Morashá
A queima do Talmud Foto Ilustrativa

A queima do Talmud

O dia 17 de Tamuz do calendário judaico é um dia de jejum e marca o início das Três Semanas de Luto que vão até 9 de Av. No ano de 1242, o dia foi marcado pela queima de centenas de volumes manuscritos do Talmud, em Paris. Era a primeira vez na história que se queimavam livros judaicos, mas, infelizmente, não seria a última.

Edição 72 - Julho de 2011


Dois anos antes, na capital francesa, oTalmud foi julgado como herético, na qualidade de “réu”, após uma farsa jurídica envolvendo a Igreja Católica, um judeu convertido ao cristianismo e o rei Luís IX. A pena era a execução pública da obra sagrada, na fogueira.

A pergunta que se interpõe é: por que justamente o Talmud? A importância dessa obra monumental para nós, judeus, não pode ser subestimada. O Talmud não é um único livro, mas uma obra que consiste de 63 tratados de assuntos legais, éticos e históricos.  Seus dois componentes principais são a Mishná, tratados sobre a lei judaica, e a Guemará, composta de  comentário e elucidação da primeira. É o Talmud que define e dá forma ao judaísmo, alicerçando todas as leis e rituais judaicos, pois enquanto a Torá Escrita – o Chumash (os Cinco Livros de Moshé) – apenas alude aos mandamentos, é a Lei Oral, codificada no Talmud, queos explica, discute e esclarece. O Rabino Adin Steinsaltz, responsável por sua tradução ao hebraico moderno, inglês e russo, assim se referiu à importância dessa obra: “Se a Torá é a pedra fundamental do judaísmo, o Talmud é seu pilar central”. Ademais, como outras religiões adotaram o texto da Torá Escrita –mesmo a tendo traduzido de forma errada, é o Talmud o verdadeiro divisor de águas, o texto sagrado que diferencia os judeus das outras nações do mundo.

Se nós, judeus, sempre tivemos consciência de que nossa sobrevivência como grupo dependia do estudo dessa obra magna, todos os que almejavam converter os judeus ou destruir o judaísmo, tinham essa mesma certeza. Por isso, quem declarava guerra à religião judaica, começava por proibir o estudo do Talmud, ameaçando quem desobedecesse com a pena de morte. Através do curso da história, em diferentes países e períodos, esta obra foi acusada, censurada, proibida e queimada. O ataque mais antigo ao Talmud remonta ao século 6, quando o imperador Justiniano tentou extirpar o judaísmo de seus direitos legais. Entre outros pontos, o Código Justiniano afirma: “A Mishná ou, como eles a chamam, a segunda tradição, nós a proibimos totalmente”. Justiniano proibiu o estudo da Mishná, pois, segundo ele, esta “distorcia” a Bíblia e prejudicava as atividades missionárias cristãs. E, em 712, os visigodos na Espanha proibiram os conversos de ler livros hebraicos.
 
No entanto, até o século 13, apesar das restrições impostas aos judeus pela Igreja, não havia, ainda, uma campanha declarada contra seus textos sagrados. Foram as ações de um apostata, Nicholas Donin, que resultaram no fatídico julgamento realizado no ano de 1240, em Paris. O evento teve conseqüências duradouras, além de ter desencadeado uma série de incidentes por toda a Europa, e influenciado atos anti-semitas subseqüentes durante os séculos que se seguiram.

A grande disputa de 1240

Nicholas Donin, judeu de La Rochelle, estudara na Ieshivá de Paris, então sob a direção de Rabi Yehiel ben Joseph, o mais proeminente rabino da França. Após expressar, em repetidas ocasiões, posições radicais em relação aos textos sagrados e a importância da Lei Oral, Donin foi expulso da instituição e, em seguida, excomungado. Acabou convertendo-se ao cristianismo e tornou-se frade. Nutria em relação aos seus antigos correligionários um profundo ódio. Seu primeiro ato de vingança foi insuflar os ânimos dos cruzados contra os judeus durante as perseguições sangrentas de Poitou e Anjou, na Bretanha, que resultaram na morte de cerca de 3 mil judeus. Mas, vai ser a luta contra o Talmud o ponto central de sua cruzada pessoal anti-judaica. Habilmente usou o tradicional anti-judaismo da Igreja Católica para atingir sua vingança, fornecendo, ao mesmo tempo, uma importante ferramenta na campanha travada pelos cristãos para conseguir a conversão de judeus.

Em 1236, Donin enviou ao papa Gregório IX uma denúncia formal contra os judeus, em geral, e o Talmud, em particular. O pontífice, empenhado em erradicar todo tipo de heresia, conferira essa incumbência, três anos antes, à Ordem dos Dominicanos. Na França, a Ordem obtivera a permissão para instituir tribunais permanentes para julgar as acusações de heresia, prender suspeitos e pronunciar sentenças sumárias de morte. A temida Inquisição estava oficialmente instalada.

O fatídico relatório enviado ao Papa continha uma lista de 35 acusações. Donin abordou pontos extremamente sensíveis para a doutrina cristã. Entre outros, acusava o Talmud de conter blasfêmias contra Jesus e Maria, ataques à Igreja e pronunciamentos hostis contra os não-judeus, além de outras falsidades. Ele afirmava que a grande importância que os judeus conferiam ao Talmud era uma “afronta” à Bíblia e aos profetas. Concluía que sendo o Talmud a razão pela qual os judeus teimosamente se recusavam a aceitar o cristianismo, sua eliminação levaria, inevitavelmente, à sua conversão.

Quase três anos após receber as denúncias de Donin, o Papa Gregório IX as enviou aos reis da França, Inglaterra, Castela, Aragão e Portugal, além de todos os principados italianos. Junto com as acusações, o papa ordena aos bispos daqueles países que confiscassem todos os exemplares do Talmud no primeiro sábado da Quaresma do ano seguinte, que cairia no dia 3 de março de 1240.

O rei da França, Luís IX, foi o único monarca a obedecer a ordem papal. No dia determinado, foram entregues centenas de volumes manuscritos do Talmud anteriormente levados pelos judeus de Paris a suas sinagogas, sob pena de morte, para que os frades franciscanos e dominicanos incumbidos pela Santa Sé as “analisassem”. A ordem papal era que os livros contendo qualquer tipo de “heresia fossem sumariamente queimados”. Luís IX, no entanto, decidiu realizar uma disputa pública, um julgamento doTalmud, durante o qual quatro dos mais renomados rabinos da França confrontariam Donin para responder as acusações. Historiadores acreditam que esta medida foi tomada pelo rei apenas para diversão própria, pois não havia dúvida de antemão do resultado.

A farsa jurídica montada por Luís IX aconteceu no dia 25 de junho de 1240, em Paris, e durou três dias.  Durante o julgamento estavam presentes, ostentando toda sua pompa e poder, tanto a realeza como cortesãos, príncipes da Igreja e inúmeros teólogos. A Igreja se referia a esse confronto como um “torneio por D’us e pela fé”. Representando o lado cristão, a acusação, estavam Donin e Eudes de Chateauroux, da Sorbonne. Do lado judaico, atuando na defesa do Talmud, estavam o Rabi Yehiel ben Joseph, de Paris, atuando como o principal defensor, e Rabi Moses de Coucy, Rabi Judah ben David de Melun e Rabi Samuel ben Solomon, de Château Thierry. Todos eram famosos Tosafistas1 franceses.

Chegaram até nós duas versões sobre esta disputa: a versão cristã, em latim, intitulada Extractiones de Talmut, e a versão judaica, em hebraico, intitulada Vikuach Rabenu Yehiel mi-Paris, A Disputa de Rabi Yehiel de Paris, compilada provavelmente pelos alunos do rabino. Há divergências entre as duas versões e é bem possível que a versão judaica inclua observações que não foram feitas, mas que certamente teriam sido ditas se os judeus tivessem tido a liberdade de se expressar.
 
Após apresentar as denúncias de Donin, a acusação concluiu que o Talmud era uma “obra herética”, já que, pelo fato de ser seguido pelos judeus, havia levado os mesmos a “abandonarem” a Bíblia e os ensinamentos dos profetas. Em vão Rabi Yehiel tentou desmascarar as acusações de Donin, demonstrando que eram puras invenções e deformações. Em resposta à acusação de que o Talmud continha insultos contra Jesus, o cristianismo e a Igreja Católica, Rabi Yehiel apontou que São Jerônimo e outros ilustres padres da Igreja, grandes estudiosos e conhecedores dessa grande obra judaica, nunca haviam apontado qualquer afirmativa hostil ou abusiva nesse sentido. Portanto, indagava, como era possível que tais “descobertas” tivessem que esperar oito ou nove séculos até que um renegado pouco instruído, claramente movido pela má-fé, surgisse para apontá-las? Além do mais, Rabi Yehiel disse ao Tribunal que o que impedia a conversão dos judeus não era o Talmud, mas sim os princípios básicos do judaísmo. Em um dos momentos mais tensos, ele afirmou: “Mesmo se vocês nos punirem, nós e nossa lei estamos espalhados pelo mundo. Na Babilônia, na Pérsia, na Grécia e nas terras do Islã e em outras 70 nações além dos rios da Etiópia – nossas leis ainda serão encontradas”.
 
Como era de se esperar, nenhum argumento “convenceu” o tribunal eclesiástico composto de prelados de destaque. O “réu” prisioneiro – o Talmud– foi considerado culpado por todos os crimes de heresia e blasfêmias que Donin enumerara em sua denúncia. A pena, a queima em praça pública.

A sentença, no entanto, não foi executada durante dois anos, pois o arcebispo de Sens, um dos membros do tribunal, intercedeu em favor dos judeus impedindo que a pena fosse aplicada. Infelizmente, quando o arcebispo morreu, subitamente, sua morte foi apontada pela Igreja como uma punição por ter intercedido em favor dos judeus. Decidiu-se, então, executar a sentença.

No dia 17 de Tamuz, 24 carroças com centenas de manuscritos do Talmud foram queimados pelos dominicanos, em Paris, diante dos olhares desesperados dos judeus parisienses, mantidos afastados pela guarda real. Em toda a Europa, as comunidades judaicas ficaram de luto.

Sobre este trágico acontecimento o rabino alemão Rabi Meir ben Baruch, de Rothenburg, que estava em Paris, escreveu uma Kiná2: Sha’ali Seruyá Ba’ê – “Pergunte, ó, você que foi queimado”. No primeiro trecho, Rabi Meir conclama a Torá e o próprio D’us para que vejam a dor que aqueles que os amam estavam sofrendo em consequência do acontecido; segue-se um lamento perguntando como tal evento pôde ter ocorrido. Em seguida, descreve a glória com que a Torá nos foi entregue, e lamenta o lugar tão vergonhoso a que agora foi relegada. Os dois trechos finais traçam o caminho do abismo do desespero à esperança pela salvação. Rabi Meir termina com uma prece para que no futuro próximo D’us redima os judeus dos terríveis apuros em que se encontram. Essa Kiná foi incluída nas Kinot de rito asquenazita recitadas nas sinagogas no dia 9 de Av, data da destruição do Primeiro e Segundo Grande Templos de Jerusalém.

A queima de centenas de manuscritos representava uma imensa perda para a comunidade judaica francesa. Significava não apenas a destruição de anos e anos de trabalho, mas também que não havia, na França, exemplares para os alunos das ieshivot estudarem. A resposta dos rabinos franceses é uma prova da resiliência judaica face as perseguições. Rabi Yehiel ensinou de cor seus 300 alunos, com o que tinha gravado em sua memória. Ainda mais importantes foram dois trabalhos escritos com semelhante propósito. Rav Moshe de Coucy classificou a Lei Judaica de acordo com a tradicional enumeração dos 613 Mandamentos. Esta obra, intitulada de Sefer Mitzvot Gadol (Livro Grandedas Mitzvot), é geralmente conhecida por sua abreviatura, SeMaG. Logo após a publicação dessa obra, Rav Yitzchak de Corbeil compôs um trabalho semelhante, o Sefer Mitzvot Katan (Livro Pequeno das Mitzvot) - SeMaK, de forma abreviada.As duas obras são, ainda hoje, importantes guias de referência para a Halachá.

Os trágicos eventos ocorridos em Paris no mês de Tamuz de 1242 deixaram marca profunda na nossa história, pois sinalizaram uma ruptura radical nas relações entre cristãos e judeus. Foi o fim da relativa tolerância da Igreja face aos judeus que viviam ao seu redor, e o início de uma campanha de violenta difamação e perseguição cujos maléficos frutos desabrocharam no anti-semitismo moderno. 
A disputa em Paris serviu, entre outros, de “modelo” para outras disputas públicas, cada vez mais violentas e conseqüências cada vez mais dramáticas, nas quais os rabinos eram obrigados a rebater publicamente acusações cristãs apresentadas por prelados e apostatas. Entre as mais conhecidas, a Disputa de Barcelona (1263), contrapondo o Ramban contra o apostata Pablo Christiani, e a Disputa de Tortosa, que levou dois anos (1413-14), que contrapôs o Rabino Chefe de Saragossa, o Nasi Vidal Beneveniste, juntamente com os Rabis Astruch Halevi, Zerach e Joseph Albo contra São Vicente Ferrer e o apostata Gerônimo de Santa Fé.

Após 1242, os papas continuaram a defender a queima do Talmud. Manuscritos desta obra monumental foram queimadas em 1263, 1299,1309, 1322 e1415. Em 1552, o Papa Júlio III ordenou a queima, em Roma, de centenas de cópias da obra sagrada. A Inquisição Espanhola também “contribuiu” em larga escala para essa destruição e, até a Idade Moderna, a Igreja continuou a queimar cópias doTalmud. A barbárie aconteceu pela última vez na Polônia, em Kamenets-Podolski, no final de 1757.

Os livros judaicos foram novamente “condenados” e jogados em fogueiras no ano de 1933 na Alemanha do Terceiro Reich. Entre as obras queimadas estavam os trabalhos do poeta judeu alemão do século 19, Heinrich Heine. Este, em sua peça “Almansor”, de 1820-1821, faz a famosa e trágica advertência: “Dort, wo man Bücher verbrennt, verbrennt man am Ende auch Menschen”, traduzindo: “Onde se queimam livros, hão de queimar homens, também...”.

Bibliografia:
Hoenig, Samuel N. The Talmud on Trial, trabalho publicado no The Jewish Review , Volume 4 , Issue 3 , March, 1991
Jacob R. Marcus, The Jew in the Medieval World, A Source Book, Wayne State University Press
Cohen , Jeremy, Essential papers on Judaism and Christianity in conflict, NYU Press