Morashá
Uma versão moderna da Operação Tapete Mágico Foto Ilustrativa

Uma versão moderna da Operação Tapete Mágico

Uma das mais antigas comunidades judaicas da Diáspora parece viver seus últimos dias. No ano passado, em uma operação secreta, dezenas de judeus deixaram o Iêmen para se instalar em Israel ou nos Estados Unidos e fugir da crescente ameaça da intolerância religiosa que assola a remota nação árabe.

Edição 67 - Março de 2010


A instabilidade iemenita preocupa cada vez mais os governos norte-americano e israelense, pois o país sofre a infiltração da rede terrorista Al-Qaeda, empenhada em lá montar uma base para suas ações globais, e enfrenta uma rebelião xiita arquitetada também para impor um regime fundamentalista no país.

Em outubro passado, a jornalista Miriam Jordan, do "The Wall Street Journal", publicou reportagem sobre o resgate, organizado ao longo de poucos meses, de cerca de 60 judeus iemenitas e sua mudança para os Estados Unidos. À época do início da operação, estimava-se a comunidade em 350 pessoas, num país com 23,5 milhões de habitantes.

Depois do relato jornalístico, ativistas envolvidos na iniciativa passaram a vir a público para divulgar mais detalhes da migração que o professor Haim Tawil, da Yeshiva University, de Nova York, definiu como o "fim da Diáspora judaica no Iêmen". No entanto, cerca de 200 judeus ainda permanecem no país, segundo o site israelense "Ynetnews.com".

Em dezembro de 2007, Gregg Rickman, então enviado especial do governo norte-americano para monitorar e combater o anti-semitismo, desembarcou em Sanaa, capital do Iêmen, para investigar a situação de uma comunidade que chegou a contabilizar cerca de 50 mil integrantes em 1948, ano da independência de Israel. Entre 1949 e 1950, a Operação Tapete Mágico levou praticamente toda a população judaica iemenita a solo israelense, numa onda migratória que prosseguiu, em menor escala, até 1962, quando uma guerra civil mergulhou o Iêmen em mais um capítulo de instabilidade.

Gregg Rickman encontrou uma comunidade que, até 1976, alguns acreditavam estar extinta como conseqüência da emigração. Naquele ano, um diplomata norte-americano, segundo o pesquisador Mitchell Bard, encontrou judeus vivendo no norte do Iêmen, proibidos até então de manter contatos com outros países. Embora pudesse manter suas tradições religiosas, a população judaica estava submetida a diversas restrições, como a proibição de prestar serviço militar ou de ter participação política.

Nos últimos tempos, os judeus do Iêmen viviam em duas regiões do país, Saada e Raida. A primeira tornou-se, a partir de 2004, palco de uma rebelião de minoria xiita. Em janeiro de 2007, líderes rebeldes ameaçaram a comunidade local, composta por cerca de 60 pessoas, que fugiram para Sanaa, onde receberam proteção do governo central, que lhes ofereceu moradia, alimentação e ajuda financeira.

Alguns ainda permaneceram em Raida, mas quando Gregg Rickman manifestou seu desejo de visitá-los, foi prontamente desencorajado por autoridades do Iêmen. Estas sustentaram que não podiam garantir a segurança do enviado da Casa Branca.

Gregg Rickman se reuniu então, na capital, com os judeus que fugiram de Saada e das ameaças dos rebeldes. "O que eu ouvi foram relatos de assédio extremo: conversões forçadas de meninos e de meninas, casamentos forçados, intimidação étnica e um tratamento cruel e desigual. Aquelas pessoas estavam assustadas", escreveu Rickman no site "The Cutting Edge News".

O presidente iemenita, Ali Abdullah Saleh, bancou o refúgio aos judeus na capital do país e chegou, por exemplo, a convidar repórteres de televisão para filmar a comemoração de Pessach realizada por refugiados em um prédio governamental, segundo relatou o "The Wall Street Journal". Desde o fim da Guerra do Golfo, em 1990, quando apoiou o Iraque de Saddam Hussein, o Iêmen passou a apostar numa aproximação com os Estados Unidos e outros países ocidentais. Em 1991, após receberem permissão governamental, cerca de 1,2 mil judeus deixaram o país árabe, em sua maioria rumo a Israel.

Grupos terroristas colocaram o Iêmen como alvo prioritário, a fim de minar sua aliança com Washington e também na tentativa de se aproveitar da precária segurança que o governo consegue impor num país onde sobrevivem fortes lideranças tribais. A Al Qaeda, após sucessivas derrotas de seus terroristas na Arábia Saudita, aproveitou-se da fragilidade das estruturas iemenitas para buscar outra base de atuação na península arábica.

Em setembro de 2008, um carro-bomba explodiu em frente à embaixada norte-americana em Sanaa. Morreram 16 pessoas. Washington começou a aumentar a pressão sobre o governo do Iêmen. O presidente Barack Obama, em carta enviado a seu colega Ali Abdullah Saleh, em setembro passado, descreveu a estabilidade iemenita como vital para a região e para os Estados Unidos.

No dia 11 de dezembro de 2008, outra tragédia para evidenciar a urgência de uma versão mais moderna e em menor escala da Operação Tapete Mágico, que há cerca de 60 anos levou dezenas de milhares de pessoas a Israel. O professor de hebraico Moshe Nahari, pai de nove filhos e morador na cidade de Raida, foi assassinado com vários tiros por Abdul-Aziz al-Abdi, que havia servido como piloto na força aérea iemenita. Nahari, irmão de um dos rabinos-chefe da comunidade local, morreu porque recusou a conversão forçada ao islamismo.

No ano passado, a embaixada norte-americana intensificou os pedidos para as autoridades iemenitas facilitarem a saída dos judeus inclinados a emigrar. A primeira reação oficial foi priorizar a tentativa de convencer aqueles que queriam um porto seguro a permanecer sob proteção governamental em Sanaa. Mas a resistência inicial deu lugar à cooperação para facilitar a viagem. Em dezembro passado, o Iêmen voltou a ocupar lugar de destaque no noticiário internacional, com a tentativa fracassada de um terrorista nigeriano de explodir um avião que viajava de Amsterdã a Detroit. Umar Farouk Abdulmutallab declarou que passou por treinamento numa célula da Al Qaeda no Iêmen e que o ataque foi ordenado por clérigo americano-iemenita.

No plano da questão judaica, esforços prosseguem na tentativa de promover a emigração. A situação no Iêmen é como uma bomba-relógio, comparou, no site "Ynetnews.com", Moshe Nachum, presidente da Federação Israelense de Judeus Iemenitas. Especialistas apontam aspectos econômicos, como medo da perda de alguma propriedade, e razões familiares como obstáculos para a opção por uma vida em Israel, nos Estados Unidos ou em outro país.

Nas mudanças, os judeus iemenitas carregam sua rica herança histórica, cultural e religiosa. Acredita-se, por exemplo, que sua pronúncia em hebraico se assemelha à da época do Primeiro Templo, cerca de 2.500 anos atrás. Eles teriam chegado à região sul da península arábica naquele período, como mercadores. E, atualmente, essa longa história da presença judaica no Iêmen parece estar chegando a seu final.

O Jornalista Jaime Spitzcovsky é editor do site www.primapagina.com.br. Foi editor internacional e correspondente em Moscou e em Pequim.