Morashá
Inferno em Sobibor Foto Ilustrativa

Inferno em Sobibor

Há mais de 40 anos fui procurado na redação da revista Manchete por um judeu baixinho, careca, bigode fino, um tanto nervoso. Chamava-se Stanislaw Szmajzner, vindo de Goiás onde era fazendeiro. Trazia um calhamaço de papéis, o manuscrito de um livro que acabara de escrever. Queria saber se a Editora Bloch poderia editá-lo.

Edição 87 - Março de 2015


    

Por falta de tempo imediato para ler, encaminhei o manuscrito ao jornalista Macedo Miranda, na época diretor do Departamento de Livros da empresa. Decorrido algum tempo, ele me disse: “Do jeito que está, é impossível publicar. O livro está cheio de erros de português, mas o conteúdo é fascinante, principalmente por causa da revolta dos judeus confinados no campo de concentração de Sobibor”.

Convoquei o Stanislaw, transmiti-lhe o diagnóstico e perguntei se poderíamos reescrever o livro. Aceitou na hora e deu-me carta branca. Não me lembro de quem foi incumbido daquela tarefa, cabendo-me a revisão final. Assim nasceu o livro Inferno em Sobibor, lançado em 1968 e que obteve fraca repercussão tanto de crítica como de público, embora ainda seja um documento histórico da maior importância e se trate, de fato, de um trabalho extraordinário no segmento universal das obras memorialistas. Alguns excertos do livro poderão ser lidos mais adiante.

Até hoje não se sabe a razão pela qual os nazistas fizeram de tudo para esconder a existência de Sobibor. Um sobrevivente daquele campo, chamado Toivi Blatt, escreveu suas memórias e entregou o manuscrito a um amigo polonês que lhe disse: “Você tem muita imaginação. Eu nunca ouvi falar de Sobibor, muito menos de uma revolta que ali teria acontecido”. Entretanto, a verdade é que Sobibor realmente existiu e operou durante 18 meses a partir de abril de 1942. Nesse tempo, lá foram mortos 250 mil judeus, homens, mulheres e crianças. Sobibor era parte da chamada Ação Reinhard que também compreendia os campos de Belzec e Treblinka. O local do campo foi escolhido por se situar perto de uma aldeia polonesa do mesmo nome, no distrito de Lublin, Polônia oriental.

O local era conveniente porque ficava numa região quase isolada e em cuja proximidade passava uma ferrovia. Sua construção começou em março de 1942. Como as obras atrasaram, o responsável foi substituído por Franz Stangl, que chefiou o campo entre abril e agosto daquele ano, quando foi transferido para Treblinka, onde se tornou o supremo comandante. Em Sobibor, no início, ele tinha como subordinados 20 homens das tropas SS e uns 100 guardas ucranianos que se haviam aliado aos nazistas. As vítimas eram desembarcadas na estação da estrada de ferro e depois seguiam para o campo, conduzidas pelos ucranianos que vestiam fardas negras. O aspecto mais bizarro daquele desembarque é que aqueles judeus estavam quase todos bem vestidos e traziam volumosas bagagens, porque os alemães os haviam enganado, dizendo que seriam apenas deslocados para a parte oriental da Europa. Por cúmulo do cinismo, eram recebidos por prisioneiros judeus que lhes entregavam tickets correspondentes às suas bagagens. Alguns dos desembarcados inclusivenãose furtavam a lhes dar gorjetas.

Um oficial das SS, chamado Gustav Wagner, separava os recém-chegados em dois blocos: de um lado, os homens, de outro, mulheres e crianças. Os guardas começaram a perguntar quais dentre os cativos eram ferreiros, agricultores, carpinteiros, alfaiates, costureiras e outras profissões. Aqueles que se voluntariaram, jamais tornaram a ver seus filhos, ou maridos e esposas.
Stanislaw, então com quinze anos de idade, recordou: “Como não chamaram a profissão de joalheiro, tomei coragem e aproximei-me de um imenso alemão a quem expliquei o que sabia fazer e mostrei-lhe minha maleta de ferramentas. Ele me tirou do bloco dos homens e eu acrescentei que ali também estavam meus três irmãos, todos do mesmo ofício. O alemão nos separou dos demais prisioneiros e disse que conversaríamos no dia seguinte”.

