Morashá
CABALÁ E MISTICISMO Pergaminho cabalistico, 1605 Oxford Library.

CABALÁ E MISTICISMO

Acreditar, como algumas teorias científicas o afirmam, que o universo e o homem são fruto de coincidências moleculares, implica fechar nossa mente e sensibilidade a tudo o que faz de nós seres humanos. O homem, apesar de composto de matéria, não pode ser definido por seu peso e tamanho, ou tipo sangüíneo.

Edição 26 - Dezembro de 1999


Sua personalidade, idéias, anseios, sonhos, amor e ódio não são elementos físicos. A ciência e a razão não conseguem responder às nossas mais angustiantes perguntas: a vida tem sentido? Por que estou vivo?

O homem é essencialmente espiritual. É verdade que a espiritualidade não é científica, nem racional e não pode ser quantificada. A arte também não o é, mas ela existe assim como a espiritualidade.

Desde seus primórdios, o homem tem olhado tanto para o universo como para dentro si mesmo, procurando um contato com o Divino, o Absoluto. Chamamos de misticismo esta busca efetuada através de elementos intuitivos que estão fora do alcance da razão humana.

Misticismo e experiências místicas fazem parte do judaísmo, desde seus primórdios. A Torá nos relata visitas de anjos, sonhos proféticos, conta-nos a transmissão de uma primeira revelação, a tradição oral, que explica como a energia espiritual transita através do cosmo.

A Cabalá (da palavra hebraica Kabalah, que significa "recebendo"ou "aquilo que foi recebido") é a parte mística do judaísmo. Ela é também chamada de Chochmat há-Emet, a sabedoria da verdade. O ponto de partida e a meta da Cabalá são o conhecimento de D'us, "o Princípio e o Fim de todas as coisas".

Segundo a tradição judaica, nossos patriarcas, através de sua intuição espiritual e suas visões proféticas, passaram a conhecer e seguir a Lei de D'us, e a transmitiram oralmente. Só mais tarde D'us incumbiu Moisés de colocar parte desta tradição por escrito - a Torá escrita; a outra parte continuou sendo transmitida oralmente. Moisés escolheu alguns israelitas, chamados nistarim, a quem ensinou o nível de interpretação mais secreto da Torá, chamado de sod (que significa secreto). Neste nível, a realidade tangível é reduzida a simbolismos, numerologia e forças espirituais. Estes ensinamentos eram recebidos de geração em geração (kibel), por isto o nome de Cabalá. O processo do recebimento da Torá, no Sinai, serve como único e exclusivo critério para qualquer tipo de ensinamento judaico subseqüente. O autêntico misticismo judaico é parte integrante da Torá. Assim como o corpo não pode fun-cionar sem a alma, esta é ineficaz sem o corpo. A alma da Torá (nistar, a parte esotérica) jamais pode ser separada do corpo da Torá (Niglê, a parte revelada, a Halachá). Reduzida a um simbolismo espiritual ou filosófico, ou a um misticismo emotivo, despida do cumprimento das mitzvot, a Cabalá se torna uma concha vazia.

Definição

Também chamada de Shalchelet ha-Cabalá "corrente da tradição", a Cabalá é parte de uma revelação original, transmitida oralmente de geração em geração. Uma "corrente" cuja principal característica é sua relação vertical com D'us. Na extremidade superior desta corrente espiritual está D'us, na inferior, neste mundo de ação, o homem. Esta "corrente de tradição" permite estabelecerem-se contatos entre o mundo do homem e D'us.

O homem que dedica a vida ao estudo da Cabalá, chamado de mekubal, "aquele que foi recebido", aspira ligar-se à D'us, desejando conhecer Sua Essência. Conhecer no sentido de se aproximar Dele, pois o homem tem plena consciência da distância que existe entre ele - ou qualquer outro homem - e o Ser Absoluto. Sabe também que é negada ao homem a posse completa da verdade; a onisciência é inatingível.

