Morashá
O sucesso dos vinhos de Israel Vinhedos nas colinas do Golã

O sucesso dos vinhos de Israel

Que Israel é líder mundial em tecnologia agrícola e está sempre um passo à frente na rota da inovação, nas mais diferentes áreas, todo mundo sabe. O que tem surpreendido, nas últimas décadas, é o destaque que o país tem conquistado no ranking mundial de vinhos, caminhando lado a lado com os grandes produtores internacionais.

Edição 92 - Julho de 2016


Por trás desse sucesso, estão o clima seco e com grandes variações de temperatura, o solo propício e o sol intenso, que caracterizam o país como ideal à vinicultura. Do norte, com altitudes de até 600 metros e alguma neve eventual, ao Deserto de Neguev, no sul, Israel tem uma paisagem muito apropriada à cultura dos vinhedos. Soma-se a este quadro determinação e criatividade da população aliada a técnicas avançadas de agricultura, do cultivo à colheita. Uma tarefa árdua, porém gratificante, pois os rótulos israelenses têm conquistado prêmios e a admiração tanto dos produtores quanto dos especialistas do setor.

A Terra de Israel produz vinho desde os tempos bíblicos. Até há pouco, Israel era conhecido como um grande fabricante de vinhos casher, excessivamente doces, que não costumavam agradar aos que apreciavam vinhos mais refinados. Esta era a situação até o início dos anos 1990, quando começaram a chegar ao mercado internacional novas safras de vinhos israelenses que, competindo lado a lado com os melhores vinhos produzidos na Europa e nos Estados Unidos, passaram a ganhar prêmios internacionais. A vinícola Golan Heights (Colinas do Golã), por exemplo, que plantou suas primeiras videiras em 1976 e lançou suas primeiras marcas em 1983, conquistou várias vezes o Prêmio de Excelência da Vinexpo. A Golan Heights é, inquestionavelmente, um dos grandes pilares da chamada revolução e do desenvolvimento da indústria de vinho de Israel, ao lado das vinícolas Carmel, Barkan, Efrat, Binyamina, Tishbi, Dalton e Castel, respondendo por cerca de 90% das exportações do país e dominando mais de 80% do mercado interno. Dados do Instituto de Exportação e Cooperação Internacional de Israel mostram que as exportações de vinho do país cresceram 6% em 2015, totalizando US$ 39 milhões.

A história da chamada moderna vinicultura de Israel começou em 1882, com a fundação da vinícola Carmel na cidade de Zichron Ya’akov, ao sul de Haifa, pelo Barão Edmond de Rothschild, proprietário da Chateau Lafite, em Bordeaux (França). As duas maiores vinícolas de Israel pertencem à Carmel – a de Zichron Ya’acov e outra em Rishon Le-Zion, ao sul de Tel Aviv. Possui cerca de 1.400 hectares de vinhedo, que se estendem da Alta Galileia, ao norte, em direção ao Neguev, no sul, e produz 15 milhões de garrafas ao ano.

Mas o ponto de partida para o que passou a se chamar a “Revolução Israelense”, na área de vinicultura, deu-se em 1972, com a visita ao país do norte-americano Cornelius Ough, um importante professor da Universidade Davis. Durante sua passagem por Israel, atestou a qualidade do solo e clima de algumas regiões para a produção de vinhos de alta qualidade. Assim, somando sua tecnologia agrícola avançada e os conhecimentos de técnicos da Califórnia e da Europa, que começaram a atuar junto aos produtores, e investindo na formação de profissionais no exterior, Israel conseguiu colocar-se no mapa dos melhores produtores de vinho do mundo. Por suas qualidades únicas, que refletem um caráter mediterrâneo com um toque israelense especial, os vinhos com o selo “Made in Israel” têm encantado o paladar de americanos, europeus e asiáticos.

Crescimento contínuo

Em menos de 4 décadas apareceram mais de 300 vinícolas de pequeno e médio porte. A partir das décadas de 1980 e 1990 surgiram as “vinícolas-boutique”, com produção pequena e muito bem cuidada, controlada por profissionais do mais alto nível. Atualmente, Israel possui 6 mil hectares de vinhas e a exploração das altitudes compensou o calor e permitiu o plantio de variedades diferentes, como a Pinot Noir. Os tipos de vinhas mais comuns cultivados em Israel atualmente são Cabernet Sauvignon, Merlot, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Noir, Cabernet Franc, Gewürztraminer, Johannisberg e Riesling. As uvas Muscat possuem um papel secundário na produção do país.

Segundo o crítico de gastronomia e vinhos Daniel Rogov, responsável por um guia anual sobre os vinhos do país e que escreve para o jornal Haaretz, “Israel tem evoluído neste setor por possuir vinicultores de nível internacional, cujas vinícolas aliam instalações modernas e tecnologias avançadas, visando criar produtos diferenciados”. Para confirmar suas palavras, Rogov cita a visita feita ao país por Mark Squires, que escreve para a revista especializada Parker’s Wine Buyer’s Guide, e que deu mais de 90 pontos a 14 dos vinhos que degustou. Seu aval não deixa qualquer dúvida sobre a qualidade dos produtos.

Atualmente, Israel está dividido em cinco grandes áreas produtoras. Uma delas é a Galileia, caracterizada por altas altitudes, brisas frias vindas do Monte Hermon, solos de basalto vulcânico e uma série de microclimas, principalmente na chamada Alta Galileia. Os vinhedos mais ao norte das Colinas do Golã estão a 1.200 metros acima do nível do mar. A região do Monte Carmel e do Vale de Sharon é a maior produtora de vinhas do país, beneficiando-se do fato de estar na área montanhosa do Carmel e próxima ao Mediterrâneo.

Domaine du Castel é um dos selos que tem ajudado a fazer a fama da indústria do vinho de Israel. Considerada uma das melhores vinícolas do país, elabora tintos e brancos casher raríssimos e muito elogiados pela crítica internacional, desmentindo a ideia de que vinho para ser bom não pode ser casher. Seus rótulos estão dentre os mais aclamados em Israel e grande parte de sua produção é arrematada por colecionadores israelenses. Inspirados nos melhores franceses, são elaborados nas colinas que circundam Jerusalém.

Por trás do sucesso da marca está uma longa história, que começou com Eli Ben Zaken, proprietário da vinícola, e tem tido continuidade com o seu filho Ariel, que, após prestar o serviço militar em Israel, foi para a Borgonha, onde estudou enologia e trabalhou por dois anos na Domaine Emile Viarick, de Michel Picard. Em 1988 importou e plantou parreiras francesas na região de Ramat Raziel, próxima a Jerusalém. Com o aumento da produção, em 1995, a vinícola passou a se chamar Domaine du Castel.

A maioria dos vinhedos plantados em Israel nos últimos anos segue um padrão: distância de 1,5 metros entre as vinhas e 3 metros entre as fileiras. A colheita mecanizada é cada vez mais comum. Estações meteorológicas fornecem continuamente informações aos produtores sobre a umidade das folhas e temperaturas do solo, entre outras.

Uma das características dos israelenses é deixar de lado as convenções e tentar o impossível. A marca Carmel foi pioneira no cultivo de vinhas no Deserto do Neguev, na região de Ramat Arad, um exemplo concreto da expressão “fazendo o deserto florescer”. Desde então, seus campos experimentais têm-se interiorizado no Neguev, principamente em Mitzpeh Ramon e Sde Boker. Sua mais famosa vinícola é a Yatir Winey, produtora do que é considerado o melhor vinho tinto de Israel, o Yatir Forest 2003, que atingiu 93 pontos na nova Parker’s Wine Buyer’s Guide.

Lechaim!