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Franceska Mann, símbolo  de resistência e bravura Franceska Mann

Franceska Mann, símbolo de resistência e bravura

23 de outubro de 1943. No vestiário do Crematorium II de Auschwitz-Birkenau, quando poucos passos a separavam das câmaras de gás, Franceska Mann, uma bailarina judia polonesa, consegue arrebatar a arma de um oficial nazista e dispara, acertando-o em cheio. Esse relato de testemunhas oculares consta dos anais do Tribunal Militar Internacional, de Nuremberg.

Edição 106 - Dezembro de 2019


Esse ato de resistência judaica, perpetrado por uma mulher, foi tema central do enredo que a Companhia de Balé de Jerusalém apresentou em um espetáculo estreado em setembro último, intitulado “Memento”, ou lembrança. Coreografado e dirigido por Nadya Timofeyeva, jovem diretora artística do Jerusalem Ballet and School of Ballet, é uma homenagem à coragem e determinação de Franceska, uma jovem prima ballerina judia que vivia na Polônia antes da 2ª Guerra Mundial. Como explicou a diretora, “Trata-se de um balé sobre a esperança dela, sua vida, sua tenacidade, sua bravura”. Coincidentemente, a estreia foi em Tel Aviv, no Suzanne Dellal Center, em 1º de setembro, exatos 80 anos após a invasão da Polônia pelos exércitos do Terceiro Reich.

O balé transporta o público ao passado, dando-lhe a sensação de conhecer uma certa família judia que vivia na Europa antes e durante a 2a Guerra Mundial. Nas palavras de Nadya Timofeyeva, “é importante lembrar-se deles e saber como foi súbita e rápida a mudança de sua vida… Tudo o que era bom se transformou em tragédia… O leit motif que acompanha todo o espetáculo é a enorme esperança de Franceska de que o mundo visse o que ocorria na Europa e fizesse algo para deter aquela fúria. Outro aspecto no tema central é a sua firme determinação pessoal de não perder as esperanças até o momento final (…). No último pas de deux, quando ela sabe que está para morrer, a bailarina enrosca seu corpo em torno do nazista e o esmaga, completamente”. Doze bailarinos participam do espetáculo, além de Adam Greenfeld, um ex-soldado das Forças de Defesa de Israel, com necessidades especiais, que representa o pai de Franceska.

Mas quem foi Franceska Mann? Seu nome quase não aparece nos livros de história sobre a Shoá, permanecendo praticamente desconhecida. Timofeyeva teve que cavar fundo, recorrendo a Yad Vashem para juntar os pedaços e traçar sua história.

A vida de Franceska Mann

Franciszka Manheimer-Rosenberg, seu nome verdadeiro, nasceu em fevereiro de 1917, em Varsóvia, em uma família judia com posses. Desde cedo mostrou interesse pelo balé, no que foi incentivada pelos pais. Estudou, com muito afinco, com os melhores professores da Polônia. Era uma jovem linda, de cabelos escuros encaracolados, um sorriso glorioso e um futuro promissor. Seu sonho de uma carreira de sucesso no mundo da dança parecia estar-se tornando realidade.

Chegou a ser considerada uma das bailarinas mais lindas e promissoras de sua geração, tanto no balé clássico quanto no moderno, e suas apresentações eram sempre muito apreciadas.

Mas, a exemplo do que ocorreu com os outros judeus poloneses, sua vida mudou radicalmente em setembro de 1939, quando os exércitos do Terceiro Reich invadiram a Polônia. Em Varsóvia sob ocupação alemã, ela foi obrigada a se mudar para o Gueto, assim como todos os outros judeus da cidade. As condições de vida dentro do Gueto eram escabrosas: fome, doenças, falta de medicamentos e de saneamento básico dizimavam sua população.

Não há informações sobre a vida de Franceska no período em que viveu no Gueto, nem como ou quando conseguiu sair e se esconder no lado ariano. Sabe-se, com certeza, que sobreviveu às grandes deportações e à liquidação do Gueto em maio de 1943.

Franceska e o “Caso do Hotel Polski”

Em maio de 1943, uma esperança tomou conta dos judeus que haviam sobrevivido à liquidação do Gueto de Varsóvia. Ninguém mais duvidava que as intenções nazistas eram o extermínio dos judeus europeus. Espalhou-se a notícia de que, no hotel situado na Rua Dluga, 29, podiam-se comprar, a um alto custo, passaportes de países da América do Sul. Estes garantiriam àqueles judeus escondidos no lado ariano a possibilidade de deixar a área do Governo Geral. Para eles, conseguir um passaporte representava a única esperança de escapar da morte.

A questão, que acabou sendo conhecida como o “Affair do Hotel Polski”, continua sendo debatida pelos estudiosos do Holocausto, e Rua Długa, 29, permanece sendo o endereço mais enigmático do Gueto de Varsóvia. De acordo com o Instituto Histórico Judaico “Emanuel Ringelblum”, para uma melhor compreensão do caso deve-se voltar a 1941 e 1942. Havia duas organizações judaicas que operavam na Suíça ajudando os judeus que se encontravam sob ocupação nazista e que contavam com a colaboração dos Cônsules Honorários de vários países sul-americanos, que emitiam passaportes e os enviavam à Polônia.

A maior parte desses documentos nunca chegaram a seus destinatários, que morreram durante à grande ação de liquidação do gueto. Não se sabe exatamente como, após a supressão do Levante do Gueto de Varsóvia, esses passaportes chegaram às mãos de dois colaboradores judeus: Leon Skosowski e Adam Żurawin, que passaram a vende-los. No início, o ponto de contato para a aquisição de um passaporte era o Hotel Rogal, no no 31 da Rua Chmielna, mudando-se posteriormente para o Hotel Polski, na Rua Dluga, 29. Supostamente, os pontos de partida para aqueles que tinham comprado os passaportes seriam certos campos especiais, na França, onde seriam trocados pelos prisioneiros de guerra alemães internados pelos Aliados.

Em muitos relatos há informações claras de que Skosowski e Żurawin trabalhavam para a Gestapo e a hipótese mais comum, desde o pós-guerra, é que todo o assunto fosse uma armação preparada pelos alemães para identificar e capturar o maior número possível de judeus que ainda viviam em Varsóvia.

Mais de 2.500 judeus escondidos no lado ariano na Primavera de 1943 acreditaram naquela garantia de que os passaportes internacionais lhes salvariam a vida. A maioria deles havia pago altas somas para conseguir os documentos, como relata Filip Müller na obra Eyewitness Auschwitz: Three Years in the Gas Chambers (Testemunha ocular em Auschwitz: Três anos nas Câmaras de Gás, em tradução livre). Todas essas pessoas acreditavam que os passaportes lhes permitiriam deixar o Governo Central, salvando-os da morte certa. Franciszka Manheimer-Rosenberg foi uma delas.

Ela ficou no Hotel Polski até julho de 1943, quando deixou Varsóvia. Fazia parte do último grupo de judeus, cerca de 600, que os nazistas embarcaram rumo ao campo de Bergen-Belsen, na Alemanha.

O deslocamento, supostamente, era parte do chamado plano para “troca de judeus”. Ao chegar, eles foram instalados no Sonderlager, um campo especial.

Última farsa

Em meados de outubro de 1943, os nazistas ordenam uma nova transferência dos “judeus de troca”. Cerca de 1800 deles são levados de Bergen-Belsen para Auschwitz-Birkenau, onde chegaram em 23 de outubro de 1943.

Já na plataforma de desembarque dos trens, os alemães começaram a encenar os últimos capítulos da farsa que começara no Hotel Polski. Os recém-chegados foram recebidos por um oficial da SS, Lagerführer Johann Schwarzhuber, chefe do campo masculino em Birkenau. Primeiro, ele se dirige à multidão de pessoas desorientadas: “Senhoras e senhores. Em nome da administração do campo, dou-lhes as boas-vindas. Fomos orientados a fazer todo o possível para apressar sua partida para o exterior. Com esse propósito, um representante do Ministério está conosco e lhes dirá como transcorrerá o restante de sua viagem”.