A Cabalá levanta perguntas sobre a criação do Universo; as leis que governam os mundos; as relações que existem entre D'us, o mundo e o homem; as emanações Divinas, as sefirot; o ser humano, sua alma, a razão pela qual está neste mundo, o impacto que suas ações têm e assim por diante.

O estudo da Cabalá

Durante séculos os segredos místicos dos profetas eram conhecidos somente em círculos restritos. Havia vários pré-requisitos para seu estudo: os ensinamentos só podiam ser repassados individualmente para homens de impecável moral, que seguissem a Lei e que dessem provas de responsabilidade. De preferência, com mais de 40 anos, casados, que conhecessem a fundo o Talmud, a Torá, e a Halachá.

Para penetrar-se realmente na profundidade de seus ensina-mentos é necessário, além de uma vida inteira dedicada ao estudo e às orações, seguir todos os preceitos da Lei Judaica e ter dons intelectuais e espirituais para tanto. Seus textos, além de serem escritos em hebraico antigo ou aramaico, estão codificados o que torna praticamente impossível para os não iniciados entender seu significado. O cuidado era mais no sentido de proteção do que de proibição; nossos sábios temiam que os ensinamentos místicos pudessem ser mal interpretados ou usados de forma inadequada. O perigo da busca mística é colocado por um famoso relato do Talmud sobre quatro rabinos que se aventuraram no pardês, o pomar divino ou paraíso, em uma clara alusão aos quatro níveis de entendimento da Torá.

Quatro rabinos entraram no pardês: Ben Azai, Ben Zomá, Acher e Rabi Akiva. Ben Azai olhou de relance e morreu; Ben Zomá olhou de relance e ficou louco. Acher tornou-se herege. Rabi Akiva entrou e saiu em paz.

Esta história demonstra o perigo de adentrar-se nos assuntos místicos sem ter-se o preparo adequado. (Para maiores detalhes, ver "Pergunte ao Rabino", Morashá nº 21, páginas 36, 37 e 38).

Os temores de nossos sábios sobre a divulgação dos ensinamentos cabalísticos muitas vezes se confirmaram no decorrer da história. Foram usados por falsos messias, distorcidos por místicos não-judeus e por adeptos da ciência do ocultismo. Extremamente populares entre pensadores cristãos no renascimento e Iluminismo, os preceitos da Cabalá foram reinterpretados para se encaixarem aos dogmas do cristianismo. Símbolos cabalísticos foram e são usados fora de contexto em cartas de tarô ou em outras formas de magias, ou adivinhações proibidas pela Torá. Apesar da "Cabalá prática" existir, esta é uma área da Cabalá conhecida por pouquíssimos sábios que não recomendam o seu uso.

Porém, os ensinamentos da Cabalá, se aprendidos e usados adequadamente, oferecem ao homem uma fonte inesgotável de sabedoria, ajudando-o a lidar com as realidades da vida. Por isto, grandes rabinos e cabalistas como Rabi Isaac Luria, o Baal Shem Tov, o Gaon de Vilna e, mais recentemente, o Rebe de Lubavitch, encorajaram e ajudaram a difundir o pensamento cabalístico através de ensinamentos acessíveis a todos. Eles acreditavam que sem entrar nas profundezas esotéricas de seus ensinamentos, a sabedoria que a Cabalá incorpora tem o poder de enriquecer de inúmeras formas a vida de todos os judeus e pode ajudar-nos a encontrar a razão de nossas vidas.

Origens

Na tradição judaica, a Cabalá não foi um fenômeno, como certos estudiosos alegam, surgido na Idade Média, cerca do século XIII. Sua origem pode ser traçada até Abraão, a quem se atribui a autoria do primeiro texto místico: o Sefer Yetsirá (o livro da Criação). Nele, consta que D´us criou o mundo por meio das 22 letras do alfabeto hebraico e das sefirot, emanações divinas.

Segundo a tradição judaica, Abrãao havia aprendido os segredos místicos na academia de Shem e Eiver, fundada por Shem, filho de Noé. Isaac e Jacob também lá estudaram, este último durante 14 anos. Judá, um dos filhos de Jacob, fundou-a no Egito e esta continuou a funcionar secretamente durante os 400 anos seguintes. Sabemos, portanto, que tanto Noé quanto Adão conheciam os segredos místicos.

Adão não era um homem como nós; era essencialmente espiritual, com uma ligação direta com o Divino. Intuitivamente, ele conhecia as 22 forças criativas que moldaram o universo. "Sabia" os diferentes caminhos que elas percorreram para entrar neste mundo, o mundo do "aqui e agora". Adão conseguiu "materializar" os 22 caminhos místicos que "via" em 22 formas distintas, cada uma das quais tornou-se uma letra do alfabeto hebraico.

Adão compreendia também as energias associadas a cada uma destas letras. Replicando estas energias individuais através da respiração, criou o som das letras. Cada letra do alfabeto hebraico é, portanto, o portal para uma outra realidade. Por isto a Cabalá dá grande ênfase à análise das palavras, seus valores numéricos, substituição de letras e suas formas.

Adão era um ser andrógino com características masculinas e femininas. Só mais tarde D'us separou-o em dois. A maioria dos aspectos masculinos ficaram em Adão e os femininos em Eva. Esta dualidade masculino-feminino permeia toda a Criação, tanto nas energias espirituais que definem a mente e as emoções, nas sefirot, como nas letras do alfabeto hebraico.

Abraão, o Ivri, nosso patriarca, a quem é atri-buída uma compreensão cósmica, conhecia profundamente o que mais tarde se tornou a Cabalá. Era astrólogo, usava tanto seus poderes místicos como sua sabedoria prática. Homem poderoso, era conhecido no meio onde vivia por ser um sábio místico que tinha estranhas noções sobre a existência de uma Única divindade. Seus contemporâneos diziam que recebia instruções de um D'us misterioso e anjos sussurravam em seu ouvido.

Abraão adquirira uma consciência intuitiva da existência de um Criador. Mas a Revelação Divina só seguiu-se após sua busca persistente por D'us e por um conhecimento sobre Ele. A partir desse momento D'us lhe revelou seu caráter único e Abraão passou a cumprir as instruções de D'us.

Todos os filhos de Abraão receberam uma herança espiritual. Ao afastar de Isaac seus outros filhos, Abraão lhes dá uma bagagem espiritual.

Entre os filhos de Abraão, há os que se estabeleceram na Índia (Hodu) e passaram a compartilhar seus conhecimentos com o povo da terra. Não é de estranhar, portanto, os paralelos que existem entre o misticismo judaico, o hinduísmo e o budismo. No quadro abaixo, alguns exemplos extraídos do livro "Practical Kabbalah", do Rabino Laibl Wolf:

A Cabalá e a nossa vida

Para sobrevivermos neste mundo como verdadeiros seres humanos devemos recolocar em questão nossa percepção sobre o sentido de nossas vidas.

A Cabalá nos ensina que, antes de virmos ao mundo, cada um de nós, cada alma, sabe de todos os segredos místicos. No ato do nascimento, um anjo "realoca" este conhecimento, este "conteúdo" de uma outra realidade espiritual, para o subconsciente. Ao nascermos, "esquecemos" de onde provém nossa alma.

O objetivo da Cabalá é trazer à tona esta sabedoria intuitiva e permitir que nossa unicidade possa iluminar a vida daqueles que estão à nossa volta. Cada um de nós tem uma missão na vida, algo que só ele pode fazer; cada acontecimento, no decorrer de nossas vidas, é uma lição a ser aprendida.

A Cabalá nos ensina a integrar o material e o espiritual, ensina-nos que somente estando completamente envolvidos neste mundo, cientes de nossas responsabilidades, podemos encontrar nosso verdadeiro "eu". Ensina-nos também que ao compartilharmos o que temos com os outros, criamos "espaço" dentro de nós para recebermos ainda mais.