Morashá
ALMAS GÊMEAS: UMA VIDA A DOIS Foto Ilustrativa

ALMAS GÊMEAS: UMA VIDA A DOIS

Alguém já teve a oportunidade de ouvir uma conversa entre jovens a respeito de casamento e da formação de um lar? Não? Claro que não, pois atualmente poucos se atrevem a falar sobre tais assuntos.

Edição 34 - Setembro de 2001


Fala-se muito em namorar e em se apaixonar. Pode-se até discutir e abordar o assunto de amor e sexo, mas passa pela cabeça de poucos se casar e formar uma família. Será que o conceito de vida a dois está desatualizado?

Infelizmente, muitos jovens não querem ou não sabem conviver, eles apenas tentam passar um tempo juntos. Há falta de informação sobre o assunto e as conseqüências não são encorajadoras.

De fato, hoje em dia poucas pessoas compreendem plenamente o motivo pelo qual alguém se casa. Muitos dizem que a verdadeira razão é o amor. Porém, isto não explica o motivo pelo qual se deve formalizar este amor através de uma instituição, que chamamos de aliança, casamento, matrimônio ou núpcias. O raciocínio é simples: se duas pessoas se amam de verdade este sentimento deveria ser suficiente para uni-las pelo resto da vida sem serem necessários um pedaço de papel, palavras ou testemunhas para consolidar a sua paixão. Se é preciso tudo isto é por que o amor não é bastante sólido, quem sabe talvez nem seja verdadeiro.

No entanto, ao analisarmos profundamente o homem e a maneira pela qual D’us o criou, descobriremos um mundo totalmente diferente. Quando a Torá fala sobre a criação do ser humano, muitos costumam interpretar os textos como se Adão tivesse sido criado homem e buscasse uma mulher. D’us, atendendo ao pedido de Adão, fez com que dormisse e retirou-lhe uma costela para criar a mulher a quem chamou de Eva. De acordo com esta interpretação Eva parece ser fruto da reclamação de Adão. Isto, sem dúvida, coloca a existência da mulher em segundo plano e lança uma luz negativa sobre as qualidades femininas.

Porém, de acordo com a tradição judaica, a interpretação é totalmente diferente. Adão não foi o primeiro homem, mas sim o primeiro ser humano, criado como um ser andrógino que possuía dentro de si mesmo tanto aspectos masculinos como femininos. Na realidade, ao criar a mulher, D’us separou o lado feminino de Adão, que se tornou Eva, do lado masculino que continuou sendo Adão. A partir desse momento, cada um dos dois lados passou a precisar da existência da outra metade para voltar a se sentir um todo completo.

No casamento, diz-se que são duas metades que estão se juntando, pois, na sua origem, faziam parte de um só ser. Visto por este prisma o casamento traz a reunificação de um ser completo que foi dividido. E somente D’us, que nos separou no início da Criação, tem o poder de nos reunir sob a chupá. Pois afinal de contas, trata não apenas de uma união de corpos, mas da união de duas metades que fazem parte da mesma alma.

Atualmente, as pessoas não procuram tanto o casamento porque não sentem a necessidade de um complemento. O mundo moderno tenta convencer-nos de que podemos ser completos, auto-suficientes; que basta ter uma boa educação, um emprego e um bom salário. Assim não sentimos a necessidade de buscar um parceiro que irá compartilhar nossa vida e preencher aquele vazio de cuja existência sempre estamos cientes.

Na realidade, o problema é ainda mais amplo. Todo homem teme a solidão. No início do livro Bereshit, a Torá fala sobre a solidão de Adão. Todos os seres vivos tinham uma companheira, mas Adão não. Então D’us, em Sua Imensa Bondade, criou para Adão uma parceira a quem chamou de Eva. Mas surge a pergunta: por que Adão se sentia sozinho? Afinal, o Midrash conta que no Gan Eden Adão tinha todos os anjos a sua disposição para conversar e conviver.

Segundo nossos sábios, a solidão de Adão era consequência do fato de os anjos serem perfeitos e não precisarem dele. Sendo seres completos, os anjos não precisavam receber nenhuma contribuição substancial. Não pediam conselhos a Adão porque não tinham problemas para ser resolvidos. Também não precisavam de conselhos nem de consolo, pois a sua vida não era confusa ou agitada. Em suma, Adão precisava dos anjos, mas eles não precisavam dele. É por isso que Adão se sentia sozinho, por não ter nada para dar a eles.


Com a criação de Eva, Adão passou a ter alguém que fazia parte de sua vida e alguém tão imperfeito como ele. Podia dar e receber amor e afeição. Adão tinha alguém que fazia com que ele sentisse que sua existência fazia diferença. Existia outro ser que precisava ser protegido, abraçado, amado, elogiado e admirado por ele. Um ser cujo coração era feito de carne e não de perfeição. Ao se sentir importante, necessário e útil Adão esqueceu as dores da solidão.

De fato, o casamento é a solução oferecida pelo Criador para pôr fim à solidão; para termos alguém a nosso lado com quem comemorar as vitórias, dividir os problemas da vida; alguém a quem possamos dar carinho e atenção e de quem receber amor. Finalmente, é a melhor maneira de nos sentirmos completos e a forma mais nobre de expressar nossos sentimentos e compartilhar nossa vida.

Rabino Avraham Cohen