Morashá
SIONISMO HIGH-TECH Foto de Eldad Rafaeli - Parque industrial de alta tecnologia em Jerusalém

SIONISMO HIGH-TECH

Será que o sionismo acabou, com a criação e consolidação do Estado de Israel ou apenas transformou-se e procura adaptar-se às mudanças dos tempos modernos? A imigração não cessa, trazendo indivíduos com perfil diferenciado dos pioneiros do passado, mas com o mesmo ideal. Talvez tenha mudado apenas a maneira de realizá-lo.

Edição 30 - Setembro de 2000


Foi-se o tempo em que a imagem que melhor simbolizava o Estado de Israel era formada por homens e mulheres com o rosto molhado de suor, mãos na terra e enxada nos ombros. Este quadro foi sendo gradativamente substituído na última década por indivíduos diante de computadores, operando sofisticados sistemas nas mais diferentes áreas, como telecomunicações, agricultura, medicina e educação, entre outras.

Os novos imigrantes que chegam a Israel trazem, além de seu idealismo, ferramentas profissionais e culturais que estão ajudando a caracterizar o que pode ser chamado de "geração pontocom". São também pioneiros, imbuídos pelo ideal de ajudar a construir um país especial, utilizando todos seus conhecimentos e, principalmente, conscientes e sintonizados com as tendências de um mundo globalizado.

Vindos de vários países, principalmente dos Estados Unidos e da ex-União Soviética, dedicam-se ao campo da alta tecnologia. Os resultados de seu trabalho vêm garantindo ao Estado de Israel o reconhecimento internacional neste setor e muitas divisas. E vêm proporcionando, também, aos responsáveis pelos produtos high-tech, um rápido enriquecimento. Esta, no entanto, não parece ser a sua principal motivação.

"Sempre tive um sonho: o sionismo econômico. Queria viver em Israel e atrair investimentos estrangeiros para o país e, assim, construir uma economia forte. Apenas não sabia exatamente como fazê-lo". Esta afirmação é de Jacob Ner-David (nascido Davidson), 31 anos, um dos fundadores do portal de comunicação Deltathree.com.Inc. Surgiu como um dos primeiros portais mundiais de comunicação capaz de transmitir chamadas telefônicas, faxes, e-mail e correio de voz através da Internet.

Dono de uma fortuna calculada em milhões de dólares, continua morando com sua família na mesma casa de um subúrbio próximo a Jerusalém desde que emigrou.

Ner-David é um dos inúmeros jovens judeus americanos que emigraram para Israel nos últimos dez anos. Formado em Direito pela Universidade de Georgetown, passou sua juventude como ativista de causas judaicas e israelenses. Em 1994, juntamente com o seu velho amigo David Wurtman, com quem compartilhava o sonho de um "sionismo econômico", fez aliá, iniciando uma série de negócios, inclusive a criação de uma empresa de minerais provenientes do Mar Morto.

A grande mudança na vida de ambos aconteceu com a criação da Deltathree, em 1995. O sucesso do empreendimento foi tão rápido que, dois anos mais tarde, 51% da empresa foram comprados pela RSL Communications Ltd., por US$ 10 milhões. Em novembro do ano passado, a RSL começou a negociar ações da Deltathree na Bolsa de Valores de Nova York.

Ner-David e Wurtman são frutos do boom de alta tecnologia registrado em Israel a partir do início da década de 1990. É neste contexto, em sua opinião, que estão podendo realizar o seu sonho de fortalecer a economia do país. "A vida dos imigrantes foi muito dura no passado e faltava praticamente tudo - desde produtos de higiene até alimentos. O desenvolvimento da indústria de high-tech criou oportunidades que não existiam até então", ressalta Ner-David.

Um dos principais fatores favoráveis ao desenvolvimento do setor de tecnologia em Israel é ser considerado uma prioridade pelo governo e, neste sentido, as chamadas start-ups; empresas embrionárias, desempenham um papel fundamental, pois é nelas que são geradas a maior parte das inovações tecnológicas. Criadas geralmente em incubadoras cuja infra-estrutura é garantida pelo orçamento governamental, recebem também incentivos e, às vezes, capital para iniciar suas atividades. Assim, permite-se aos jovens empreendedores transformar uma boa idéia em um produto de sucesso comercial.

Um dos problemas comuns a essas start-ups, no entanto, é o fato de geralmente não terem condições de atender as necessidades de um mercado globalizado. Quando atingem este estágio, acabam sendo compradas ou se fundindo com grupos internacionais, como aconteceu com a Deltathree e outras inúmeras empresas israelenses, entre as quais a Check Point, Converse, Amdocs e a Mirabilis, responsável pela criação do programa ICQ, ferramenta para a Internet, adquirida há dois anos pela gigante americana AOL. A maioria das empresas, no entanto, apesar de passarem a pertencer a grupos multinacionais, continuam a manter os departamentos de pesquisa e desenvolvimento de produtos em Israel, utilizando-se, assim, da mão-de-obra altamente qualificada do país.

Atualmente, Ner-David e Wurtman dedicam-se a uma série dessas empresas embrionárias e a outros projetos, entre os quais um na área de Internet desenvolvido em conjunto com um parente do rei da Jordânia, Abdullah II. "Não abandonamos o nosso ideal de um sionismo econômico somente porque conseguimos ganhar muito dinheiro. Queremos cada vez mais desenvolver projetos que beneficiem o país e, principalmente, que nosso sucesso estimule outras pessoas a não ter receio de apostar em uma nova idéia. Israel é um dos poucos países que permite transformar um projeto em algo concreto, um sonho em realidade", afirma Ner-David.

Apostando alto

A idéia de transformar a terra bíblica do leite e do mel em um solo fértil também para a tecnologia de ponta foi um dos caminhos escolhidos por um ativista americano como forma de garantir a continuidade do judaísmo em todo o mundo. Segundo Robert K. Lifton, ex-presidente do Congresso Judaico Americano e um dos fundadores do Fórum Político de Israel, os judeus se sentirão mais identificados com o judaísmo se tiverem orgulho dos feitos obtidos por Israel. "Depois da Guerra dos Seis Dias, os judeus da diáspora identificavam-se com o Estado Judeu e orgulhavam-se da vitória israelense. Quero que os jovens judeus de hoje tenham o mesmo orgulho com os êxitos científicos de Israel".

Para ele, atualmente o melhor campo para Israel vencer suas "guerras" e fazer novas revoluções é o da alta tecnologia, caso concentre todos os seus esforços naquilo que melhor sabe fazer: criar produtos que ajudem os homens a encontrar soluções para os problemas que os afligem. Acredita que as principais áreas de excelência em Israel sejam biotecnologia, energia e água.

Lifton abraçou de fato essa causa quando recebeu um telefonema de um amigo contando que a Universidade Bar-Ilan havia desenvolvido um aparelho - Cellscan - que detectava o câncer de mama ainda em estágios iniciais através de um simples exame de sangue. Eram meados de 1990. Percebeu o quanto as pesquisas desenvolvidas nos institutos e universidades de Israel poderiam beneficiar a humanidade e melhorar a imagem do país na diáspora e aos olhos da opinião pública mundial.

Foi informado de que o Cellscan levara mais de cinco anos para ser desenvolvido, consumindo cerca de US$ 14 milhões. Descobriu, também, que o produto havia sido licenciado pelas Indústrias Aeronáuticas de Israel (IAI) para produção em escala comercial e que, para isso, necessitava de investimentos. Após contatos com a IAI, decidiu injetar recursos no projeto e formou com a empresa israelense uma parceria que deu origem à Medis El Ltd., em 1992. Em 1993, tornou-se presidente da nova empresa e também de outra coligada, a Medis Technologies.

Desde que se familiarizou com o Cellscan, Lifton sentiu-se fascinado por suas possibilidades. Inicialmente desenvolvido para detectar o câncer de seio, vem também sendo utilizado com sucesso para identificar tumores na próstata e tuberculose. A Medis El Ltd. vem negociando suas ações na Bolsa de Nova York e obtendo recursos que lhe têm permitido financiar novas versões aperfeiçoadas de seus produtos.

Mas, segundo Lifton, dinheiro não é o suficiente para se ter sucesso. É preciso também recursos humanos. A Medis El Ltd. foi buscar tais recursos junto aos cientistas emigrados da ex-União Soviética, a partir de 1990. "Muitos trouxeram consigo profundos conhecimentos científicos em áreas essen-ciais para a high-tech e devem ser aproveitados", afirma. Assim, atualmente, a Medis El Ltd. funciona como uma espécie de incubadora para novas tecnologias desenvolvidas por cientistas da ex-URSS. "Nós lhes damos um lar intelectual e a oportunidade de desenvolver suas invenções, compartilhar seus resultados, além de receber ótimos salários. Isto nos permite trabalhar com as mentes mais brilhantes do país".

Os resultados de suas atividades aparecem através das pesquisas que vêm sendo feitas pela Medis El Ltd., como por exemplo, no campo de componentes para substituir as baterias em equipamentos eletrônicos portáteis e em laptops, sem necessidades de recarga. Outra pesquisa está sendo feita no campo da refrigeração. Como resultado, os investidores estrangeiros estão cada vez mais atentos ao que acontece em Israel no campo da alta tecnologia e Lifton empenha-se pessoalmente para divulgar as inovações.

Quando questionado por que alguém como ele, que já conquistou o sucesso profissional e financeiro em tantos setores, resolveu abraçar esta causa, respondeu: "Isto realiza vários dos meus interesses: filantropia, negócios e relacionamento internacional. É um exemplo da excelência de Israel, um país cuja ciência ajudará a fazer do mundo um lugar melhor para mim, meus filhos e netos. E o fato de que tais produtos estejam sendo desenvolvidos em Israel melhora a imagem do país no mundo. Os jovens judeus desejarão identificar-se com o povo e o Estado Judeu por se orgulharem dos avanços obtidos por seus cientistas".

E acrescenta: "Fazer negócios é estimulante, mas você não pode dizer que está ajudando o mundo. No entanto, através da Medis El Ltd. está-se cumprindo um dos preceitos do judaísmo, o tikun olam - o aperfeiçoamento do mundo. Todos os dias de manhã, quando acordo e penso no potencial que as invenções possuem para melhorar o nosso mundo, sinto-me estimulado. Quando se encontra todos esses elementos em um lugar só, a vida se enche de alegria. São projetos como estes o que tornará Israel grande, e não a posse de um quilômetro a mais de terreno. O poder verdadeiro e a riqueza residem na força da mente e nas inovações tecnológicas".

Bibliografia
"Robert K. Lifton - The Prophet of Technology", por Stewart Ain
Artigo publicado em The Jerusalem Post Magazine, "New-wave, New Olim", por Jessica Steinberg, abril, 2000.

Invenções israelenses realizadas em 1998 e 1999

• Tomate Laranja

Pesquisadores da Universidade Hebraica desenvolveram recentemente um tomate "mais saudável", de coloração intensa, contendo grande quantidade de vitaminas e sais minerais. Este tomate é interessante para a indústria alimentícia, especialmente àquelas que pesquisam os métodos eficazes para aumentar a intensidade da cor vermelha de certos produtos, por exemplo, o catchup.
Fonte: Haaretz, T.Traubman

• Proteína de duas extremidades

Os cientistas do Instituto Weizmann registraram este ano proteínas por choque térmico heat-shock, normalmente associadas com auto-imunidade (quando o corpo ataca seus próprios tecidos), para combater bactérias resistentes a medicamentos.

• Sem valor

Yuri Margolis de Mamash, no Kiryat Gat, fabricou um novo tipo de tijolo, que chamou de sua " pedra de Jerusalém", feita de poeira, entulho e cola, mais resistente e mais leve do que o antigo tijolo.

• Navegação às cegas

Amit Friedman, um estudante do Centro Vital de Tel Aviv, espera que seu projeto de monitor para computador - Braille permita que os deficientes visuais possam surfar na Internet.

• Dores-de-cabeça

As Indústrias Ashkelon Technological desenvolveram um escaner ultrassonográfico para detectar e diagnosticar enxaquecas.

• A verdade por inteiro

Truster é um detector de mentiras desenvolvido por Amir Lieberman, em 1998, que mede inaudíveis mini-tremores na voz provocados pela mentira.

• Seção de Acompanhamento

Obstetras podem agora decidir melhor quando intervir no trabalho de parto normal, com a ajuda de um monitor não invasivo produzido pela Eltam Technology Incubator.

• Nova linha de vida

Dr. Arnon Nagler, do Centro Médico da Universidade Hebraica de Hadassah, transplanta plaquetas de sangue do cordão umbilical, ao invés de medula óssea, para tratar leucemia.

• Pesca em mares profundos

Graças ao controle hidráulico dos viveiros de procriação no fundo do mar, cortesia das Indústrias e Investimentos Marinhos, os peixes tem sido cultivados a 15 milhas da costa, num meio ambiente controlado há mais de três anos.

• Dieta

Pesquisadores da Universidade Hebraica descobriram um adoçante natural sem calorias extraído e purificado da planta stevia rebaudiana.
Fonte: Jerusalem Report, 19 julho 99.
Dafna Hohman, Erik Schechter