução de grandes projetos agrícolas e de construção, em Cuba, à frente da empresa GBM Inc. Consulting & Trade Company.

O sucesso foi tanto que em pouco tempo a empresa recebeu a Medalha por Trabalho Agrícola concedida pelo governo cubano. A comenda foi entregue pessoalmente por Fidel Castro durante a cerimônia de premiação. “Foi assim que conheci Fidel que, posteriormente, convidou-nos para outros encontros”. O líder cubano estava interessado no desenvolvimento da agricultura, mas queria, mesmo, era obter informações sobre o Oriente Médio.

Eitan foi um dos mais próximos assessores de Sharon quando este se tornou primeiro-ministro e um dos que o convenceram da necessidade de remover assentamentos israelenses de Gaza. A retirada unilateral aconteceu no verão de 2005. Ele contou que, poucos meses depois, os dois chegaram a discutir um plano preliminar para deixar a Samaria, mantendo, no entanto, controle sobre o máximo possível de assentamentos israelenses na área. Quando Sharon sofreu o enfarte e Ehud Olmert assumiu em seu lugar, o plano foi deixado de lado.

Em 2006, Eitan entrou formalmente para a política fundando o Partido Dor, de aposentados. Conquistou sete das 120 cadeiras da Knesset e foi, por um período curto, ministro da Previdência. Nas eleições de 2009, o Partido não conseguiu eleger nem um parlamentar e Eitan voltou às atividades privadas, afastando-se definitivamente da vida política.

Nos últimos anos de sua vida dedicou-se à escultura, uma das paixões que sempre cultivou. Ao longo de 30 anos produziu mais de 100 obras.

Sua vida inspirou livros e filmes. Ele próprio aparece no seriado Ha-Mossad: Sipur Kisuy (Por dentro do Mossad, documentário Netflix), no qual, pela primeira vez desde sua criação, uma dezena de ex-agentes do Mossad contam, em primeira mão, detalhes de seu trabalho e seus dilemas morais. Já a captura de Eichmann, esta foi retratada em Operação Final, de Chris Weitz, de 2018, e em O Homem que capturou Eichmann (1996) de William Graham. Eitan é também uma das inspirações do escritor Daniel Silva ao criar Ari Shamron, personagem de uma saga protagonizada por Gabriel Allon e que se baseia no mundo da espionagem israelense.

Rafi Eitan morreu no Hospital Ichilov de Tel Aviv, em 23 de março de 2019, aos 92 anos, deixando a esposa, Miriam, três filhos e vários netos.

BIBLIOGRAFIA

www.jpost.com/Jerusalem-Report/The-spymasters-tale

foreignpolicy.com/2019/03/31/remembering-israels-most-celebrated-spy-rafi-eitan-mossad-pollard-eichmann/

www.theguardian.com/world/2019/mar/25/rafi-eitan-obituary

www.nytimes.com/2019/03/23/obituaries/rafi-eitan-dead.html

www.independent.co.uk/news/world/middle-east/rafi-eitan-death-adolf-eichmann-israel-mossad-spy-tel-aviv-a8837256.html