Morashá
MILAGRE EM LYON O decreto de 1 de setembro de 1941 obrigava os judeus a usar a estrela de David, na França

MILAGRE EM LYON

Não faz tanto tempo assim. Era 1940, logo após a França ter sido invadida pelos nazistas, quando ocorreu um verdadeiro milagre. No outono europeu de 1940, vários meses após ter a França sido mais um dos países europeus a cair em mãos dos nazistas, uma pequena congregação de judeus preparava-se para receber o Shabat.

Edição 31 - Dezembro de 2000


Apesar da nuvem negra que virtualmente dominava toda a Europa na época, eles se preparavam para os serviços religiosos, em sua sinagoga, em Lyon.

A população da cidade, judeus e não judeus, estava como que adormecida pelos acontecimentos da guerra, pela derrota da França e pelo sentimento de desespero geral que começara a permear todo o continente europeu.

A França estava dividida, de norte a sul, entre a França ocupada e o assim chamado governo "livre" de Vichy, do Marechal Pétain. Vários milhares de judeus franceses haviam fugido antes da chegada dos nazistas e tinham encontrado refúgio na região de Vichy, apesar de que para muitos o local viria a ser um abrigo apenas temporário.

Lyon tinha sorte, pois o Rabino Chefe da França, Rabi Jacob Kaplan, também abandonara Paris e se estabelecera em Lyon, e uma das primeiras coisas que fez foi organizar uma nova congregação. A vida para todos os judeus da cidade naqueles dias sombrios da escalada nazista, era muito amarga e, com o coração repleto de genuína gratidão, os refugiados judeus se reuniam, uma vez por semana, em sua modesta casa de oração em Lyon, durante algumas horas de oração e estudo no Shabat e, no mínimo, alguma trégua do flagelo aterrador do nazismo que a cada dia estava mais próximo.

A cidade de Lyon, como muitas outras partes da França de Vichy e da França ocupada, tinha vários grupos pró-nazistas. Eram franceses fascistas que compartilhavam a atitude nazista em relação aos judeus e estavam sempre prontos a apoiar os planos dos nazistas de acabar com o povo judeu. Lado a lado com esses grupos havia, tanto em Lyon quanto nas duas partes da França, crescentes células de simpatizantes do movimento França Livre, então liderado pelo General de Gaulle, que encontrara refúgio seguro em Londres.

Os judeus eram bastante proeminentes no movimento "maquis" anti-nazista que surgira para combater o domínio nazista na França. Havia também judeus que deploravam as atitudes contra o nazismo de seus correligionários, temerosos de possíveis conseqüências que se abatessem sobre toda a comunidade judaica.

Naquela noite de sexta-feira em Lyon, a pequena congregação de refugiados do norte da França estava reunida para dar as boas vindas à "Noiva, o Shabat". O serviço religioso chegava ao fim e os congregantes cantavam a tradicional oração "Lechá Dodi", que fala sobre "a próxima chegada das notícias sobre o Dia da Redenção".

Como é costume em muitas sinagogas, na conclusão dessa parte do serviço religioso, todos os presentes voltam-se, dando as costas ao santuário, para "receber a noiva - o Shabat". Os fiéis de Lyon não eram exceção. Tinham acabado de se voltar para a porta de entrada quando as últimas frases do canto ancestral como que congelaram, repentinamente. De pé, à porta, estava um grupo de simpatizantes pró-nazismo, todos mascarados, portando nas mãos granadas prontas para serem detonadas - sem deixar dúvidas do massacre que estava por se iniciar.

E, apesar disso, os muito prováveis assassinos ficaram petrificados, pois não contavam encontrar os judeus de frente, encarando-os clara e diretamente. Aparentemente haviam planejado infiltrar-se sorrateiramente vindos de trás, arremessar sua armas mortais e escapar pelas sombras da noite de onde haviam surgido.

Mas os judeus franceses também permaneceram, imóveis, incrédulos, petrificados, e os simpatizantes nazistas rapidamente mudaram de idéia. Com as granadas ainda nas mãos, retiraram-se da sinagoga, excetuando-se um homem que arremessou a sua, que explodiu ao chocar-se contra a parede da sinagoga, sem no entanto causar vítimas.

Tudo não passou de um momento. Drenados de pavor, ainda estarrecidos com o que se passara, os membros da congregação viraram-se de volta, desta vez com o olhar dirigido para a Arca Santa, e se sentaram. Alguns soluçavam, outros suavam frio e outros estavam imóveis como uma estátua.
O Rabino Kaplan voltou a seu posto, no púlpito. Sua voz, na qual se percebia ligeiro tremor, dizia: "Meus irmãos, acabamos de presenciar um milagre. Estamos salvos, pois no momento de grave perigo voltamo-nos em direção à porta de entrada, para acolher a chegada do Shabat, a Noiva de Israel. Os homens malignos se foram, mas a Noiva permanece conosco. Saudêmo-la!" Conseguindo recuperar a voz e o fôlego, a congregação entoou o verso final da oração: "Vem, ó Noiva, juntos damos as boas vindas ao Shabat".

Nunca saberemos ao certo o que se passou na cabeça dos quase-assassinos naquela fração de segundo em que a pequena congregação de judeus franceses os encarava, como um grupo, ao ponto de os assustar e demover de seus intentos malignos. Em Lyon, hoje em dia, os judeus mais idosos ainda comentam o milagre do "Lechá Dodi".