Morashá
Os 500 anos do Gueto de Veneza Campo del Guetto Nuovo, a praça principal do gueto de Veneza

Os 500 anos do Gueto de Veneza

Há 500 anos, no dia 29 de março de 1516, a Sereníssima República de Veneza determinou que os judeus eram obrigados a viver numa área delimitada, que passou a se chamar “Ghetto”.  Os judeus de Veneza lá viveram durante quase 300 anos, até 1797, quando os muros foram derrubados por Napoleão.

Edição 92 - Julho de 2016


A longa e rica história dos judeus de Veneza será lembrada no decorrer deste ano de 2016 com uma série de eventos organizados pela comunidade judaica veneziana e a prefeitura da cidade.

Apesar de segregá-los atrás do muro do Gueto, a Sereníssima República de Veneza demostrou ao longo de sua história uma relativa tolerância em relação aos judeus, atraindo para a cidade milhares deles vindos de toda a Europa e do Levante. Entre os muros do Gueto passaram importantes personalidades do mundo judaico. Lá foram erguidas esplêndidas sinagogas e foi em Veneza que se imprimiram milhares de livros judaicos. O intuito dos organizadores é fazer do lugar usado no passado para marginalizar os judeus um veículo para a revitalização da, hoje, cada vez menor comunidade judaica veneziana.

Os primórdios

A Sereníssima República de Veneza, fundada no século 7 na Lagoa de Veneza, teve grande influência política na história europeia. Foi uma grande potência marítima durante a Idade Média e o Renascimento, dominando o mar Adriático, o Mediterrâneo e, principalmente, o lucrativo comércio entre a Europa e o Levante. A Sereníssima atingiu seu apogeu na primeira metade do século 15. Na época, seus domínios compreendiam parte da Lombardia, da Ístria, da Dalmácia e vários territórios no ultramar. O poderio comercial da cidade atraía mercadores de todos os países da Europa e do Mediterrâneo, inclusive muitos judeus.

De acordo com os historiadores, datam do final do século 10 as primeiras provas de uma presença judaica em Veneza, apesar de haver indicações de que seus comerciantes já atuavam na cidade em séculos anteriores. Os primeiros documentos datam de 945 e 992, quando o Senado proibiu que embarcações indo ou vindo do Oriente levassem judeus a bordo. Apesar dessa proibição, eram raras as atitudes anti-judaicas por parte da República.

Ludovico Muratori, historiador italiano do século 18, escreveu em sua obra Dissertazione que, em 1090, o nome “Giudecca”1 já era usado na cidade. Há registros de uma audiência concedida, em 1314, pelo então Doge, dirigente máximo da República de Veneza, um judeu cretense que levava uma mensagem de seus irmãos de Creta. Mas, até o final do século 14, a presença judaica na cidade era temporária e esporádica, apesar da tolerância da Sereníssima em relação à presença de seus banqueiros e comerciantes.

Durante toda a Idade Média o fato deles possuírem capital era do maior interesse para os governantes, de modo geral, e Veneza não foi exceção. Eram inúmeras as vantagens econômicas das cidades que permitiam aos judeus se estabelecer em seus domínios. Além do substancial aporte de capital que estimulava a economia, eles pagavam exorbitantes impostos anuais para concessão da licença de permanência e de abertura de casas bancárias. E, acima de tudo, os governantes podiam fixar as taxas de juros e exigir empréstimos em condições favoráveis ou até livre de juros. Apesar da Igreja proibir aos cristãos emprestar dinheiro a juros, a necessidade de conseguir empréstimos não desaparecera nem para os governantes nem para os governados.

Ciente dessas vantagens, a oligarquia veneziana que governava a cidade foi gradualmente se posicionando a favor da admissão dos judeus, principalmente após as guerras contra Gênova e Chioggia (1378 e 1381) terem esvaziados os cofres do estado.

Um dos líderes da Quarantia2 propôs, em 1381, a admissão na cidade de prestamistas e, no ano seguinte, foi permitida a entrada de judeus. Em 1385 foi concedida a primeira “Condotta”, um acordo entre a República de Veneza e os banqueiros judeus, que lhes dava a permissão para se estabelecer em Veneza para emprestar dinheiro a juros. O acordo que tinha a duração de 10 anos detalhava as regras que esses banqueiros deviam seguir. Entre outras, fixava o salgado imposto anual a ser pago, o número de bancos que podiam abrir e as taxas de juros que podiam cobrar. Veneza lhes deu permissão de eleger seus líderes comunitários, mas não de adquirir propriedades na cidade, exercer atividades artísticas ou artesanais, tampouco de ocupar cargos públicos ou militares. No ano seguinte, 1386, o Senado lhes concedeu uma área isolada do Lido onde enterrar seus mortos.

