Morashá
Em busca do carrasco Foto Ilustrativa

Em busca do carrasco

por por Zevi Ghivelder

Depois da Segunda Guerra Mundial, o judeu alemão Hanns Alexander, que escapou do nazismo e serviu no exército britânico, incumbiu-se da missão de capturar Rudolf Hoess, o comandante do campo de concentração de Auschwitz. Seu empenho solitário e incansável teve um final dramático.

Edição 82 - Dezembro de 2013

Tags: Holocausto Shoá


Hanns Hermann Alexander nasceu em Berlim no dia 6 de maio de 1917, quinze minutos antes de Paul, irmão gêmeo. Seu pai, o Dr. Alfred Alexander, era um dos mais proeminentes médicos clínicos da cidade.

Por ocasião do nascimento dos dois filhos, ele estava servindo num hospital militar alemão na Alsácia, para onde levou a família. Em 1918, ao fim da 1ª Guerra Mundial, alsacianos franceses, vitoriosos, ameaçaram depredar o hospital. O Dr. Alexander conseguiu resgatar a tempo todos os pacientes e junto com os feridos, a mulher e os filhos, embarcou no último trem rumo a Berlim. Voltou a seu belo apartamento na Rua Kaiser. A residência da família, onde dois dos cômodos serviam de consultório, ocupava todo o segundo andar do número 219 daquela rua, um dos endereços mais sofisticados de Berlim. Assim como seus pais, irmão e duas irmãs menores, Hanns não cresceu num ambiente particularmente religioso. Os Alexanders se diziam “judeus de três dias”, ou seja, iam à sinagoga nos dois dias de Rosh Hashaná (ano novo judaico) e Yom Kipur (Dia do Perdão). De vez em quando compareciam ao templo nas manhãs do Shabat (sábado).

No decorrer dos anos, o médico prosperou e abriu sua própria clínica, um prédio de quatro andares, já dotada de uma grande novidade naquela época, um equipamento de raios-X. A fama do Dr. Alexander fez com que ele cada vez mais se identificasse com a sociedade germânica, recebendo para festas e jantares consagrados cientistas, artistas e intelectuais, que o respeitavam e admiravam.

Em janeiro de 1933, quatro meses antes de Hanns e Paul completarem 16 anos de idade, Adolf Hitler assumiu o cargo de Chanceler da Alemanha, com poderes para legislar sem a aprovação do Parlamento. Num dia de abril, a família Alexander avistou uma tropa da SA, primeiro braço armado do nazismo, desfilando pela rua. A turba parou bem em frente ao seu prédio e começou a gritar: “Não comprem dos judeus!”; “Boicotem os judeus!”; “Os judeus são nossa desgraça!”.

Os manifestantes bloquearam a entrada do edifício até que, por sorte, foram abordados por um coronel chamado Otto Meyer. Este lhes disse que o Dr. Alfred Alexander era um fiel cidadão da Alemanha, que havia lutado pelo país na guerra e que, inclusive, havia recebido a alta condecoração da Cruz de Ferro. Os SA deram meia volta.

À noite, a família se reuniu em estado de choque. O que fazer? Os boicotes aconteceriam de fato? Ir embora para a Suíça? O médico argumentou que era melhor permanecerem onde tão bem estavam porque, sem dúvida, aquela violência duraria pouco tempo e o povo alemão, culto e inteligente, decerto não aceitaria aquele estado de coisas. Entretanto, as leis restritivas aos judeus foram sendo intensificadas. Certa ocasião, Hanns e Paul foram assistir a um jogo de patins no gelo, mas se depararam na porta com um cartaz que dizia “Proibida a entrada de judeus”. Mesmo assim, foram até a bilheteria, compraram ingressos e entraram. Era um sintoma de que, apesar das adversidades crescentes, a família pretendia levar a vida da forma mais normal possível.

Na semana seguinte, um conhecido membro do Partido Nazista foi ao encontro do Dr. Alexander para lhe dizer que ele seria denunciado criminalmente por ter praticado um aborto ilegal em sua irmã. Indignado com a mentira e pressentindo o perigo, o médico foi a um Distrito Policial para apresentar queixa como vítima de difamação.