Os quatro jovens ganharam, dias depois, um pequeno espaço transformado em oficina onde começaram a fazer joias e outros adereços para os nazistas. Um dos primeiros a fazer-lhes a encomenda de um monograma de ouro foi Gustav Wagner, chefe do Campo 1 (em Sobibor havia três campos separados), onde ficavam os judeus com profissões definidas. À medida que Stanislaw se desdobrava como ourives, milhares de seres humanos eram conduzidos para as câmaras de gás e, em seguida, para os fornos crematórios.

Os prisioneiros do Campo 3 eram levados por guardas ucranianos para tarefas agrícolas e, enquanto caminhavam, alinhados em coluna por um, eram obrigados a cantar hinos nazistas. Stanislaw escreve: “Um dia, eu estava ajudando no trabalho do jardim, quando um SS chamado Karl Frenzel puxou seu revólver e atirou no homem que estava bem ao meu lado. Até hoje não sei o motivo daquele assassinato a sangue frio”.

A rigor, o campo de Sobibor estava tão bem enquadrado nas normas nazistas, que os guardas alemães e ucranianos se entediavam. Era quando se tornavam mais perigosos e, para passar o tempo, inventavam “brincadeiras”. Uma delas consistia em colocar um rato dentro das calças de alguém. Se este infeliz se movesse, era castigado com chibatadas. Na rotina da morte nascâmaras de gás, os judeus vindos dos trens eram guiados atéum barracãoonde se liachuveiros. Então, um oficial da SS fazia o seguinte discurso: Vocêsirãopara a Ucrânia para trabalhar. Épreciso evitar qualquer tipo de epidemia e, portanto, vocês terão agora que tomar um banho desinfetante. Tirem e dobrem suas roupas. Lembrem-se bem do lugar aonde as deixarão porque depois eu não poderei ajudar. Os objetos de valor devem ser entregues na entrada dos chuveiros”.

Stanislaw Szmajzner nasceu na cidade de Pulawi, Polônia, no dia 13 de março de 1927. Seus pais eram judeus ortodoxos e, desde cedo, ele aprendeu o ofício de ourives, ao mesmo tempo em que frequentava o ginásio numa escola judaica onde o ensino era em hebraico. Quando Pulawi foi bombardeada pelos alemães, Stanislaw fugiu sozinho para o Leste polonês, então ocupado pela União Soviética. Achou que encontraria refúgio junto ao exército russo. Acabou se perdendo e voltou para Pulawi, cidade de longa tradição antissemita, e ele foi apontado como judeu, logo sendo preso.

Conseguiu escapar e rumou para Walwonica, onde, num chalé abandonado, encontrou os pais, um irmão e uma irmã. Foram descobertos e fugiram para Kazimierz. Ali trabalharam num estábulo, mas, passando fome, se deslocaram para o gueto da cidade de Opole. Foi dali que saiu, no dia 12 de maio de 1942, o primeiro trem para Sobibor. A bordo estavam os Szmajzner, junto com outros dois mil judeus. Stanislaw nunca mais reencontrou sua família. No campo, o ouro que lhe davam para trabalhar era tirado dos dentes dos judeus assassinados. Stanislaw trabalhava com afinco porque as encomendas na oficina se multiplicavam. Terrível ironia: os SS exigiam adereços para ornamentar os chicotes com que golpeavam suas vítimas.

Em um de seus relatos mais pungentes, Stanislaw escreveu: “A rotina em Sobibor foi mudando a olhos vistos. Começamos a viver num verdadeiro regime militar. Às sete horas da manhã tínhamos que estar formados para receber as instruções sobre as tarefas diárias. Antes, porém, havia a contagem dos judeus na presença de Wagner. Se ocorria uma falta, o responsável pelo bloco recebia a punição de 25 chibatadas. As contagens eram repetidas na hora do almoço e antes de nos recolhermos, à noite. Começamos a ver os repetidos castigos como simples incidentes”.

Na verdade, os relatos de Stanislaw parecem corresponder mais àficção do que à realidade. Durante o dia, os nazistas se empenhavam no ritual das crueldades e das matanças. E à noite? “No pátio destinado aos alemães, ergueu-se um cassino para os oficiais. Era lá que eles comiam, bebiam e se divertiam. Muitas vezes organizavam verdadeiras orgias para comemorar as vitórias dos exércitos nazistas. Nessas ocasiões cantavam e bebiam até alta madrugada, promovendo uma algazarra infernal”.

Depois de um breve intervalo  durante o qual menos trens chegaram a Sobibor, foi retomado o ritmo acelerado dos transportes. Certa tarde, chegaram ao campo centenas de judeus bem vestidos, até mesmo parecendo turistas, um contraste com os usuais maltrapilhos oriundos dos guetos da Polônia. Tinham vindo da Checoslováquia e foram alinhados no pátio até perto do anoitecer. A um dado momento, todos se posicionaram na direção do Oriente, colocaram talitim (xáles para orações) e começaram a rezar com intenso fervor. Pacientemente, os nazistas esperaram que as orações terminassem e então os levaram para a câmara de gás.

Tanto em Sobibor quanto em outros campos de concentração, os alemães se preocupavam em aprimorar a logística do assassinato em massa. Em Sobibor, por exemplo, construíram uma extensão da estrada de ferro que começava bem em frente aos “chuveiros” e terminava na boca do forno do Campo 3. Assim poupavam o tempo de levar os mortos da câmara até as fornalhas. Em outra ocasião, apareceu no barracão do Campo 1 um médico judeu. Era, porém, um pobre velho quase inválido. Como não dispunha de nenhum recurso, era inútil para os prisioneiros. Quando alguém adoecia, o carrasco Gustav Wagner vinha perguntar há quanto tempo aquela pessoa estava na cama. Se dois dias tivessem decorrido, o doente era enrolado num cobertor e levado para o Campo 3, o campo da morte.

Stanislaw assinala o dia 15 de maio de 1943 como o do início da rebelião. A paisagem humana de Sobibor se havia modificado com a chegada de prisioneiros do exército russo, a maioria judeus, todos fortes, arrogantes e inconformados. Seu líder era o judeu Sasha Perchevsky, filho de um proeminente advogado em Moscou. Foi ele quem começou a tramar a revolta. Testemunho de Stanislaw: “Pensávamos num levante, porém faltava alguém para impulsioná-lo. Ninguém melhor do que o Sasha para o liderar. Daquele momento em diante, ele seria o nosso condutor junto com os judeus russos, que possuíam comprovada experiência militar e isso nos dava ilimitada confiança”. Do lado judeu, Sasha fez sólida parceria com o polonês Leon Feldhendler, filho de um rabino. (No filme para a televisão, Fuga de Sobibor, de 1987, o russo é interpretado por Rutger Hauer e o judeu por Alan Arkin). Ambos conspiravam no mais absoluto silêncio e segredo porque achavam que alguns covardes poderiam delatá-los aos alemães.

A sugestão inicial de Sasha foi escavar umtúnel que fosse além da cerca de arame farpado do campo. Começaram a trabalhar nessa tarefa, mas ele logo concluiu que não haveria tempo para que todos os prisioneiros rastejassem pelo túnel em direção à liberdade. Além disso, caiu uma forte chuva e o buraco desmoronou. A ideia foi abandonada. Sasha e Leon reuniram, então, as pessoas em quem confiavam e ordenaram que usassem todos os tipos de madeira e metal para fazer armas: facas, facões, machados e furadoras, por mais rudimentares que fossem. No dia 12 de outubro, Gustav Wagner foi transferido para outro campo e isso encheu de coragem os revoltosos. Wagner era um homem inteligente, perspicaz, e tinha o hábito de aparecer de forma inesperada nos lugares menos previsíveis. Sua ausência era um bom sinal. Naquela noite o russo informou aos companheiros que a rebelião estava em pleno andamento.

O plano básico de Sasha e Leon consistia em atrair osSS para locais onde diferentes atividades eram desenvolvidas em Sobibor. Na adolescência dos seus 16 anos de idade, Stanislaw, que todos no campo chamavam de Shlomo, foi designado para uma tarefa crucial: entrar no depósito de armas dos ucranianos, retirá-las e fornecer a maior quantidade possível de rifles para os revoltosos. Ele era o único que poderia se incumbir dessa missão porque gozava de particular liberdade para circular pelo campo e tinha os alicates capazes de romper os cadeados das estantes de armas. Enquanto isso, os combatentes deveriam ir tomando as estratégicas posições que lhes haviam sido designadas.

O oficial Josef Niemann, um dos mais perversos de Sobibor, desmontou de seu belo cavalo e entrou na alfaiataria onde encomendara um novo uniforme. Enquanto provava a roupa, foi abatido com um golpe de machado na cabeça. Arrastaram seu corpo às pressas para o fundo da alfaiataria porque o chefe dos guardas ucranianos começava a cruzar a porta de entrada. Foi morto a facadas. Em seguida entrou outro ucraniano, o guarda Klat, que teve o mesmo destino.

O oficial Goettinger, responsável pelo Campo 3, foi chamado à sapataria para experimentar seu novo par de botas. Também morreu com um golpe de machado na cabeça. O oficial Gaulstich foi emboscado e morto na carpintaria. Outro nazista, chamado Beckman, foi eliminado por três prisioneiros em sua mesa de trabalho. Como era corpulento para ser carregado ou escondido, deixaram seu corpo ali mesmo. O oficial Walter Ryba entrou na garagem das SS e foi morto por um mecânico que ali trabalhava.

Os prisioneiros se reuniram no pátio às cinco da tarde, meia hora antes da contagem. Às cinco e dez, Sasha faria soar um apito depois do qual todos deveriam correr na direção das cercas e do portão. Mas, ele percebeu que seria impossível que a fuga se desse de forma ordeira. Subiu no capô de um veículo e gritou: “Nosso dia chegou! Os carrascos estão mortos e nós vamos morrer com honra. Quem sobreviver, terá que contar ao mundo o que aconteceu aqui”.

Relato de Stanislaw: “O grosso da multidão corria para o local que dava acesso ao pátio dos oficiais da guarda ucraniana. Naquele instante vinha entrando um deles. Morreu esmagado, estraçalhado sob as centenas de pés daquele rolo compressor. Enquanto os soldados de plantão atiravam sobre nós com fuzis e metralhadoras, seguimos para as três cercas próximas à saída principal de Sobibor. Passando sobre centenas de cadáveres, continuamos avançando e logo começamos a pisar num terreno todo cheio de minas explosivas. Mais mortes. A um certo momento, peguei meu fuzil de forma desajeitada e disparei quatro vazes na direção de uma das torres de vigilância que nos atingia. Soube depois que meus tiros acertaram no guarda ali postado”.

Os prisioneiros que conseguiram escapar chegaram a uma floresta adjacente ao campo de concentração. O primeiro desejo de todos foi tentar encontrar parentes e amigos. Poucos tiveram essa sorte. Decidiram, então, se dividir em pequenos grupos que sairiam em busca de comida e abrigo. Sasha Perchevsy liderou um grupo de cinquenta ex-prisioneiros e no dia 17 de outubro lhes disse que se ausentaria para conseguir alimentos. Nunca mais voltou, nunca mais foi visto pelos companheiros de rebelião. (Ele regressou à União Soviética onde foi preso, acusado de ser um cosmopolita judeu. Depois de solto, continuou sendo perseguido, levou uma existência obscura e morreu em 1990).

Dos 300 prisioneiros que escaparam, 100 foram recapturados pelos nazistas. Os 200 restantes vagaram pela floresta em busca de esconderijos e muitos deles foram assassinados ao longo dos seus percalços por poloneses civis e poloneses partisans. Entre esses mortos estava Leon Feldhendler. Ao final da epopeia, sobreviveram apenas de 50 a 70, entre os quais Stanislaw Szmajzner. “Andamos durante toda a noite e achamos um lugar para descansar. Começamos a divagar e a fazer perguntas a nós mesmos, pois estávamos completamente atordoados”.

Ele se separou dos demais companheiros e decidiu comandar a própria sorte. Depois da guerra, enfrentou inúmeras e perigosas andanças pela Polônia, parando em cidades pequenas e não tão pequenas  e ganhando o sustento como ourives. Juntou-se a um grupo de judeus que aguardava ser levado para a então Palestina em navios ilegais. Julgou que já tinha assumidos riscos demais e desistiu da empreitada. Sabia que tinha parentes no Brasil e, com o dinheiro poupado, chegou até a Itália, embarcando em Gênova para o Rio de Janeiro. Em seguida, inesperadas circunstâncias levaram-no a se estabelecer numa fazenda no estado de Goiás, onde começou a escrever seu livro de memórias.

Em 1967, o célebre caçador de nazistas, Simon Wiesenthal, conseguiu detectar a presença de Franz Stangl na capital de São Paulo. Stangl, nascido na Áustria em 1908, entrou para o partido nazista em 1938, quando a Áustria foi anexada pela Alemanha. Revelou-se um eficiente cumpridor de ordens e foi destacado para a Gestapo. Começou a atuar no Centro de Eutanásia da cidade de Linz, onde eram sacrificados deficientes físicos e mentais de toda sorte. Em 1942, recebeu a incumbência de acelerar a construção do campo de concentração de Sobibor. Ali permaneceu de abril a agosto daquele ano, deixando como legado um manual de instruções para o sistemático extermínio de judeus. Foi transferido para Treblinka, onde a matança de judeus obedecia ao ritmo de 22 mil por dia. Por sua eficiência, recebeu a cobiçada “Cruz de Ferro” do exército alemão. Depois da guerra foi preso pelos aliados que procuraram desvendar seu passado. Permaneceu durante dois anos num campo de internação, de onde escapou rumo à Itália.

Em Roma, obteve com o notório bispo Alois Hudal documentos falsos, surpreendentemente com seu verdadeiro nome, e viajou para a Síria, onde obteve emprego numa indústria têxtil, sua especialidade anterior ao engajamento nazista. Em 1951, resgatou a mulher e a filha, que se encontravam na Alemanha, e a família embarcou para o Brasil.

Segundo Wiesenthal, o paradeiro de Stangl lhe foi informado no final de 1966, por um antigo oficial da Gestapo que queria ser remunerado para colaborar. Ele fez uma conta assombrosa e repugnante. Como em Treblinka haviam sido exterminados 700 mil judeus, queria um centavo por cabeça. Assim, o total chegou a 7 mil dólares, que seriam pagos (como de fato foram) se a informação fosse verdadeira e se Stangl fosse preso. Wiesenthal passou a informação para o Mossad (serviço secreto de Israel), que acabou encontrando Stangl como funcionário menor da fábrica Volkswagen, em São Paulo. Era uma situação delicada porque a Volkswagen fora bem acolhida pelo governo brasileiro, já era uma empresa de prestígio internacional e abrigava milhares de trabalhadores brasileiros. A prisão do carrasco de Treblinka e Sobibor só se consumaria se houvesse a concordância do governador Abreu Sodré, que, sem titubear, encaminhou a questão à Secretaria de Segurança.

A prisão foi efetuada no dia 28 de fevereiro de 1967 e Stanislaw foi chamado para colaborar na identificação. A então Alemanha Ocidental requereu a extradição de Stangl, concedida pelo Brasil. Entretanto,  foi levantada uma controvérsia jurídica: por que ele seria julgado na Alemanha se os seus crimes haviam sido cometidos na Polônia? O poder judiciário alemão discutiu o assunto durante três anos até concluir que Stangl fora responsável pelo assassinato de 1 milhão e 200 mil pessoas e, assim, os crimes contra a humanidade se sobrepunham à questão da jurisdição. O julgamento de Stangl teve início em Dusseldorf, no dia 13 de maio de 1970. O livro Inferno em Sobibor foi traduzido para o alemão e serviu como um dos principais itens da promotoria, e Stanislaw foi convocado como testemunha.

