Morashá
A RÚSSIA DE PUTIN Foto Ilustrativa

A RÚSSIA DE PUTIN

O urso perdeu os dentes, enfraqueceu-se, mas não está morto. A Rússia deste início de século desponta como uma pálida lembrança da finada União Soviética. Nos tempos da Guerra Fria ajudava a decidir os rumos do planeta, e, no universo do conflito israelo-palestino, derrubava e montava regimes aliados no mundo árabe, além de ter peso decisivo nos contornos bélicos da região.

Edição 33 - Junho de 2001



E essa estratégia leva o Kremlin também a olhar com atenção para o Oriente Médio, onde a diplomacia russa busca estreitar relações com Israel e Egito, além de aprofundar laços com um imprevisível personagem da região: o Irã.

Para Israel, cultivar relações com Moscou não se trata de uma opção, mas de uma operação inevitável. “Há um nó górdio interligando os dois países”, afirma Amnon Sela, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Na população israelense há mais de 1 milhão de imigrantes que chegaram da ex-União Soviética, e eles mantêm vínculos familiares, culturais e econômicos com as terras de onde vieram”.

Mas não é apenas a “âncora populacional” que aproxima os dois países. Há interesses comuns, como a ameaça do terrorismo e do fundamentalismo islâmico. A Rússia enfrenta o separatismo da Tchetchênia, uma região de maioria muçulmana e palco de duas sangrentas guerras nos últimos sete anos. E Moscou, livre das rédeas ideológicas da desaparecida Guerra Fria, enxerga em Israel um parceiro comercial e uma fonte valiosa de alta tecnologia que possa ser usada para reativar a obsoleta indústria russa, até hoje sofrendo as conse-qüências da crise econômica dos tempos soviéticos. Outra área de potencial cooperação é a militar, com know-how israelense injetado em armamento russo.

Israel também busca estreitar seus laços com a Rússia. As visitas das autoridades israelenses tornam-se cada vez mais freqüentes, e, no final de maio, o chanceler Shimon Peres desembarcou em Moscou, onde se reuniu com Vladimir Putin. Ao final da turnê moscovita, Peres revelou sua estratégia: pedir aos anfitriões que transmitissem mensagens a lideranças árabes, usando as amizades e as conexões construídas durante a Guerra Fria.

“Israel deve evitar qualquer tendência que signifique considerar a Rússia um país de Terceiro Mundo”, afirma um estudo do Centro Jaffa de Estudos Estratégicos, da Universidade de Tel Aviv, divulgado em maio. “Nesse contexto, Israel também deve reconhecer os esforços feitos pelo presidente Putin para restaurar a posição da Rússia como um líder global”.

A estratégia russa, reflexo também do esfriamento das relações da Rússia com os EUA de George W. Bush, esbarra nos limites de uma potência nuclear castigada por agudas crises sociais e econômicas, que eliminaram sua capacidade de oferecer ajuda financeira a antigos aliados e que levaram até mesmo seu peso militar a ser ceifado. Nas negociações no conflito israelo-palestino, Moscou passou de um personagem relevante, como foi na conferência de Madri, em 1991, para se tornar um coadjuvante às vezes ignorado. Na reunião de Sharm el Sheik, realizada em outubro do ano passado na tentativa de deter a atual onda de violência, a Rússia foi sequer convidada.

Desde então, aumentaram sinais emitidos por israelenses e árabes em busca de estimular maior envolvimento do antigo império. Israel, como evidenciou Shimon Peres, busca canais de comunicação que possam ser usados até mesmo nos momentos mais escuros dos embates no Oriente Médio. O Egito quer estreitar laços com Moscou principalmente para sinalizar insatisfação com a política norte-americana, marcada no início da administração Bush por tentativas de diminuir a intervenção norte-americana nos meandros do conflito israelo-palestino. O presidente Hosni Mubarak viajou a Moscou, se reuniu com Putin e falou até mesmo em compras de armas russas, numa ilustração importante dos novos anseios egípcios.

Sinais como o vindo do Cairo estimulam a Rússia, embora ciente de suas limitações, a tentar aproveitar o quadro atual do Oriente Médio para recuperar influência e manter uma diplomacia equilibrada entre as peças que compõem o quebra-cabeças da região. Busca, por exemplo, manter as vendas de armas para países árabes e muçulmanos, enquanto também aumenta cooperação com Israel no campo de defesa.

De um tradicional aliado árabe, Moscou se afasta lentamente. A Síria acumula dívidas bilionárias com o Kremlin, que era seu patrocinador nos tempos da Guerra Fria, e hoje, a Rússia inclui em seus cálculos diplomáticos a necessidade de encontrar parceiros com quem possa fazer negócios e levantar preciosos dólares.

O namoro do Kremlin dos czares com o Irã dos aiatolás é emblemático nesse xadrez da geopolítica atual. Moscou busca recursos e, apesar dos problemas com o separatismo muçulmano tchetcheno, se transforma em parceiro de Teerã na área militar, numa aproximação com direito a venda de tecnologia nuclear russa aos iranianos. Tudo em nome da produção de energia e com fins pacíficos, argumenta Vladimir Putin. Mas os EUA e Israel temem que o regime islâmico possa usar know-how obtido no exterior para impulsionar um perigoso programa de armas atômicas.

Em março, o presidente Mohammad Khatami se transformou no primeiro líder iraniano a visitar a Rússia desde a vitória da revolução islâmica comandada pelo aiatolá Khomeini, em 1979. A visita serviu para Moscou abrir novos mercados e mostrar mais uma vez aos EUA que o Kremlin trilha agora, influenciado pelo na-cionalismo de Putin, uma diplomacia mais independente e menos ligada a Washington.

No entanto, a Rússia sabe que seu afastamento de países ocidentais é limitado, entre motivos políticos e culturais, também pela necessidade em atrair investimentos estrangeiros para sua debilitada economia. Esse comprometimento russo com o Ocidente faz alguns analistas definirem a aproximação entre Moscou e Teerã como “uma moeda com duas faces”. A negativa é a venda de armas russas a um regime totalitário, embora o Kremlin afirme tratar-se apenas de armamento defensivo.

A positiva: praticamente nenhum país consegue atravessar o isolamento diplomático e exercer influência sobre o Irã. O governo russo, hoje, estaria nessa condição. “E é bom que Moscou, hoje alinhada com valores ocidentais, possa ter capacidade de influir em Teerã, até mesmo tentando impedir a nuclearização militar iraniana”, afirma o professor Sela. E não há dúvidas de que um regime iraniano com armas atômicas se transformaria numa ameaça também para a Rússia. Afinal, os dois países são históricos rivais por áreas de influência no Oriente Médio, no Cáucaso e na Ásia Central, num complicado jogo de xadrez diplomático que se estende até os dias de hoje.