Ainda em 1385, Veneza firmou um acordo com os banqueiros judeus que viviam em Mestre, situada em terra firme frente às ilhas de Veneza, para que concedessem empréstimos a taxas favoráveis às camadas mais pobres da cidade. Com este acordo, a Sereníssima conseguiu aliviar a pobreza da população e assim reduzir as tensões sociais que tinham emergido após as guerras, e, ao mesmo tempo, direcionar a hostilidade das massas contra os prestamistas judeus.

A Condotta de 1385, no entanto, não foi renovada em 1394 sob o pretexto de que os judeus não estavam seguindo as regras impostas às suas atividades. É provável que por trás dessa atitude estivesse o temor de sua penetração no comércio. Expulsos de Veneza, os judeus se espalharam pelas outras cidades da região do Veneto. A política restritiva que os impedia de viver em Veneza não se estendia a seus domínios no ultramar e na península italiana.

A atitude da República em relação aos judeus sempre foi ambivalente e era constante a discussão no Senado se deveria ou não permitir aos banqueiros judeus trabalharem e circularem livremente na cidade. Receberam a permissão de permanência durante um período de15 dias no mês e os que viviam em Mestre utilizavam-se dessa concessão para atuar em Veneza. Mas para serem reconhecidos como judeus já eram obrigados a usar em suas vestimentas um círculo amarelo.

Apesar de oficialmente expulsos, uma série de decretos revelam que em meados do século 15 ainda havia judeus em Veneza. Em 1423, receberam ordem de vender, em um prazo de dois anos, as propriedades que possuíam na cidade e em 1443 foram proibidos de manter escolas de qualquer tipo. Por outro lado, em 1430, o Senado determinara que mesmo os judeus de Corfu, que embarcavam em navios venezianos, deviam portar em suas roupas o círculo amarelo. Dessa forma estava implicitamente eliminada a proibição de transportar em navios da República Veneziana judeus e suas mercadorias.

Em meados do século 15 verifica-se em toda a Europa uma sensível piora da situação dos judeus. Entre os fatores que provocaram o clima anti-judaico estava a cruzada contra a usura e contra os judeus travada pelos Frades Menores (franciscanos), que criaram, em 1462, instituições para emprestar dinheiro isentas de objetivo de lucro, os Monti di Pietà.

Mas, Veneza e Mestre não aceitaram o estabelecimento dos Monti di Pietá, nem tampouco subordinar suas relações com os judeus às determinações de 1442 do Papa Eugene IV, que ordenara a total separação física entre judeus e cristãos. Ademais, a República tentou evitar em seus domínios, nem sempre com sucesso, a onda de intolerância e as acusações de assassinato ritual em relação aos judeus que dominavam a Europa.

A criação do Gueto

A Guerra da Liga de Cambrai foi o momento decisivo na história dos judeus de Veneza. Em dezembro de 1508 formara-se uma coligação militar entre a França, o Sacro Império Romano Germânico e a Espanha para lutar contra a Sereníssima. Ainda faziam parte da aliança a Inglaterra, Hungria, Savoia, Ferrara, Mântua e Florença. O Papa Júlio II aderiu à Liga em março de 1509, integrando os Estados Pontifícios. O objetivo da Liga era deter a expansão da República e, se possível, destruí-la, dividindo os ricos despojos. Em abril de 1509, vendo o avanço dos exércitos inimigos, judeus que residiam em Mestre e em outras áreas do Veneto fugiram para Veneza. Esta última assinara em 1503 um acordo com os banqueiros de Mestre, que lhes permitia refugiar-se na cidade na eventualidade de uma guerra.

O Senado percebeu rapidamente que autorizar a permanência dos judeus na cidade traria grandes benefícios econômicos e financeiros à República, extremamente necessários em momento tão difícil. Apenas para se ter uma ideia, os impostos anuais que os judeus passariam a pagar sanariam as finanças do Estado. Em 1513, as autoridades concederam ao banqueiro judeu Anselmo del Banco (Asher Meshullam), de Mestre, e a seus associados, a autorização de viver e emprestar dinheiro em Veneza.

Mas, o fato da República ter perdido grande parte de seu território e as tropas inimigas terem chegado até as portas da Lagoa criaram um clima de tensão em relação à população judaica. Em suas pregações, os franciscanos diziam que a derrota era o resultado dos pecados cometidos pelos venezianos, o mais sério dos quais era permitir aos judeus viverem livremente na cidade.

Rapidamente surgiram duas facções sobre a atitude a ser tomada em relação aos incômodos judeus: expulsá-los ou não? Os argumentos dos que eram contra a expulsão eram financeiros. Além dos vultosos impostos que pagavam anualmente, eles haviam disponibilizado, sob a forma de vantajosos empréstimos, grandes e indispensáveis somas à República.

O governo da Sereníssima resolveu o “dilema” optando por uma segregação em massa. Em 20 de março de 1516, um dos membros do Conselho, após atacar violentamente os judeus de forma verbal, pediu que fossem confinados no Ghetto Nuovo, localizado no bairro de São Jerônimo. O Doge e Conselho aprovaram a solução. Se quisessem continuar a viver em Veneza, os judeus teriam que viver juntos em uma determinada área, separados do restante da população. Anselmo del Banco e outros banqueiros tentaram, inutilmente, resistir. Em 29 de março um decreto criava o Gueto de Veneza:

“Todos os judeus devem viver juntos, nas casas localizadas ao redor do pátio que se encontra dentro do gueto na paróquia de San Gerolano e, para evitar que eles não perambulem à noite nos limites do Ghetto Nuovo e do Ghetto Vecchio, deverão ser utilizadas duas pontes de acesso... que terão portões que serão abertos pela manhã... e fechados à meia-noite...”. No dia 10 de abril de 1516, setecentos judeus de origem alemã, Tedeschi, como eram chamados, e também de origem italiana, mudaram-se para o Gueto Novo.

A maioria dos historiadores acredita que a palavra “ghetto” era uma palavra do dialeto veneziano, usada na época para se referir às fundições que havia na área. A palavra provém do termo italiano gettare (derramar). No passado, o Ghetto Nuovo tinha sido usado para despejar resíduos de fundição de cobre, enquanto o Ghetto Vecchio era a zona de fundição de Veneza.

As autoridades “lacraram” o Ghetto Nuovo. Dois muros foram erguidos e todas as saídas foram fechadas. Portas e janelas que se abriam para a parte externa foram muradas, ficando abertas apenas as que davam para o pátio. Durante o dia, os judeus podiam sair, andar e trabalhar livremente pela cidade, mas sofriam severas penalidades se fossem encontrados fora do gueto à noite. A Sereníssima decretou, ainda, que os judeus não podiam ser proprietários das casas onde viviam, nem de qualquer outro estabelecimento.

Era enorme o problema de espaço e, como não tinham permissão para construir novos prédios, a solução era acrescentar andares acima dos existentes. O estabelecimento do gueto, no entanto, não implicava um direito automático de residência, sendo a permissão de permanência na cidade – as Condottas – negociada a cada 5 anos. Para obtê-la os judeus tinham que oferecer novos empréstimos e doações ao governo.

Como vimos, a atitude dos venezianos em relação aos judeus sempre foi ambivalente. Enquanto as decisões do Senado eram influenciadas pelos interesses socioeconômicos da República, a hostilidade em relação aos judeus estava presente no cotidiano da população.

Em 1537, o novo acordo que elevou para 10 anos o direito de permanência foi mais um marco na história judaica de Veneza. Apesar das tensões, das periódicas ameaças de expulsão e da sistemática chantagem financeira pelas autoridades, estava garantida a permanência legal de seus membros na cidade. Iniciava-se, assim, um período de estabilização e florescimento da vida judaica, pois, embora segregados por trás dos muros do gueto, em Veneza vivam melhor de qualquer outro lugar da Europa.

Uma análise dos termos das Condottas concedidas aos judeus asquenazitas mostra que, ao longo das décadas, novas cláusulas foram incluídas. A mais importante se refere à mudança de atitude em relação ao tipo de empréstimos que eles eram obrigados a disponibilizar. O governo aumentara sua participação como fonte de crédito para os pobres, reduzindo as taxas de juros que podiam ser cobradas e aumentando o número de casas de penhores que deviam estar disponíveis para a população cristã.

Essa atitude fez com que mudasse o perfil da atividade financeira, passando de uma atividade voluntária de alguns poucos banqueiros ricos para se transformar em uma responsabilidade imposta à comunidade judaica. Como a inadimplência das camadas mais pobres era grande, os judeus que viviam em Veneza não tinham como arcar com os custos das casas de penhores e viram-se forçados a apelar para seus correligionários de Mestre, que passaram a contribuir financeiramente.

A chegada dos judeus ibéricos

Após a expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1496, muitos dos viajantes que passavam por Veneza eram judeus e conversos ibéricos. Alguns se estabeleceram na cidade, enquanto outros ficavam algum tempo antes de seguir para o Império Otomano. Esses mercadores ibéricos que se estabeleceram em Veneza passaram a ser chamados de “Levantini”.

A República não tardou em reconhecer o poder econômico dos levantinos e quando eles se queixaram das difíceis condições em que eram obrigados a viver, no Ghetto Nuovo, em virtude da falta de espaço, o Senado lhes concedeu, em junho de 1541, uma área adjacente, chamada de Ghetto Vecchio.

Embora o governo veneziano fosse católico e preocupado com a fé da população, não se importou com o fato de que inúmeros conversos ibéricos, logo ao chegar a Veneza, tenham ido direto para o Gueto e lá passado a viver abertamente como judeus. Ao menos oficialmente, não tolerava os conversos que viviam fora do Gueto, fazendo-se passar por católicos, enquanto praticavam secretamente o judaísmo.

Apesar do Papa ter advertido repetidamente a República sobre a presença na cidade de cristãos novos que haviam voltado a seguir abertamente o judaísmo, Veneza manteve grande tolerância em relação aos judeus e aos conversos que chegaram à cidade. Até mesmo o estabelecimento do Tribunal da Inquisição Romana moderna, criada em 1542 e subordinada ao Vaticano, provou ser difícil. A Igreja e Veneza bateram de frente, divergindo em relação à função, gestão e composição da nova instituição e atitude da Sereníssima em relação aos judeus. Somente em 1548, uma relutante Veneza cedeu às pressões papais e a Inquisição se instala na cidade. E, uma única vez no século 16, no ano de 1550, aparentemente por pressões do imperador Carlos V, o governo veneziano agiu contra os conversos ibéricos, proibindo-os de se estabelecer nos domínios da República. A medida foi de curta duração e, apesar da pressão do núncio papal e da Inquisição, a cidade continuou a servir de refúgio para os que queriam voltar ao judaísmo.

A causa dos mercadores conversos foi defendida perante o Senado veneziano, em 1579, por Daniel Rodriga, um abastado judeu português que ajudara Veneza a abrir o porto de Split. Rodriga apresentou uma série de projetos que tinham como objetivo restaurar o então decadente comércio marítimo da cidade, ao passo que simultaneamente beneficiava os mercadores judeus e, acima de tudo, lhes obtinha privilégios em Veneza.

Rodriga apontou para o fato de que era vasta a rede de contatos dos conversos ibéricos nos portos do Mediterrâneo e que se lhes fossem oferecidas garantias de segurança, esses comerciantes trariam suas mercadorias para a cidade, aumentando sua receita alfandegária e permitindo que Veneza tivesse crescimento econômico e mantivesse sua função de entreposto comercial.

Transcorridos vários anos, no fim, a persistência de Rodriga foi recompensada. A guerra travada por Veneza contra o Império Otomano esvaziara os cofres públicos. O comércio marítimo estava moribundo, pois se tornara arriscado devido à pirataria, e a nobreza veneziana recusava-se a enfrentar os novos perigos. Em 1589, diante do declínio comercial, o Senado promulgou uma nova Condotta. Esse acordo dava aos comerciantes conversos da Península Ibérica, chamados de “ponentinos”, a permissão de residir em Veneza e praticar seu judaísmo abertamente, dando-lhes também imunidade em relação à Inquisição sobre seu passado. A Condotta estendia a permissão de permanência aos judeus “levantinos”. Caberia a esses dois grupos atuar no comércio entre Veneza e o Levante.

A nova Condotta mantinha sua obrigação de viverem no Gueto e a proibição de estarem fora de seus muros à noite. Somente médicos em atendimento a cristãos, mercadores que tinham compromissos de trabalho ou judeus em situação de emergência podiam ausentar-se do Gueto durante a noite. Era também obrigatório o uso do chapéu amarelo, um elemento importante na política de segregação adotada pelo governo. Com o tempo, a cor passou a ser vermelha, embora os levantinos continuassem a usar o amarelo.

O florescimento comercial decorrente da presença dos sefaraditas na cidade fez com que Veneza lhes concedesse sucessivas Condottas. A riqueza dos judeus da Nação Levantina-Ponentina tornou-se famosa em toda a Europa. Em 1607, um cronista inglês ao descrever os sefaraditas de Veneza disse: “... Entre muitas mulheres judias, algumas eram as mais lindas que vi em minha vida... e tão elegantes com seus vestidos... suas correntes de ouro e seus anéis com pedras preciosas, com as quais as condessas inglesas teriam dificuldades de competir...”.

Em 1633, os judeus garantiram ao governo veneziano que mais mercadores viriam para Veneza se lhes fosse concedido um lugar adequado para viver. As autoridades então cederam uma área com 20 moradias ao longo do canal, a partir do Gueto Novo em direção quase oposta ao Gueto Velho, local que viria a ser conhecido como Gueto Novíssimo. Havia uma diferença fundamental em relação aos outros dois. Enquanto a denominação dos outros dois era usada antes do estabelecimento dos judeus e devem sua origem a uma antiga fundição que lá existira, o Gueto Novíssimo jamais foi associado a qualquer fundição. Foi assim chamado por ser o novo bairro judaico compulsório. Assim, o termo ghetto fechava o círculo na cidade de sua origem: desde seu uso original específico como fundição, em, Veneza até o uso genérico lá e em outras cidades para designar uma região segregada, delimitada e compulsória de moradia judaica.

A vida no gueto

Dentro do gueto, no perímetro composto por três bairros interligados - Ghetto Nuovo, Vecchio e Nuovissimo - os judeus criaram uma comunidade heterogênea composta por asquenazitas alemães, italianos, franceses, levantinos, espanhóis e portugueses, assim como conversos e visitantes chegados de todas as partes do mundo judaico.

A falta de espaço era um problema geral. De acordo com os dados mais conservadores, em 1560 havia 1.424 judeus que lá viviam. No final do século eram em torno de 2 mil, aproximadamente 1,5% da população total da cidade; chegando a 4-5 mil em meados do século 17. Impossibilitado de se expandir horizontalmente, o gueto cresceu verticalmente. Os prédios tornaram-se mais altos e, os apartamentos, menores. Andares eram construídos acima dos já existentes e as casas de 2 pisos viram-se acrescidas de até 8 andares.

Se a riqueza dividia o gueto horizontalmente, determinando em que andar alguém podia viver e de quantos metros podia dispor, a origem dos que nele viviam o dividia verticalmente. Para as autoridades venezianas, a comunidade judaica era separada em duas Nações, cada uma sendo regulamentada por Condottas específicas: os alemães e os levantinos-ponentinos. Mas, esta divisão oficial não refletia a complexidade da comunidade. A Nação Alemã incluía, além de judeus asquenazitas originários de países de língua alemã, também italianos e franceses. E, os levantinos e os ponentinos eram comunidades independentes.

As sinagogas, chamadas de Scuole (literalmente, escolas, “casas de ensino”), constituíam o centro da vida do judeu veneziano do gueto. Intramuros, cada grupo estabeleceu sua sinagoga, centro de convergência e principal manifestação de sua identidade.

As cinco principais sinagogas do gueto são em estilo barroco-renascentista e retratam a Idade de Ouro do judaísmo veneziano. As fachadas são discretas, mas os interiores, suntuosos, apesar do uso de materiais “nobres”, como o mármore, ser proibido pelas autoridades, que permitiam apenas os considerados “pobres”, como a madeira, e as pinturas trompe l’oeil, imitando o marmorizado. As primeiras sinagogas do Ghetto Nuovo foram construídas nos andares mais altos, em parte por questões de segurança, mas também porque a solução atendia as especificações da lei judaica e as determinações da Sereníssima.

Três sinagogas estão localizadas no Gueto Novo. Duas eram de rito asquenazita: a Scuola Grande Tedesca, a primeira sinagoga a ser inaugurada, em 1528-29, e a Scuola Canton, erguida em 1531-32, que provavelmente foi fundada por judeus da Provença, que decidiram separar-se dos alemães. A Scuola Italiana, a terceira, foi fundada em 1575 e congregava os judeus italianos que seguiam seu próprio rito.

É no Ghetto Vecchio, no Campiello delle Scuole, que estão localizadas as duas sinagogas sefaraditas: a Scuola Grande Spagnola, dos ponentinos, e a Scuola Levantina. A elegância exterior e a suntuosidade do interior das duas refletem a estabilidade e riqueza vivida pelos judeus de Veneza, no século 17.

Segundo a tradição oral, a sinagoga dos levantinos foi erguida em 1538, três anos antes do ingresso oficial dos judeus dessa origem no gueto. Um documento de 1680 atesta a demolição da estrutura antiga para a construção de outra com maiores dimensões.

A Scuola Spagnola, oficialmente chamada de Kahal Kadosh Talmud Torá, é a maior, mais suntuosa e mais conhecida dentre as sinagogas venezianas. Serviu como modelo para a comunidade sefaradita de Amsterdã. Apesar de não haver documentos que atestem a data, acredita-se ter sido fundada por volta de 1580 e reconstruída, de acordo com a tradição oral, em 1635.

No gueto de Veneza viveram algumas personalidades religiosas de destaque, sendo a mais conhecida o rabino Leon Modena (1571-1648), autor de inúmeros trabalhos, entre os quais uma autobiografia em hebraico, que revela o cotidiano e as práticas religiosas dos judeus de Veneza de sua época, inclusive seu vasto relacionamento com seus vizinhos cristãos.

Outra personalidade importante, contemporânea de Modena, foi o rabino Simone Luzzatto (1583-1663). Ele é lembrado principalmente por seu Discorso sopra il stato degl’Ebrei et in particular demoranti nel’inclita citti di Venetia (Discurso do Status dos Judeus e em Particular dos que Viviam na Ilustre Cidade de Veneza,1638). Escrito em italiano e dirigido à nobreza veneziana, tinha como objetivo evitar a expulsão dos judeus. Em sua obra, Luzatto revela informações importantes sobre a situação econômica e comercial de seus correligionários.

Também foi significativa em Veneza, a presença de renomados médicos judeus, atraídos pela proximidade com a Escola de Medicina de Pádua. O fato da Escola admitir estudantes judeus era de grande importância por ser considerada a melhor da Europa no gênero.

Impressão em hebraico

Veneza emergiu no século 16 como um dos principais centros de impressão não apenas em italiano, latim e grego, mas também em hebraico, judeo-italiano, ladino e iídiche. Teve, de fato, um importante papel nos primórdios da história da imprensa e editoração em hebraico, tendo contribuído amplamente para a educação e cultura judaica.

Um dos principais editores de livros em hebraico, na Veneza renascentista, foi Daniel Bomberg, um cristão da Antuérpia, que imprimiu importantes obras nesse idioma. Em 1516, Bomberg publicou o Pentateuco, a primeira de uma longa série de publicações que fariam dele um dos maiores editores de sua época.
De suma importância foi também a publicação da edição completa do Talmud Babilônico (1520-1523) com comentários de Rashi e de Tosafistas, cujo formato e paginação serviu de modelo para publicações posteriores, bem como do Talmud de Jerusalém. Por mais de 30 anos, segundo escreveu em sua obra Cecil Roth, os livros judaicos continuaram a ser publicados. “É difícil dizer se eles eram mais dignos de louvor pela finura do papel, a beleza das letras ou a excelência da matéria”.

Um dos raros momentos de harmonia entre a Igreja e a República levou, em 21 de outubro de 1553, à queima de livros hebraicos na Praça São Marcos, o que foi uma grande perda para a comunidade judaica e para os editores cristãos. Os judeus de Veneza não aceitaram passivamente a proibição da Igreja em relação aos livros judaicos e, com pressões e doações, obtiveram certa flexibilidade no decreto papal. Em outubro de 1554, um decreto do Papa Julius III interrompeu a “caça” aos livros judaicos, permitindo novamente a posse de obras em hebraico.

Como resultado da medida papal, em 1560, em Veneza, editores reiniciaram suas atividades. Estima-se que dos 3.986 livros hebraicos impressos na Europa antes de 1650, cerca de um terço, 1.284, tenham sido impressos em Veneza.

O declínio

No século 18, tanto a Sereníssima quanto a comunidade judaica viram seu poderio econômico diminuir drasticamente. A peste bubônica que se abateu sobre Veneza em 1630 e resultou na morte de 50 mil pessoas, um terço da população, afetou as condições socioeconômicas da cidade. Particularmente impactados foram os grandes comerciantes judeus que, devido ao medo de infecção, tiveram que suspender a importação e exportação de mercadorias, e viram seus estoques serem queimados. Se não bastasse, foram obrigados a pagar exorbitantes novos impostos. Para piorar a situação, em 1645,Veneza e o Império otomano voltaram a se enfrentar militarmente, travando ainda mais o comércio marítimo.

O longo período de crise foi desastroso para toda a população, cuja pobreza cresceu, criando uma grande pressão sobre os bancos pertencentes aos judeus. O governo veneziano tinha grande preocupação, sobretudo porque precisava de uma comunidade judaica em bom estado de solvência para operar as casas de penhores. A crise nos bancos causara uma sangria financeira na comunidade judaica nos últimos 30 anos do século 17, criando uma situação paradoxal: suas dívidas constituíam uma blindagem mais poderosa contra a expulsão do que toda a sua riqueza passada. Consequentemente, em 1722 as autoridades criaram o Magistrado do Inquisitorato sopra l’Universitá a degli Ebrei, com o objetivo de restaurar e manter a liquidez da comunidade. Durante o restante do século, esse Magistrado criou, juntamente com o Senado, uma serie de regulamentos na tentativa de promover o funcionamento das casas de penhores, como forma de conseguir a liquidação das dívidas substanciais da comunidade judaica com cristãos venezianos e outras comunidades judaicas de Amsterdã, Haia e Londres. As autoridades queriam com isso restaurar a capacidade de liquidez da comunidade judaica, mas acabaram supervisionando de perto todos os aspectos diários de seus negócios financeiros.

Em 1738, as Condottas concedidas aos judeus alemães, levantinos e ponentinos, até então em separados, foram unificadas por mais 10 anos. A medida era mais do que necessária, pois as distintas atividades econômicas e responsabilidades referentes aos dois grupos de judeus haviam-se fundido com o passar do tempo. Há muito, os mercadores judeus vinham fazendo pagamentos contribuindo financeiramente com as casas dos penhores dos judeus alemães e, desde 1634, estes tinham participação no comércio marítimo com o Levante.

Em 1797, vendo o avanço das tropas de Napoleão, a comunidade judaica oferece prata e ouro à República num último esforço para salvar Veneza. No dia 6 de abril, o Senado veneziano lhes emite um decreto de agradecimento, um dos últimos atos da Sereníssima.

Em maio, os exércitos franceses já estavam às margens da Lagoa e a República veneziana se autodissolveu. No dia 12 de maio, a cidade foi entregue a Napoleão.
No dia 7 de julho, o governo municipal, que assumira o governo, ordenou que os portões do Gueto fossem derrubados e removidas todas as diferenças e separações entre os judeus e o restante da população. No pátio do Gueto Novo os judeus cantaram e dançaram comemorando sua liberdade e a chegada de Napoleão. A história do Ghetto chegara ao fim, iniciando-se a história dos judeus venezianos como cidadãos – uma história ainda conturbada. Apesar de nunca mais terem que morar no gueto, os judeus só foram definitivamente emancipados, passando a usufruir de igualdade de direitos com os demais segmentos da população, em 1866, quando Veneza passa a fazer parte do Reino de Itália.

BIBLIOGRAFIA
Prof. Tramontana, Giuseppe, Gli Ebrei Veneziani E L’inquisizione A Meta’ Del ‘500. www.tuttostoria.net/
Simonsohn, Shlomo, La condizione giuridica degli ebrei nell’Italia centrale e settentrionale (secoli XII- XIV), in Storia d’Italia, Gli Ebrei in Italia, Ed. Einaudi 

Radaelli, Matteo, Nuovi cristiani portoghesi ed ebrei ponentini a Venezia nel XVI secolo. Kindle
Curiel Roberta e Cooperman Bernard Dov, The Venetian Ghetto, Ed. Rizzoli