As sinagogas em chamas, os rolos da Torá queimados, o barulho ensurdecedor de centenas de milhares de vidros estilhaçados, a dor e desespero de milhares de judeus continham um presságio: não havia mais esperança para a vida judaica na Alemanha nazista.

Cerca de 1.400 sinagogas incendiadas e destruídas, cerca de 100 judeus mortos, milhares feridos, centenas desabrigados, casas e lojas destruídas, quase trinta mil judeus presos e enviados para os campos de concentração de Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen, nos quais muitos morreriam, posteriormente. Além de centenas de milhares de cacos de vidro espalhados pelo chão. Este foi o saldo da violência indiscriminada contra a população judaica da Alemanha e da Áustria, no dia 9 de novembro de 1938, e que se tornou conhecida como a Kristallnacht - Noite dos Cristais - uma referência às incontáveis vidraças, janelas e vitrinas destruídas pelas tropas de choque nazistas e pela população alemã. Era um movimento orquestrado nas altas esferas do Reich, mais especificamente por Adolf Hitler e seu ministro da Propaganda, Joseph Goebbels. O terror da Noite dos Cristais foi apenas o começo do longo período de trevas que cercou o judaísmo europeu e no qual seis milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas.

O pretexto para a violência foi o assassinato de um funcionário da embaixada alemã em Paris, no dia 7 de setembro, por um jovem judeu polonês de 17 anos, que vivia em Paris Herschel Grynszpan. Entretanto os eventos que culminaram na noite de 9 de novembro haviam começado, na verdade, em outubro de 1938, quando 20 mil judeus que viviam na Alemanha foram mandados para a fronteira da Polônia. Entre eles, encontrava-se a família Grynszpan. Em uma região considerada terra de ninguém, foram amontoados em estábulos, sem alimentos ou assistência. Foi quando Zindel Grynszpan decidiu escrever a seu filho Herschel, em Paris. Ao receber uma carta de sua família, relatando a situação na qual se encontravam, o jovem ficou desesperado. Sua família, bem como a de outros judeus poloneses que viviam na Alemanha, havia sido deportada para a região de Zbaszyn (Polônia), na fronteira com a Alemanha, e passava dificuldades. O governo polonês recusava-se a reconhecer a sua cidadania e, conseqüentemente, toda a família era agora apátrida.

Grynszpan decidiu tomar uma atitude desesperadora para chamar a atenção do mundo sobre a situação de sua família e dos judeus na Alemanha. Dirigiu-se à Embaixada alemã, alegando ter uma "encomenda" para entregar ao embaixador. Foi encaminhado ao escritório do Terceiro Secretário, Ernst von Rath. Ao entrar na sala, o jovem atirou no funcionário alemão. Para o governo alemão o fato era uma "prova da conspiração judaica contra a Alemanha". No dia 9 de novembro, Ernst von Rath morreu vítima dos graves ferimentos. Ao saber dessa morte, Hitler, furioso, teria dito a Goebbels: "As tropas de choque devem ter permissão para agir". Ao que Goebbels teria respondido: "Se os distúrbios se intensificarem e se espalharem por outras regiões além de Berlim, não devem ser contidos". Além de não serem contidos, foram incentivados por membros do partido nazista.

Os antecedentes da violência

É impossível entender e avaliar o que aconteceu na noite de 9 de novembro de 1938 sem analisar a Alemanha nos anos que precederam aquela data fatídica. Assim que, em 1933, Hitler e seu partido assumiram o poder na Alemanha, iniciou-se um ataque sistemático e declarado aos judeus. Milhares de livros e ensaios têm sido escritos na tentativa de entender o porquê de tanto ódio, mas qualquer que seja a verdade, o resultado foi um só: para Hitler e o partido nazista o ódio contra os judeus era "fundamental", permeando toda a sua política. Nos doze anos em que Hitler ficou no poder, foi declarada uma guerra sem fronteiras contra o povo judeu. Este foi vítima de todo tipo de violência física, econômica, social, política e psicológica.

Nos primeiros anos, a política anti-semita de Hitler foi refreada, segundo o historiador Paul Johnson, por razões de cunho econômico e militar: a economia alemã precisava ser sanada rapidamente e isto significava evitar a expulsão imediata da rica comunidade judaica. Além do mais, Hitler queria rearmar a Alemanha e precisava, portanto tranqüilizar a opinião pública mundial e, por isso, evitou maiores atos de crueldade. Durante esse período foram adotadas rígidas medidas "legais" contra os judeus, visando torná-los párias da sociedade. Ao mesmo tempo, eram organizados boicotes e todas as lojas de judeus sofriam constantes ameaças. Ações individuais de violência passavam, propositalmente, ao largo da vista dos governantes. 

Em 1935, os Decretos de Nüremberg colocaram em prática o programa original do Partido (1920), ao privar os judeus de seus direitos fundamentais e ao começar o processo de separá-los do restante da população. Já em 1935, a idéia de uma "solução final para o problema judaico" estava presente nos discursos de Hitler. Não se tratava apenas de uma "idéia" - os instrumentos para esta "solução" já estavam sendo preparados.

Por volta de 1938, a economia alemã retomara ímpeto, a Alemanha havia-se rearmado e o poder econômico dos judeus fora destruído. Naquela altura, mais de 200 mil judeus haviam fugido da Alemanha. Mas, com a anexação da Áustria, um número equivalente de judeus austríacos passou a fazer parte do Terceiro Reich. A política até então adotada não dava os resultados esperados: uma AlemanhaJüdenrein – livre de judeus. Hitler estava pronto para levar adiante a segunda fase de sua “política”: destruir todos os judeus onde quer que estivessem. Só precisava de um pretexto para deslanchar seu famigerado plano. Esperou pacientemente e o pretexto surgiu no dia 9 de novembro.

A Noite dos Cristais

No decorrer da Noite dos Cristais a violência foi orquestrada com precisão. A SS colocou grupos nas ruas especialmente para incendiar e destruir todas as sinagogas. Estas eram o principal alvo da violência. Membros do partido nazista destruíram e pilharam casas e lojas de judeus. Depoimentos de inúmeras testemunhas dão uma idéia do pesadelo daquele 9 de novembro. "Nas primeiras horas do dia, ouvi um barulho ensurdecedor, como se fosse uma onda se aproximando. Desci as escadas e, de longe, vi a multidão. Então, alguns judeus se aproximaram de mim e disseram: ‘Corra, esconda-se, eles estão matando judeus, invadindo, depredando e queimando casas’, lembra Shimon Banai, que morava em Berlim.

Ao falar sobre aquele dia, relembra que foram feitas grandes fogueiras nas ruas:"Invadiram a sinagoga, retiraram os livros sagrados, os rolos da Torá e os jogaram na fogueira, dançando ao redor delas... Desci as escadas, tentando ver melhor o que acontecia... Tudo estava destruído... Vi pessoas que haviam sido surradas sangrando pelas ruas, vi outras cercadas por gangues e apanhando incessantemente, além de corpos estendidos no chão. Móveis foram atirados pelas janelas, travesseiros destruídos e suas penas espalhadas pelo ar ou jogadas diretamente nas chamas. Todas as lojas de judeus tiveram suas vitrines quebradas e os cacos de vidros inundavam o chão". 

Estas cenas repetiram-se na maioria das cidades alemãs e austríacas, sempre com a participação de membros do partido nazista e das tropas de choques misturados aos civis. Os distúrbios acabaram sendo controlados horas depois por interferência de Heinrich Himmler, que, preocupado com a repercussão internacional dos fatos, determinou às SS e às forças policiais sob seu comando que impedissem a ampliação da violência e prendessem 20 
mil judeus enviando-os para campos de concentração.

Os nazistas responsabilizaram os judeus pelos "distúrbios" e pela destruição ocorrida, determinando que a população judaica deveria pagar uma multa de 1 bilhão de marcos (cerca de 400 milhões de dólares). A multa implicava o confisco compulsório de 20% das propriedades de todo judeu da Alemanha. Além disso, o pedido de indenização por parte de judeus nas cortes de justiça foram anulados por um decreto oficial. Foram também anuladas as acusações de terem assassinado judeus contra 23 nazistas. Outros quatro acusados de terem estuprado mulheres judias foram expulsos do partido, pois era "necessário estabelecer uma distinção" entre delitos praticados por "idealismo" dos demais. 

Os acontecimentos da Noite dos Cristais foram novamente usados para promulgar mais uma onda de medidas "legais" contra os judeus. A primeira aconteceu já no dia 12 de novembro, três dias após a expedição da ordem de confisco: as crianças judias foram proibidas de freqüentar as escolas alemãs.

A Noite dos Cristais foi um evento de enorme significado, que marcou a mudança da política alemã em relação à população judaica. Esta deixou de ser apenas uma opressão política e econômica para se transformar em uma perseguição física brutal abertamente implantada. Os eventos da Noite dos Cristais não deixavam dúvidas sobre dois fatos: judeus não tinham lugar na Alemanha nazista e os nazistas estavam prontos para derramar o sangue judaico, sem titubear. Estava aberto o caminho que levou à destruição de comunidades inteiras na Europa e à morte de seis milhões de pessoas - pelo simples fato de serem judeus.

Bibliografia:
• Kristallnacht Remembered: Sixty Years Later, artigo de Gália Limor publicado na revista bimestral Jerusalém-Yad Vashem, volume 11, outono de 1998. 
• Goldhagen, Daniel J., Hitler’s Willing Executioners, Random House, N.Y.
• Johnson, Paul, História dos Judeus, Imago 
• Slater, Elinor e Slater, Robert, Great Moments in Jewish History- Nazi Terror Presaged on Kristallnacht

"Invadiram a sinagoga, retiraram os livros sagrados, os Rolos da Torá e os jogaram na fogueira, dançando ao redor delas... 
Desci as escadas, tudo estava destruído...”