Morashá
Os Heróis Esquecidos da Operação Tocha Convés de pouso do USS Santee, com bombardeiros SBD-3 e aviões de caça F4F Wildcat destacados para a Operação Tocha, no Norte da África, nov. 1942. No piso do deck, informações de alvo escritas a giz

Os Heróis Esquecidos da Operação Tocha

Argel, manhã de 8 de novembro de 1942. Liderados por Bernard Karsenty e José Aboulker, 377 combatentes da Resistência anti-Vichy, praticamente desarmados, tomam pontos estratégicos e paralisam as forças de Vichy. O levante facilita a entrada na cidade de tropas norte-americanas da Operação Tocha. A grande maioria dos combatentes e seus líderes eram judeus. Esses jovens destemidos jamais receberam crédito por sua bravura. Simplesmente foram esquecidos pela História.

Edição 101 - Setembro de 2018


Operação Tocha é o nome da manobra militar aliada que visava o desembarque de forças estadunidenses e britânicas na costa norte-africana, entre 8 e 11 de novembro de 1942, e a tomada de três alvos-chave: Argel, Orã e Casablanca. Havendo sucesso, os Aliados avançariam até a Tunísia. No comando da Operação estava o general Eisenhower, futuro presidente dos Estados Unidos1. As complexas preparações e os detalhes da execução dessa Operação, considerada entre as mais brilhantes da 2ª Guerra Mundial, vão além de nosso intuito. Mas, em linhas gerais, os objetivos Aliados eram abrir mais uma frente de luta contra a Alemanha, aliviando, assim, a pressão que os soviéticos estavam sofrendo; expulsar as tropas do Eixo do continente norte-africano e consequentemente controlar o Mar Mediterrâneo, preparando o terreno para uma invasão no sul da Europa, em 1943.

Em Argel, graças à atuação dos combatentes da Resistência local, os Aliados tomaram a cidade com facilidade, mas, por algum motivo, o episódio foi relegado a um mero rodapé na história da 2ª Guerra Mundial.

Quando textos históricos que descrevem a Operação Tocha mencionam o “Episódio de Argel”, fazem-no de forma sucinta como sendo um dos atos de heroísmo dos partisans franceses. O relato oficial do exército dos Estados Unidos sobre o envolvimento militar de seu país na África do Norte apenas registra que “A Argélia caiu sob controle dos combatentes clandestinos da Resistência francesa à época em que se iniciaram os desembarques”.

Mas esses relatos e praticamente todos os demais deixam de fora um aspecto crucial sobre o Coup d’Argel. Não apenas 315 dos 377 combatentes da Resistência eram judeus, entre quais os seus líderes, mas eles estavam motivados a lutar precisamente porque, sendo judeus, estavam sendo perseguidos e discriminados e lhes haviam sido retirados todos os seus direitos. O movimento de Resistência a Vichy na Argélia era, portanto, em seu cerne, um movimento de resistência judaica. Podemos encontrar esta informação apenas em alguns livros da História e em sites de museus judaicos sobre a Shoá, mas ainda assim de forma bem sucinta.

No entanto, ainda que o Levante do Gueto de Varsóvia e outras lutas da Resistência Judaica, na Europa nazista, tenham tido maior importância política e psicológica, especialmente no sentido de ajudar a refutar a imagem de “passividade” dos judeus, o Coup d’ Argel foi o que mais ajudaria a mudar o curso da guerra. E foi, também, o único movimento de resistência judaica que salvou a vida de soldados aliados. Como escreveu Léon Poliakov, gigante entre os historiadores franceses que trataram da 2ª Guerra, “O papel do pequeno grupo de Aboulker foi extremamente decisivo na Guerra, em momento especialmente crucial”.

Resistência na Argélia

Em outubro de 1940 o governo colaboracionista de Vichy na Argélia anulou a cidadania francesa dos judeus argelinos, instituindo em seguida severas medidas discriminatórias anti-judaicas (Ver artigo à pág. 42). Mas, entre os judeus, havia muitos que não estavam dispostos a aceitar passivamente as perseguições e a violência. Entre os que se filiaram à Resistencia havia vários oficiais do Exército francês – jovens com treinamento militar que haviam lutado pela França antes da rendição do país à Alemanha, e que o Regime de Vichy desmobilizara por serem judeus.

Encabeçavam a Resistência argelina vários membros da família Aboulker: Henri Aboulker, professor na Universidade da Argel e herói de guerra; seus filhos José e Colette; Dr. Raphaël Aboulker e seu irmão Stéphane; e Bernard Karsenty, primo de José Aboulker. Cultos e financeiramente bem-sucedidos, os Aboulker ocupavam lugar de destaque na comunidade judaica de Argel, e eram muito atuantes nas organizações comunitárias.

Em Argel, os primeiros passos da Resistência foram dados no clube esportivo chamado Géo Gras onde foi criada uma organização de defesa que incluía cerca de 250 jovens judeus. Para melhor encobrir suas reais atividades, os jovens chegaram até a contratar um técnico não judeu, que não tinha a menor ideia do que realmente acontecia naquele clube. Divididos em pequenos grupos, os jovens começaram a sair em defesa de judeus atacados e a executar manifestações de resistência em pequena escala. Sinais de “V”, de Vitória, surgem nas paredes, da noite para o dia, seguidos por pôsteres contrários a Vichy. As notícias que recebiam por rádio de Londres eram transcritas em panfletos clandestinos. E nas docas ocorriam atos de sabotagem.

Na cidade de Orã, a Resistência havia sido organizada por Roger Carcassonne e seu irmão Pierre, primos de José Aboulker. Roger passa a desviar fundos de sua empresa para custear o movimento. Em março de 1941, um amigo o apresentou a Henri d’Astier de la Vigerie. Oficial da inteligência militar, Henri d’Astier iria ser uma das peças-chave da rebelião. Ele era um dos membros do “Comitê dos Cinco”, criado em 1941 por figuras importantes no governo da Argélia Francesa. Apoiavam o regime de Vichy, mas odiavam os nazistas.

Em agosto, Roger Carcassonne reúne-se com José Aboulker, em Argel. Os dois concordam em estreitar os contatos e tomar as providências necessárias para preparar a luta armada.

Aliados traçam os planos

Depois que os Estados Unidos entram na 2ª Guerra, logo endossam os planos britânicos de invadir o Norte da África.

Nos meses de setembro-outubro de 1942, o presidente Franklin D. Roosevelt nomeia Robert Murphy seu Representante pessoal. Assumindo também o cargo de Cônsul dos EUA na Argélia, ele tem como missão secreta determinar o estado de espírito das forças francesas de Vichy e fazer contato com elementos que pudessem apoiar uma futura invasão aliada na África do Norte. Murphy foi bem-sucedido, recrutando vários oficiais franceses. Entre eles, o general Charles Mast, comandante-em-chefe francês na Argélia. Conseguiu também o apoio do “Comitê dos Cinco”. Além de Astier de la Vigerie, o tenente-coronel Germain Jousse também mantinha contato com a Resistência.

Uma reunião clandestina foi realizada em Cherchell, na Argélia, na noite de 21-22 de outubro de 1942. Nessa ocasião foram traçados os planos para o desembarque norte-americano e a rebelião em Argel. Estavam presentes na reunião, entre outros, o generalCharles Mast e Henri d’Astier de la Vigerie, do lado francês, e o general Mark W. Clark – um os comandantes seniores de Eisenhower. Bernard Karsenty era o único judeu. O general Clark desembarca de um submarino britânico, trazendo consigo uma carabina que foi entregue a Karsenty com promessas de que estavam por vir mais metralhadoras, granadas e outros.

As promessas de armamentos nunca se concretizaram, mas os conspiradores estavam irredutíveis. Eles iriam adiante com os planos. Dominariam a cidade, prenderiam os generais, almirantes e prefeitos de Vichy, cortariam as comunicações com o mundo exterior e imobilizariam milhares de soldados franceses em seus barracões. Depois, era só entregar Argel aos Aliados. Nem que tivessem que fazer isso com facas, pistolas e antiquados rifles do século 19, o que de fato aconteceu...

A noite de sábado

No dia 7 de novembro de 1942, a BBC transmite a ordem codificada: «Alô, Robert... Franklin chegou». Era a senha decidida em Cherchell para confirmar o desembarque de soldados norte-americanos nas praias perto de Argel.

A Resistência recebe o aviso via transmissor de rádio instalado na casa de Henri Aboulker, que se havia tornado o quartel-general dos combatentes na noite de 7-8 de novembro.

De acordo com o plano original haveria ao menos 800 combatentes divididos em grupos. As ordens eram neutralizar a 19ª Tropa do Exército de Vichy, tomar o porto, paralisar as comunicações e tomar edifícios considerados importantes, inclusive a residência oficial do governador. Eles teriam, porém, que enfrentar forças militares superiores e bem armadas: mais de que 11 mil soldados das tropas de Vichy, mais 2 mil integrantes da milícia da Ordem Legionária e várias centenas de fascistas do Partido Popular Francês (PPF).

Na última hora, para piorar a situação dos rebeldes, metade deles não aparece. Muitos deram para trás ao perceber que a luta ia ser totalmente desproporcional e que as armas prometidas não haviam chegado. Somente 377 rebeldes, dos quais 312 eram judeus, estavam prontos para iniciar o coup.

Conforme os planos acertados em Cherchell, às 0 horas de 8 de novembro, apesar de estarem praticamente desarmados, os combatentes atacam. José Aboulker conseguira formulários em branco assinados pelo general Mast, nos quais havia datilografado autorizações para que tomassem de assalto os edifícios públicos. Alguns ônibus velhos os levariam ao teatro de operações.

Eles conseguem neutralizar todos os centros de comando civil e militar de Argel. Os grupos sob o comando de Henri d’Astier de la Vigerie e José Aboulker tomam alvos-chave, incluindo a Delegacia Central de Polícia, o quartel do 19º Corpo Militar, estações de rádio e a residência do governador. Maurice Hayom, um jovem advogado, lidera o grupo que tomou o Palais d’Été, sede do governador geral. Paul Ruff e quinze homens ficam em controle da central da Companhia Telefônica.

Entre outros que também se destacaram naquela noite estavam um grupo de alunos do Lycée Ben Haknoun, guiados por um cadete, chamado Pauphilet. Eles haviam cercado a Villa des Olives e capturado o general Alphonse Juin, comandante-em-chefe das forças francesas na África do Norte. Com ele também foi preso o Almirante François Darlan, o segundo na hierarquia do regime de Vichy, que, coincidentemente, estava na Argélia.

Para surpresa deles próprios, esse bando de jovens combatentes, munidos de garra, coragem e iniciativa, teve sucesso. Às 3 da manhã de domingo, a cidade de Argel estava em mãos dos insurgentes. Não menos surpreendente foi o fato de conseguirem manter sua supremacia durante mais cinco horas cruciais, facilitando às tropas aliadas a entrada na cidade, algo que não acontecera em Casablanca e Orã.

Os insurgentes tiveram que fazer de tudo para manter as posições por mais tempo, pois houve atraso das forças aliadas na chegada a Argel.

O tenente-coronel Jousse e o generalMast tiveram que ir ao encontro da 34a Divisão de Infantaria, instando-os a apressar a entrada na cidade, onde as forças de Vichy estavam recuperando o controle.

No início da tarde, as forças de Vichy haviam conseguido reconquistar os pontos neutralizados durante a noite. Tentam, então, impedir o avanço dos soldados norte-americanos despachando as tropas para o Leste. Não conseguiram. O capitão Guy Pillafort e seus 47 companheiros, após se terem apoderado de inúmeros pontos vitais na cidade, haviam erguido barreiras, impossibilitando qualquer circulação. Mas, perderam seu capitão, que foi abatido mortalmente.

Nesse ínterim, Robert Murphy se dirigira à residência do general Juin, levando uma mensagem do Presidente Roosevelt que lhe dizia que ordenasse a rendição e se juntasse aos Aliados. Juin respondeu dizendo que a mensagem devia ser entregue ao Almte. Darlan.

Apesar de ser colaborador dos alemães, Darlan era, sobretudo, um oportunista que rapidamente reconhecera que a invasão poderia mudar a balança de poder na África do Norte. Assim sendo, propôs um trato: em troca do reconhecimento de seu status como Alto Comissário francês para a África Ocidental e do Norte, e comandante de todas as forças terrestres, marítimas e aéreas da França na região, ele garantiria a cessação das hostilidades e o acesso irrestrito dos Aliados ao Marrocos e Argélia. Os Aliados teriam assim o caminho livre para atacar os alemães na Tunísia. Murphy e o general Mark Clark, aceitam a proposta e os combatentes da Resistência depõem as armas. Quinze horas após o início da invasão, a cidade de Argel estava em mãos dos Aliados, e, três dias depois, o Marrocos e toda a Argélia.

E o que significou para os judeus o acordo fechado pelos norte-americanos com Darlan, que Roosevelt chamou de “recurso temporário”? Com o explícito endosso norte-americano, os fascistas de Vichy reteriam o poder na região. Argel continuaria em mãos de Vichy. Os americanos tampouco protegeram os corajosos partidários judeus e não judeus da Resistência argelina contra as ameaças de retaliação feitas pelos oficiais de Vichy. Uma vez concretizado o acertocom Darlan, muitos dos combatentes foram aprisionados por aqueles a quem, horas antes, tinham imobilizado para ajudar as forças invasoras...

Um desses combatentes judeus, o Dr. Paul Molkhou, que, à época, tinha apenas 19 anos, recorda o momento quando, após a situação ter virado e os homens de Vichy estarem de novo no comando, um dos altos oficiais que ele mantivera sob custódia prometeu vingança. Molkhou nunca iria esquecer-se “do rosto enfurecido do Secretário Geral do Governo de Vichy, ao lhe dizer: ‘Você é um terrorista gaullista; você será julgado e fuzilado’”. Poupado do pior, Molkhou foi preso na infame prisão Barbarossa de Argel, junto com uma dezena de camaradas.

As autoridades militares norte-americanas, já em controle de Argel, defrontavam-se com perguntas cruciais: o que fazer com as centenas de conspiradores judeus que haviam arriscado a vida para apoiar a invasão aliada e a quem os homens de Vichy viam como traidores? O que fazer com os milhares de judeus – e outros antifascistas – que definhavam nos campos de concentração de Vichy e com as dezenas de milhares de outros judeus que se tinham tornado apátridas devido às leis discriminatórias do marechal Pétain?

A resposta dos oficiais norte-americanos na Argélia, endossada por seus superiores em Washington, era curvar-se à conveniência da situação. Manter o status-quo facilitava a vida dos aliados interessados em prosseguir a luta contra os alemães, mais do que em resolver “questões locais”, apesar de seu comprometimento com a liberdade dos povos. Contudo, seria um erro alegar que não havia pessoas contrárias a essa visão no Departamento de Estado dos EUA. Alguns diplomatas na Argélia odiavam o jogo duplo e a desonestidade que caracterizavam a política pós-Operação Tocha dirigida aos judeus e outros partisans anti-Vichy.

Para os judeus, as consequências foram paradoxais e dramáticas. A Argélia estava em mãos aliadas, mas as leis nazistas anti-judaicas continuavam vigorando. Em 15 de novembro, o general Giraud ordena o alistamento dos jovens judeus, mas apenas nos batalhões de trabalho, onde não poderiam portar armas. As crianças judias continuaram proibidas de frequentar os colégios, assim como os profissionais judeus não tinham permissão para exercer a profissão. Mais de mil judeus estavam em campos de detenção, juntamente com republicanos espanhóis, nacionalistas argelinos e comunistas. Todos eram sujeitos a trabalhos forçados, fome, tortura e morte.

Ao entardecer de 24 de dezembro de 1942, o jovem Fernand Bonnier de La Chapelle, de 20 anos, atira no almirante Darlan, em Argel, matando-o. O jovem é executado. Giraud assume a posição de Darlan como Alto Comissário.

Antissemita convicto, ele e os fascistas que o cercavam decidem livrar-se, de uma vez por todas, dos judeus participantes na Resistência, pois os resistentes não judeus já estavam em liberdade. Mandou prendê-los, entre eles José Aboulker e seu pai, enviando-os para um local remoto no deserto onde seriam executados. Mas, à última hora, a intervenção de agentes do Gabinete de Serviços Estratégicos (OSS)2 salva-lhes a vida. Arthur Roseborough, que dirigia a OSS na Argélia, vai, então, a Robert Murphy, pedindo sua ajuda para libertar o grupo. “A honra americana está em jogo”. “Velho amigo”, responde Murphy, “se você não tem nada melhor a fazer na África do que se preocupar com esses judeus e comunistas que nos ajudaram, por que não aproveita e volta para casa?”...

Colette Aboulker conseguiu escapar da prisão e também entrou em contato do Robert Murphy, que nada fez. Mas ela também falou com jornalistas ingleses, na Argélia. O Primeiro Ministro Churchill já havia escrito diretamente a Roosevelt em 9 de dezembro, mostrando sua inquietação com o fato de que organizações fascistas continuassem ativas na Argélia, enquanto simpatizantes dos Aliados eram presos. Finalmente, em vista da preocupação internacional com a questão e a substituição do regime de Giraud pela França Livre de De Gaulle, os campos foram fechados e os prisioneiros, libertados. Com isso, as medidas anti-judaicas foram, aos poucos, desaparecendo.

Terá valido a pena? O golpe de Argel foi a vitória mais subvalorizada da 2a Guerra Mundial. Mas, diferentemente de seus irmãos judeus, que, seis meses depois, levantar-se-iam em Varsóvia, os membros da Resistência na Argélia não escolheram morrer como mártires para não serem exterminados.Os judeus da Argélia lutaram bravamente ao lado dos Aliados pela França e pela liberdade, e ajudaram, valentemente, a derrotar o Terceiro Reich.

1Dwight David “Ike” Eisenhower - Comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa, comandou e supervisionou a invasão do Norte da África durante a Operação Tocha, entre 1942 e 1943. Logo depois, assumiu o planejamento da invasão da França e da Alemanha entre 1944 e 1945, no Fronte Ocidental.

2Operação clandestina de inteligência americana além-mar.

BIBLIOGRAFIA

Artigo de Jacques Karoubi “L’opération Torch et l’action de la résistance juive à
Alger”
publicado no site
www.judaicalgeria.com

Artigo de Sidney Chouraqui “L’Opération “Torch” – Alger 8 nov 1942”

Artigo de Robert Satloff “The Jews Will Have to Wait” publicado no site www.mosaicmagazine.com . Robert Satloff é o diretor executivo do Washington Institute for Near East Policy e o autor de diversos livros no Médio Oriente