Morashá
LAG BA'OMER E OS ALUNOS DE RABI AKIVA Foto Ilustrativa

LAG BA'OMER E OS ALUNOS DE RABI AKIVA

Lag Ba’Omer é o 33º dia da contagem do Omer. É um dia semifestivo, no meio do período do Omer, que interrompe por um dia o luto que marca o período. A partir deste dia, nos é permitido cortar o cabelo, escutar música, realizar festas e cerimônias de casamento.

Edição 36 - Março de 2002


Um dos motivos pelos quais o 33º dia é considerado alegre é justamente porque, nesse dia, cessou a calamidade que se abatera sobre os alunos do Rabi Akiva. Mas o que houve exatamente com os discípulos do grande Rabi?

O Talmud, no tratado de Yevamot, conta que Rabi Akiva tinha 24 mil alunos e que todos faleceram no mesmo período, entre Pessach e Lag Ba’Omer, por não tratar com respeito os seus semelhantes. Segundo R. Nachman, todos morreram por askera, morte por asfixia. Sim, são 24 mil alunos! Não houve erro de digitação no número acima. Não são 2.400, nem 240, são exatamente 24 mil os alunos de Rabi Akiva e todos faleceram no mesmo período – um episódio realmente triste e assustador!

O livro Iyun Yaacov, em seu comentário sobre o Talmud, analisa os acontecimentos que ocorreram com os discípulos do Rabi Akiva e o motivo pelo qual teriam sido punidos de maneira tão severa. Desrespeitar o próximo é algo muito desprezível, mas será que isto merece maciça condenação à morte?

De fato, nossos mestres nos ensinam que muitas vezes o falecimento de um grande sábio e estudioso serve como ex-piação para toda uma geração. Antes de qualquer coisa, vamos analisar como aceitar tal afirmação. Obviamente não é algo automático. O falecimento de um Tzadik deveria servir como forma de inspiração para toda a sua geração, para que cada pessoa refletisse e chegasse à seguinte conclusão: “Se um sábio tão grande pode ser retirado do mundo, um sábio cujos atos, sem sombra de dúvida, são melhores do que os meus, cujo compromisso com D’us e seus mandamentos é mais firme do que o meu, cujo conhecimento da Torá é mais vasto do que o meu, o que dizer então de uma simples pessoa com eu?” Este despertar irá inspirar a Nação no sentido do arrependimento e só assim será concluído o processo da expiação.

Na época de Rabi Akiva, seus discípulos eram os maiores sábios de sua geração. Não eram somente alunos do maior erudito da época; eles próprios eram também grandes sábios. O Talmud conta que o mundo ficou vazio e desprovido de sabedoria e conhecimento da Torá após o falecimento dos alunos de Rabi Akiva.

Mas, como vimos antes, o Talmud relata que os discípulos de Rabi Akiva tinham uma falha. Não tratavam com respeito uns aos outros, nenhum considerava o outro como “mais importante e especial”.

Analisemos, pois, o que pode ter ocorrido. Quando o primeiro deles faleceu, todos os outros devem ter pensado: “Que tragédia, um grande sábio morreu!” Os discípulos devem ter-se dado conta de que eles, também, assim como o colega, poderiam abandonar este mundo a qualquer momento. Isto lhes deveria ter provocado uma introspecção. Porém, eles não tiveram qualquer tipo de inspiração positiva, pois não consideravam os outros colegas como “alguém mais importante e especial”.

Por isso, os discípulos foram punidos e, mais ainda, não tiveram chance nem oportunidade de retificar o erro inicial. Como eram grandes eruditos, sua queda foi proporcional a sua grandeza. Eles faleceram “porque não se respeitavam entre si”. O grande Maharal de Praga, ao analisar a tragédia, explica que esta ocorreu justamente na primavera e não em outra estação do ano, pois na primavera o clima é bastante agradável. É o clima ideal para a saúde e para a conservação do bem-estar do ser humano. Mesmo assim, todos perderam a vida, nessa época, para que ficasse claro que o que ocorreu foi uma punição e não algo causado pelo clima ou pela natureza. Este também teria sido o motivo para morrerem vitimados pela doença “askera”, um tipo de asfixia, como vimos acima.

Existe uma análise mais profunda de todo o episódio. Contudo, para nós, a lição continua sendo a mesma; porém, de forma ainda mais forte e óbvia.

Precisamos entender como era possível que os discípulos do maior sábio da época não pudessem respeitar-se uns aos outros! Como se admitia que não cumprissem com o ensinamento do mestre? Sabemos que Rabi Akiva ensinava e repetia inúmeras vezes: “E amarás o teu próximo como a ti mesmo...”. Esta é uma grande regra na Torá. Será que os próprios alunos iriam desconsiderar as palavras do mestre?

Os livros mais complexos dão uma visão mais ampla do problema.

Os discípulos do grande sábio, sem dúvida, veneravam suas palavras. Porém, cada um acreditava piamente que apenas a sua maneira de servir a D’us era correta. Sabemos que assim como as fisionomias das pessoas são diferentes, assim também diferem as suas ideologias. Cada ser humano tem o direito de escolher a sua maneira de entender e adorar o Criador. Há aqueles que colocam mais ênfase no estudo, enquanto outros se preocupam mais com a caridade e outros, ainda, ficam satisfeitos em passar horas orando. Obviamente, todos têm o seu mérito.

Cada um dos discípulos de Rabi Akiva tinha sua própria convicção de que estava correto e deduzia, naturalmente, que o colega estivesse errado. Portanto, não respeitavam uns aos outros. De acordo com o princípio “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” tinham a obrigação de retificar o outro, mostrando-lhe o bom caminho. Isto não é, de forma alguma, uma má idéia.

Entretanto, quem disse que era aquele determinado discípulo quem estaria correto? Porque acreditava que seu caminho era o verdadeiro e não o do seu colega? O desrespeito aos colegas lhes foi fatal. Apesar de aparentemente bem-intencionados, não tinham direito de faltar com o respeito ao outro e deveriam aceitar as opiniões alheias e a sua maneira de viver e de agir.

A lição é clara! Vemos a importância de respeitar e valorizar nossos semelhantes e quão vital é não deixar que nossos sentimentos pessoais anulem uma oportunidade de inspiração. Mesmo já passados milhares de anos, o drama dos discípulos de Rabi Akiva conti-nua inspirando-nos, no sentido de melhorarmos nossas atitudes e nossa vida coletiva e social.


Rabino Avraham Cohen