Enviei um repórter e um fotógrafo da sucursal da Manchete em Paris para cobrirem o julgamento. Numa das sessões do tribunal, o inquieto Stanislaw saiu de seu lugar, caminhou até o banco dos réus e ofereceu um cigarro a Stangl, dizendo: “Você nunca me deu nada, mas deixe eu lhe dar alguma coisa”. O cigarro foi recusado e o fotógrafo captou aquele exato momento, mostrando o Stanislaw com o braço estendido.

Franz Stangl não contestou a maioria das acusações que lhe foram imputadas e foi condenado à prisão perpétua. Seis meses depois do julgamento ele morreu vítima de um infarto na prisão, mas pouco antes concedeu uma entrevista histórica à jornalista Gitta Sereny, um dos depoimentos mais contundentes relativos ao Holocausto. Ele disse, entre outras informações, que tinha a consciência tranquila porque via as pessoas desembarcando dos trens como se fossem apenas um carregamento. Acrescentou que jamais teve ódio dos judeus, mas que sentia orgulho pelo perfeito trabalho que havia implantado nos campos de concentração e pelo fato de nunca ter matado alguém com as próprias mãos. Por fim, assim como fez Eichmann em Jerusalém, insistiu que estava apenas cumprindo ordens.

No tribunal, Stangl revelou que um dos chefes de Sobibor, Gustav Wagner, também se encontrava no Brasil e também no estado de São Paulo. Wiesenthal informou o Mossad, que, agindo junto com a polícia paulista, localizou o criminoso num lugarejo entre as cidades de Mairiporã e Atibaia. Ao ser preso, no fim de maio de 1978, Wagner apresentou o nome falso de Gunther Mendel, que usava há trinta anos, e negou que tivesse qualquer relação com o regime nazista ou com Sobibor. Foi levado a uma delegacia na capital e ali aconteceu um episódio em estilo de dramaturgia. Stanislaw estava sentado num banco quando Wagner passou junto dele e seguiu em frente. Stanislaw gritou: “Gustl!” (Seu apelido no campo). O carrasco virou a cabeça de imediato e deu de cara com Stanislaw, que lhe disse: “Eu tinha quinze anos. Você me tirou do trem a pontapés, lembra?” Wagner respondeu: “Sim, sim, você e mais três irmãos”. Stanislaw: “Não eram meus irmãos, eram meus amigos”. A identificação do nazista estava consumada. Mais uma vez a Alemanha Ocidental pediu a extradição, mas a justiça brasileira negou, tendo em vista a controvérsia jurídica anterior. No dia 12 de junho, preso na Polícia Federal, em Brasília, Wagner amassou as lentes de seus óculos e tentou suicidar-se, ingerindo os cacos de vidros. No mesmo dia, as autoridades emitiram o seguinte comunicado: “O Departamento de Polícia Federal informa que na madrugada de hoje, Gustav Wagner, após fragmentar as lentes de seus óculos com o solado de seus sapatos, passou a ingerir o vidro triturado, no que foi impedido pelo policial responsável por sua guarda. O cidadão em referência continua submetido a assistência médica diária”. Gustav Wagner morreu de infarto na prisão em outubro de 1980.

A última vez que me encontrei com Stanislaw foi no início de 1987. Estava eufórico. Tinha chegado da antiga Iugoslávia onde atuara como consultor durante as filmagens de Fuga de Sobibor. Garantiu que o filme, fora algumas poucas licenças para efeitos dramáticos, é um retrato fidelíssimo dos acontecimentos naquele campo de concentração. Voltou para Goiás, de onde me mandou um saco de arroz e outro de feijão. Morreu dois anos depois. Desconheço o motivo.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista.