Morashá
O Machzor itinerante de Jenny Teich Foto Ilustrativa

O Machzor itinerante de Jenny Teich

por por Sergio D. Simon

Quando minha tia Hilde Simon faleceu, aos 93 anos de idade, em maio de 2010, encerrou-se um capítulo importante na história de minha família: o dos sobreviventes do Holocausto. Tia Hilde nunca nos contara muitos detalhes de sua vida durante a Guerra, e tudo o que soubemos sobre ela vinha aos poucos, em pequenas doses.

Edição 86 - Dezembro de 2014


Quando, semanas depois de sua morte, minha prima Ilona cumpria a triste tarefa de desmontar o apartamento de sua mãe, ela encontrou, num armário da biblioteca, alguns livros de reza bastante antigos. Folheando-os no silêncio do apartamento vazio, Ilona deparou-se com o nome “Jenny Teich, Blankenfeldstrasse 14, Berlin” escrito a mão ou carimbado em quatro machzorim. Ilona jamais ouvira falar nessa senhora. Quem seria Jenny Teich, a proprietária original desses livros? Por que tia Hilde nunca a havia mencionado para a própria filha? Ilona buscou o nome no livro de endereços de Berlim que sua mãe mantinha, com o nome de seus amigos alemães. Não havia menção a Jenny Teich. Ilona decidiu ir atrás dessa senhora para saber sua identidade.
Hilde e Arno Simon casaram-se em janeiro de 1939 em Berlim, oito meses antes do início da Guerra. Ela viera de Beuthen, uma pequena cidade na Silésia, para a capital, a fim de buscar emprego naqueles anos difíceis. Berlim era uma cidade efervescente, cheia de cultura, teatros, cafés, cabarés e uma vida noturna que a tornara famosa em todo o mundo.  Ali, acreditavam muitos judeus de cidades menores, era mais fácil passar despercebido e ser menos discriminado. Em Berlim, Hilde trabalhou como assistente de vendas em uma loja de meias de senhoras, emprego modesto, mas que garantira sua sobrevivência até então. Ela e meu tio Arno se conheceram num dos muitos salões de dança pelos quais Berlim era famosa, e o casamento foi uma forma de dar mais segurança aos dois jovens judeus vivendo numa cidade tão perigosa para ambos. Meu pai, Siegbert Simon, irmão de Arno, conseguira sair de Berlim em 1936, tendo vindo para o Brasil, onde se estabelecera como representante comercial. Sua decisão de sair de Berlim fora muito criticada por meus avós, que ainda não viam motivos para se deixar a Alemanha, apesar das dificuldades pelas quais os judeus já passavam em 1936. Foi somente após a Noite dos Cristais, em novembro de 1938, que meus avós escreveram para o Brasil, implorando que meu pai lhes conseguisse um visto de saída porque a situação tornara-se intolerável para os judeus.

Apesar das dificuldades impostas pelo Itamaraty, na época, meu pai conseguiu um visto de imigração para meus avós, já após o início da guerra, e eles finalmente chegaram a Santos em fevereiro de 1940. Arno e Hilde, entretanto, não podiam se beneficiar desse visto e terminaram por ficar em Berlim durante toda a guerra.

Inicialmente, ambos foram poupados de serem mandados para os campos de concentração, mas foram, como inúmeros judeus, submetidos a um regime de trabalhos forçados em fábricas do esforço de guerra. Ele era operário numa indústria têxtil que fabricava uniformes de guerra e ela trabalhava numa fábrica de baterias. Assim sobreviveram até o fim de 1942, bastante precariamente. Em janeiro de 1943 o capataz de Hilde, na fábrica de baterias, avisou-lhe que, no dia seguinte, a Gestapo viria buscar os últimos judeus para a deportação e seria melhor que ela não aparecesse mais para trabalhar. Assim, Hilde e Arno mergulharam na anonimidade da cidade grande em guerra, tentando sobreviver como possível.