Ali lhe disseram que, como ele não era membro do Partido Nazista, nada poderia ser feito a seu favor. Mais uma vez a família reavaliou a situação, mas o Dr. Alexander ainda hesitava em deixar Berlim. Em janeiro de 1936, o médico viajou para Londres para visitar uma de suas filhas, Bella, que se casara com um inglês. Na ausência do marido, Henny, a matriarca da família, recebeu um telefonema daquele mesmo coronel Otto Meyer: “Diga a Alfred para sumir imediatamente. Ele é o primeiro de uma lista de judeus que vão ser presos pela Gestapo”. Sabendo de sua estada na Inglaterra, foi incisivo: “Diga a ele para não voltar sob hipótese alguma”. Em Londres, apesar de deprimido por não poder trabalhar, o Dr. Alexander começou a tomar providências para tentar trazer Henny e Hanns ao seu encontro. Enquanto isso, Paul estava na Suíça e Elsie, a outra filha, também casada, na Holanda.

Em Berlim, Hanns, que trabalhava num banco, tratou de obter uma permissão para deixar a Alemanha. Para sua surpresa, não foi difícil, porque, àquela altura, a política nazista era no sentido de se livrar do maior

número de judeus. A dificuldade foi obter um visto para entrar na Inglaterra que relutava em aceitar um grande fluxo de refugiados judeus. O fato de seu pai e duas irmãs já estarem residindo em Londres não adiantou.

Com a proximidade dos Jogos Olímpicos de 1936, a serem realizados em Berlim, as ações antissemitas foram abrandadas para enganar o mundo, ao mesmo tempo em que os cartazes proibindo os judeus disso ou daquilo sumiram dos prédios e das ruas. Em maio, Hanns pediu a seu chefe no banco que escrevesse uma carta de recomendação para um banco na Inglaterra, no que foi atendido. Dirigiu-se à representação britânica, onde uma fila quilométrica se formara na seção de vistos. Conseguiu ser recebido pelo primeiro-secretário da embaixada, que havia sido paciente de seu pai. Quinze minutos depois estava com o visto nas mãos. Surgiu, contudo, outra dificuldade. Pela passagem que conseguira comprar, era preciso atravessar a França e os franceses lhe negaram o visto, embora de trânsito. A seu socorro veio Paul, que lhe facilitou os meios para viajar até a Suíça, de onde poderia prosseguir para Londres. Somente Henny permaneceu em Berlim para se desfazer dos bens da família.

No dia 2 de junho de 1936, Hanns desembarcou no aeroporto de Croydon, no sul de Londres. Tinha no bolso uma cédula de dez marcos, tudo que os alemães permitiram que levasse. O funcionário da imigração britânica carimbou seu passaporte com os seguintes dizeres: “O viajante deve registrar-se de imediato na polícia e não permanecer mais do que seis meses no Reino Unido”. Henny foi obrigada a vender o apartamento da Rua Kaiser e também a clínica por quantias irrisórias, mas que lhe permitiram pagar o exorbitante imposto de saída exigido pelo Reich. No Rosh Hashaná daquele ano, aguardados por Bella, Henny chegou à Inglaterra, Elsie chegou via Amsterdã e Paul via Suíça. A família Alexander estava novamente reunida.

No dia 4 de setembro de 1939, tendo a Alemanha invadido a Polônia, Hanns e Paul seguiram para o posto de recrutamento da Royal Air Force (Real Força Aérea), em Acton, Londres. Ambos passaram por exames médicos, compareceram a entrevistas com oficiais que checaram todos os pormenores de suas vidas pregressas e foram mandados de volta. Receberiam ordens posteriores. Os ingleses relutavam em acolher em suas forças militares refugiados alemães por medo de ações de sabotagem ou de espionagem, mas em dezembro daquele ano aceitaram Hanns e Paul.

Os dois irmãos foram encaminhados para o Corpo Auxiliar de Militares Pioneiros e levados para treinamento no campo Kitchener. Dali, Hanns escreveu para o pai: “Estou vivendo o momento mais feliz da minha vida”. Nos dois anos seguintes, os gêmeos se prestaram apenas para serviços pequenos ou burocráticos. Concluíram, então, que para serem tratados com respeito pelo exército britânico teriam que cumprir o curso de oficiais. Depois de muito peticionar, acabaram sendo transferidos para a Unidade de Treinamento de Oficiais em Lincolnshire, aonde chegaram no dia 3 de maio de 1943.

O treinamento era intenso. Primeiro tiveram que assimilar táticas de campo, de comunicações, como receber e transmitir ordens e, acima de tudo, como manter a disciplina entre seus comandados. Depois veio a parte física, muitas vezes à noite: atravessar rios a nado, transpor obstáculos, subir em cordas, arrastamento na lama e tudo o mais que os habilitasse para o desempenho de suas funções.

Graduados dois meses mais tarde, tiveram que ser separados por conta do regulamento militar que estipulava que parentes próximos não poderiam servir na mesma unidade. Paul foi para o Comando Regional Norte e Hanns para a Companhia 239 do Comando Regional Sul. Ele só viu a guerra de perto em julho de 1944, quando foi mandado para a França, já depois da invasão do dia-D, no mês anterior. Enquanto os aliados descarregavam sem cessar toneladas de suprimentos, equipamentos e munições nas praias da Normandia, a Companhia de Hanns foi incumbida de supervisionar um grupo de oficiais alemães que havia sido feito prisioneiro. Anos depois ele comentou: “Foi muito estranho, mas também gratificante, oprimir aqueles que me tinham oprimido”.

No ano anterior, Roosevelt, Churchill e Stalin tinham emitido um comunicado segundo o qual, após o fim das hostilidades, todos aqueles que, desde 1933, haviam cometido atrocidades ou crimes de guerra deveriam ser levados a julgamento. Foi, então, criada uma lista que recebeu o nome de Central Registry of War Criminals and Security Suspects, sigla Crowcass.

A primeira lista continha cerca de cem mil pessoas, homens e mulheres, sem seus delitos especificados. Em seguida, foi feita outra Crowcass, prioritária, com 165 nomes, assinalando Hitler em primeiro lugar, Goering em segundo, Goebbels em terceiro, Martin Borman em quarto, seguindo-se os mais importantes chefes do Terceiro Reich, já com os registros detalhados de suas ações criminosas.

O nome de Rudolf Hoess estava nesta lista, mas grafado como Hess, o que, de imediato, dificultou sua identificação porque oralmente era um homônimo de Rudolf Hess, o líder nazista que, em 1942, num gesto impulsivo e até hoje polêmico, saltara de pára-quedas sobre a Inglaterra para propor um rejeitado acordo de paz em separado com a Alemanha. Entretanto, a descrição física do criminoso era a seguinte: “Louro claro, 1m80m, 78 quilos”. Só podia ser Hoess, o comandante do campo de concentração de Auschwitz.

Rudolf Franz Ferdinand Hoess nasceu num subúrbio de Baden-Baden, perto da fronteira da França, no dia 25 de novembro de 1901. Pouco antes de completar quinze anos, saiu de casa, mentiu sobre a idade e se alistou no exército. Em agosto de 1916, foi admitido no Regimento de Dragões de Baden, o mesmo no qual seu pai e o avô haviam servido. No ano seguinte, foi mandado com seu regimento para a Palestina, onde os alemães lutavam ao lado dos turcos na Primeira Guerra Mundial. Numa batalha nas cercanias de Jerusalém,

Hoess foi ferido e levado para um hospital em Jaffa. Após o armistício de 1918, voltou à Alemanha e se engajou no Freikorps, um grupo paramilitar que lutou contra os bolcheviques russos na Letônia e onde perpetrou terríveis massacres. Foi o seu aprendizado na crueldade e na violência.

Enquanto isso, era instituída na Alemanha a República de Weimar, que extinguiu o Freikorps. Hoess foi para Munique e ali fez amizade com um jovem político chamado Adolf Hitler, tornando-se um dos fundadores do Partido Nacional Socialista, o futuro Partido Nazista. Em 1929, casou-se com Hedwig Hensel, de 21 anos. Segundo os historiadores, o casamento só aconteceu porque a moça havia engravidado. Quando Hitler chegou ao poder, Heirich Himmler, amigo de Hoess desde os tempos do Freikorps, foi nomeado comandante da polícia política da Bavária e depois se tornou o chefe supremo das forças SS, poderoso órgão militar do Partido Nazista, no qual Hoess se alistou.

Em dezembro de 1934, foi mandado para a cidade de Dachau, perto de Munique, onde a dez quilômetros de distância fora criado o primeiro campo de concentração destinado a internar os chamados inimigos do Reich. Hoess passou a servir como adjunto do comandante do campo e foi morar ali perto, junto com Hedwig e três filhos. Quatro anos mais tarde, enviaram-no para o campo de Sachsenhausen, perto de Berlim, de novo atuando como adjunto do comandante. Chamou a atenção de seus superiores por saber acatar quaisquer ordens sem questionamentos e por executá-las com afinco e dedicação. Ali o promoveram a chefe do Amtsgruppe D1, primeira inspetoria geral dos campos de concentração.

Durante seu interrogatório no Tribunal Militar de Nuremberg, após a guerra, Hoess declarou que fora chamado a Berlim por Himmler, de quem recebia ordens diretas: “Não me lembro das exatas palavras de Himmler, mas ele me revelou que estava em curso uma solução final para a questão judaica. Disse que se nós, das SS, não destruíssemos os judeus, eles destruiriam a Alemanha. Escolhemos instalar para este fim um grande campo de concentração em Auschwitz porque era uma área livre e de fácil acesso”.

Em maio de 1944, Hoess foi transferido para o campo de extermínio de sua própria escolha, com o posto de comandante e ali chegou no dia 8 daquele mês. Uma semana depois, começaram a chegar os primeiros trens, transportando judeus oriundos da Hungria que, até julho, somaram 437 mil seres humanos. A seleção dos prisioneiros, aptos ou inaptos para o trabalho, era conduzida por dois médicos do campo, Josef Mengele e Fritz Klein. Os inaptos, vindos de diferentes pontos da Europa, foram executados e, em razão de sua eficiência nas tarefas assassinas, Hoess foi à localidade de Solahutte, nas imediações de Auschwitz, para receber uma festiva homenagem de seus superiores. Ele conseguiu abandonar Auschwitz às pressas, pouco antes de o campo ser libertado pelo exército soviético, no dia 27 de janeiro de 1945. Pressentindo a próxima derrota final da Alemanha nazista, escondeu-se junto com a mulher e os cinco filhos.

No dia seguinte ao da vitória definitiva dos aliados, Hanns recebeu ordens para se apresentar ao comando britânico, em Bruxelas. No caminho, parou no campo de concentração de Belsen. Escreveu para o irmão: “O campo está lacrado para impedir que uma epidemia de tifo se espalhe por toda a Alemanha. Não há mais guardas das SS, mas deparei-me com húngaros que não foram melhores do que os nazistas. Presenciei o mais terrível dos cenários, com cadáveres por todas as partes”. Junto com outros soldados, Hanns começou a recolher os mortos e enterrá-los numa vala comum. Findo o funeral, um rabino-capelão inglês ali recitou o kadish (prece pelos falecidos).

No dia 16 de maio, o tenente-coronel britânico Leon Genn (que já era um ator consagrado no teatro e fez bela carreira no cinema inglês e em Hollywood), recebeu em Belsen um telegrama de Londres com instruções para que assumisse o comando de uma equipe de investigadores e intérpretes intitulada Number I War Crimes Investigation, sigla WCIT, na qual Hanns se engajou. A missão de Genn e seus comandados consistia em reunir provas que servissem ao julgamento de criminosos de guerra em Belsen e arredores. Para isso seria criado um tribunal militar presidido por juízes ingleses e com o concurso de promotores e advogados também ingleses. Os culpados receberiam as sentenças cabíveis, incluindo condenações à forca ou fuzilamento.

Hanns foi designado para atuar como intérprete junto ao capitão Alfred James Fox que, no transcurso de três semanas, já havia procedido a uma série de interrogatórios de prisioneiros e sobreviventes. Hanns e Fox se instalaram num escritório na pequena cidade de Celle, na Saxônia alemã.

Um dos primeiros investigados foi o responsável pela intendência de Auschwitz, um soldado chamado Franz Hossler. Este lhes revelou: “O comandante do campo era Rudolf Hoess. Muitas vezes lhe disse que me sentia mal vendo aquela gente sendo levada para as câmaras de gás e ele respondia que o assunto não era da minha conta”. Interrogaram também uma mulher chamada Irma Grese, a chefe da guarda feminina em Auschwitz. Ela era conhecida como “a bela besta” por sua alta estatura e bonitos cabelos louros. Grese negou tudo, porém mesmo assim foi levada a julgamento. Em seguida foi a vez de uma de suas subordinadas, Elisabeth, que declarou: “O responsável pelo que aconteceu em Auschwitz foi Rudolf Hoess. Claro que as ordens vinham de Himmler, mas ele supervisionava tudo”. Ao cabo dos interrogatórios, Hanns dirigiu-se a Leo Genn e pediu permissão para procurar Hoess.

O coronel Genn recusou, dizendo que Hanns não tinha experiência suficiente para a captura daquele criminoso e que ainda precisava dele em Belsen. Em princípio, Hanns concordou. De fato, faltava-lhe experiência como detetive policial e, àquela altura, não possuía a menor pista sobre o paradeiro de Hoess. Entretanto, estava solidamente decidido a cumprir a missão da qual se incumbira.

Sensibilizado por novas insistências de Hanns, o coronel Genn deu-lhe um carro com motorista para poder se deslocar com facilidade e sugeriu-lhe que começasse a busca pela análise da lista prioritária da Crowcass.

Poderia, portanto, ir para onde quisesse e mais ainda: promovido ao posto de capitão, tinha autoridade para efetuar prisões.

Enquanto isso, Hoess deixou a mulher e os filhos sob os cuidados do irmão dela, que os abrigou num prédio restante de uma antiga indústria de açúcar, na cidade de St. Michaelisdonn, perto do Mar do Norte, e junto com o filho Klaus, então com quinze anos de idade, rumou para a localidade de Flensburg, onde um grupo de nazistas fanáticos, comandados por Himmler, pretendia se organizar para ainda enfrentar os aliados vitoriosos. No entanto, essa fantasiosa tentativa logo desmoronou. Himmler rendeu-se a uma unidade britânica e horas depois de ser preso suicidou-se ingerindo uma cápsula de cianureto. Desorientado, Hoess chegou à cidade de Gottrupel, junto à fronteira da Dinamarca. Com a ajuda de antigos companheiros foi abrigado numa rústica casa de pedras, com um só aposento.

A par do empenho para encontrar Hoess, o capitão Hanns empreendeu uma viagem a Luxemburgo, à procura do gauleiter (governador designado pelos nazistas) Gustav Simon, responsável pela deportação dos judeus daquele país. Depois de exaustivos e pacientes interrogatórios com toda a família Simon e com dezenas de habitantes de Luxemburgo, acabou encontrando e prendendo o gauleiter. Dali regressou a Belsen e obteve uma licença para viajar a Londres, onde se casou com Ann Graetz, uma jovem morena judia pela qual se havia apaixonado desde a chegada na Inglaterra e com a qual mantivera contato antes, durante e depois da guerra.

Hanns Alexander regressou à Alemanha e foi para Berlim, levando a lista da Crowcass. Na arrasada capital do Reich apresentou-se ao capitão William Victor Cross, do serviço britânico de inteligência, no destacamento Field Security Section 92, encarregado de capturar criminosos de guerra. Este lhe disse que ignorava aonde Hoess se encontrava e que provavelmente possuía alguma falsa identidade.

Entretanto, há um bom tempo seus homens vinham monitorando a mulher e os filhos de Hoess e sabiam que a família do comandante de Auschwitz vivia no que sobrara uma antiga fábrica de açúcar em St. Michaelisdonn. Além disso, haviam interceptado uma carta de Hoess para a mulher, sem o endereço do remetente, mas era óbvio que Hedwig conhecia o esconderijo do marido. Ela estava detida para interrogatório na pequena cidade de Lunden, às margens do rio Eider. Na prisão local, Hanns começou o questionamento daquela mulher de cara redonda que, apesar de mal vestida e mal nutrida, conservava uma pose arrogante. Como era esperado, a mulher de Hoess respondeu que não sabia do marido.

No dia seguinte, Hanns e quatro militares da Field Security seguiram para St. Michaelisdonn. Na velha fábrica, Hanns subiu um lance de escada e num aposento frio e escuro, com alguns colchões, uma mesa e poucas cadeiras, encontrou quatro filhos do fugitivo. Dirigiu o foco para Klaus que disse nada saber. Voltou-se para Hideraud, a filha mais velha, e ameaçou que se ela não revelasse a verdade, levaria Klaus preso, o que de fato cumpriu. Levou o rapaz para Lunden e o colocou na mesma cela da mãe. O jovem e a mãe se disseram em greve de fome, mas a certa altura o jovem pareceu disposto a falar. Ele disse que tinha visto o pai depois da guerra, que na realidade estivera com ele em Flensburg, mas há meses deixara de ter qualquer notícia sobre sua condição. Hanns insistiu com Hedwig: “Onde está seu marido?” Resposta: “Ele morreu”. Depois de esgotar todos os métodos de interrogação, Hanns concluiu que deveria fazer algo drástico. No entardecer do dia 11 de março de 1946, ouviu o ruído da passagem de um trem atrás do prédio da prisão. Teve um estalo. Entrou na cela da mulher e disse que se ela não revelasse a verdade, aquele trem levaria Klaus para a Sibéria. Deixou nas mãos dela um lápis e uma folha de papel. Voltou após uma hora e encontrou o seguinte escrito: “Fazenda de Hans Peter Hansen, em Gottrupel. Nome: Franz Lang”.

Imediatamente reuniu-se com o capitão Cross e começaram a elaborar um plano de captura. A operação deveria ser feita nas primeiras horas da manhã e era indispensável levar farto armamento e munição porque Hoess, certamente, resistiria. Convocaram uma patrulha de vinte homens da Field Security à qual estavam integrados alguns judeus alemães do exército inglês, cujas famílias tinham sido mortas em Auschwitz.

O comboio tomou o rumo de Gottrupel. Em frente à casa de pedras da fazenda, acompanhado por um médico e um motorista, Hanns bateu na porta, logo aberta por Hoess, e emitiu a primeira ordem: “Vejam se ele tem alguma cápsula na boca”. Calmo, o carrasco mostrou seus documentos em nome de Franz Lang e negou qualquer vínculo com o campo de concentração de Auschwitz. Durante a guerra tinha sido apenas um soldado raso. Hanns ordenou-lhe: “Tire a sua aliança!” Hoess respondeu que o anel estava apertado demais e era impossível tirá-lo. Hanns arrematou: “Então, vou cortar seu dedo”. Hoess acabou tirando o anel em cujo interior havia uma gravação: “Rudolf e Hedwig”.

O carrasco estava identificado. Antes que algum dos militares tivesse um impulso agressivo, Hanns ordenou: “Coloquem ele são e salvo no meu carro”. No percurso para a prisão da cidade de Heide, Hanns fez o interrogatório inicial do prisioneiro. Qual o seu nome completo? Qual era seu grau nas SS? Qual foi sua atuação durante a guerra? Qual foi sua atuação nos campos de concentração?

Rudolf Hoess foi julgado pelo Tribunal Militar de Nuremberg e condenado à morte. Ergueram um cadafalso no próprio campo de Auschwitz onde ele foi enforcado às 10 horas e 8 minutos da manhã do dia 16 de abril de 1947.

Deixando sua mulher por mais de cinquenta anos, Ann, e duas filhas, Hanns Alexander, funcionário aposentado de um banco, faleceu tranquilamente, aos 89 anos de idade, em 28 de dezembro de 2006. Chovia muito em Londres naquele dia.

Bibliografia:

“Hanns and Rudolf”, de Thomas Harding, editora Simon&Schuster, EUA, 2013.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista