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Em Israel, inclusão passa da teoria à prática

Em Israel, inclusão passa da teoria à prática

Programa criado por ex-agentes do Mossad, em 2013, prepara jovens com autismo para as Forças de Defesa, absorção no mercado de trabalho e integração à sociedade, sempre buscando desenvolver seu potencial.

Edição 114 - Abril de 2022


Nos últimos anos, o espírito empreendedor israelense e sua criatividade foram colocados a serviço de uma parcela especial da população do país, visando permitir sua inserção na sociedade: estamos falando dos jovens diagnosticados dentro do espectro autista. Denominado em hebraico Ro’im Rachok (em tradução livre, “Olhando para o Futuro”), o programa tem como objetivo treinar adultos com autismo para atuarem em diferentes áreas profissionais, tanto nas Forças de Defesa de Israel (FDI) quanto no mercado civil. O programa procura desenvolver as habilidades específicas dos jovens participantes, considerando suas características individuais.

Para muitos jovens israelenses classificados dentro do espectro autista, a isenção do serviço militar obrigatório, visto como um rito de passagem para a vida adulta após o ensino médio, é uma fonte de frustração, tanto por não poderem servir ao seu país quanto pelo sentimento de marginalização em relação à sociedade. Ro’im Rachok surgiu como um programa de inclusão que utiliza as habilidades especiais de indivíduos com autismo para atender às necessidades de segurança de Israel. É uma relação benéfica para as FDI, os participantes, suas famílias e para o país.

O que é autismo?

O autismo entrou na pauta internacional quando, em 18 de dezembro de 2007, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, que passou a ser comemorado anualmente em 2 de abril. A iniciativa visava conscientizar a população e derrubar preconceitos.

O autismo, afirma essa resolução, não é uma doença, mas um transtorno do neurodesenvolvimento, conhecido como “Transtorno de Espectro Autista” – TEA, que varia de indivíduo para indivíduo. O TEA se manifesta na criança antes dos dois ou três anos e, de modo geral, pessoas dentro do espectro têm dificuldades nas relações sociais, na comunicação (fala e linguagem) e no comportamento (com interesses restritos e comportamentos repetitivos). Porém, o espectro tanto de suas habilidades quanto dificuldades é muito amplo, manifestando-se em diferentes níveis de intensidade. Inclui desde pessoas não-verbais até pessoas independentes, com vida normal, muitas das quais nem mesmo sabem que estão no espectro, pois nunca foram diagnosticadas.

Mesmo com a evolução da medicina, ainda não há uma definição clara sobre qual a causa do autismo. Acredita-se que seja consequência da combinação de fatores genéticos e ambientais. Porém, estudos contínuos têm permitido aos profissionais da saúde uma maior compreensão do TEA e seu espectro, levando, portanto, à realização de diagnósticos precoces e possibilitando abordagens mais adequadas a cada caso.

Estima-se que 75 milhões de pessoas em todo o mundo - mais de dois milhões das quais no Brasil - estejam dentro do espectro do autismo, representando cerca de 1% da população mundial. Em Israel, no ano 2000, uma em cada duas mil pessoas era diagnosticada com alguma forma de autismo; atualmente, uma pessoa em cada 100 tem esse diagnóstico no país.

O aumento recente de casos mundo afora é relacionado, pelo menos em parte, com o maior conhecimento sobre o Transtorno de Espectro Autista e com mudanças na prática diagnóstica. Essa parcela de 1% da população não pode permanecer ignorada pelas políticas públicas.

Projeto inédito

O programa israelense Ro’im Rachok é fruto das vivências pessoais de seus dois principais idealizadores. Leora Sali, física, ex-coordenadora de uma unidade de tecnologia do Mossad, ela mesma mãe de um jovem autista; e Tal Vardi, ex-agente do Mossad (participou da Guerra de Yom Kipur, em 1973, e no Resgate de Entebe, em 1976). Vardi conta que começou a pensar sobre o tema ao ouvir um amigo falar sobre as dificuldades enfrentadas pelos seus dois filhos com autismo e a preocupação com o seu futuro, a mesma de Sali, acrescida da tristeza por saber que seu filho não poderia servir o exército.

Sem se conhecerem, ambos tiveram a mesma ideia: criar um projeto que permitisse a uma parcela de jovens diagnosticados com autismo uma maior inserção no mercado de trabalho e participação nas FDI. Leora começou a desenvolver sua ideia em 2011 e, pouco tempo depois, foi apresentada a Tal Vardi através de um amigo comum, Tamir Pardo, então diretor do Mossad. Com a aprovação das FDI, os dois começaram a traçar as bases do que viria a se tornar um dos projetos mais inovadores em Israel, em termos de educação especial, fazendo do país um pioneiro nesta área. O Programa Ro’im Rachok foi iniciado em 2013 e, além dos subsídios governamentais, conta também com doações privadas.