O casal foi ajudado por uma família cristã que trabalhara com meu avô. Este casal possuía uma pequena casa de campo em Hönow, um bairro distante do centro de Berlim. Mesmo sabendo dos riscos que isso envolvia, decidiram ceder as chaves do casebre para que meus tios lá se refugiassem. Eles conseguiram documentos falsos, como se fossem empregados do Hospital Charité, um dos maiores de Berlim. Diariamente, saíam da casa com os papéis falsos, perambulavam pelas ruas da cidade em guerra e eventualmente faziam trabalho caseiro para alguma família. À noite, voltavam para a casinha em Hönow. Este ritual era um disfarce para que os vizinhos não percebessem que estavam desempregados.  E assim, até o fim da guerra, quando Berlim estava totalmente destruída pelo bombardeio aliado, Hilde e Arno Simon lutaram por sua sobrevivência em condições difíceis de descrever ou mesmo imaginar.

Em maio de 1945 o casal percebeu que os bombardeios haviam cessado: a cidade havia sido invadida pelos russos e pelas forças aliadas. Logo que se sentiram seguros, saíram de seu esconderijo e se dirigiram, com muita dificuldade, entre as ruínas da cidade e suas pontes destruídas, para a sinagoga da Oranienburger Strasse, um dos raros edifícios que milagrosamente sobrara, pelo menos parcialmente, de pé, no centro de Berlim. Uma bomba atingira a parte central da grande sinagoga, mas o edifício e sua imponente torre ainda estavam lá e era para lá que convergiam os poucos sobreviventes judeus que haviam restado na cidade. Lá, meus tios foram recebidos por tropas americanas responsáveis pelas pessoas deslocadas de guerra e foram imediatamente acolhidos em uma casa onde havia comida, aquecimento, roupa de cama e todo o conforto que lhes fora negado durante tantos anos. A casa pertencera até a véspera a um graduado oficial alemão.

Arno acabou por amealhar um patrimônio importante no pós-guerra em Berlim, atuando no negócio de carnes e frios. Ele foi o proprietário da Fleischerei Arno Simon, o primeiro açougue casher de Berlim no pós-guerra. Este havia sido seu ramo de negócios junto com meu avô, até o início da guerra. Minha prima Ilona nasceu logo após, em 1947, ainda em Berlim. Em 1954 Hilde, Arno e Ilona acabaram por emigrar para o Brasil para se juntar ao resto da família. Aqui meu tio fundou o Frigorífico Simon, na época uma empresa de bom porte e que lhes garantiu uma vida de bastante conforto.

Mas como vieram parar nas mãos de meus tios os livros de reza de Jenny Teich? Quem era ela?

A resiliência do povo Judeu

Intrigada, Ilona entrou em contato com o International Tracing Services (ITS) em Bad Arolsen, um centro de documentação do governo alemão que tem os registros das pessoas mortas na guerra. De lá recebeu a seguinte informação: “Jenny Henriette Teich, nascida em 26/12/1871, foi transportada em 24/08/1942 de Berlim para Terezin e, em 26/09/1942, de Terezin para Treblinka, onde foi imediatamente assassinada”. Seguiam dados sobre o número do comboio do transporte para os campos de concentração. Ilona soube, então, que em 1945 os livros de oração dos judeus mortos na guerra foram distribuídos entre os judeus sobreviventes, e sua mãe, Hilde, recebera os livros dessa Sra. Jenny Teich.

Ilona decidiu que os machzorim, como todo livro de reza judaico, deveriam ter um fim digno. Assim, levou-os em 2012, em uma de suas viagens à Alemanha, para o Zentrum Judaicum, que por coincidência funciona na mesma sinagoga da Oranienburger Strasse onde seus pais haviam sido acolhidos no fim da guerra. Lá, entregou-os para que fossem enterrados na Guenizá, segundo a tradição judaica. Com isso, pensava ela, encerrava-se a história de Jenny Teich, mais um dos 6 milhões de mártires judeus cuja identidade se perdera na torrente da trágica história do Holocausto.

Mas a história não acabou por aí. Em fevereiro de 2014, Ilona recebe um e-mail do International Tracing Service indagando se poderiam passar seu e-mail para uma pessoa que se dizia parente de Jenny Teich. Ilona concordou e, dois dias depois, num alemão infantil e cheio de erros, mas absolutamente compreensível, chegava a seguinte mensagem:

“Prezada Sra. Simon: meu nome é Suzy Ehrmann e moro em Melbourne, Austrália. Nasci em Berlim, de onde saí ainda criança, em 1938, fugindo com meus pais. Mas guardo ternas lembranças de minha avó, a Sra. Jenny Teich, a quem chamávamos carinhosamente de Mama. Era na casa dela que costumava passar os feriados religiosos judaicos e dela guardo as melhores recordações de minha infância. Ela, com seu rosto sorridente, enrugado, com seus cabelos brancos, nos acolhia com muito chocolate e muita ternura. Quando saímos de Berlim, em 1938, minha avó disse que estava muito idosa para sair e que confiava que tudo iria terminar bem para os judeus. Minha avó foi tão importante em minha vida que dei o seu nome à minha filha, Jenny Ehrmann, nascida aqui na Austrália. Minha Jenny acabou por tornar-se uma judia religiosa e hoje vive em Jerusalém. Fui informada pelo ITS que os livros de reza de minha avó Jenny Teich encontram-se em sua posse, e gostaria, se possível, de comprá-los. Minha filha Jenny, criada escutando durante toda sua vida falar de sua bisavó, gostaria de rezar em Jerusalém com os livros que estão em sua posse, em memória da alma de sua bisavó, Jenny Teich. Agradeceria o seu contato o mais rápido possivel. Atenciosamente, Suzy Ehrmann, Melbourne, Austrália”.

Atônita, no primeiro momento, Ilona apressou-se em responder: “Prezada Sra. Ehrmann. Li com emoção sua mensagem sobre sua avó, Jenny HenrietteTeich, cujos livros de reza foram utilizados por muitos anos, aqui no Brasil, por minha mãe, Hilde Simon, que os recebeu na sinagoga em Berlim no pós-guerra. Eu os cederia de muito bom grado à sua família, mas infelizmente os livros foram enterrados em Berlim, há cerca de 2 anos e, portanto, não existem mais. Espero que, mesmo assim, a memória de Jenny Teich continue viva entre vocês. Atenciosamente, Ilona Simon, São Paulo, Brasil”.

Dias depois, minha prima Ilona comentou comigo, ainda emocionada, esta história bizarra, que quase tivera um final feliz. Fiquei inconformado com este final quase perfeito da história, a ponto de não conseguir dormir à noite. De manhã cedo liguei para minha prima: “Ilona, você pensou em consultar o Zentrum Judaicum em Berlim para se certificar se os machzorim foram realmente enterrados? Talvez não tenham sido...”, disse eu, com uma ponta de esperança, “quem sabe ainda estejam por lá. Estou indo para Berlim dentro de 15 dias e, se estiverem lá, posso trazê-los de volta para o Brasil e poderemos retorná-los a seus donos originais”.

Ilona, conhecedora da tradicional eficiência alemã e descrente da possibilidade de sucesso, mesmo assim escreveu para o Diretor do Zentrum Judaicum perguntando pelos livros. Ele não se lembrava da doação e lhe pediu alguns dias para tentar saber qual tinha sido o fim dos mesmos. E dentro de uma semana chega a mensagem: “Os livros de Jenny Teich ainda estão aqui e não foram enterrados!”

Assim, numa manhã gélida de março de 2014, dirigi-me a pé de meu hotel para a Oranienburger Strasse, onde recebi, pálido de emoção, os livros perfeitamente embalados e conservados de Jenny Teich. Estavam na mesma sinagoga que meu pai frequentara na sua adolescência, que escapara do fogo na Kristallnacht, que sobrevivera aos bombardeios aliados que quase a destruíram e que servira de abrigo para meus tios no pós-guerra. Poucos dias depois, estavam de volta ao Brasil, nas mãos de Ilona.

Por mais uma coincidência, o neto de Ilona realizaria seu Bar-mitzvá em Jerusalém em julho, e toda a família viajou para Israel. Finalmente, no dia 28 de junho de 2014, Ilona encontrou-se com Jenny Ehrmann, a bisneta de Jenny Teich, em Jerusalém, e entregou-lhe os livros que haviam dado a volta ao mundo. Emocionada, Jenny leu o Shechecheianu do próprio livro de sua bisavó, morta em Treblinka em 1942.

Assim, setenta e dois anos após sua trágica morte, Jenny Teich foi relembrada de maneira especial, através de seus livros de reza, nas mãos de sua bisneta, em Jerusalém. A história do machzor de Jenny Teich levou décadas para se completar, atravessou continentes várias vezes, ligou corajosas mulheres judias de várias gerações, e mostrou, mais uma vez, a força da tradição e a resiliência do povo judeu na adversidade de nossa História.

Sergio D. Simon é médico e presidente do Museu Judaico de São Paulo.