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Os nove de Budapeste Foto Ilustrativa

Os nove de Budapeste

por por Zevi Ghivelder

Foram nove judeus oriundos da Hungria. Em primeiro lugar, deixaram Budapeste e, em segundo, a Europa quando o nazismo começou a convergir sobre o continente. Todos encontraram refúgio no ocidente onde inscreveram seu nome como algumas das mais notáveis celebridades do século 20.

Edição 80 - Junho de 2013


Era um dia de intenso calor, em 1939, quando dois jovens físicos judeus húngaros, Eugene Wigner e Leo Szilard, saíram de Nova York e seguiram de automóvel rumo à pequena localidade de Peconic, nas imediações de Long Island, onde Albert Einstein passava o verão. Os rapazes levaram-lhe uma informação da qual Einstein já tinha algum conhecimento.

Na Alemanha sob Hitler estavam sendo realizadas experiências pelas quais o urânio bombardeado por nêutrons poderia desencadear uma reação em cadeia, dando origem a um artefato com imenso potencial de explosão.
Em resumo, uma bomba atômica. Einstein observou: “Eu não sabia que a energia nuclear já estava prestes a ser liberada”. Pediram, então, que o cientista escrevesse uma carta de alerta ao embaixador da Bélgica em Washington, porque o urânio para tais experiências estava sendo extraído do Congo Belga. Entretanto, os dois jovens concluíram que aquela carta não seria suficiente. Duas semanas mais tarde, no fim de julho, voltaram ao encontro de Einstein e pediram-lhe que escrevesse diretamente ao presidente Roosevelt.

O conteúdo da carta era terrível. Einstein descreveu qual seria o efeito devastador e até mesmo inimaginável de uma bomba atômica e o perigo desta para a humanidade se Hitler chegasse a possuir uma arma daquela natureza. Sugeriu de forma dramática que experiências iguais com urânio começassem de imediato nos Estados Unidos. A carta foi parar em alguma gaveta de algum gabinete da Casa Branca e só chegou ao conhecimento de Roosevelt no início de outubro, quando a Alemanha nazista já havia invadido a Polônia e se desdobrava a 2ª Guerra Mundial. Assim, o presidente ordenou a urgente implantação de um projeto que recebeu o nome de Manhattan, em Los Alamos, no estado do Novo México e contou com a competente contribuição de Wigner e Szilard e do cientista Edward Teller, outro judeu vindo de Budapeste. O projeto mencionado alongou-se por seis anos e foi consumado na bomba lançada sobre Hiroxima.

Enquanto os norte-americanos desvendavam os segredos da energia nuclear, mais um cientista judeu húngaro, John von Neumann, radicado nos Estados Unidos, iniciava as pesquisas que dariam origem à ciência da computação.
Ao mesmo tempo, no campo literário, o livro Darkness at Noon (traduzido para o português como O Zero e o Infinito) ganhava a condição de best-seller internacional, escrito pelo judeu húngaro Arthur Koestler, uma das primeiras obras que denunciou a brutalidade do comunismo sob Stalin.

Enquanto isso, em Hollywood, o judeu húngaro Michael Curtiz dirigia o filme Casablanca, até hoje invariavelmente apontado como um dos dez melhores filmes de todos os tempos. Ainda nesse segmento, do outro lado do Atlântico, um arrojado produtor assentava sólidas bases para a indústria cinematográfica britânica, o judeu de Budapeste, Alexander Korda. Na imprensa americana, um jovem judeu húngaro, Andre Kertesz, ganhava destaque como o grande mentor do fotojornalismo, sendo seus passos seguidos por outro judeu húngaro, Robert Capa. Os terríveis momentos por ele captados durante a guerra civil na Espanha e no desembarque dos aliados no dia D, na Normandia, além de outras centenas de memoráveis trabalhos, tornaram-no um dos mais consagrados fotógrafos do século passado.

Quatro grandes cientistas, dois eficientes profissionais do cinema, dois incansáveis caçadores de imagens através de lentes e um profícuo e polêmico escritor: esses foram os nove de Budapeste.

Os judeus viviam uma boa época na Hungria no final do século 19, livres de quaisquer restrições. Somavam apenas 5% da população do país, mas constituíam um quinto dos habitantes de Budapeste. No decorrer de toda uma geração, os judeus húngaros eram desprovidos de sentimentos nacionais ou étnicos. Tinham o judaísmo apenas como uma questão de fé. Em 1912, o judeu Ferenc Heltai, sobrinho de Theodor Herzl, foi eleito prefeito de Budapeste, mas o sionismo nem de longe o contagiou. Para os judeus de Budapeste, a terra prometida se situava nas margens do Danúbio e não na remota Palestina. A principal ambição de seus moradores e das autoridades era atingir a grandiosidade material e cultural de Viena.

Em Budapeste não havia nada semelhante a um gueto, embora o distrito de Pest tivesse a população composta por 70% de judeus que falavam o idioma magiar e desconheciam o iídiche. Na capital húngara, por volta de 1910, 50% dos advogados e médicos eram judeus, assim como 30% dos engenheiros e 40% dos jornalistas. Isso sem falar da maciça presença dos judeus nas atividades comerciais e financeiras.
Filho de pais ortodoxos, nascido em 1888, o verdadeiro sobrenome de Michael Curtiz, era Kaminer. Quando começou no cinema, achou conveniente “hungarizar” o sobrenome para Kertesz e, finalmente, optou por Curtiz. O cinema o fascinou desde a adolescência. Convenceu-se de que a principal figura para a realização de um filme era o diretor a quem sempre deveria competir a escolha da história, do elenco, dos cenários, dos figurinos e a edição final, postura que manteve durante toda a sua carreira profissional. Dirigiu na Hungria diversas películas sem som e logo percebeu que Budapeste dificilmente se tornaria um centro importante da indústria cinematográfica.

Em 1913, embarcou rumo à Dinamarca, a Meca do cinema daquela época. Ali permaneceu um semestre, assimilando tudo em matéria de cinema. Voltou para Budapeste onde se defrontou com uma difícil situação política. A Hungria, após a dissolução do império austro-húngaro, encontrava-se sob o domínio totalitário e antissemita do almirante Horthy. Decidiu partir para Viena, onde continuou trabalhando como diretor. O filme que ali realizou, Sodoma e Gomorra, alçou-o à fama internacional. Em 1925, o produtor Harry Warner assistiu ao filme Moon of Israel (Lua de Israel), realizado por Curtiz para a empresa alemã Ufa. Entusiasmado, recomendou a seu irmão Jack que levasse aquele diretor para Hollywood porque, no seu entender, seria o único capaz de fazer frente a Cecil B. DeMille, da rival Paramount. Só que o dono da Paramount, Adolph Zukor, outro judeu húngaro, passou a perna nos irmãos Warner e adquiriu os direitos daquele filme, não para exibi-lo, mas para guardá-lo no cofre, um solerte ardil contra os concorrentes. Foi assim que Michael Curtiz teve seu primeiro contato com o jogo pesado que era a marca registrada da capital mundial do cinema.

Em Hollywood, logo encontrou o que mais o seduzia na vida: garra e ambição. Adorou Los Angeles e, no primeiro dia em que chegou aos estúdios da Warner, já lhe estava confiado um filme de mistério e crimes, O Terceiro Degrau. Pôs-se a dirigi-lo, acrescentando dezenas de cenas que não constavam do roteiro original. Justificou: “Quando a câmera começa a rodar, a roda é do diretor”. A partir daí, sucederam-se numerosos êxitos coroados por vultosas bilheterias para a Warner Brothers. A consagração definitiva deu-se com Casablanca, em 1942, a princípio um filme sem maiores pretensões, que teve como protagonistas Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Há quem atribua o monumental sucesso de Casablanca ao clima de tensão desenvolvido por Curtiz por meio da fotografia marcada por luzes e sombras. Outros preferem acentuar a singular e suprema qualidade do roteiro do filme, que além de intrigante, romântico e antinazista, foi feito e exibido quando a Alemanha se expandia sobre a Europa. Ao longo dos últimos 70 anos, Casablanca continua acumulando crescente admiração. O filme foi nomeado para oito Oscars, dos quais ganhou três, cabendo àquele pobre menino judeu de Budapeste a estatueta de melhor diretor.

