Morashá
Arriscando a própria vida Foto Ilustrativa

Arriscando a própria vida

Durante a segunda guerra mundial, enquanto a França estava sob ocupação alemã, duas jovens agentes judias, Muriel Tamara Byck e Denise Madeleine Bloch, deram prova de grande coragem arriscando a vida na luta contra o nazismo.

Edição 53 - Junho de 2006


Após a ocupação da França pelos alemães, em 1940, os britânicos criaram um departamento secreto de guerra para operações especiais, conhecido em inglês como Special Operations Executive (SOE). Milhares de agentes de campo foram infiltrados pelo SOE atrás das linhas inimigas, com a missão de organizar os movimentos de resistência nos países ocupados pelos exércitos de Hitler. Seu objetivo era claro: derrotar os nazistas e libertar a Europa.

Os agentes do SOE demonstraram tremenda coragem e audácia na sabotagem e destruição da máquina de guerra hitlerista e de tudo o que lhe pudesse ser útil, como ferrovias e equipamentos de transporte. Centenas deles eram judeus; a participação judaica na SOE foi significativa, principalmente na Polônia e na França. Neste país, duas jovens judias, Muriel Tamara Byck e Daniele Bloch, enfrentaram todos os perigos, determinadas a derrubar o nazismo e tudo o que este representava. A seguir, suas histórias.

Muriel Tamara Byck

Conhecida pelo codinome "Violette", Muriel nasceu em 4 de junho de 1918, em Ealing, bairro da região oeste de Londres. Era filha de Luba e Jacques Byck, judeus franceses naturalizados britânicos. Ao eclodir a 2a Guerra, ela era uma jovem atraente,de longos cabelos negros. Inteligente e culta, dominava vários idiomas. Seu francês era fluente, pois sempre freqüentara escolas francesas, em Londres, e seus pais a fizeram estudar, durante alguns anos, na França. Falava também um pouco de russo e de alemão, pois vivera um ano na Alemanha. Nos anos que antecederam o conflito, trabalhou como secretária em Londres e, em seguida, como assistente de produção teatral.

Com o início da 2ª Guerra, seu senso de dever levou-a a se voluntariar para o trabalho da Cruz Vermelha. Em 1942, Muriel se alistou na Women's Auxiliary Air Force Association - Waaf (Associação Feminina de Auxílio à Força Aérea) e, em julho do ano seguinte, foi contatada pelo SOE devido à sua fluência em francês. Assim como outros agentes, foi submetida a intenso treinamento, e, durante esse período conheceu e noivou com um agente francês do serviço secreto norte-americano.

Segundo arquivos de seus instrutores, Muriel, era uma jovem sorridente e muito calorosa com os outros. Apesar de seus 25 anos, parecia uma adolescente. Seus superiores ficaram tão preocupados com sua aparência, que exigiram que ela aprendesse a se maquiar, com um profissional, para aparentar mais idade. Seu raciocínio era rápido e era persistente no que fazia, faltando-lhe apenas experiência. Um dos agentes se recorda dela como segura de si, totalmente comprometida com o trabalho, ansiosa para ser enviada em missão. Apesar de não ser fisicamente forte e de ter demonstrado pouca aptidão no manuseio e desarme de explosivos, logo foi escalada para uma missão na França, com o codinome "Benfeitora".

Para essa missão, o SOE criou-lhe três identidades falsas, recebendo instruções de usar a de "Michele Bernier". Sua tarefa era recrutar novos agentes locais, treiná-los e, no momento certo, avisar Londres para providenciar codinomes e definir seu status. Apesar de lhe terem dado uma verba de 100 mil francos, deveria ser moderada nos gastos. Na França, Muriel estaria sob as ordens do major Philippe de Vonnecourt, a quem já conhecera em Londres. Usando o codinome "Antoine", Vonnecourt liderava um grupo da Resistência que atuava na região de Orléans-Blois.

Na noite de 8 de abril de 1944, Muriel e mais 3 agentes saltaram de pára-quedas nos arredores de Orléans-Blois. A jovem foi imediatamente levada para Salbris, cidade a 40 minutos de Orléans. Na residência de Antoine Vincent, outro membro da Resistência, encontrou-se com Vonnecourt. Naquela noite ocorreria sua primeira experiência em um país ocupado por nazistas, pois Vonnecourt e Vincent a levaram a um restaurante freqüentado quase que exclusivamente por soldados alemães. Muriel, petrificada, sussurrou-lhes: "Não podemos ficar aqui". Mas Vincent lhe explicou que a escolha do lugar fazia parte do treinamento e ela deveria se acostumar, o mais rápido possível, a transitar no meio do inimigo, agindo com naturalidade.

O grupo da Resistência em que Muriel começa a atuar possuía 4 transmissores que cobriam uma grande área ao redor da casa de Vincent. De acordo com as ordens recebidas, para evitar que fossem captadas pelos nazistas, as transmissões deveriam ser extremamente breves e os transmissores, constantemente trocados de lugar. Durante os meses em que lá ficou estacionada, Muriel enviou 27 mensagens e recebeu 16. Nunca as transmitia na mesma hora, nem do mesmo transmissor. Vivia indo, de bicicleta, de uma base de transmissão para outra. Atuava também como courier, portando mensagens para os diversos grupos de sabotagem. Embora muitos homens tivessem sofrido colapsos nervosos por causa da pressão e dos perigos da clandestinidade, Muriel continuou como sempre fora - firme e determinada, apesar de sua juventude e aparente fragilidade.

Sua base de transmissão, um pequeno barraco com teto de ferro, localizava-se no quintal da casa de Vincent, perto da garagem que ele usava para consertar os carros dos alemães. Muriel operava entre os velhos pneus, peças de carro e respingos de óleo e gasolina. Enquanto fazia as transmissões, um jovem ficava de guarda, do lado de fora. Um dia, no final de abril, enquanto enviava uma mensagem a Londres, percebeu que alguém a observava por um dos tantos buracos que havia na parede. Sentiu um frio no estômago, mas manteve a calma: avisou Londres que estava sendo vigiada e, em seguida, sem parar de transmitir, aproximou-se do buraco e viu um alemão deixar o local. Rapidamente guardou o seu equipamento e apagou qualquer prova de sua presença no local. Vonnecourt foi imediatamente avisado e, sem perder tempo, transferiu-a para outro local. Algumas horas mais tarde, 40 alemães foram até o barraco verificar a informação do soldado que flagrara Muriel, nada encontrando. Sua resposta: "Nem sombra de uma linda mulher, com um transmissor na mão". Como punição, o soldado foi condenado a 10 dias de detenção; desperdiçara o "tempo precioso" de seu superior.

Com a ajuda de Andrieux, um médico da Resistência, Muriel foi levada a um local seguro, onde reiniciou seu trabalho. Para justificar possíveis ruídos em horários estranhos, o médico avisara os vizinhos que a jovem se recuperava de uma enfermidade que a obrigava a tomar remédios durante a noite; e que seu único "tio", Vonnecourt, somente podia visitá-la nesse horário.

No início de maio, Muriel recebeu a mensagem de Londres de que na noite do dia 8 haveria um bombardeio aéreo sobre um depósito de munições alemão, muito próximo ao local onde ela estava. A missão foi um sucesso, mas a jovem ficou abalada com as explosões. Começou a sentir extremo cansaço e foi levada para a casa de outro membro da Resistência. Era bem mais do que cansaço, ela estava muito doente. Vonnecourt, que estava ausente, ao ser informado de que Muriel estava mal, foi ver a jovem. Avisou-a de que um avião decolaria, em breve, para Londres. Poderia embarcar nele ou enviar uma carta para seus pais.

Não deu tempo, pois seu estado se deteriorava, rapidamente. Um médico chamado com urgência diagnostica meningite, dizendo que ela devia ser imediatamente internada em um hospital. Apesar dos riscos de ser preso pelos nazistas, Vonnecourt, sabendo que não havia outra opção, leva-a de ambulância para Romorantin, identificando-se como Monsieur de Courcelles, seu tio. Muriel é operada, mas não resiste e falece nos braços de Vonnecourt, em 23 maio de 1944. Mais tarde, soube-se que Muriel teve meningite em criança, mas escondera a informação por medo de não ser aceita como agente, devido ao risco de reincidência da doença. Esta atitude era mais um exemplo de sua determinação em participar na luta contra o nazismo, ainda que colocando sua vida em risco.`

Foi com muita dificuldade que Vonnecourt conseguiu convencer os amigos de que seria perigoso comparecer ao enterro da jovem. Apenas ele esteve presente e, como já previa, a Gestapo apareceu no local. Ele só conseguiu fugir porque teve tempo de pular o muro do cemitério e entrar no carro que o aguardava. Escreveu uma carta comovente à família de Muriel, um tributo no qual lembrou a sua personalidade maravilhosa: alegria, coragem e senso de dever, aliados a enorme presteza em enfrentar qualquer perigo na luta contra Hitler e o nazismo.

Em Romorantin, o memorial em sua homenagem é muito visitado, não apenas por descendentes dos membros da Resistência, mas também pelos habitantes da região. Ainda em solo francês, sua memória é reverenciada com uma placa no memorial da "Seção F", em Valencay. Na Inglaterra, no memorial da Igreja de St. Paul, Wilton Place, Knightsbridge; e no memorial do Liceu Francês, de Kensington.

Denise Madeleine Bloch

Conhecida pelo codinome "Ambroise", Denise Madeleine Bloch nasceu em 1915, na França, filha de Lyon Jacques Henri e Suzanne Barrault. Iniciou suas atividades na Resistência, trabalhando como secretária do tenente Jean Máxime Aron (codinome "Joseph", funcionário da Citröen e líder da Resistência Judaica).

Em meados de 1942, enquanto os judeus eram detidos pela Gestapo, a jovem foi recrutada pelo SOE, com a identidade fictícia de "Danielle Williams". Era operadora de rádio e ajudava o agente Brian J. Stonehouse, codinome "Celestin", até ele ser preso, em 24 de outubro de 1942. O agente sobreviveu à guerra e morreu em 2 de dezembro de 1998. Após a prisão de Stonehouse, Ambroise foi obrigada a deixar a cidade, indo inicialmente para Marselha, onde um agente identificado como "Alemão" entregou-lhe documentos secretos. Muriel se ofereceu para levá-los para Lyon. Mas Jean Maxime Aron, receoso de deixá-la ir sozinha, insistiu em acompanhá-la, juntamente com outro membro da Resistência. A Gestapo os esperava na estação. Aron foi preso, mas Denise conseguiu escapar da prisão e se escondeu numa casa nos arredores de Lyon. Permaneceu inativa até janeiro de 1943, quando os agentes Philippe de Vonnécourt e George Reginald Starr a contatam. Por algum tempo trabalhou para a SOE na cidade de Agen, mas, em abril, após a prisão de 2 agentes, Denise é enviada a Londres, levando mensagens e relatórios sobre a situação da Resistência, na França. Outro agente a acompanha nessa longa e difícil viagem. Atravessaram os Pirineus indo até Gibraltar e, de lá, até Lisboa. Chegam, por fim, a Londres, em 21 maio de 1943. O "périplo" levara 22 longos dias.

Em seu briefing aos superiores, Denise repassa importantes informações sobre a falta de armas da Resistência e a escassez de alimentos e vestuário nas lojas. Alertou que os alemães e os Gendarmes, da polícia francesa de Vichy, prendiam rapazes nas ruas, aleatoriamente, e os enviavam para trabalhar na Alemanha. Por isso, os agentes enviados à França não podiam ser muito jovens - já que corriam o risco de ser presos e deportados. Deviam, também, falar francês fluentemente, pois deportavam qualquer pessoa com sotaque estrangeiro. Além do mais, era necessário alertar todos os agentes do fato de que alguns membros da Gestapo falavam um francês perfeito e fluente; isto dificultava identificar se o interlocutor era francês ou alemão.

Ao relatar sua experiência na Resistência, Denise lembrou que certa vez carregava seu rádio numa mala, quando percebeu uma inspeção da Gestapo na estação de ônibus. Falando em péssimo alemão, pediu gentilmente a um dos membros da Gestapo que segurasse sua mala enquanto ia comprar jornal. Mostrou seus documentos a um inspetor civil e subiu, calmamente, no ônibus.

A moça estava muito ansiosa para voltar à França. Inutilmente os agentes do SOE tentaram dissuadi-la, advertindo-a de que, muito provavelmente, era conhecida pela Gestapo. Ainda assim, ela não aceitou ficar na Inglaterra em segurança, argumentando que não correria perigo na França, pois ficara muito tempo no mesmo endereço sem que a Gestapo a tivesse procurado e prendido.

Como todos os agentes da SOE, Denise foi enviada a um intensivo treinamento, durante 10 meses. Seus instrutores escreveram nos relatórios que ela era uma mulher de coragem e determinação e que nutria grande ódio pelos nazistas. Inteligente e experiente, vivia questionando seus instrutores, provavelmente por ter adquirido larga experiência durante os anos que trabalhara na Resistência. Melhor do que ninguém, ela sabia o que era viver à mercê dos nazistas.

Em março de 1944, Denise finalmente recebe ordens para voltar à França. É lançada de pára-quedas, perto de Nantes. Isso tinha que ser feito antes do "Dia D", quando os aliados ocidentais desembarcariam na costa da França. Estava explicada a necessidade de interromper as comunicações alemãs.

Durante três meses, Denise enviou 31 mensagens a Londres e recebeu 52. Mas a Gestapo estava atrás dela. Seu companheiro de campo, Benoist, foi preso em 18 de junho, ao visitar a mãe doente. No dia seguinte, Denise foi capturada durante incursão nazista no castelo da família Benoist, Villa Cecile, em Rambouillet. Foi levada para a prisão de Fresnes, em seguida para o quartel-general da Gestapo, em Paris, onde foi cruelmente torturada. Benoist foi deportado para Buchenwald, onde foi enforcado. Com a aproximação dos aliados, os alemães se apressavam em despachar os prisioneiros para a Alemanha. No dia 8 de agosto, Denise foi colocada num trem, com outros agentes da SOE, dentre os quais, Lilian Rolfe e Violette Szabo. O trem foi bombardeado pela Força Aérea Britânica, mas mesmo assim os prisioneiros seguiram em caminhões, chegando no dia 22 de agosto de 1944 ao Campo de Ravensbrück.

As três jovens agentes do SOE sobreviveram à primeira seleção e conseguiram ficar juntas. Foram enviadas a uma floresta a 300 quilômetros do campo, onde enfrentaram, durante três meses, árduo trabalho e um rigoroso inverno. Denise e Lilian estavam muito debilitadas, em virtude das desumanidades a que foram submetidas; apenas Violette parecia ter um pouco mais de forças. Testemunhas do mesmo campo costumavam falar dos sentimentos que as uniam e do apoio que davam, umas às outras, contra todas as adversidades. Em janeiro de 1945, as três jovens foram despachadas de volta a Revensbrück. Este fato as deixou esperançosas; acreditavam que ainda houvesse possibilidade de serem repatriadas através da Suécia ou Suíça. Não sabiam que Berlim ordenara sistemáticas execuções em massa. Queriam eliminar todas as incontáveis testemunhas de suas atrocidades.

Ao término da guerra, foram vários os testemunhos das brutalidades impostas às três jovens. Arrancadas de suas celas e levadas para uma área atrás do crematório, foram sumariamente assassinadas. Nem o dia se sabe ao certo. Talvez entre 25 de janeiro e 2 de fevereiro de 1945. A coragem das agentes femininas do SOE impressionou até os algozes nazistas de Ravensbrück.

Denise tinha 29 anos, ao morrer. Sua memória é reverenciada com uma placa com seu nome, no Cemitério Militar de Brookwood Commonwealth, em Surrey; no memorial da Igreja de St. Paul, Wilton Place, Knightsbridge; no memorial da "Seção F", em Valencay, França; e em uma placa no campo de morte de Ravensbrück.

Bibliografia

Artigo de Martin Sugarman: "Daughters of Yael - Two Jewish Heroines of the SOE"

British Association of Jewish Ex-Servicemen and Women-AJEX - Jewish Military Museum, London