Morashá
Os Tefilin de Buchenwald Foto Ilustrativa

Os Tefilin de Buchenwald

Eram os últimos dias de dezembro de 1944. Shmuel Stern olhou para fora de uma das janelas da cozinha do campo de concentração de Buchenwald. Pedira para trabalhar nesse local na esperança de, talvez, encontrar uma casca de batata a mais para comer.

Edição 58 - Setembro de 2007


Eram os últimos dias de dezembro de 1944. Shmuel Stern olhou para fora de uma das janelas da cozinha do campo de concentração de Buchenwald. Pedira para trabalhar nesse local na esperança de, talvez, encontrar uma casca de batata a mais para comer.

O que o fez sair da cozinha naquela hora, apesar do inverno rigoroso, foi um odor estranho e a visão de uma fumaça preta subindo em direção ao céu. Fumaça, em Buchenwald, era algo raro por não ser um campo de extermínio, onde os prisioneiros eram assassinados em câmaras de gás e, a seguir, queimados em fornos crematórios. Buchenwald era um campo de trabalho onde os prisioneiros, principalmente os judeus, morriam vitimados por maus-tratos, sede, fome e frio.

Após ter aberto a porta da cozinha, um ar frio penetrou em seus ossos, mas o que Stern viu perturbou-o tão profundamente que ele não conseguia nem se mexer para se esquentar. As labaredas de um fogo intenso estavam devorando uma enorme pilha de livros de reza em hebraico, assim como talitim e tefilin. Estes últimos são os filactérios usados pelos judeus nas orações da manhã, compostos por duas caixinhas de couro, cada qual presa a uma tira, dentro das quais há um pergaminho com trechos da Torá.

Enquanto Stern observava as longas tiras de couro que ardiam no fogo, recordou-se de que quando chegou a Buchenwald tinham-no obrigado, a entregar seus tefilin. Quem sabe, pensou, se os seus não estariam queimando naquela pilha, bem ali diante de seus olhos. Esta era uma das "técnicas" nazistas: obrigar aqueles que chegavam ao campo a entregar seus pertences pessoais, incluindo artigos religiosos. Era um dos primeiros passos no processo de desumanização nazista, no pseudo-mundo do campo de concentração, onde as únicas constantes eram dor, fome e medo.

Enquanto conteplava o fogo, absorto, Stern viu uma única caixa de tefilin que ainda não pegara fogo. Olhou à sua volta para ter certeza de que ninguém o vigiava e que não havia nenhum guarda ou kapo por perto e, rapidamente, pegou a caixa e a escondeu. Naquela noite, guardou a caixa debaixo do seu colchão e decidiu que iria usar um único tefilin nas preces matinais, naquele dia. Algo, porém, o preocupava: seria permitido usar um único tefilin? O mandamento bíblico diz claro: "E os atarás como sinal na tua mão e serão por filactérios entre teus olhos" (Deuteronômio 6:8). Mas, como poderia ele, o "prisioneiro número 27.613" do campo de concentração de Buchenwald, achar o segundo tefilin? Assim como outros prisioneiros, Stern passava os dias unicamente tentando sobreviver um dia mais.

Para Stern, judeu praticante, era muito importante usar os tefilin. Crescera com três irmãos e quatro irmãs na pequena cidade de Nelipeno, então Checoslováquia. Diariamente, antes de ir para a escola pública, estudava por duas horas no cheder, com os irmãos. Assim que terminavam as aulas, ele voltava para o cheder para as orações da tarde, retomando os estudos de Torá.

Já adolescente, Stern continuou a estudar no Ginásio Hebraico, em Munkacs, onde todas as aulas eram dadas em hebraico, de modo a preparar os alunos para emigrar para a então Palestina. Na época, Stern não sabia, ao certo, se queria fazer aliá. Muitos jovens das cidades maiores já haviam partido para a Rússia, outros para a América, tentando fugir dos nazistas, cada vez mais próximos. Mas, quando a guerra chegou a Nelipeno, Stern não conseguiu mais deixar a cidade.

Naquela noite, enquanto estava deitado no colchão esfarrapado, em Buchenwald, Stern ainda conseguia lembrar dos detalhes de sua vida em casa dos pais. Lembrou-se do aroma da chalá, que a mãe preparava semanalmente para o Shabat; o delicioso cheiro do tscholent, o tradicional prato à base de feijão e batata, que a mãe mantinha quente na chapa do Shabat, na pequena mercearia da família. Lembrou, também, da sinagoga de sua cidade, em Yom Kipur, lotada de fiéis que oravam, das velas acesas nas laterais do prédio, cada uma colocada em uma abóbora com areia pela metade, para que não vazasse, e do som do shofar.

Stern tinha 18 anos quando foi convocado para uma unidade húngara de trabalhos forçados. Era o último dia de Pessach de 1943. Desde 1940, o governo húngaro havia implantado trabalho forçado para todos os judeus do sexo masculino que, organizados em batalhões, eram destacados para projetos de construção. Conseguira convencer as autoridades de que era eletricista por profissão, passando a trabalhar nessa função em várias fábricas ao redor de Budapeste, até outubro de 1944. Após a ocupação alemã, em março daquele ano, a Hungria entra em fase de intensa cooperação com o esforço de guerra nazista e com a política de deportação de judeus, levando o triste recorde de ter sido a mais rápida das grandes operações de assassinato, durante o Holocausto.

Naquele outubro, sabendo que os nazistas estavam prestes a prender todos os judeus, mesmo os que trabalhavam, Stern consegue fugir com um amigo para Budapeste. Eles tinham ouvido dizer que Raoul Wallenberg, o jovem diplomata sueco, e outros diplomatas de países neutros estavam emitindo passaportes para impedir a morte de milhares de judeus. Wallenberg instalara hospitais, berçários, cozinhas coletivas e "casas seguras" através de Budapeste para ajudá-los.

Como esses lugares eram mantidos pelas autoridades consulares suecas, eram considerados território desse país e, portanto, neutros.

Embora Stern não tenha conseguido um passaporte, localizou uma "casa segura" na qual ficou por dois meses. Acabou sendo preso quando os fascistas húngaros a serviço dos nazistas, alegando estar à procura de voluntários, conseguiram fazer os refugiados saírem da casa e os prenderam. Com outras 94 pessoas, foi colocado e trancado em um vagão de trem, como gado. Depois de uma terrível viagem que durou 18 dias, chegaram a Buchenwald.

Agora, um dia depois de ter achado aquela preciosa caixa de tefilin, Stern não tinha esperança de encontrar uma segunda. Desolado, foi a pé até a fábrica de munições de Magdeburg, um dos sub-campos de Buchenwald, onde trabalhava como eletricista na produção de munição. Terminado seu turno, enquanto retornava para o campo com outros prisioneiros, Stern viu um de seus companheiros segurar um objeto que lhe pareceu ser um tefilin. Mais extraordinário ainda era que com a parte agora encontrada ele teria um par completo - uma caixa para o coração e outra para a cabeça. Como o prisioneiro era um cigano, Stern conseguiu trocar a segunda caixa de tefilin por um suéter, o único que possuía.

Na manhã seguinte e em todas as manhãs, a partir daquele dia, Stern colocava os tefilin nas preces matinais. Em seguida, emprestava-o para outros prisioneiros. Guardava-os sempre consigo e, ao ser transferido para outra fábrica, em Polta, outro dos sub-campos de Buchenwald, levou-os consigo.

A guerra estava em seus últimos dias quando Stern e alguns amigos conseguiram fugir da fábrica. Esconderam-se em um porão, durante sete dias, e só saíram quando o exército norte-americano se aproximou. Era abril de 1945.

Depois da guerra, Stern foi para a Bélgica, onde ficou até se restabelecer. Em 1946, seguiu para os Estados Unidos, onde se encontraria com uma irmã e um irmão, únicos sobreviventes da família. Instalou-se em Nova York e reconstruiu sua vida, casando-se e constituindo família. No entanto, jamais se desfez dos tefilin de Buchenwald. Tampouco permitiu que fossem consertados, pois queria que permanecessem exatamente como quando os encontrou, em meio ao fogo que consumia os objetos mais sagrados de nosso culto e de nosso povo.

Shmuel Stern, hoje Stanley Stern, usou os mesmos tefilin durante muitos anos, exibindo-os nas palestras sobre a Shoá que dava para crianças das escolas nova-iorquinas.

Traduzido e adaptado da crônica "Stanley Stern" publicada no livro "To Life - 36 Stories of Memory and Hope", Museum of Jewish Heritage - a Living Memorial to the Holocaust