Na realidade o “representante” do Ministério das Relações Exteriores era Franz Hossler, Obersturmführer (2º Tenente) e Líder da Custódia Preventiva do campo de mulheres, em Birkenau.

O tal do “representante do Ministério das Relações Exteriores” dirige-se a eles: “Senhoras e senhores! Recebi instruções do Ministério das Relações Exteriores para organizar sua viagem à Suíça. Esta é a última parada em território do Terceiro Reich. Trouxemo-los até aqui porque as autoridades suíças insistem em que todos vocês sejam desinfetados antes de cruzar a fronteira. Temos aqui instalações próprias para o procedimento de desinfecção em larga escala”.

Continou apontando para o Crematório: “Neste edificio foi instalada uma grande casa de banhos, para onde se dirigirão depois. Outro detalhe: após o banho, tenham em mãos os documentos de viagem para nos certificarmos que foram desinfetados. Repito: as autoridades suíças declararam que ninguém cruzará a fronteira sem esse certificado em seu passaporte. Seu trem especial está na estação. Partirá amanhã, às 7 horas, e os levará à fronteira. Peço-lhes, portanto, que, para o seu próprio bem, sigam as instruções do pessoal do campo. Termino desejando-lhes uma viagem agradável, amanhã”.

Depois daquele “teatrinho”, trazem cartazes com letras do alfabeto. Hössler continua seu discurso. “Senhoras e senhores. Vocês podem ver todos os cartazes com letras. Olhem com atenção para os mesmos”. E foi apontando, um por um, os cartazes, de A a Z. E continuou: “Quando estiverem vestidos, após o banho, façam um fila atrás do cartaz com a inicial de seu sobrenome. Vocês então receberão um certificado confirmando a sua desinfecção. Lembrem-se, também, dos números dos cabides nos vestiários para que as formalidades necessárias sejam prontamente cumpridas, de forma eficaz. Não considerem esse processo de desinfecção como algo que tenhamos arquitetado para perturbá-los. Enfatizo, novamente, que foi uma exigência das autoridades suíças. Sendo assim, é do seu interesse submeter-se a esse procedimento inevitável de forma rápida. Lembrem-se, também, que os trilhos da ferrovia costumam estar bloqueados por ações terroristas do inimigo. Portanto, apressem-se se quiserem sair daqui rapidamente! ”.

O anúncio aumentou os temores dos judeus causando desconforto generalizado. Ao chegar no vestiário da suposta sala de banhos as mulheres estavam cada vez mais assustadas. Hesitaram em tirar a roupa, pois em suas vestes levavam escondidos os documentos de viagem. Os SS começaram arrancando-lhes anéis e relógios.

Em suas memórias, Rudolf Hoess, SS-Obersturmbannführer (Tenente-Coronel) que foi comandante do campo de concentração de Auschwitz, escreveu: “A maioria das pessoas nos vestiários fazia o que lhes era mandado, mas havia alguns que ficaram olhando, como se aguardando por uma maneira de escapar de lá.

Os SS passam a gritar suas ordens, em tom mais alto e ríspido, mas muitos continuavam atônitos, sem tirar a roupa. Os guardas, armados com porretes e já com a mão no coldre, começam a espancar quem ainda estava vestido. Muitas pessoas já estavam sendo encaminhadas pelo corredor diretamente às câmaras de gás”.

Durante esse processo que acabaria com todas as mulheres mortas nas câmaras de gás, dois nazistas, Oberscharführer Josef Schillinger e o SS Unterscharführer (sargento-chefe) Wilhelm Emmerich, começam a observar, magnetizados, os movimentos de uma judia linda, de cabelos escuros. Era Franceska Mann.

Ao perceber que os dois a observavam fixamente, ela resolve encenar sua última apresentação, sua última dança. Ao tirar um de seus sapatos de salto alto, inclinou-se contra uma coluna. Fascinados com sua beleza e seus movimentos propositalmente lânguidos, os dois nazistas não conseguiam parar de olhar para ela. E não percebem quando, num movimento rápido, ela atira seu sapato na testa de Schillinger.

O nazista cai no chão e ela, jogando-se sobre seu corpo, tira sua arma do coldre. Dá dois tiros e o atinge em cheio, no estômago. E, rapidamente, dispara outra vez e atinge Emmerich na perna.

Emmerich consegue subir as escadas, e sai do vestiário em busca de socorro, deixando Schillinger no chão. Um tumulto geral se instalou no vestiário feminino. Outras mulheres passam a atacar os SS. Elas trancam a porta por dentro. Depois tentam chegar ao corredor de onde pudessem escapar. As luzes se apagam, por uns momentos. Todos iam tateando, em meio à escuridão, tentando entender o que se passava. Segundo Jerzy Tabeau, em seu livro The Report of the Polish Major (O Relato do Major Polonês, em tradução livre), um SS teve seu nariz quebrado, outro foi escalpelado.

Os SS que estavam de guarda, do lado de fora, ouviram aquela agitação e pediram reforços. Momentos depois, o Comandante Rudolf Hoess chega com seus homens que, fortemente armados com metralhadoras, cercam o local. As duas portas foram prontamente guardadas por metralhadoras e possantes holofotes, tornando impossível alguém escapar.

As mulheres ainda tentavam fugir em meio ao tiroteio que se seguiu, escondendo-se atrás das colunas do vestiário. Muitas foram abatidas quando as metralhadoras abriram fogo. E aquelas que haviam acreditado nas mentiras dos SS, antes da corajosa ação de Franceska Mann, morreram nas câmaras de gás enquanto a revolta se desenrolava do outro lado. E aquelas que, porventura, haviam sobrevivido às metralhadoras nazistas foram mortas depois. Nenhuma delas sobreviveu.

A linda bailarina caminhou para sua morte com força, coragem e confiança, segundo testemunho na obra Eyewitness Auschwitz (Testemunha Ocular emAuschwitz), de Filip Mueller, e no relato do também prisioneiro de Birkenau, Jerzey Tabau, perante o Tribunal Militar Internacional, em Nuremberg. Não se tem certeza, no entanto, de como ela morreu, há muitas versões. Mas o que se sabe é que seu corpo foi colocado sobre uma mesa na sala de dissecação, para servir de alerta aos outros homens das SS. Tinham que estar vigilantes, sem baixar a guarda, nem por uma mulher bonita e aparentemente frágil. A morte do guarda nazista galvanizou os prisioneiros de Auschwitz-Birkenau. A caminho do hospital de Katowice, Schillinger chorava perguntando: “Oh Gott , Mein Gott, was hab Ich getan, das Ich so leiden muss?” (“Ó, D’us, meu D’us, o que eu fiz para sofrer tanto assim? ”). Relatos informam que ele faleceu no hospital, no dia seguinte. Emmerich sobreviveu.

Em suas memórias, assim escreveu Wieslaw Kielar: “Os atos de Franceska Mann tornaram-se um símbolo, passaram a ser contados e recontados e enfeitados de várias maneiras até virar uma lenda. Sem dúvida, aquele ato heroico, por parte de uma mulher frágil a caminho de sua morte, deu apoio e coragem moral a todos os prisioneiros.De repente, percebemos que se ousássemos erguer o punho contra eles, aquele punho poderia matar, pois eles, também, eram mortais”...

BIBLIOGRAFIA

Martin ,Gilbert, The Holocaust: The Human Tragedy. Kindle Edition

Southern, Cynthia, The Vixen Who Shot A Nazi: The story of Franceska Mann, who shot SS Guard Josef Schillinger, in Auschwitz-Birkenau. Kindle Edition