Morashá
O dia mais feliz do ano Foto Ilustrativa

O dia mais feliz do ano

Ensina a Mishná que o dia 15 de Av foi dedicado a firmar shiduchim - uniões matrimoniais. na época do Grande Templo, era nessa data que as filhas de Jerusalém iam dançar nos vinhedos e os moços solteiros lá iam para encontrar uma noiva.

Edição 61 - Julho de 2008


O Talmud, no tratado Taanit, afirma que Yom Kipur e o dia 15 do mês de Av - Tu B'Av - são as datas mais alegres do calendário judaico. A misericórdia e o perdão divinos obtidos no Dia do Perdão e o pacto que é renovado com D'us no dia mais sagrado do ano são, sem dúvida, motivos de grande celebração.

Já as razões para que o dia 15 de Av seja causa de tanto festejo não são tão óbvias nem conhecidas. O que ocorreu de tão importante em Tu B'Av para que a data, como Yom Kipur, seja considerada a mais feliz do calendário judaico? Nossos Sábios apontam seis acontecimentos positivos que ocorreram ao longo de nossa história no dia de 15 de Av.

O primeiro ocorreu ainda no deserto do Sinai, antes da entrada do Povo Judeu na Terra de Israel. A porção da Torá de Shelach conta sobre o pecado dos espiões: os líderes das tribos de Israel desrespeitaram a Palavra de D'us ao questionar se o Povo Judeu conseguiria conquistar a Terra Prometida. A falta de fé dos líderes e, conseqüentemente, do povo a quem eles influenciaram, resultou numa punição divina já que expressaram o desejo de não entrar na Terra de Israel, seu pedido seria atendido - ficariam vagando pelo deserto durante 40 anos e todos os homens, entre 20 a 60 anos, lá morreriam. O pecado dos espiões ocorreu no dia 9 de Av - Tisha B'Av. Portanto, nessa data, ano após ano, os homens morriam.

Em Tisha B'Av, todos os judeus cavavam sepulturas onde dormiam. No dia seguinte, 15 mil dentre os 600 mil homens morriam; os demais se levantavam da cova. Isto acontecia todos os anos. No Tisha B'Av do ano judaico de 2488, ano que antecedeu a entrada na Terra de Israel, os 15 mil judeus que ainda não haviam morrido cavaram suas sepulturas, certos de que naquela noite morreriam. Porém, na manhã seguinte, nenhum morrera.

Os judeus concluíram que se haviam enganado em relação à data e que não morreram porque Tisha B'Av ainda não chegara. Pelas próximas cinco noites, continuaram a dormir nas sepulturas. Mas, quando perceberam que a Lua estava cheia - indicando estarem no meio do mês, ou seja, que era dia 15 de Av - perceberam que Tisha B'Av já havia transcorrido e que eles haviam sobrevivido. Aquele foi o sinal de que D'us perdoara o pecado dos sobreviventes. O terrível decreto estava encerrado!

Dois outros motivos pelos quais Tu B'Av é um dia tão feliz datam da era dos Juízes. Devido a uma atrocidade cometida por membros da tribo de Benjamin, eclodiu uma terrível guerra civil entre seus membros e o restante do Povo Judeu. A tribo de Benjamin foi segregada e o Povo Judeu emitiu um decreto que proibia casamentos com seus integrantes. Isto levaria à eventual destruição de toda a tribo.

Além do decreto contra a tribo de Benjamin, havia ainda outro que era motivo de separação entre as tribos de Israel: as mulheres que herdavam propriedades de seus pais eram proibidas de casar com homens de outras tribos. O decreto visava impedir que os territórios de uma tribo fossem transferidos a outra. Foi em Tu B'Av que os Sábios aboliram este decreto, após terem recebido Mensagens Divinas neste sentido. Na mesma data foi rescindida, também, a proibição de casamentos com membros de Benjamin, garantindo assim a sobrevivência da tribo. A Mishná, núcleo da Torá Oral, ensina que a data de 15 de Av foi dedicada a firmar shiduchim - uniões matrimoniais - e a reconstruir relacionamentos quebrados.

O quarto motivo pelo qual Tu B'Av é um dia tão feliz: depois da morte do Rei Salomão, a nação judaica foi dividida em dois reinos, Yehudá e Israel. Yarovam ben Nevat passou a governar o Reino de Israel, que era constituído por 10 tribos. As outras duas tribos ficaram sob o domínio de Yehudá. Três anos após ascender ao trono do Reino de Israel, Yarovam ergueu dois bezerros de ouro, no Norte e no Sul, e proibiu o povo de visitar o Beit HaMicdash. Apesar da proibição, houve judeus que despeitaram o decreto do rei e foram até o Grande Templo de Jerusalém. Yarovam ben Nebat ergue, então, barreiras e obstáculos por todo o caminho para impedir que esses judeus chegassem até o Templo. Foi no dia 15 de Av, sob o domínio do rei Hoshea ben Ela, que os obstáculos foram eliminados e todo o povo teve permissão de visitar o Templo Sagrado.

Outro motivo de celebração em Tu B'Av é que foi o "dia da quebra dos machados" - Yom Tabar Maagal. Na época do Segundo Templo a madeira era escassa, pois a Terra de Israel ficara abandonada durante os 70 anos em que o Povo Judeu esteve exilado na Babilônia. Por conseguinte, a madeira era preciosa e cara. Para garantir que sempre houvesse lenha suficiente no Altar para os sacrifícios, eram feitas doações de madeira. Esta precisava estar completamente seca para não ser infestada por insetos. O dia 15 de Av era a data em que "os machados poderiam ser quebrados" - ou seja, a data limite para a aceitação das doações de madeira, pois após a data de Tu B'Av, o clima em Israel esfriava e a lenha ficava úmida. Esse era um dia de alegria, pois tinha-se a certeza de haver madeira suficiente para as oferendas durante o ano seguinte.

O sexto motivo para o dia 15 de Av ser o mais feliz do ano tem um fundo triste, assim como no caso do primeiro motivo relatado acima, referente ao episódio dos espiões. Cinqüenta e dois anos após a destruição do Segundo Templo, o imperador romano promoveu uma campanha de genocídio na cidade de Betar, centro de resistência judaica contra os ocupadores romanos. Após um cerco que durou 3 anos, Betar foi tomada pelos romanos e 580 mil judeus foram massacrados.

Para desonrar e desmoralizar o povo, as autoridades romanas não permitiram o sepultamento dos mortos. Os cadáveres foram empilhados e jogados ao redor dos vinhedos do imperador Adriano. Porém, ocorre um milagre: os corpos permaneceram desenterrados durante 11 anos sem se desintegrar.

Após a morte do imperador, foi concedida permissão para que os mártires de Betar fossem enterrados. No dia 15 de Av, todos os judeus se reuniram para enterrar seus irmãos - os corajosos combatentes de Betar - e lhe prestar as últimas homenagens. A fim de registrar o milagre de Betar, os Sábios acrescentaram uma quarta bênção ao Bircat Hamazon (a bênção após as refeições que incluem pão). Esta quarta Berachá é denominada HaTov VeHametiv - "O Bom que faz o bem".

O maior dos motivos

Além dos seis motivos relatados acima, o Talmud traz o principal motivo pelo qual Tu B'Av é o dia mais feliz do ano. Na época do Tempo Sagrado, nessa data, as "filhas de Jerusalém iam dançar nos vinhedos e os moços solteiros lá iam para encontrar uma noiva". Nossos Sábios acrescentam informações sobre a cerimônia. São esses detalhes que revelam sua verdadeira beleza.

Sabemos que existem vários tipos de dança. Mas a dança das moças de Israel em Tu B'Av era formando um círculo - machol, em hebraico. O tratado do Talmud de Taanit termina com uma metáfora ao revelar que, no futuro, na Era Messiânica, D'us dançará com todo o Povo Judeu. Esta dança com o Divino também será em forma de círculo.

Mas o que nos quer ensinar o Talmud com isto, sendo que D'us é infinito? A metáfora da dança do círculo é utilizada para ilustrar como será o relacionamento de D'us com nosso povo. Num círculo, não há começo nem fim. Quando se dança em círculo, não há primeiro, nem último. Em outras palavras, há total união. Não há uns que estão acima e outros que estão abaixo; portanto, não há motivos para ciúmes ou divisões. Mais ainda, uma das leis da geometria diz que qualquer ponto no círculo é eqüidistante do centro. Isto quer dizer que todos os judeus estão em igual proximidade a D'us. Não há diferenças, há apenas união e harmonia entre todos.

Ao comentar sobre a dança das moças de Israel em Tu B'Av, nossos Sábios revelam que elas tinham que usar roupa branca. Em outra ocasião, o Talmud afirma que a verdadeira beleza ocorre quando há uma variedade de cores. Mas, nesse caso, era exigida a cor branca. O motivo é que branco é uma cor neutra e simples, que lembra a paz e a pureza. Seria de esperar que quando as moças se reúnem para serem escolhidas pelos potenciais noivos, elas ressaltassem sua beleza física trajando roupas com cores atraentes. Mas em 15 de Av, era proscrita qualquer cor além do branco. Isto ressaltava mais uma vez a união e a pureza, eliminando ciúmes e rivalidades.

Havia um último requisito em relação às roupas das moças: tinham que ser tomadas emprestadas. Nem mesmo as princesas ou as moças de famílias de recursos podiam usar suas próprias roupas - precisavam usar roupas de outrem. Esta exigência visava evitar que houvesse diferença de qualidade entre as roupas. Desta forma, as jovens de famílias humildes estariam tão bem vestidas quanto as de famílias abastadas.

Por todos esses motivos, o dia de 15 de Av - Tu B'Av - é considerado, junto com Yom Kipur, o dia mais feliz do ano. Yom Kipur é o dia em que nosso povo é comparado com os anjos, que não comem nem bebem, e passam o tempo todo louvando o Criador e seguindo Suas ordens. Tu B'Av ensina que a maior das alegrias é atingida não apenas no dia mais sagrado e solene do ano, quando há perdão pelos pecados e uma maior aproximação com D'us, mas também quando há união, igualdade e respeito entre todos os membros do Povo de Israel.