No que se refere à área militar, a iniciativa tinha dois objetivos fundamentais: formar analistas altamente capacitados para o setor, canalizando suas habilidades singulares, e dar aos jovens com autismo a oportunidade de servir nas FDI, oferecendo-lhes treinamento específico, tanto para voluntários homens quanto mulheres. Posteriormente, esses jovens são integrados à unidade conhecida como 9900, de reconhecimento aéreo, da qual fazem parte também soldados que não se incluem no espectro autista. O programa já expandiu para outras unidades.

Ambos os idealizadores do Ro’im Rachok tinham consciência de que as habilidades singulares de pessoas com autismo não seriam suficientes para integrá-los à Unidade 9900 ou a qualquer outra do exército. As FDI não sabiam como lidar com as características especiais dos jovens – razão pela qual as pessoas com espectro autista, mesmo que sejam altamente funcionais, são isentas do serviço militar compulsório. Eles sabiam que, para que a experiência fosse positiva para todos, era preciso encontrar um parceiro apto a oferecer treinamento para os recrutas e também para seus comandantes.

O Ono Academic College, instituição de nível superior com um programa reconhecido por sua excelência na área de saúde, em Kiriat Ono, cidade próxima a Tel Aviv, foi considerado a melhor opção. Trabalhando com as FDI, os criadores do projeto elaboraram um programa intensivo a ser executado antes do período no exército, que não apenas ensinaria aos recrutas a analisar imagens de satélites e outras tarefas militares, mas também lhes daria ferramentas básicas para o cotidiano.

Treinamento intenso

O programa foi dividido em duas etapas de três meses cada. A primeira etapa é ministrada na Ono Academic College e a segunda em unidades das FDI, onde os participantes trabalham inicialmente como civis e, em seguida, são alistados como voluntários, se assim o desejarem. Diferentemente dos jovens israelenses que servem o exército por três anos, jovens com espectro autista cumprem um serviço básico, voluntário, por um ano. Mas podem estender esse período por até dois anos, se for de sua vontade.

Este período no serviço militar também os qualifica para ingressarem, posteriormente, no mercado de trabalho. Intel e eBay estão entre as primeiras empresas que mantêm parcerias com o programa para absorção desses jovens. As habilidades desenvolvidas no programa têm aplicação direta nas áreas de alta tecnologia.

Nem todos os diagnosticados com TEA podem participar do programa, mas apenas aqueles que possuem elevado nível de funcionalidade, são autossuficientes nas atividades de rotina diária e conseguem gerenciar o tempo. É necessário, também, ser cidadão israelense e saber hebraico. Cerca de 80% dos que se candidatam são aceitos. Destes, 90% completam o programa e entram para o exército. O próprio filho de Leora Sali entrou no programa, mas não se qualificou para servir nas FDI devido a problemas emocionais.

Um dos objetivos do projeto é garantir que os jovens vejam a si mesmos de forma mais positiva e que entendam que possuem potencial, pontos fortes e habilidades a desenvolver. “É isso que Ro’im Rachok faz, ensinando-lhes a usar sua inteligência, determinação e foco de forma produtiva e desenvolvendo suas ferramentas de sociabilidade e comunicação. Eles são treinados em áreas da inteligência militar para as quais são utilizados talentos únicos, que apenas alguém com espectro autista possui”, destaca Leora.

Muitos desses talentos, como habilidades visuais excepcionais e alta capacidade de concentração, tornam esses jovens ótimos candidatos para a 9900, unidade de reconhecimento aéreo. Nessa unidade, esses jovens soldados são encarregados de examinar inúmeras imagens aéreas e de satélites em busca de mudanças minuciosas. Mudanças que podem significar pequenos sinais de atividade inimiga e são fonte de inteligência crítica para as FDI. Deixar passar um detalhe pode custar vidas.

Eles são treinados para ver o que está diferente, seja um carro, uma pessoa ou uma bomba, ou algum outro detalhe menos óbvio como, por exemplo, um pequeno monte de areia, que pode indicar o começo de um novo túnel subterrâneo. Esses analistas olham foto após foto do terreno, apontando o que mudou. A concentração demandada é intensa; são inúmeras horas por dia olhando telas no computador, visualizando imagens e processando um amplo volume de dados sem perder o foco total.

Durante a primeira fase do programa, uma equipe de terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos ensina aos jovens algumas habilidades sociais como fazer uma apresentação perante um grupo, comunicar-se com um comandante, escrever um e-mail e até pegar um ônibus sozinho, algo que muitos jamais haviam feito. Há uma grande lacuna entre as habilidades cognitivas e as sociais desses recrutas, explica Efrat Selanikyo, terapeuta ocupacional especializado em autismo que atua como gerente profissional de Ro’im Rachok. “Eles têm capacidade para entender algoritmos, mas frequentemente falta-lhes compreensão social básica”.

A mesma atenção é dada aos comandantes da Unidade 9900 que aprendem a se comunicar com esses jovens. “Antes de vir para esta unidade eu não tinha nenhum conhecimento sobre autismo. Mas desde que comecei a trabalhar com eles, percebi que são muito inteligentes, apenas seu cérebro trabalha de uma forma diferente”, diz uma das oficiais de 20 anos da Unidade 9900.

E continua: “Eles tendem a ver as coisas em termos absolutos – preto ou branco. Se eu disser ‘Venham aproximadamente às 4h15’, não saberão o que fazer. Mas se eu disser ‘Voltem exatamente às 4h15’, eles dirão ok e voltarão no horário exato. Tive que me adaptar e aprender a me explicar de forma diferente. Eles são atentos, possuem enorme capacidade de concentração e são altamente motivados, além de sentirem muita emoção por usar um uniforme”.

O impacto que o programa tem sobre os jovens ultrapassa o serviço militar. Um dos recrutas, por exemplo, surpreendeu sua avó quando foi visitá-la pela primeira vez sozinho. “É muito satisfatório para os pais verem seus filhos florescendo não apenas no exército, mas na vida em geral, sendo mais independentes”, ressalta Leora.

Ro’im Rachok também teve um grande impacto nos comandantes. Segundo ela não são poucos os comentários feitos por comandantes que afirmam que trabalhar com soldados com autismo tornou-os melhores líderes e também melhores seres humanos. Sentem-se mais abertos para aceitar os outros como são, com seus pontos fortes e fracos. Destacam ainda que se tornaram mais pacientes e sensíveis.

O sucesso de Ro’im Rachok na unidade 9900 levou à inclusão de outras unidades do exército no programa. Atualmente há equipes dedicadas à garantia de qualidade buscando bugs em software e hardware, análise de dados, eletro-óptica, além de desempenharem diferentes tarefas na Força Aérea.

Com o aumento no número de indivíduos diagnosticados com algum nível de autismo, em Israel,

a demanda pelo programa é crescente. O projeto já conta com três grupos de recrutas por ano. Para muitos desses jovens significa a realização de um sonho. “É revolucionário”, diz um soldado participante no Ro’im Rachok. “Pois comprova que ainda que os outros digam que não conseguiremos, nós conseguimos”.

Talentos ocultos

Ainda que todos estejam dentro do espectro autista, os participantes do programa possuem interesses diferenciados e uma vontade enorme de aprender. Muitos têm talentos que surpreendem constantemente quem com eles convive, afirma Selanikyo, terapeuta ocupacional e gerente profissional do Ro’im Rachok.

Um deles, por exemplo, aprendeu a tocar a Quinta Sinfonia de Beethoven vendo seu professor tocar e memorizando o movimento de seus dedos. Outro surpreendeu o pai durante uma viagem de férias à China ao falar mandarim fluente, idioma que havia aprendido sozinho. Cerca de 10% das pessoas com autismo têm a Síndrome de Savant, distúrbio psíquico que lhes confere habilidades intelectuais extraordinárias, muito acima da média.

A extensa rede de apoio oferecida pelo Ro’im Rachok garante não apenas que os soldados cumpram os requisitos do serviço militar, mas também que recebam a ajuda que necessitam. Cada voluntário mantém reuniões semanais com psicoterapeutas para aconselhamento emocional e com um terapeuta ocupacional para ajudá-lo a se relacionar no ambiente de trabalho. Este apoio é fundamental para o sucesso do programa.

Para Tal Vardi, a criação de um programa como o Ro’im Rachok não visava apenas transformar o serviço militar ou resolver uma situação específica. “Mais do que isso, foi uma forma de provar ao mundo que jovens no espectro autista podem não apenas atuar, mas serem excelentes em suas atividades. Senti que esta era a razão para eu estar aqui, ou seja, para criar um novo modelo de vida para pessoas com TEA”.

Para ele, o programa é uma espécie de start-up social, fazendo uma analogia com o fato de Israel ser chamado de Start-Up Nation, que procura integrar jovens com espectro autista na sociedade israelense de acordo com suas características e potencial.

Bibliografia

https://www.Ro’im-rachok.org

The Israeli Army’s Ro’im Rachok Program Is Bigger Than the Military, artigo publicado pelo jornalista David Kushner no dia 2 de abril de 2019 no site https://www.esquire.com

An IDF Program for Teen on the Autism Spectrum, artigo publicado por Leora Eran Frucht em setembro de 2017 no site “Israeli Scene Feature”.

For Autistic Soldiers, Army Service Opens Door to Integration, artigo publicado por Tia Goldenberg em 20 de de fevereiro de 2016 no jornal Times of Israel.

Soldiers with Autism Give Army Rare View Into Intel and Disorder, artigo publicado por Mitch Ginsburg em 8 de março de 2015 no jornal Times of Israel.