No início de abril de 1962, ele escreveu uma carta para um amigo na Hungria que continha o seguinte trecho: ”Ontem eu estava andando pelas ruas de Los Angeles e de súbito tive a sensação de estar a bordo de um navio que navegava rumo a Budapeste. Por que será que depois de tantos anos na América ainda tenho saudades da minha casa em Pest? Eu sei que a morte é igual em qualquer lugar. Aqui em Hollywood há palmeiras nos cemitérios. Em Budapeste, há salgueiros. Acho que prefiro os salgueiros”. Michael Curtiz morreu no dia 11 daquele mesmo mês.

Arthur Koestler nasceu em Budapeste em 1905, filho de pai húngaro e mãe vienense. Por causa da turbulência política na Hungria, os Koestlers decidiram radicar-se em Viena. Arthur tinha, então, 14 anos de idade e a adolescência chegou-lhe ao mesmo tempo em que uma intensa paixão pelo sionismo. Escreveu: “Por não terem uma casa própria, os judeus têm de pagar aluguéis em outras casas e, mesmo tolerados ou agredidos são vistos sempre como diferentes”.

Em Viena, Koestler conheceu Vladimir Jabotinsky, uma das mais importantes personalidades da história do sionismo, e apegou-se de corpo e alma a seu ideário: o renascimento de uma pátria judaica na Terra de Israel, nos dois lados do rio Jordão, mesmo se, para isso, tivesse de ser usada a força das armas. Ofereceu-se como voluntário para secretário de Jabotinsky e acompanhou-o nas palestras que este fazia pela Europa, arrebatando a adesão e a admiração das populações judaicas. Em abril de 1926, aos 21 anos de idade, Koestler abandonou os estudos na Escola Técnica de Viena e comunicou aos pais que viajaria para a então Palestina por uma breve temporada quando, na verdade, sua intenção era jamais regressar à Áustria. Foi aceito num kibutz (colônia agrícola coletiva) no vale de Jezreel onde ficou apenas três semanas. Sentiu aversão ao trabalho no campo e logo concluiu que seu individualismo jamais se adaptaria a um sistema de vida coletiva. Foi vender limonada em Tel Aviv ao mesmo tempo em que começou a escrever no idioma alemão. Um de seus primeiros textos foi sobre a cidade de Haifa, publicado com destaque no jornal Neue Freie Presse, o de maior circulação em Viena.

O artigo fez tanto sucesso que a rede de jornais Ullstein, de Berlim, convidou-o para servir como seu correspondente no Oriente Médio. Depois de oito anos naquelas paragens, retornou à capital alemã. Ali percebeu que somente a esquerda pressentia o perigo da ascensão de Hitler. Em 1931, filiou-se ao partido comunista e, por consequência, perdeu o emprego. No ano seguinte, a título de compensação, o partido o enviou para a União Soviética, incumbindo-lhe de escrever um livro sobre as grandes vitórias do comunismo. Enquanto o trem percorria a Ucrânia, ficou desolado com a pobreza que desfilava perante seus olhos. Em Moscou, assistiu a julgamentos de supostos dissidentes e ficou prostrado com a farsa dos procedimentos. Por onde passou, só viu miséria e descontentamento. Voltou a Berlim, trazendo na bagagem o material que lhe serviria para o livro Darkness at Noon.

Em 1936, rumou para a Espanha e juntou-se às forças que combatiam o general Franco. Tido como inimigo, foi preso e amargou um confinamento de três meses numa prisão de Sevilha. Conseguiu fugir para Paris onde oficializou seu rompimento com o partido comunista. Foi para o interior da França onde começou a escrever seu famoso livro anticomunista e, na volta a Paris, o porteiro do prédio onde morava aconselhou-o a sumir do mapa porque estava sendo procurado. Não deu tempo. Prenderam-no e levaram-no para um campo de internamento em Le Vernet. Ali acabou de escrever Darkness at Noon e conseguiu enviar o manuscrito para um editor em Londres que, por sua vez, reuniu um grupo de intelectuais que intercedeu junto às autoridades francesas para que ele fosse libertado e deportado para a Inglaterra. Chegou a Londres quase ao mesmo tempo em que as tropas nazistas desfilavam sob o Arco do Triunfo, em Paris.

A partir de então, foi intensa sua produção literária, enquanto foi-se afastando e questionando o judaísmo. Seus livros foram traduzidos para dezenas de idiomas, entre os quais Ladrões na Noite,
Os Gladiadores, O Ioga e o Comissário, O Homem e o Universo e O Fantasma da Máquina. Seu último e controvertido livro, de 1976, The 13th Tribe (traduzido para o português como Os Khazares: A 13ª Tribo e as Origens do Judaísmo Moderno) fez a alegria dos antissionistas. Nele, Koestler pretendeu expor que os judeus da Europa central não tinham relação alguma com a ancestralidade das Doze Tribos de Israel. Esses judeus seriam descendentes de um povo chamado khazar, que havia optado por absorver o judaísmo, incluindo a religião, as tradições, os ensinamentos e o idioma hebraico. Assim, o renascimento de uma pátria judaica na antiga Terra de Israel, ou seja, a pretensão territorial do sionismo, carecia de legitimidade. Estudos posteriores demonstraram definitivamente que, embora os khazares de fato tivessem existido desde o ano 618 até 1048 na região do Turcomenistão, a tese defendida no livro era absurda e desprovida de qualquer fundamento acadêmico. Aos 77 anos de idade, sofrendo de leucemia e do mal de Parkinson, Arthur Koestler suicidou-se com sua última mulher, Cynthia Jefferies, em sua casa em Londres, no dia 10 de março de 1983.

Os quatro notáveis cientistas judeus húngaros, Leo Szilard, Eugene Wigner, John von Neumann e Edward Teller dedicaram-se desde o início de sua carreira aos estudos da mecânica quântica, as leis aplicadas ao comportamento das moléculas e dos átomos. Assim como o Renascimento atraiu artistas para a Itália, na década de 1920, a ciência atraiu físicos e químicos para a Alemanha. Szilard e Wigner estavam convencidos de que a fissão nuclear se tornava uma possibilidade cada vez mais próxima.

O primeiro foi radicar-se nos Estados Unidos e em seu laboratório na universidade de Princeton se dedicou noite e dia ao que ele mesmo chamou de “a procura dos nêutrons”. Na companhia de Wigner, que também havia emigrado para a América, procurou chamar a atenção das autoridades militares americanas para a possibilidade da elaboração de uma bomba atômica, “mas recebemos apenas sorrisos como respostas”. Já ao lado de Teller, manteve uma reunião com o coronel Keith Adamson, perito em armamentos do exército e da marinha. Este lhes perguntou de quanto dinheiro precisariam para desenvolver seu projeto. A quantia informada foi da ordem de seis mil dólares, uma soma expressiva para aquela época. Apesar de sua grande relutância e de seu grande ceticismo, Adamson concordou em liberar a quantia. Passaram-se seis meses até que os fundos lhes chegassem. Szilard lembrou: “Era como se a gente estivesse nadando num tanque cheio de geleia”.

Em setembro de 1941, o físico americano Arthur Compton, detentor do prêmio Nobel, convocou os jovens cientistas húngaros para trabalharem com o físico italiano Enrico Fermi no Laboratório Metalúrgico da universidade de Chicago. Sua missão: separar o urânio do plutônio. Wigner recordou: “Naquele dia eu percebi que por fim iríamos obter a tão perseguida reação em cadeia”. Prosseguiram sob a liderança do famoso cientista judeu, de origem alemã, Robert J. Oppenheimer que, por sua vez, recrutou seu velho amigo John von Neumann. A este competiria desenvolver os cálculos matemáticos daquele inédito experimento. Um cientista baseado em Los Alamos disse: “Johnny nos encantou não apenas pela rapidez com que trabalhava, mas pela beleza de seus processos”.

O triunfo do Projeto Manhattan assinalou o início da era nuclear e marcou também diferentes posturas entre os homens que a desencadearam. Teller e Neumann aderiram às causas e ideias conservadoras do establishment americano. Szilard tornou-se ardente defensor do controle das armas nucleares e para esse fim criou organizações pacifistas e passou a dar palestras nesse teor em todos os Estados Unidos. Wigner revelou-se menos politizado e recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1964, o único dos quatro que mereceu tal honraria.

Nascido em 1893, o judeu húngaro Sandor Laszlo Kellner tornou-se uma celebridade mundial sob o nome de Alexander Korda. Aos 16 anos de idade, saiu de sua pequena cidade e rumou para Budapeste levando uma imensa bagagem feita de sonhos: as leituras das obras de Jules Verne, Rudyard Kipling, H.G. Wells e Charles Dickens. Começou a trabalhar como repórter de um jornal local e passou a assinar-se Alexander Korda, um nome que lhe pareceu ao mesmo tempo um tanto húngaro e um tanto internacional.

 Quando assistiu ao primeiro filme mudo, disse para um amigo: “É isso que vou fazer pelo resto da minha vida”. Assim como Curtiz, partiu para um grande centro de produção cinematográfica, no caso Paris. A aventura durou apenas dois anos. Sem um tostão e nenhuma perspectiva de trabalho, precisou da ajuda do cônsul da Hungria para comprar-lhe uma passagem de volta para Budapeste. Na capital, começou a escrever críticas sobre filmes, fundou uma revista chamada Budapest Cinema e já com algum renome arranjou um emprego na Projectograph, a única companhia cinematográfica do país. Vaidoso, charmoso, muito bem-vestido e bem-falante, frequentava os cafés de Budapeste com a postura de um ricaço, embora seus bolsos estivessem quase vazios e os braços ocupados com dois ou três livros que sempre carregava. A rigor, Alexander Korda representava o papel de um personagem chamado Alexander Korda. Um dia, no café New York, o preferido dos artistas e intelectuais, ficou esperando que ali entrasse Gabor Rajnay, o maior ator do Teatro Nacional. Apresentou-se a ele e disse: “Gostaria que você estrelasse o filme que vou dirigir. Você vai fazer o papel de um oficial dos hussardos. Já tenho o dinheiro, os equipamentos, tenho tudo”. Na verdade, tinha coisa nenhuma. Conseguiu uma câmera emprestada e marcou a filmagem para a manhã do dia seguinte na estação ferroviária. Ele sabia que por ali passaria um verdadeiro destacamento dos militares conhecidos como hussardos. Quando o pelotão se aproximou, ordenou que o ator marchasse à frente e acionou a câmera. Lançou, então, o filme (que naqueles tempos do cinema mudo duravam de cinco a seis minutos), anunciando: “Rajnay e centenas de extras!”

No decorrer dos anos seguintes, contando com a ajuda de seus irmãos mais jovens, Vincent e Zoltan, dirigiu cinco filmes em Budapeste cujos negativos se perderam. Sobrou apenas uma película, O Homem de Ouro, com três horas de duração, filmada em atraentes locações externas, que obteve espetacular sucesso e marcou o início de sua própria produtora, a Corvin Films, a maior da Hungria.

O êxito, entretanto, foi ofuscado com a tomada do poder por Horthy que tinha um credo inamovível: detestava os judeus, os intelectuais e o cosmopolitismo. Novos tumultos de caráter antissemita fizeram com que Korda embarcasse para Viena e jamais voltasse a seu país natal. Na Áustria, dirigiu um filme que ganhou fama internacional, O Príncipe e o Pobre. Em seguida, trabalhou na Alemanha, voltou a Viena e teve Hollywood como destino final. Sua temporada na Califórnia não foi das mais bem-sucedidas, por conta dos constantes conflitos dos donos dos estúdios. Em 1932, trocou os Estados Unidos pela Inglaterra.

O primeiro filme que produziu em Londres, Os Amores de Henrique VIII, arrebatou multidões aos cinemas e valeu o Oscar de melhor ator para Charles Laughton. Sua carreira cinematográfica incluiu a produção de 62 filmes, alguns dos quais memoráveis como O Terceiro Homem, O Ídolo Caído, Lady Hamilton, a Divina Dama, Anna Karenina, O Ladrão de Bagdá, A Volta do Pimpinela Escarlate e As Quatro Penas Brancas. Alexander Korda recebeu do rei George VI o título de Sir (Cavaleiro da Ordem do Império Britânico) por sua contribuição para a lucratividade e produtividade do cinema britânico. Casado pela terceira vez, Alexander Korda morreu em Londres em 1956. Sua segunda mulher havia sido a bela atriz Merle Oberon. Os dois grandes caçadores de imagens, Andre Kertesz e Robert Capa nasceram em Budapeste.

O primeiro em 1894 e o segundo em 1913. O primeiro nome de Kertesz era Andor e o verdadeiro nome de Capa, Endre Erno Friedmann. Como se diz que uma fotografia vale mais do que mil palavras, seriam necessárias centenas de milhares de palavras para descrever as fotos operadas por esses dois profissionais. Kertesz começou a carreira em 1912 e teve seu batismo de fogo dois anos mais tarde, captando flagrantes dinâmicos da Primeira Guerra Mundial, o ponto inicial do moderno fotojornalismo. No conflito, foi ferido por uma bala e perdeu parte da mobilidade do braço direito, depois recuperada. Com 25 anos de idade foi para Paris e dali suas fotos foram publicadas em diversos jornais e revistas da Europa, além de um livro próprio em 1933.

Três anos depois, pressentindo o perigo do nazismo, radicou-se nos Estados Unidos, onde trabalhou para diferentes revistas, notadamente a Vogue. A partir da década de 60, mereceu exposições individuais de suas fotos nos Estados Unidos e na Europa e a consagração veio com uma mostra no Museu de Arte Moderna de Nova York. Seus amigos lembram que ele jamais conseguiu dominar corretamente o idioma inglês e diziam que falava em “kertsziano”. Aclamado como um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, Andre Kertesz morreu em 1985.

Robert Capa tinha 17 anos quando, durante uma manifestação política em Budapeste, foi preso pela polícia de Horthy. Insultado como judeu, logo concluiu que teria de ganhar a vida fora da Hungria. Começou a trabalhar em Berlim e chamou a atenção dos editores dos jornais e revistas ao obter uma excelente fotografia de Trotsky durante um congresso em Copenhague, em 1931.

A ascensão do nazismo levou-o para Viena e, em seguida, para Paris. Casou-se com Gerda Taro, também fotógrafa e criadora do seu novo nome profissional. Ambos foram para a Espanha onde, em 1936, começava uma sangrenta guerra civil que custou a vida de Gerda. Depois de cobrir a guerra entre a China e o Japão regressou à França e antes que fosse preso como judeu conseguiu fugir para os Estados Unidos, logo obtendo um contrato com a revista mais prestigiosa do país, a Life.

Engajou-se com as tropas americanas durante a 2ª Guerra Mundial tendo tirado excepcionais fotografias do desembarque aliado na Normandia, no dia D. No dia 14 de maio de 1948, fotografou em Tel Aviv a cerimônia de proclamação do nascente Estado de Israel, presidida por Ben Gurion. Já no dia seguinte, começou a cobertura da Guerra da Independência até a vitória do novo país. Chegou a pensar em ficar para sempre em Israel, tanto que escreveu numa carta para sua mãe: “Finalmente me sinto em casa”. Mas, o dever profissional levou-o para a guerra na Indochina, onde pisou numa mina terrestre e morreu no dia 25 de maio de 1954. Suas pernas estavam dilaceradas e as mãos ainda seguravam a câmera fotográfica.

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista