Morashá
A MULHER HAREDI Mulheres estão conciliando cada vez mais a vida profissional com a religiosa

A MULHER HAREDI

Nos últimos anos, vem crescendo, em Israel, a tendência para estudos seculares superiores destinados a preparar mulheres haredi, que seguem rigorosamente a tradição e os preceitos judaicos, a atuar como profissionais.

Edição 37 - Junho de 2002


Cinco ou dez anos atrás era quase impossível encontrar mulheres religiosas em instituições educacionais com este perfil. A mudança foi gradativa e contou com a aprovação de personalidades importantes do mundo ortodoxo, entre as quais o rabino Ovadia Yosef, rabino-chefe sefaradita e mentor espiritual do partido político israelense Shas.

Assim, vários institutos e programas de educação especializaram-se em preparar mulheres religiosas em busca de formação acadêmica.

O “Michalah”, colégio para mulheres localizado em Jerusalém, foi o primeiro a abrir suas portas, em 1964, sendo seguido pelo “Neveh Yerusahalaim”, em 1984. As instituições criadas recentemente ampliaram suas atividades, para incluir em seu currículo os campos de engenharia, computação, economia, comunicações e gerenciamento.

Dentre as instituições que seguem esta linha destaca-se o Colégio Haredi, de Jerusalém, fundado em março de 2001 por Adina Bar-Shalom, filha do rabino Ovadia Yosef. O estabelecimento acolhe moças vindas de escolas que seguem os preceitos ortodoxos do judaísmo. Os temas lecionados são todos apropriados para a população haredi.

Segundo Adina, a aprovação dos rabinos era crucial, pois sem esse aval as moças não iriam participar do projeto. O colégio Haredi oferece diplomas em conjunto com a Universidade Bar-Ilan e a Universidade Aberta. O objetivo do projeto é dar-lhes a possibilidade de serem independentes. Atualmente, o Colégio Haredi conta com 70 alunas que representam a maioria de tendências e grupos étnicos e políticos do mundo religioso ortodoxo: ashque-nazitas, sefaraditas, Agudat Israel, Shas etc. A maioria das estudantes vêm diretamente após o término do colegial, mas algumas são casadas e têm seis ou sete filhos.

Ainda este ano, o Colégio Haredi planeja implantar um programa em ciências da computação e, no futuro, pretende incluir áreas como arquitetura, terapia ocupacional, decoração de interiores e enfermagem.

Esther é uma típica estudante, de 30 anos, com aparência de menina e, se não fosse pela peruca (sheitel) que lhe cobre a cabeça, poderia facilmente passar por uma moça solteira. Mas é mãe de seis filhos e quis voltar a estudar para obter um título acadêmico. Aos 18 anos, nunca havia pensado em estudar, mas com o passar do tempo descobriu que precisava de uma profissão. Seu marido estuda e leciona em uma ieshivá. Esther precisa trabalhar para ajudar a manter sua família. No entanto, ser mãe e estudante é uma tarefa complicada, pois os cursos superiores são exigentes e há muita concorrência com as moças solteiras, que têm mais tempo livre.

No ano de 2000 foi inaugurado o Machon Tal, um campus para mulheres no Colégio de Tecnologia em Jerusalém (JCT), que após um curso de quatro anos outorga um diploma de engenharia. Elas podem se especializar em bio-informática, engenharia de computação, ciên-cias e tecnologia educacional ou administração. Há cerca de 300 inscritas, a maioria não haredi, mas vem crescendo o número de ortodoxas matriculadas. Muitas são imigrantes recentes da França e da Rússia. Tradicionalmente, esses campos científicos costumavam ser de atuação exclusiva masculina, mas hoje em dia cerca de 10% de mulheres seguem esses cursos de alta tecnologia. Isso, graças à divisão das classes em sexos separados. A Universidade Touro, de Israel, instituiu graus separados para mulheres. A primeira tentativa neste sentido, anos atrás, não foi bem sucedida. Mas desde 1998, 60 mulheres se inscreveram nos cursos de administração de empresas. O programa é ministrado em inglês. Os diplomas são concedidos pela filial da Universidade, de Nova Iorque. A experiência tem dado condições a estas mulheres de competir em áreas às quais não tinham acesso, no passado. Novos horizontes vão-se abrindo, assim como oportunidades em um mercado de trabalho altamente competitivo.

A tendência é que nos próximos anos surjam em Israel outros cursos superiores para mulheres haredi, pois este é um processo inevitável face às suas necessidades de realização. Certamente um fator decisivo neste sentido é o fato de que muitas mulheres casadas com homens dedicados aos estudos talmúdicos e bíblicos, em tempo integral, precisam ajudar nas despesas do lar. Por isso há um consenso, no país, segundo o qual já que as mulheres devem trabalhar, por que não em profissões satisfatórias e bem remuneradas?

No seio das comunidades sefaraditas nota-se um pouco mais de resistência em relação a essa revolução cultural, mesmo considerando-se que o principal motivo da educação superior feminina possa ser financeiro. Na tradição sefaradita, geralmente a mulher ficava em casa. O impacto desta mudança nas famílias muito apegadas à tradição pode ser grande, até que se aceite com naturalidade o fato de que a fonte de sustento possa ser decorrente também do trabalho remunerado da mulher. Independentemente desses conflitos, o fato é que as projeções de aumento da educação superior para mulheres haredi são um fenômeno em expansão e a demanda reflete uma mudança no mundo atual.


Bibliografia:
The Haredi Women’s Revolution, do Jerusalem Post Magazine.