Morashá
Judite, salvadora de um povo Foto Ilustrativa

Judite, salvadora de um povo

As mulheres judias têm seu merecido lugar no palco da bravura e do heroísmo judaicos, entre elas está Yehudit. A história da fé e coragem desta mulher de valor tem passado de geração em geração. Em Chanucá relembramos as proezas dessa filha do povo de Israel cujos pensamentos e atos só tinham um objetivo: seu povo e seu D'us.

Edição 51 - Dezembro de 2005


Não se sabe, ao certo, quando a história que estamos prestes a contar de fato aconteceu, pois os atos de Judite foram registrados em um livro muito antigo, que leva seu nome em hebraico, Yehudit. Infelizmente, o texto original se perdeu e só chegou até nossos dias uma tradução grega do mesmo, não muito precisa. A história foi contada e recontada em inúmeras versões. De acordo com a que segue, Judite era filha de Yochanan, o Sumo Sacerdote, e viveu na época da revolta dos macabeus, quando a Terra de Israel estava sob ocupação greco-síria.

Judite vivia na cidade de Betúlia, na Judéia. Foi esposa de Menassé, morto em conseqüência do excesso de exposição ao sol escaldante durante a colheita. Judite colocou roupas de viúva, que usou durante longos três anos e quatro meses. Vivia em sua casa, cercada de servos, pois o marido lhe deixara grande riqueza. Abençoada por beleza e graça extraordinárias, era respeitada por sua inteligência e bondade, bem como devoção e modéstia.

Durante esse período, a cidade de Betúlia estava sitiada pelo exército de Holofernes, poderoso general grego, comandante dos exércitos de Antíoco Epifanes. Este monarca tentara eliminar o judaísmo, ordenando, entre outras medidas, a construção de ídolos e estátuas em todas as cidades e aldeias da Terra de Israel, inclusive no Altar Sagrado do Grande Templo de Jerusalém. Na época, os gregos eram a superpotência militar do mundo e seu exército, altamente treinado, era considerado imbatível. Holofernes, por sua vez, era notório pela crueldade com que reprimia as rebeliões. Quando capturava uma cidade rebelde, não demonstrava qualquer clemência por seus habitantes. E estava determinado a esmagar a rebelião em Betúlia, cujos habitantes recusaram-se, assim como tantos outros judeus, a se curvar diante de ídolos.

Os homens de Betúlia lutaram bravamente para repelir as forças inimigas. E, ao perceber que não poderia vencê-los pela força, Holofernes decide derrotá-los pela fome e sede. Manda destruir todos os poços e fontes das redondezas e corta-lhes o acesso aos alimentos para obrigá-los a se render. Costumava dizer: "Os judeus não são guerreiros, não tomarão a ofensiva. Se cortarmos o fornecimento de água, serão obrigados à rendição".

De fato, em menos de 20 dias, secos os reservatórios, estavam prestes a isso. Desesperados, famintos e sedentos, os habitantes da cidade se reuniram na praça, pedindo a seus líderes que se rendessem antes de morrerem suas mulheres e filhos.

Uzzia, da tribo de Shimon, comandante das forças de defesa, e os anciãos da cidade tentaram, em vão, acalmar a população. Acabaram pedindo aos habitantes, já em desespero, mais um tempo: "Dêem-nos mais cinco dias. Vamos esperar pela ajuda do Todo-Poderoso e, D'us nos livre, se nenhuma salvação vier até o final desse prazo, nos renderemos. Só mais cinco dias...". Muito relutante, o povo concordou e deixou a praça.

Apenas uma mulher lá permaneceu e, com voz clara e firme, dirigiu-se a Uzzia e aos anciãos: "Sua sugestão não é sábia. Quem são vocês para testar o Todo-Poderoso, impondo prazos de cinco dias ao Senhor, nosso D'us, para nos socorrer? Se realmente têm fé, não podem deixar de confiar Nele. Além do mais, o que esperam, caso nos rendamos? Não sabem que a rendição a Holofernes é pior do que a morte?"

As palavras de Yehudit, nobre filha de Yochanan, o Cohen Gadol, calaram fundo em Uzzia e nos anciãos, que responderam: "Tendes razão, mas o que podemos fazer? Somente uma chuva torrencial que enchesse nossas cisternas e nossos poços secos poderia nos salvar, mas já vai longe a estação das chuvas. A sede e a fome castigam a todos. Judite respondeu: "Devemos continuar pedindo a ajuda de D'us e nunca dela desistir. Mas ao mesmo tempo é preciso agir. Tenho um plano e peço-lhes permissão para deixar a cidade com minha serva. Irei ao encontro de Holofernes.

