Morashá
RUMO A LIBERDADE Nicholas Winton

RUMO A LIBERDADE

Ano - 1939. Local - Londres, estação de Liverpool. Mais de uma centena de crianças amontoadas, com etiquetas presas em seu pescoço, desembarcam do trem, uma atrás da outra.

Edição 31 - Dezembro de 2000


Mais uma vez, a história mostrou que, às vezes, uma pessoa sozinha faz a diferença e consegue até mudar o rumo da história e da vida de inúmeras outras. Assim foi com Nicholas Winton, o inglês que, com sua iniciativa e empenho pessoal, salvou a vida de centenas de crianças, em sua maioria judias, ajudando-as a escapar do Holocausto.

O envolvimento de Winton na operação que culminou com o transporte das crianças da então Checoslováquia para a Grã-Bretanha começou por causa de um fato corriqueiro. Era o ano de 1938 e Winton viu cancelados seus planos de férias de final de ano com seu amigo, Martin Blake, funcionário da Comissão Britânica para Refugiados da Checoslováquia. Este, por sua vez, fez a seguinte sugestão ao amigo: "Venha comigo para a Checoslováquia. Quero mostrar-lhe algo". E Winton aceitou o convite, perguntando-se o que Blake poderia ter para lhe mostrar.

Ao chegar na Checoslováquia entendeu o que o amigo queria dizer. Diante de seus olhos, milhares de refugiados desesperados - judeus assustados, comunistas e dissidentes políticos tinham que deixar o país rapidamente por causa do Acordo de Munique, assinado em setembro e, segundo o qual, a Grã-Bretanha, França e Itália haviam concordado em retirar suas tropas do território checo e ceder à Alemanha uma parte deste território. "Quando vi todas aquelas pessoas, percebi que deveria fazer algo para ajudá-las". E fez.
Winton ficou três semanas em Praga, coletando fotos e informações sobre jovens que precisavam de ajuda. Ao retornar à Grã-Bretanha, teve que convencer o governo a permitir a entrada dos jovens refugiados, o que de fato conseguiu, e atender as condições impostas pelas autoridades. Winton conseguiu através do apoio de organizações beneficentes e de organizações cristãs encontrar pessoas interessadas em adotar os refugiados, assim como obter os recursos necessários para o transporte e para o deposito de 50 libras para cada criança .

Durante os primeiros nove meses de 1939, organizou o transporte de crianças para a Grã-Bretanha, chegando ao total de 664 jovens, dos quais 90% eram judeus. O novo grupo, com quase 200 passageiros, deveria partir no dia 3 de setembro, quando a guerra eclodiu. Todos os meios de transportes foram bloqueados e os que não conseguiram sair da Checoslováquia foram enviados aos campos de concentração, nos quais acabaram morrendo, como milhares de outros judeus, durante o período de 1939 a 1945.

Apesar de todo o seu empenho, porém, o responsável por essas operações de resgate permaneceu oculto por quase meio século. Nem as crianças por ele salvas sabiam a quem agradecer por estarem vivas. O fato tornou-se conhecido, mais por obra do destino do que por iniciativa de Winton.

No final de 1987, enquanto organizava seus documentos, Winton encontrou a listagem do nome de todas as crianças que havia salvado em 1939. Não sabendo o que fazer com a lista, foi aconselhado por um amigo a entregá-la à Dra. Elizabeth Maxwell, uma especialista em estudos sobre o Holocausto, esposa de um jornalista judeu, o magnata Robert Maxwell. A história foi publicada no Sunday Mirror, um dos tablóides da família Maxwell, com grande repercussão.

A apresentadora de televisão londrina Esther Rantzen, ouvindo a história, interessou-se em trazê-lo a seu programa, "That's life". Sob o pretexto de que viesse apenas assistir ao show para prestigiá-la, colocou Winton estrategicamente na primeira fileira. Durante o programa, Rantzen anunciou: "Senhor Winton, tenho uma surpresa para lhe contar. Sentados ao seu lado estão duas das pessoas que o senhor salvou da Checoslováquia, em 1939".

Vera Gissing, que estava ao seu lado, relembra que seus olhos se arregalaram ao fitá-la e começaram a lacrimejar: "Para mim, após tantos anos, ter finalmente conhecido o homem que salvou minha vida, foi um momento muito especial. Fiquei apenas preocupada com ele, pois pensei que, que aos 80 anos, o choque seria muito forte. Apesar da grande alegria em nos conhecer, ele não gostou da maneira como a apresentação foi feita".

Ela escreveu a biografia de Winton em reconhecimento a seu ato de coragem. Na obra, a autora relata toda a sua vida, seus méritos e a operação de resgate que se iniciou em 1938. Na época, ele trabalhava como operador na Bolsa de Valores. Vera Gissing conta que, quando a guerra eclodiu, não havia quase nada que Winton pudesse fazer para ajudar os refugiados. Porém em 1942, ele abandonou o mercado financeiro e tornou-se voluntário da Cruz Vermelha, na França. Posteriormente começou a trabalhar nas Nações Unidas e, em seguida, no International Bank, em Paris. Depois de se aposentar dedicou-se exclusivamente ao trabalho voluntário, tendo sido homenageado em 1993 com o título de Membro do Império Britânico e incluído na lista de honra da rainha Elizabeth.

Atualmente, Winton vive em Maidenhead, perto de Londres, com sua esposa, com a qual é casado desde 1948. Tem dois filhos; um terceiro faleceu na infância. Desde 1988, no entanto, sua família cresceu rapidamente. "Ele é nosso pai e avô honorário, porque nossa família foi exterminada durante a guerra", afirmou Vera Gissing.

Sessenta destas "crianças" se reuniram em um evento chamado "Obrigado, Inglaterra", organizado pelo embaixador checo para honrar aqueles que acolheram e facilitaram a adaptação destes refugiados. Na ocasião, a atuação de Nicolas Winton foi comparada à de Oscar Schindler, por um dos organizadores.

Nicolas Winton, no entanto, não entende o porquê de tantas homenagens. "Ele considera que apenas fez o seu dever", explica Vera Gissing. "Outras pessoas também tiveram méritos nesta operação, mas Winton foi quem idealizou e organizou o salvamento de tantas vidas. Sem ele, algumas poucas crianças poderiam ter sido salvas, apenas algumas".