Morashá
Vencendo as adversidades Foto Ilustrativa

Vencendo as adversidades

A preocupação com a água é hoje um problema e um desafio geoestratégico. sua escassez tem causado mais vítimas do que os acidentes ambientais.

Edição 77 - Agosto de 2012


Em Israel, as condições climáticas desfavoráveis e a escassez de recursos hídricos foram transformadas em incentivos para a busca de soluções. Cada vez mais, a indústria israelense ganha espaço no mercado mundial como referência no setor de tecnologia para o setor de água através de sistemas sustentáveis para irrigação, reciclagem, reuso e dessalinização.

Fazer o deserto florescer. Este foi o sonho de David Ben-Gurion para a região do Neguev. Considerado um sonhador por alguns, um visionário por outros, o projeto por ele idealizado tornou-se uma realidade na paisagem árida do sul do país.

Os desavisados que visitam Israel pela primeira vez não conseguem esconder sua surpresa e admiração quando se veem diante dos vastos campos cultivados em regiões onde, há algumas décadas, havia somente quilômetros e quilômetros de areia.A criação do Estado de Israel e suas realizações nos diversos campos do conhecimento, com destaque para a alta tecnologia, comprovam que, com determinação, é possível enfrentar e superar cenários marcados por adversidades. Se existe um lugar no mundo onde o chavão “a necessidade é a mãe da criatividade”, este lugar é Israel.

Com um território localizado em sua maior parte em solos áridos e semiáridos, clima seco, desértico e poucos recursos naturais, o país foi obrigado a usar seu capital humano para vencer os desafios. Investindo 4,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação, pesquisa e desenvolvimento – porcentual superior ao de quase todos os países desenvolvidos – Israel é considerado hoje um celeiro de inovação cujos resultados beneficiam não apenas a sua própria população, mas se espalham por diversos países ao redor do mundo. O selo “Made in Israel” faz parte do cotidiano internacional.

Tão logo terminou o conflito armado e fundou-se o Estado, uma nova guerra se iniciava. Era necessário criar condições para garantir aos seus habitantes uma vida com qualidade. Passadas mais de seis décadas, pode-se dizer que o país está vencendo esse desafio, evoluindo de uma nação com recursos naturais limitados para um player significativo no universo global da indústria de sustentabilidade, também conhecida como Cleantech Industry. Somando uma mão de obra de elevado nível educacional à sua vasta experiência na área de alta tecnologia, o país possui atualmente mais de 400 empresas totalmente voltadas ao desenvolvimento de novas tecnologias na área de água, energia e meio ambiente, transferindo para o mercado internacional produtos e sistemas já comprovadamente eficientes no próprio país.

Israel se tem destacado nos últimos anos por sua experiência no campo do tratamento de esgotos, purificação, irrigação e reuso de água para agricultura e indústria. Atualmente, 72% da água distribuída no país é reciclada, sendo líder mundial na categoria. Em seguida está a Espanha, com apenas 12%. Em Tel Aviv, toda a água utilizada é reaproveitada através de um sofisticado sistema de tratamento desenvolvido por pesquisadores e técnicos israelenses. Para ser purificado, o esgoto é bombeado para dentro da terra e novamente retirado, passando por tratamentos físicos, químicos e biológicos na maior estação de tratamento do Oriente Médio, chamada Shafdan.

O país está ganhando espaço também em um segmento relativamente novo do setor hídrico: o de dessalinização de água do mar. Com três das maiores usinas do mundo em funcionamento através da chamada tecnologia de osmose reversa, Israel tem conseguido produzir água para consumo por um dos menores preços do mercado internacional: US$ 0,53 o metro cúbico. No passado não muito distante, este preço chegava a
US$ 3. No processo de dessalinização, a água é injetada através de alta pressão dentro de tubos de plástico, dentro dos quais um feixe de membranas, como as camadas de um palmito, extraem o sal da água. O líquido que sai é tão puro que os técnicos precisam adicionar novamente alguns sais minerais para compor a água potável comum. A primeira usina israelense foi inaugurada em 2005, em Ashkelon – era então considerada a maior do mundo em seu gênero – e produz o suficiente para abastecer uma cidade de 1 milhão de habitantes.

Em 2011 e 2012 entraram em funcionamento no país mais duas plantas de dessalinização – uma em Palmahim e outra em Hadera. Esta última, inaugurada no primeiro semestre de 2012, é atualmente a maior instalação de dessalinização de osmose reversa no mundo, com produção estimada de 127 milhões de metros cúbicos de água por ano – o suficiente para atender as necessidades hídricas de um em cada seis israelenses. Criada com um investimento de quase meio bilhão de dólares financiado através de um consórcio de bancos internacionais, a fábrica foi construída por um pool de empresas israelenses. Atualmente há 33 usinas de dessalinização em funcionamento no país, responsáveis pela produção de mais de 15% da água que a população consome. A meta é chegar a 40% nos próximos cinco anos.

Para estimular o desenvolvimento do segmento de energia e água dentro do conceito de sustentabilidade, o governo israelense criou, há aproximadamente dez anos, o programa Israel New Tech, por acreditar no potencial de crescimento da indústria nacional e de sua capacidade de atender as demandas do mercado internacional.

Coordenado pelo Ministério de Indústria, Comércio e Trabalho, conta com o apoio de uma série de órgãos públicos e atua em conjunto com instituições de pesquisa e com a iniciativa privada. O objetivo é virar uma referência mundial na área, exatamente como aconteceu com o setor de high-tech de comunicação, informação e segurança do país, a partir da década de 1990.

Para incentivar o desenvolvimento de inovações, o governo israelense também destinou US$ 2,2 milhões para incubadoras de empresas do setor hídrico. Atualmente, as exportações da chamada indústria da água somam cerca de US$ 1,4 bilhão, com destaque para os produtos de alta tecnologia na área de agricultura, gerenciamento, soluções e tratamento para recursos hídricos, entre outros. O segmento tende a crescer com a crise global de água.

Além do apoio ao desenvolvimento industrial e tecnológico, o governo israelense possui uma política pública para a economia e a otimização de recursos hídricos. Campanhas para conscientizar a população sobre a escassez e incentivar a redução do consumo fazem parte da agenda nacional e são veiculadas através de programas educacionais nas escolas e nas diversas mídias em todo o país. Há, também, uma política específica para o setor agrícola, segundo a qual cada produtor possui uma cota de água natural que é determinada em função das chuvas. Quando o produtor usa até 50% da cota, ele paga um determinado preço por ela. Para os 30% seguintes, o preço do metro cúbico sobe duas vezes e para os 20% restantes, o preço é igual ao da água urbana.

Outro ponto central é a boa gestão centralizada dos recursos hídricos através da Fundação Mekorot, companhia nacional de água responsável pela distribuição em todo país através de duas redes: uma para água potável para o consumo domiciliar, empresarial e industrial; a outra para irrigação com água reciclada. A empresa conta, ainda, com equipamentos que monitoram cada milímetro cúbico de água que flui pelas tubulações do país com sistemas computadorizados capazes de diagnosticar vazamentos em tempo real, evitando assim o desperdício.

Uma história antiga

A busca por soluções para enfrentar o problema da escassez de recursos hídricos antecede a criação do Estado de Israel. Por trás de um dos maiores sucessos da indústria israelense de agricultura - irrigação por gotejamento – está Simcha Bass, que descobriu quase que por acaso o conceito de fornecimento “gota a gota” de água para as plantas. Ao observar uma árvore que, supostamente, crescia sem receber água, ele percebeu que um vazamento próximo ao local lhe fornecia gradativamente o líquido tão precioso.

A partir dessa constatação, Bass desenvolveu um equipamento para controlar o fluxo de água para os campos, aperfeiçoando-o ao longo dos anos até que, em 1959, ele criou o primeiro protótipo de um gotejador industrial, patenteando-o no início da década de 1960. Sua invenção foi responsável por uma redução significativa no volume de água usada para irrigar os campos, tornando-se um sucesso mundial e o carro-chefe de uma de suas principais indústrias, a Netafim.

Sob o lema “o aproveitamento de cada gota”, a empresa, cuja principal fábrica está instalada no Kibutz Hatzerim, na região do deserto do Neguev, é líder no mercado internacional. A companhia atua em 112 países através de suas 32 subsidiárias e 13 fábricas, em vários países, inclusive o Brasil.