Uzzia e os anciãos, tentam dissuadi-la. Mas ela, determinada, respondeu. "Já vimos em nossa história D'us enviar Sua salvação pelas mãos de uma mulher. Foi através de Yael, mulher de Heber, que D'us nos entregou o cruel Sissera". Ao perceberam que a jovem viúva não desistiria, Uzzia e os anciãos concordaram com seu plano. Ela cobriu a cabeça com cinzas e implorou a D'us que guiasse seus caminhos e que fortalecesse seu coração, fazendo-a desconhecer o medo, e disse: "Atende a minha prece, ó D'us, pois apenas em Ti confio".

Em seguida, levantou-se, desfez-se dos trajes de viúva e colocou sua melhor roupa. E saiu, seguida por sua fiel serva, que levava uma cesta com pão, queijo, figos e várias garrafas do melhor vinho.

As duas caminharam até o acampamento inimigo. Avistando-as, um dos guardas vai a seu encontro, interrogando: "De onde vêm e quem as envia?"

"Sou filha de hebreus e fujo pela certeza de que nossa cidade em breve tombará. Venho avistar-me com o valente Holofernes, com uma importante mensagem. Vim para lhe revelar como conquistar, de vez, toda a região. Leve-nos imediatamente à sua presença", disse.

Diante do general, Judite lhe conta que a vida na cidade sitiada se tornara insuportável e que subornara os guardas para deixarem-na escapar. Ouvira falar da coragem de Holofernes e decidiu conhecê-lo. Por fim, contou ao general que a situação em Betúlia era desesperadora, praticamente sem comida nem água. Acrescentou, porém, que a fé dos hebreus em D'us permanecia forte e, enquanto esta prevalecesse, não se renderiam.

"Mas", revelou Judite, "o povo está faminto e quando acabar todo o alimento casher, o desespero os vencerá e passarão a consumir tanto a carne de animais não casher, como a de animais destinados ao sacrifícios. Então, a Ira Divina se voltará contra o povo e a cidade cairá...".

"Como posso saber quando isso ocorrerá para, então, capturar a cidade?", perguntou o general. A resposta veio rápida: "Não se preocupe. Antes de deixar Betúlia fiz um trato com os guardas de seus portões. Prometi ir todas as noites até os muros para trocar informações. Eu lhes contarei o que acontece aqui e eles o que se passa na cidade. Peço-lhe, também, permissão para sair todos os dias de madrugada, para orar no vale".

Holofernes, completamente maravilhado pela beleza e palavras da jovem que, de forma tão inesperada, entrara em sua vida e lhe oferecia a "chave" para conquistar a cidade, prometeu: "Se de fato, me ajudares a capturar a cidade, farei de ti minha esposa".

A seguir, dá ordens para que Judite e sua serva tenham livre acesso a todo o acampamento, alertando que qualquer um que atentasse contra elas seria imediatamente executado. Uma tenda confortável foi-lhes preparada, próxima a do general. Holofornes convidou Judite para entrar em seus aposentos e mandou servirem-lhe alimentos e refrescos, mas ela se recusou a comer, explicando que só se alimentaria das provisões que trouxera.

As duas mulheres eram vistas vagando pelo acampamento dia e noite, mas os soldados não ousavam aproximar-se. Passou-se um dia e, ao escurecer, Judite foi até os portões da cidade e avisou um dos guardas: "Vá a Uzzia e diga que tudo transcorre conforme o plano. E, com a ajuda de D'us, venceremos o inimigo. Diga-lhe também que mantenha firme sua fé em D'us, jamais perdendo a esperança". Isto posto, voltou ao acampamento inimigo. Na noite seguinte, foi novamente até os portões de Betúlia e repetiu suas palavras. Toda noite, ao voltar, a jovem viúva orava, implorando a D'us para guiar seus passos e lograr a salvação de seu povo.

Enquanto esperava o sinal da jovem para atacar a cidade, Holofernes passava o tempo a beber e, quando não estava completamente embriagado, mandava buscá-la. Judite só entrava na tenda do general acompanhada pela aia. Passados três dias, dando mostras de impaciêrncia, ele lhe perguntou: "Graciosa, Judite, que informações me trazes? Meus homens já me cobram, mal conseguem esperar a hora de capturar a cidade e se divertir....".

"Trago excelentes notícias", respondeu a jovem. "Não há mais comida na cidade. Mais um dia, no máximo dois, e a fome os entregará em suas mãos". O general retrucou: "Esta notícia pede uma celebração. Esta noite festejaremos nós dois; serás minha convidada de honra". Judite aceitou prontamente.

Ao anoitecer, se vestiu e adornou com seus melhores pertences e se dirigiu à tenda de Holofernes. Ao vê-la, o coração do general se encheu de desejo. Sua beleza o encantara e, feliz, começou a beber. Pede a ela, então, que ao menos uma vez prove sua festiva refeição. Judite aceita, mas diz que o fará somente se também ele provar de sua comida e de seu vinho. "Meu queijo de cabra é famoso em toda Betúlia. Estou certa de que gostará, general".

E lhe oferece um generoso pedaço de queijo. Como previra, Holofernes gosta do queijo e também do vinho forte. Mas o queijo, propositalmente muito salgado, o fez ter muita sede, que procura saciar com enorme quantidade de vinho. A festa avançava noite adentro e os empregados se retiraram, deixando Holofernes a sós com sua conquista. Assim que Judite se viu diante dele, bêbado e largado em seu leito, quase afogado em vinho, ela correu a avisar a serva para ficar de prontidão, à entrada da tenda.

De pé sobre a cama de Holofernes, ela rogou a D'us: "Responde-me, ó Senhor, como respondeste a Yael, quando lhe entregaste o cruel Sissera. Enche-me de força para que possa trazer a Tua libertação a meu povo, que este homem jurou destruir. Faz, ó D'us, com que as nações saibam que o Senhor não nos abandonou. A seguir, tomou a espada do general e deu dois golpes fatais em seu pescoço, decepando-lhe a cabeça. Isto feito, procurou se acalmar; envolveu a cabeça do general em trapos e a escondeu sob seu manto. Saiu da tenda e chamou a serva: "Vem, rápido, mas com cautela para não despertar suspeitas". Esconderam a cabeça na cesta de provisões e juntas saíram, como vinham fazendo há dias. Chegando aos portões da cidade, Judite disse a um dos guardas: "Leve-me imediatamente a Uzzia".

Diante de Uzzia e dos anciãos, Judite mostra o que trazia na cesta. "Eis a cabeça de Holofernes, comandante de nossos inimigos. D'us o aniquilou pelas mãos de uma mulher. Não há tempo a perder. Prepare imediatamente seus homens. Ao amanhecer, ataquem o acampamento inimigo, que não está preparado. Quando eles forem alertar seu comandante, encontrarão seu corpo, mutilado. Temendo por sua vida, fugirão, apavorados".

Foi exatamente o que ocorreu. Ao nascer da aurora, os judeus foram ao encontro do inimigo. Os gregos, notando sua aproximação, foram procurar Holofernes. O criado entra na tenda, assusta-se e corre a chamar os generais para ver a cena. Procuram, em vão, por Judite, cuja tenda estava vazia. Apavorados, bradaram: "Nosso líder Holofornes está morto; uma judia humilhou toda a nação de Antíoco". A notícia se alastrou rapidamente. Os soldados, tomados de pânico, corriam em todas as direções, a gritar. Desnorteados, não houve quem assumisse o comando. Os judeus se aproveitaram da confusão, arrasando o inimigo. Uzzia enviou uma mensagem aos judeus das cidades vizinhas, para que perseguissem os fugitivos.E disse, então, a Judite: "Tua fé e esperança jamais deixarão o coração dos judeus, que sempre lembrarão tua coragem. D'us faça com que sejas para sempre louvada, pois rejeitaste a queda do nosso povo e, com determinação e coragem, perseguiste teu objetivo perante D'us".

O nome de Judite tornou-se famoso em todo Israel. Ela não voltou a se casar, morrendo aos 105 anos. Todo o povo chorou sua morte; e seus feitos heróicos têm levado fé e coragem aos corações dos judeus, através dos séculos.

Nossos sábios enfatizam que, como parte da vitória militar dos judeus sobre seus inimigos, deve-se a Yehudit, as mulheres têm a mesma a obrigação que os homens de acender a chanuquiá, sendo costume não realizarem nenhum trabalho enquanto as chamas das velas estiverem acesas. Para lembrar a história da heroína que, guiada por D'us, salvou a vida de nosso povo armada de grande coragem - e de um bom pedaço de queijo, existe o costume de comer laticínios em Chanucá.

Bibliografia:

Mindel, Nissan, "Judith", extraído do livro The Complete Story of Chanukah, Ed. Kehot.

"The Story Of Chanukah", The weekly Midrash, vol.1, Tzénah Urénah-The Classic Anthology of Torah Lore and Midrash Comentary, compilado por Rabbi Yaacov ben Yitzchak Ashkenazi, Mesorah Publications Ltd.